24.5.12

O HÍFEN


Sentada no degrau. O abuso do sangue nos quartos interiores. O potro sem deus nem dono, a compasso, sem compasso. Intenso e doce. Assim ela. Sumo de amoras bravas, trovoada de maio, lago de rosas, rocha mãe de areias. Desobediência, desmedida, desnorte. Arma, alvo e seta. Substantivo incomum, verbo em trânsito, conjunção inconsequente. O degrau e as mãos sobre a mesa. Cravos, café, vinho, vício, tudo. O potro verde sobre as águas, o relâmpago no copo, as mãos. O turbilhão, o balão da aurora, os minutos da febre, a pele do sofá, no sofá. O vidro, o verde, o verde. O véu da tarde, o silêncio e a pedra. O degrau, o potro, a vertigem. O hífen. A ausência do hífen -.


Licínia Quitério   

16.5.12

À FLOR DAS ÁGUAS


São os dias do cerco. A cidade

ajoelha. Os deuses preparam 

a combustão das matas.

Os estrangeiros recuperam

as palavras guardadas sob os catres 

e aprontam as vestes da partida. 

Sem resistir, a cidade adormece. 

Um jovem abeira-se do cais. 

Nas mãos fechadas, uma música 

de estrelas. Nada pode contra 

o silêncio das muralhas. Avança

e uma névoa cresce à flor das águas.


Licínia Quitério

9.5.12

PARTO


Parto para lugares 

onde nada mudou 

Vou na correnteza das palavras 

na transparência dos olhos de água 

no músculo do braço a soçobrar 

no sopro do segredo 

no fervilhar do lodo 

na constância do medo 

na antecipação da memória

na exaltação da tarde nas ruas apinhadas 

Dentro da manhã levo o lume e a cinza

de que a viagem se alimenta

Retorno à fonte à barca à ignorância

ao lugar sempre o mesmo

Ao poço 

à torre branca

ao  anjo de oiro


Licínia Quitério

4.5.12

ANTES




Mil vezes esta pedra, mil vezes este mar.  

Mil vezes aqui estive e mil vezes voltei. 

Saber de um tesouro que há de haver. 

Saber-lhe o brilho, o cheiro, a vastidão. 

E não saber. Uma janela entreaberta, 

um muro inacabado, um cabo por dobrar. 

No fio da inquietação, uma batida, 

um compasso de tempos muito antigos,

antes das grécias, dos dilúvios. Antes.


Licínia Quitério

28.4.12

OS FRUTOS


À chegada dos frutos percebem-se lâminas

de sol na fala trepidante das mulheres

Os homens afastam-se a calcorrear as ruas

e olham de soslaio o ventre tumefacto da terra

As crianças adejam nos corredores da infância

Adolescência é o nome desse tempo latejante

de maçãs verdes trincadas e abandonadas

no mármore à voracidade dos insetos

Quem vai beber na concha da memória

sabe como os frutos crescem rápidos 

nos caminhos  maternais da liberdade


Licínia Quitério

20.4.12

ESPERA UM POUCO


Espera um pouco eu sei

as águas estão frias 
e as vozes noturnas afligem 
as mãos de quem labuta
Os lobos choram porque
há homens a uivar
nas clareiras 
e um cheiro a peste
vem rondar as manadas
ondulantes submissas
Digo-te que esperes
Não te digo como
nem quando verás
soltar-se a corda
e começar a construção
Há de acender-se a madrugada
na escada do poema
Subirás do lodo
à margem do amor
Será a hora de amortalhar
o medo e a faca
o vidro e o veneno
Reinventar a cidade
é a tua tarefa
Não te esqueças de amarrar o barco


Licínia Quitério

12.4.12

ASSIM POUSAMOS





Assim pousamos o coração na mesa 
dos anos repetentes e perguntamos
porque bates se nunca mais cobriste  
de sol o chão do grande inverno

Repegamos a cor das velhas dores
num teatro de espantos e silêncios

A comédia que somos e vivemos
bem ao largo de nós na ilusão
de um invicto perpétuo coração

