15.6.11

DEVORAS-ME


Devoras-me, devoro-te. Há milénios.
Começámos ainda os dias se chamavam
sol ou lua, e as palavras eram outras,
mais curtas, mais sonoras, e nas vozes
se faziam estalos de chicote ou o gorgolejar
de líquidos à boca das ânforas.
A palmeira devora o deserto. Devoram-se.
Antes da areia, quando as tâmaras
eram só o mel das tâmaras.
O leão devora. Os leões devoram-se.
Desde o dia em que as mães esconderam
os filhos no coração das grutas.
Céu e mar devoram-se. Mar e céu
regurgitam-se, ritmados.
Voam os peixes e os pássaros mergulham.
Porque te amo, devoro-te.
Há milénios és a areia, a água,
a nuvem, o leão, o mel. Devoras-me.
Sou um fruto maduro na curva da idade.
Decifrei o segredo da Estrela Polar.

Licínia Quitério

8.6.11

TEM DE HAVER UM POEMA



Tem de haver um poema numa pedra de sol,
numa gota de sal, num riacho a florir.
Bem por dentro do vento, há-de estar uma pluma.
Abre a mão e verás uma ave do sul a piar, a piar.
É um espinho, um soluço, uma seta, um trovão?
Um passado, um caminho, uma luz, um porvir.
Música tem de ser o crocitar do corvo,
o choro dos escravos, a saudade, a saudade.
O rosto da infâmia, as mãos da crueldade,
o dorso da inveja, o ventre suicidado.
É urgente o instante de agarrar o poema,
desvendar a palavra, vesti-la, devorá-la,
fazer com ela amor.
Esperar a chuva e a serenata, a tília e o luar.
O inominado, o inacabado, o imperfeito,
a vida.

Licínia Quitério

1.6.11

UM ESBOÇO


Um esboço, uma pegada, um trilho.
Escada de corda das nossas emoções,
bamboleante vertigem do nosso atrevimento.
Assim se abrem os dias de subir as ruas,
de cumprir as tarefas maiores que as nossas mãos,
de aceitar as árvores cortadas,
os olhos dos velhos, aguados, 
a raiva dos despojados,
o silêncio dos culpados,
o ranger dos ossos.
Há ainda um pássaro sobrante
no susto da falésia e notícias
de ramos coloridos nas auroras de gelo.
Um passo e outro passo,  
o coração no vento, uma voz alheia na garganta.
A escalada da rua, a construção do dia,
a sagração da vida.
Tudo, ainda.

Licínia Quitério

26.5.11

NÃO HÁ LUZ QUE NOS BASTE






Não há luz que nos baste, ó meu amado.
Não há terra que chegue para a nossa solidão.
Observa os muros onde as pedras nascem
antes da madrugada. Quem sobe as escadas
que vão dar ao mar, ó meu amado?
Ficaram em terra as gaivotas e piam
com a voz dos barcos naufragados.
Não há céu onde poisar as penas do cansaço.
Não te assustes se as ervas recusarem o verde
e se chamar anil o pó do teu olhar.
Sabes que tudo muda, meu amado?
O lugar das coisas já é outro e outro o tempo
e outro o homem e a mulher é bem outra.
Igual sempre há-de ser o princípio e o fim.
Falemos, meu amado, da flor da amendoeira,
da sede das línguas, da fúria do vulcão,
da vida, das vidas.

Licínia Quitério

20.5.11

Estou presa



Estou  presa no verde da cidreira,
na sanguínea do bago da romã,
na coroa de céu do agapanto,
na seda do lírio, no linho,
da semente ao lençol,
do lençol à lenda de esponsais,
na noite da coruja,
no rouxinol do imperador,
na crueldade dos impérios,
no amarelecer da pele,
no rosado do pêssego.
Enredada estou na quadrícula
das sílabas, no ardil das palavras,
no labirinto dos poemas
de todos os poetas
de todos os tempos,
no cansaço das dúvidas,
do clamor das servidões,
da lentidão das utopias.
Presa e enredada estou
na soberba vontade de saber
a carne do infinito.


Licínia Quitério

14.5.11

SOU POBRE



Sou pobre. Fui sempre pobre. Serei  pobre.
Tenho tudo o que quero. Tive tudo o que quis.
O brilho do ouro incomoda-me. Tenho o sol.
Gosto das peles dos animais enquanto vivos.
Não tenho nada.  Não quero ter nada. Tudo é meu.
Tenho os quadros nos museus. Tenho o colar de Nefertite.
Tenho tudo o que as montras me oferecem.
Tenho a relva em que caminho.
Tenho as florestas que conheço e as que inventei.
Tenho todos os países do mundo e poucos visitei.
Tenho a música que compuseram para mim.
Tenho os versos de todos os poetas.
Tenho a amizade que dou e o amor que vivo.
Tenho os olhos de esmeralda da minha gata.
Tenho uma casa do meu tamanho e nela acolho
os pobres e os ricos mais pobres deste mundo.
Não sou dona. Nunca fui dona. Não serei.
Tenho o mar e a maresia.
Sou o que não tenho.

