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19.7.11
ENCOLHES OS OMBROS
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NAQUELA HORA
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VOLTAR
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21.6.11
VAMOS SUBIR
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DEVORAS-ME
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TEM DE HAVER UM POEMA
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1.6.11
UM ESBOÇO
Um esboço, uma pegada, um trilho.
Escada de corda das nossas emoções,
bamboleante vertigem do nosso atrevimento.
Assim se abrem os dias de subir as ruas,
de cumprir as tarefas maiores que as nossas mãos,
de aceitar as árvores cortadas,
os olhos dos velhos, aguados,
a raiva dos despojados,
o silêncio dos culpados,
o ranger dos ossos.
Há ainda um pássaro sobrante
no susto da falésia e notícias
de ramos coloridos nas auroras de gelo.
Um passo e outro passo,
o coração no vento, uma voz alheia na garganta.
A escalada da rua, a construção do dia,
a sagração da vida.
Tudo, ainda.
Licínia Quitério
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26.5.11
NÃO HÁ LUZ QUE NOS BASTE
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20.5.11
Estou presa
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14.5.11
SOU POBRE
Sou pobre. Fui sempre pobre. Serei pobre.
Tenho tudo o que quero. Tive tudo o que quis.
O brilho do ouro incomoda-me. Tenho o sol.
Gosto das peles dos animais enquanto vivos.
Não tenho nada. Não quero ter nada. Tudo é meu.
Tenho os quadros nos museus. Tenho o colar de Nefertite.
Tenho tudo o que as montras me oferecem.
Tenho a relva em que caminho.
Tenho as florestas que conheço e as que inventei.
Tenho todos os países do mundo e poucos visitei.
Tenho a música que compuseram para mim.
Tenho os versos de todos os poetas.
Tenho a amizade que dou e o amor que vivo.
Tenho os olhos de esmeralda da minha gata.
Tenho uma casa do meu tamanho e nela acolho
os pobres e os ricos mais pobres deste mundo.
Não sou dona. Nunca fui dona. Não serei.
Tenho o mar e a maresia.
Sou o que não tenho.
Licínia Quitério
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8.5.11
AS MULHERES
Passaram por mim. As mulheres.
Tinham cantos presos ao pescoço
e respirações de cavalos em fuga.
As mulheres. Quando rezavam
fechavam nos braços os filhos
por nascer. As mulheres. Resistiam
aos invasores com a brancura
do corpo inviolável. As mulheres.
Matavam-se para não morrerem
de vergonha. As mulheres. Dançavam
nas bodas com sangue nos cabelos.
As mulheres. Oferendas traziam
contra a ira antiquíssima dos deuses.
As mulheres. Electra. Antígona. Hécuba.
Bernarda. Adela. Yerma. As mulheres.
As cidades sempre ardem. Os homens
sempre se apunhalam. Os filhos nascem
e morrem. Há luas várias de presságios
vários. As mulheres amam e não há guerra
que as detenha no seu destino de fontes.
Joana, Helena, Isabel, Teresa, Amélia.
Um desfile imparável de subterrâneas
tragédias.
As mulheres.
Licínia Quitério
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3.5.11
TREPADEIRAS
As casas sabem que um dia os animais as deixarão
e também a cal se cansará das pedras.
A solidão das casas é oblíqua, assimétrica,
um registo incongruente de gargalhadas e silêncios.
As pedras sentem o germinar das sementes
na fundura morna das soleiras.
São elas, as sementes, as madres poderosas
das trepadeiras. São as trepadeiras a nova pele,
o abraço, o manto fresco e colorido,
o futuro das casas para além dos seus olhos fechados.
Licínia Quitério
Foto cedida por uma Amiga
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2.5.11
PONTO
lagos crianças descalças.
Estão nos vasos nos jardins nos compêndios
de botânica nos cemitérios. Ponto.
Não são a alegria das noivas a sabedoria
dos jardineiros a dor dos sobrevivos.
São brancas azuis verdes vermelhas amarelas. Ponto.
Não são a candura o céu a floresta
o cio o ciúme.
São minúsculas medianas grandes enormes
extraordinariamente grandes. Ponto.
Não são o grão de talco o saber dos tolos
o amor amado o desejo de voar
o desejo de ser deus.
Vivem sós em cachos em espigas
em chapéus numa só cabeça em chapéus
em cabeças diferentes. Ponto.
