1.10.20
POEMA MILITANTE
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25.9.20
21.9.20
VERÃO
Anda por aí, de porta em porta, em despedidas.
Não é como o pai natal.
No saco não traz presentes
mas ameaças.
Diz, envolto num pano de vento:
Portem-se bem,
não abram os armários da ternura,
esqueçam tudo o que aprenderam sobre o amor.
Se assim fizerem,
voltarei para o ano a visitar
as vossas cidades de gelo.
Há quem lhe chame o medo.
É apenas um Verão
que aprendeu a mentir.
Licínia Quitério
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5.9.20
HAVEMOS DE VOLTAR
Havemos de voltar deste degredo
com a bagagem que guardámos
a salvo da inclemência e da usura.
A nossa pele terá envelhecido
esquecida do calor do outro corpo.
Proibida a volúpia
as nossas mãos serão maiores
porque espalmadas longo tempo
nas coxas, nas mesas,
nos vidros das janelas.
Na aprendizagem das fronteiras
soletrámos medo com as letras
que dantes nos diziam amor
ou ousadia.
Havemos de voltar da guerra
sem saber para que servem
os braços ou os lábios
a não ser para funções de sobrevida.
Por muito tempo havemos de temer
o irmão, a mãe, o filho,
todos capazes de nos matar
com a arma invisível
que o seu sangue transporta.
Voltaremos do palácio da demência
à casa donde nunca saimos
e nada contaremos da viagem.
Licínia Quitério
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18.8.20
O POEMA
Palavras chegam, limpas, arrumadas,
segundo a ordem natural da fala.
Estranho despertar, com o poema
oferecido, desnudo, cruel, maravilhoso.Obscuro o poder das palavras na pele
que de lágrimas se faz quanto de força.
Agradeço e aceito e amaldiçoo o poema.
Com ele vou pelos caminhos do dia,
a desbravar o tédio e os silvados.
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4.8.20
15.7.20
O FIO
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27.6.20
OS LUGARES DA NOITE
Os lugares da noite escrevem histórias
proibidas aos mortais.
Se a chuva os toma
abrem as portas do choro,
deixam correr rios ignorantes
de margens e barcaças.
Na devassa dos ventos
tecem intrigas e lançam pedras,
sustos, gritos, às vidraças.
Às vezes acendem luminárias
e são olhos de feras,
candeias caminhantes,
fogos-fátuos.
A lua nova aguarda
o seu parto de luz
para ensinar aos homens
os lugares da noite
e as provisórias trevas.
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12.6.20
LUGARES
de céus abertos
ao Sol e à Cassiopeia.
Apetecidos, distantes, únicos,
oferecidos ao guloso melro,
à fértil mariposa.
Lugares de iniciação de caminheiros
sem regresso.
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10.6.20
SILÊNCIO
vestido de branco
denso
quase a doer
silêncio que não rejeitava
a pulsação nas veias
uma cadência
de sino a ensaiar o toque
o silêncio da fala da minha mãe
só olhar
só sorrir
muito antes das palavras
o silêncio do amor
religioso
breve
para depois ser lágrima
explosão
o meu desejo dele
é agora uma maneira de dizer
uma marca num livro
um nome antigo
duas linhas paralelas
no palco da memória
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3.6.20
9.5.20
3.5.20
O COLO
que tangem os sinos
do princípio dos dias.
É o cheiro das flores
do tecido das mães
que alaga a pele
e se faz céu e lago.
Pelo meio da história,
o sabor do leite,
a dor do coágulo,
a tormenta do linho.
Depois, a insipidez do soro,
a mudez dos sinos,
a ausência do cheiro das flores.
Recuperado o colo.
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20.4.20
17.4.20
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4.4.20
O TEMPO BRUTO
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28.3.20
UM LEVE RUMOR
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27.2.20
23.2.20
POMBO
Que vês tu, pombo, desse teu cesto de gávea?
Sentes-te a salvo das ondas e dos mareantes de novas naus?
Pensas que o céu é o teu protector em dias de procela?
Será que esse teu olho é uma opala que o grande fogo te ofertou?
Sabes que pergunto porque há muito esqueci as respostas?
Adeus, eu vou em busca de outras aves.
Licínia Quitério
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10.2.20
LUSCO-FUSCO
Licínia Quitério
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8.2.20
O TRAÇO
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1.2.20
UM ILHÉU
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22.1.20
UM CAMPONÊS
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15.1.20
OLHAR
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11.1.20
PLENILÚNIO
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27.12.19
TEMPOS
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14.12.19
FLORES DA NOITE
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6.12.19
A HORA
de preparar o chão da noite,
de falar baixo ou calar,
de recolher as roupas,
de desligar os motores,
de convocar o silêncio do peito,
de procurar o sentido das mãos,
de juntar palavras de dia
com palavras de noite
de escrever a saudade da maré alta,
dos pinheiros altos,
da janela alta das esperas.
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28.11.19
ESCREVER
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19.11.19
AZUL
azul marinho, azul pavão,
azul safira, azul cobalto,
azul de mar alto,
azul dos olhos de Bette Davis.
azul manto, azul inteiro,
azul absoluto, azul azul,
azul colado nos meus olhos
esquecidos de imensidão.
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13.11.19
A CASA VELHA
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21.10.19
PODIA DIZER-TE
ou a alegria envergonhada das ramadas,
ou as vozes dos amigos esboçando um fado,
ou a nostalgia das bandeiras reclamando pátrias,
ou ainda as casas, sim, as sábias, astutas casas
debruadas de amores e perdições.
Podia até pintar uma aguarela, ou escrever um poema,
ou modelar um rosto, ou compor um adágio,
ou soltar um grito, ou correr, ou saltar,
ou abraçar-te, ou lançar um papagaio de papel
e depois dizer-te: Vês, eu não sei nada. Ou então:
Que queres de mim? Ou (por que não?): Amo-te.
Não podia mudar o coração da terra
nem a esperança fechada nas mãos dos homens
quando sofrem.
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20.10.19
11.10.19
O LAGO
Havia rãs e cágados e cobras de água, dentro do lago.
O lago tremia inquieto pelos seus bichos.
Vinham de terra outros bichos beber água no lago.
Havia homens e mulheres que vinham olhar o lago, só olhar.
Despediam-se felizes, até um dia, lago.
Ninguém sabe para onde foram os bichos do lago.
Ninguém sabe para onde foi a água do lago
que agora não é mais que o desenho do lago.
As árvores em volta estão tristes. Esperam que a água
volte e com ela os bichos do lago e os outros que vêm de terra
e os homens e as mulheres que olham o lago, só olham,
e se despedem, até um dia, lago.
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