Licínia Quitério 

8.5.11

AS MULHERES



Passaram por mim. As mulheres.
Tinham cantos presos ao pescoço
e respirações de cavalos em fuga.
As mulheres. Quando rezavam
fechavam nos braços os filhos
por nascer. As mulheres. Resistiam
aos invasores com a brancura
do corpo inviolável. As mulheres.
Matavam-se para não morrerem
de vergonha. As mulheres. Dançavam
nas bodas com sangue nos cabelos.
As mulheres. Oferendas traziam
contra a ira antiquíssima dos deuses.
As mulheres. Electra. Antígona. Hécuba.
Bernarda. Adela. Yerma. As mulheres.
As cidades sempre ardem. Os homens
sempre se apunhalam. Os filhos nascem
e morrem. Há luas várias de presságios
vários. As mulheres amam  e não há guerra
que as detenha no seu destino de fontes.
Joana, Helena, Isabel, Teresa, Amélia.
Um desfile imparável de subterrâneas 
tragédias.
As mulheres.

Licínia Quitério  

3.5.11

TREPADEIRAS

As plantas esperam que os olhos das casas se fechem.
As casas sabem que um dia os animais as deixarão
e também a cal se cansará das pedras.
A solidão das casas é oblíqua, assimétrica,
um registo incongruente de gargalhadas e silêncios.
As pedras sentem o germinar das sementes
na fundura morna das soleiras.
São elas, as sementes, as madres poderosas
das trepadeiras. São as trepadeiras a nova pele,
o abraço, o manto fresco e colorido,
o futuro das casas para além dos seus olhos fechados.

Licínia Quitério

Foto cedida por uma Amiga

2.5.11

PONTO



Flores são flores. Ponto. Não são montanhas
lagos crianças descalças.
Estão nos vasos nos jardins nos compêndios
de botânica nos cemitérios. Ponto.
Não são a alegria das noivas a sabedoria
dos jardineiros a dor dos sobrevivos.
São brancas azuis verdes vermelhas amarelas. Ponto.
Não são a candura o céu a floresta
o cio o ciúme.
São minúsculas medianas grandes enormes
extraordinariamente grandes. Ponto.
Não são o grão de talco o saber dos tolos
o amor amado o desejo de voar
o desejo de ser deus.
Vivem sós em cachos em espigas
em chapéus numa só cabeça em chapéus
em cabeças diferentes. Ponto.
Não são a solidão o grupo a cidade
a multidão acéfala a multidão em festa.
São duradouras breves efémeras. Ponto.
Não são a força das mães o amor de verão
a fama dos heróis. 
São um pretexto para dar espessura ao texto. Ponto.
Não são letras  sílabas palavras.
São flores assim ditas no começo.
Ponto por ponto.


Licínia Quitério

1.5.11

MAIO



Um vídeo com todas as imperfeições de um trabalho de artesã de ocasião. Não o quero refazer. É assim, espontâneo, informal, oferecido como foi o meu, o nosso, Maio de 74. Este é o registo que me deixou na memória e no coração. Hoje o Maio é outro, com muito negro a sujar o vermelho, mas novas águas hão-de vir para lavar da lama as ruas do Maio da Alegria.

Licínia Quitério

25.4.11

25 DE ABRIL de 2011




Falar de Abril é um trabalho grande
de lágrimas e nervos e saudades
Falar como quem canta ou inventa
um deus tecido de alegria
É um falar absoluto de flores nas mãos,
de crianças ao colo, de abundância
Dizer um nome novo, fazer um amor novo,
gritar e construir a fecundidade do silêncio
Pouco mais



Licínia Quitério

18.4.11

FOZ


Um rio de securas,
porta aberta ao mar,
desejo forte de onda,
sonho de barcos, de remos,
de velas. Quem lhe dera.
Teve peixes, sim,
de prata pura.
No tempo das raparigas
de bronze e dos rapazes
de músculos inquietos.
No tempo dos cachos de uvas,
da jangada, 
das bocas das raparigas,
das vozes dos rapazes.
Foi um rio de risos,
de ousadias, de chapéus de flores,
de ninfas e efebos,
de iniciações e descobertas.
Um rio de foz,
sem novas de nascente,
um rio leito
de frescura e ardência.
Era jovem, amado
e as gaivotas poisavam
na sua respiração
de madrugar.
Se o mar de novo entrar
quem sabe brilharão
os dorsos das tainhas
e os chapéus de flores
e os bagos de oiro
voltarão a enfeitar
os risos de outras margens.