Licínia Quitério


4.4.12

ATRAVESSAM OS RIOS




Atravessam os rios com a leveza
das fadas da noite e a alacridade
dos botões da primavera
Cheiram a corpos extenuados
das batalhas e ostentam
na pele as estradas do luto e do fulgor  
Esperam poemas onde poisar
as muitas falas aprendidas
na passagem das águas 
nos rumores dos ventos
no estalar das folhas secas
em dias de abandono
Imóveis suportam a chegada
dos bichos invasores
das pragas impiedosas
do riso obsceno da morte
Reescrevem os fados 
iludem predições
tratados de sobrevivência
Partiram há muito e afirmam
a presença inquietante da ruína


Licínia Quitério


Reprodução de foto de Augusto Cabrita

28.3.12

CORRE, CAVALGA


Corre, cavalga, corre



Tanto mar, tanto ar,
tanta espuma de tempo,
tão alto o céu,
tão funda, tão funda,
essa morte vivida


Corre, cavalga, corre,
mensageiro e mensagem,
aflição e aflito


Corre luz, corre vento,
cavalga o dorso, 
o pescoço e o ventre


Sê a janela e o grito,
o silêncio das rosas,
a paz do suicida,
a ordem e o caos


Cavalga, corre,
ateia o fogo, apaga o fogo,
diz os nomes dos peixes,
devora os peixes


Chora a morte dos anjos


Sê viandante e estrada,
obreiro e construção


Corre, cavalga, corre
e ri, humanamente,
da falência dos deuses
no tempo da alegria, ri


Licínia Quitério


Foto de Rui Medeiros

22.3.12

MULHER


Serás água, mulher, 
quando fores mais líquida 
que a sede que te nomeia a boca 

Vento serás 
se o teu cabelo montar a quadriga do sol 
e for igual ao lume

Árvore serás 
quando o teu corpo for ponte 
e bandeira  de estrelas 

Não tomarás tristeza 
porque animal serás 
de liberdade livre que não sabe da morte

Pedra serás
polida pela mão do peregrino
esperando o milagre
que só tu, mulher, estátua, pó de lágrimas,
serás capaz de de conceber


Licínia Quitério 

14.3.12

MARÇO



Nas copas o mês de Março abre florações de seda pura. Os seios das raparigas enfrentam o vento da tarde e endurecem. Rapazes cortam os pulsos quando os sentem perto. A lua cheia durou três dias e os cães cansaram-se de uivar. Quem olhou o poente cor de sangue viu um cavalo negro a galopar a galopar até ao sol até ao fogo até ao fim. A sujidade das ruas é o despudor da seca a confundir os velhos na contagem dos dias. Nas noites faz-se um tilintar de guizos um chiar de madeiras um cheiro a estábulo. Tempo de demónios de bruxas de almas peregrinas. São os idos de Março dizem os adivinhos os filósofos os poetas as virgens loucas. Ouve-se ao longe o estrépito dos impérios dizem os políticos os doutores os miseráveis. É o amor que chega dizem as raparigas afagando os seios.

Licínia Quitério   

8.3.12

O FUMO

Só palavras de sal para dizer
os dias das cidades
bombardeadas
Lâminas nos dentes dos algozes
a retalhar a carne das mães,
a carne dos filhos
Uma mulher na paisagem
é uma árvore decepada
onde não cantam pássaros
No meu tempo nascem
as cidades de fumo
Mais do que escombros,
 fumo
Cidades secas, silenciosas,
disformes,
sem gramática possível,
sem reflexos
No meu coração uma ave que pia,
um retrato de cidade
chamada Aleph ou Alice,
um estilhaço de espelho,
uma planta carnívora,
salgada


Licínia Quitério

29.2.12

NO SÍTIO DAS TORMENTAS



Alongo-me no sítio das tormentas
depois do remoinho 

nascido crescido e encorpado 
como se fosse gente e assobiasse 
ou lobo que uivasse 
à gravidez da lua
Sou um bicho solar
de olhos pregados 
na escuridão das pedras
As fúrias dormem 
Quando acordarem
limpa a memória do horror antigo
hão de dizer os homens
que tal nunca houvera acontecido
Não fora o arrepio 
também eu negaria 
a enxurrada o precipício a queda
a gula do oceano o grito
aqui onde respiro
a placidez dos ares 
como se amor viesse  
ou uma estrela nascesse


Licínia Quitério

22.2.12

DEVIA SER ASSIM


Devia ser assim. Uma árvore é uma árvore. 
Há palavras que calam os desejos da árvore. 
Mancham o verde com que dizemos árvore. 
Assustam os pássaros nos olhos da árvore. 
Mudam as vontades fermentadas no lenho. 
Cansam a árvore até morrer de tédio.
Devia haver um letreiro em cada árvore, digo,
no rosto da floresta: "Silêncio. A ler o vento.".

