Conta-me uma história
com lobos maus raposas a voar
cegonhas sem vergonha
palavras a rimar
Conta
Se não contas, Mãe
com que é que eu vou sonhar
LQ
Talvez esse Poema que todos procuramos um dia assome a esta janela
Conta-me uma história
com lobos maus raposas a voar
cegonhas sem vergonha
palavras a rimar
Conta
Se não contas, Mãe
com que é que eu vou sonhar
LQ
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Licínia Quitério
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Tenho um verso fechado
em cada mão
São asas que teci para a viagem
Voarás, meu doido coração
LQ
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9:18:00 a.m.
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A espera é um intervalo
uma gaveta entreaberta
ansiosa pela mão
que lhe renove
o cheiro da alfazema e do limão
LQ
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9:16:00 a.m.
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São rosas, senhor, meu bem.
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Chegam de madrugada
São o eco de divagações nocturnas
Vão contando o princípio de histórias
Que desejámos e esquecemos
Trazem as vozes brandas
Os gestos inacabados
Mulheres e homens
Que deixámos
Que nos deixaram
Agora sombras que sem saber invocamos
No suave despertar vão-se esbatendo
Confundindo tempos
Deformando -se
Transformando-se
Ausentando-se
A luz do dia tudo apaga
As sombras guardam
Num desvão secreto
Essa outra vida não vivida
Verdadeira como todos os sonhos
Licínia Quitério
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12:47:00 p.m.
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os homens já não transportam archotes
são os archotes
já não lançam bombas
são as bombas
correm pelas cidades
uivam
acendem os olhos
incendeiam
as casas as ruas
outros homens sem chama
a matilha chegou às portas da cidade
deteve-se
aguarda o tempo de cinza
que virá depois da raiva
esse fogo crescido nas goelas
dos esfomeados
ardem bem as cidades
Licínia Quitério
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11:40:00 a.m.
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A decadência veloz duma era, o anúncio da mudança, a relatividade do mal, a pressa e o temor de conhecer o acto final.
Travestidos os bruxos, as sibilas, indecifráveis os oráculos.
Tempo de fogo e enxurrada a adubarem a pobreza infinitamente crescente.
A natureza e os humanos em competição, no sofrimento, na mortandade.
Nem os poetas, nem eles, se apercebem das vozes nos seus pátios interiores.
Licínia Quitério
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7:09:00 p.m.
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Tens um pássaro moribundo aos pés
e não lhe tocas
Esperas que ele morra
para depois o ergueres
A tua mão não treme
Dizes: pobre ser indefeso
Os teus olhos estão secos
do pó do tempo que passou
O chão da guerra está juncado
de pássaros mortos
Dizes: pobres seres indefesos
Ficam aguados os teus olhos
com a lembrança dos rios que passaram
Os pássaros lá ficam
até serem cinza água
remorso de todos nós
pássaros indefesos
Licínia Quitério
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Janeiro 2005
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Vem sereníssima
moradora
nas alturas dos sonhadores
nas profundezas dos tombados
nos mares dos fugitivos
nas celas dos cativos
Vem suavíssima
sabedora
da aflição dos desesperados
da nudez dos desprezados
do desespero dos perdedores
da decepção dos ganhadores
Vem humaníssima
amante
do silêncio nocturno
do estrépito diurno
Vem poderosíssima
dona
dos segredos inconfessados
da contradição dos espíritos
dos medos da paz e da guerra
dos medos da fome e da abundância
ser deusa
ser amor
explicar a solidão de todos nós
Licínia Quitério
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9:53:00 a.m.
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A EUGÉNIO DE ANDRADE
Com que palavras se diz
a morte de um poeta?
Tu as disseste como quem lavra
o branco com a cal.
As disseste como quem ama o amor
em nuvens altas.
Disseste corpo, ou rio, ou ave,
como quem canta uma canção
e dela se desprende.
Com Eros te entendeste e
maduraste os frutos.
Portuguesmente foste
a casa, as dunas, o areal
e o amigo que partiu.
Disseste o som, o cheiro, a cor
e nos deste a conhecer
a palpitação, a onda do silêncio.
Thanatos te buscou,
te reclamou e contigo levou
as palavras sobrantes
para que nunca se diga
que o poeta partiu, mas que habita
em segredo, o adro, a eira, a mãe.
Licínia Quitério
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Este não é o tempo de prever
É o tempo de ver como nunca se viu
Incerto o tempo futuro como sempre foi
Acabou-se o tempo dos adivinhos
o tempo dos profetas
Dos deuses nem se fala que perderam
os manuais de perdões e castigos
A chuva ou o tufão não se anunciam
As guerras não sabem de vitórias ou derrotas
Constante apenas o nascimento
dos filhos das mulheres, dos homens
porém sem tempo certo, sem aviso
Um pé depois do outro devagar
que o caminho não fala de chegada
e a ideia de regresso foi esquecida
É este o tempo de aprender
o tempo nosso de cada hora
o pão de todos enquanto é dia
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Licínia Quitério
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E vem mais um Setembro
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como explicar o choro no restolho
se os humanos já ali não vivem
e o silvo a cortar os ares
a fazer-se lume e a estilhaçar a sorte
dos audazes
quem lhe deu a mão lhe segredou
o nome da distância
de perguntas andam grávidos os dias
pesados os dias
vamos pisando as respostas
há muito afundadas no chão das guerras
senhora da ignorância afasta-te de nós
Licínia Qiuitério
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Licínia Quitério
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5:38:00 p.m.
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A decadência veloz duma era, o anúncio da mudança, a relatividade do mal, a pressa e o temor de conhecer o acto final.
Travestidos os bruxos, as sibilas, indecifráveis os oráculos.
Tempo de fogo e enxurrada a adubarem a pobreza infinitamente crescente.
A natureza e os humanos em competição, no sofrimento, na mortandade.
Nem os poetas, nem eles, se apercebem das vozes nos seus pátios interiores.
Licínia Quitério
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Que sei eu do cansaço senão o que li nas pernas das mulheres
nas cordas cinzentas que lhes sobem pelas pernas
até ao peito que já foi fonte e se cansou.
Nos homens que não se cansam de plantar
para dar de comer a outros homens que tombam de cansaço
na beira dos campos, na beira dos dias.
No eterno cansaço de Sísifo, coitado,
iô-iô de deuses brincalhões
agora carrega agora sobe agora desce
e sempre e sempre sem descanso
mesmo nos quadros dos pintores famosos.
No cansaço dos poetas mais ou menos líricos
a obrigarem as palavras a dizer o que eles pensam que os
outros sentem
e elas sim as palavras a ficarem cansadas e inúteis e a fugirem
na primeira aragem.
No supremíssimo cansaço de Álvaro de Campos.
Licínia Quitério
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Licínia Quitério
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7:19:00 p.m.
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