Não são a solidão o grupo a cidade
a multidão acéfala a multidão em festa.
São duradouras breves efémeras. Ponto.
Não são a força das mães o amor de verão
a fama dos heróis.
São um pretexto para dar espessura ao texto. Ponto.
Não são letras sílabas palavras.
São flores assim ditas no começo.
Ponto por ponto.
Licínia Quitério
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1.5.11
MAIO
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25.4.11
25 DE ABRIL de 2011
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18.4.11
FOZ
Um rio de securas,
porta aberta ao mar,
desejo forte de onda,
sonho de barcos, de remos,
de velas. Quem lhe dera.
Teve peixes, sim,
de prata pura.
No tempo das raparigas
de bronze e dos rapazes
da jangada,
das bocas das raparigas,
das vozes dos rapazes.
Foi um rio de risos,
de ousadias, de chapéus de flores,
de ninfas e efebos,
de iniciações e descobertas.
Um rio de foz,
sem novas de nascente,
um rio leito
de frescura e ardência.
Era jovem, amado
e as gaivotas poisavam
na sua respiração
de madrugar.
Se o mar de novo entrar
quem sabe brilharão
os dorsos das tainhas
e os chapéus de flores
e os bagos de oiro
voltarão a enfeitar
os risos de outras margens.
Licínia Quitério
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10.4.11
A ÁRVORE
A árvore é tudo o que falta no céu
quando a contemplo.
Quem sabe ela ali estava antes de a desenhar
no meu livro de espantos e ternuras.
Tudo o que eu fizer, árvore,
será com a caligrafia dos teus ramos
bebedores do azul, da altíssima vibração
do azul na névoa das manhãs.
Ninguém conhece o teu perfil
quando os meus olhos te não suportam
ou te desvias do meu corpo.
Os teus braços dizem berço e abraço
ou embaraço de outros braços de susto e perdição.
Por certo em teu redor dançaram maldições,
assobiaram pragas, esconjuros.
Assim fazem os néscios a quem
dá sombra ao verão e lenha ao frio
e poiso às aves de qualquer estação.
Inúteis ameaças.
Em minha nuca a tua seiva escorre.
Árvore que eu invento nunca seca.
Licínia Quitério
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5.4.11
SE EU SOUBESSE PINTAR
Se eu soubesse pintar diria azul em tudo o que tivesse
uma passagem para o mar por mais modesta,
qual semente de linho a acercar-se do rio. Verde
diria os meus olhos nos teus e os teus nos meus,
espelhos de sonhos e batalhas. Vermelho seria
o jeito de dizer a vida em mim e a mesma vida
em ti e o canto dos camponeses, afinado pelas
cigarras, a fabricar a mais produtiva das preguiças.
Havia de ser amarela a escrita do sol a invadir
o quadro, a incendiar de febre esta mão, ignorante,
inábil, incapaz de traçar as marcas do teu rosto
no meu rosto, iguais, exactamente iguais,
às marcas do meu rosto no teu rosto, assim tão
fáceis de dizer num risco só, simples, como as
pequenas gotas do pequeno orvalho das enormes
madrugadas.
Se eu soubesse pintar, quem sabe eu procurasse
o branco que dissesse a casa que habitámos.
Licínia Quitério
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31.3.11
PEDRA A PEDRA
a memória dos tempos. Em Matchu Pichu,
na Grande Muralha, na Grande Pirâmide,
ou em Babel que se diz teve uma torre.
Pedra a pedra, homem a homem, dor a dor,
chicote a chicote, a construção não para.
Mais alto, sempre mais alto, que a terra
é pouca e o céu é vasto. Inventam as escarpas
e sobem-nas, pé aqui pé ali, até ao medo.
Não olham para baixo que a pele da terra
os enfeitiça e no seu ventre há fogo. No topo,
diz-se, um ceptro de oiro a atiçar a cobiça.
Por ele continuam, ferida a ferida, corda a corda,
e as mãos sangrando, e as pedras poderosas
com janelas de sol, medindo luas, predizendo
futuros. Pelas alturas devorados, os homens
não regressam e já ninguém os sabe nomear.
Machu Pichu, Esfinge, Stonehenge, as pedras
essas ficaram e têm nomes. O ceptro de oiro
só o condor sabe onde reluz, mas não o diz,
e os homens continuam, de dor em dor, mais
alto, cada vez mais alto, cada vez mais longe,
até à fraga onde perdem o nome.
Licínia Quitério
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