Licínia Quitério

16.2.12

O BANCO DA AVENIDA


o que apetece mesmo e vale a pena
é sentar-me no banco da avenida
fazer com ele corpo e amizade
desdobrar um jornal da semana passada
e assim com o harmónio dos braços
reler as tardes que por ali passaram
e as outras que vieram de longe
e se enroscaram no meu colo de garça
e às vezes apertaram até que um grito
me mordia  e eu entontecida me perdia
há tanto tempo foi que já não lembro
a cor dos meus cabelos a varrer
o teu ombro da largura do mundo
ou da avenida ou do parapeito
da janela não vem isso ao caso
mas sei que é no teu ombro que descanso
quando me sento e leio as tardes
e os pombos no banco da avenida


Licínia Quitério

10.2.12

NÓS, AS MALAS



Vamos à descoberta, ao achamento,
à aventura, à procura dos mundos
infinitos que guardamos nas malas.

Como pesam as malas. Por entre
os fatos,  os livros, os sapatos,
arrumam-se, invisíveis, os segredos,
e, no regresso,  as mortes dos caminhos.
A pele das malas transporta as nossas
cicatrizes, a gala das noites de diamante,
os rótulos sucessivos dos nossos
sucessivos rostos, os nomes sobrepostos
das cidades do frio, do calor, da mansidão.
Dentro das malas se atravessa a vida.
Viajantes eternos, à descoberta, vamos.


Licínia Quitério

5.2.12

A TERRA




A terra nos acolhe os passos e a alegria.
Lonjura é o tempo, não a terra. Essa nos guarda
a história, os desacatos, o colo e a carícia.
Um dia vamos e corremos a estrada e no sítio
aprazado há um abraço e um sorriso de mãos 
largas e o cansaço desfaz-se e nem dizemos
cheguei ou estou aqui porque sempre estivemos.
Cada homem um livro por abrir  até ao dia
em que uma flor garrida dele se desprende
e, rente ao chão, no tecido do sol a possuir
a terra, começa um canto, uma oração, um
soluço, um arrastar de móveis, e uma lenda
nasce. Era uma vez... a terra inteira e nós.


Licínia Quitério


24.1.12

VERDE MAR


Podes dizer que o mar é verde
verde como os prados daqueles
países ao norte nos bilhetes postais
que chegavam no dia dos teus anos
e tu miravas e viajavas de mansinho
pelo corredor sombrio com um sorriso
guloso do chocolate do leite das vaquinhas
brancas pintalgadas de negro a pintalgarem
os tais prados verdes daquele verde
que agora dizes é a cor do mar
Isso era no tempo dos teus anos verdes
esses sim verdes como os prados
que depois pisaste e já não tinhas
um sorriso guloso nem mesmo um sorriso
triste e os chocolates foram amargos
que tudo fica amargo se os postais
demoram e às vezes chegam e dizem
nunca mais e mesmo assim ao dizeres
prado dizes mar ou meu amor como
no tempo verde dos teus anos

Licínia Quitério

16.1.12

UM CHEIRO A RELVA


Há um cheiro a relva
acabada de cortar 
nos passos leves com que medes
incansavelmente medes
a casa 

e o tempo de a viver


Não gastas 
a casa 

Acrescentas passado 
e escritas de sábios
à história que há de ter
a casa


Vestes 
a casa 
e o teu odor a ervas
pode ser o perfume das manhãs
o álcool das noites
o fumo do inverno 
o suor do verão


Sei que os teus passos
retomam a contagem 
quando a orquídea
na janela
abre um sorriso de mulher
e um tilintar de sinos
explica o vento
nos muros do quintal
onde respira
a casa



Licínia Quitério 


9.1.12

SOLSTÍCIO



Uma pena à tona de água
num crepúsculo sem deuses
O silêncio das aves
Uma súbita agonia
Tudo doi na tarde mais breve
de todas as tardes
Risos de infantes 

há muito envelhecidos 
cavalgam o solstício
Pragas bênçãos esconjuros
ladainhas remorsos rosários

abecedários obscuros incompletos
A tontura das nebulosas 
procura estrada no meu peito
O meu peito doi
Tudo doi na fronteira
insuportável da beleza
Tanto


Licínia Quitério 


arquivo

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