Licínia Quitério

10.4.11

A ÁRVORE



A árvore é tudo o que falta no céu
quando a contemplo.
Quem sabe ela ali estava antes de a desenhar
no meu livro de espantos e ternuras.
Tudo o que eu fizer, árvore, 
será com a caligrafia dos teus ramos 
bebedores do azul, da altíssima vibração
do azul na névoa das manhãs. 
Ninguém conhece o teu perfil
quando os meus olhos te não suportam
ou te desvias do meu corpo.
Os teus braços dizem berço e abraço
ou embaraço de outros braços de susto e perdição.
Por certo em teu redor dançaram maldições,
assobiaram pragas, esconjuros.
Assim fazem os néscios a quem
dá sombra ao verão e lenha ao frio
e poiso às aves de qualquer estação.
Inúteis ameaças.
Em minha nuca a tua seiva escorre.
Árvore que eu invento nunca seca. 

Licínia Quitério  

5.4.11

SE EU SOUBESSE PINTAR



Se eu soubesse pintar diria azul em tudo o que tivesse
uma passagem para o mar por mais modesta, 
qual semente de linho a acercar-se do rio. Verde
diria os meus olhos nos teus e os teus nos meus,
espelhos  de sonhos  e batalhas. Vermelho seria
o jeito de dizer a vida em mim e a mesma vida
em ti e o canto dos camponeses, afinado pelas  
cigarras, a fabricar a mais produtiva das preguiças.
Havia de ser amarela a escrita do sol a invadir
o quadro, a incendiar de febre esta mão, ignorante,
inábil, incapaz de traçar as marcas do teu rosto
no meu rosto, iguais, exactamente iguais,
às marcas do meu rosto no teu rosto, assim tão
fáceis de dizer num risco só, simples, como as
pequenas gotas do pequeno orvalho das enormes
madrugadas.
Se eu soubesse pintar, quem sabe eu procurasse
o branco que dissesse a casa que habitámos.

Licínia Quitério    

31.3.11

PEDRA A PEDRA

Pedra a pedra sabem os homens escrever
a memória dos tempos. Em Matchu Pichu, 
na Grande Muralha, na Grande Pirâmide,
ou em Babel que se diz teve uma torre.
Pedra a pedra, homem a homem, dor a dor,
chicote a chicote, a construção não para.
Mais alto, sempre mais alto, que a terra
é pouca e o céu é vasto. Inventam as escarpas
e sobem-nas, pé aqui pé ali, até ao medo.
Não olham para baixo que a pele da terra
os enfeitiça e no seu ventre há fogo. No topo,
diz-se, um ceptro de oiro a atiçar a cobiça.
Por ele continuam, ferida a ferida, corda a corda,
e as mãos sangrando, e as pedras poderosas
com janelas de sol, medindo luas, predizendo
futuros. Pelas alturas devorados, os homens
não regressam e já ninguém os sabe nomear.
Machu Pichu, Esfinge, Stonehenge, as pedras
essas ficaram e têm nomes. O ceptro de oiro
só o condor sabe onde reluz, mas não o diz,
e os homens continuam, de dor em dor, mais
alto, cada vez mais alto, cada vez mais longe,
até à fraga onde perdem o nome.

Licínia Quitério 

27.3.11

COM TUAS MÃOS
















Com tuas mãos falantes é que me anunciavas
a fala das andorinhas e dizias o desenho
do relógio de sol. Como se eu entendesse
as tuas viagens nos passos em redor da sala.
Foi preciso ver as asas saindo dos teus dedos
e a sombra da haste no declínio do dia.
Nessa hora os teus passos fecharam a viagem.
As tuas mãos perfeitas se fizeram arco
e eu pude divisar a rua que viveste
com cuidados maternos a afagar as ervas.
Para lá do arco, disseram os teus olhos,
eu havia de ter a minha luz e as pedras
brilhariam a iluminar esquinas e veredas
e a amplidão dos mares e a solidão dos versos
e sempre e sempre as andorinhas haviam de voltar
porque é nas tuas mãos que começam as aves.

Licínia Quitério

23.3.11

TÃO ESTRANHA A NOITE


Tão estranha a noite. A noite e os   escombros, cicatrizes de diurnos abusos, esconderijos de vigilantes répteis e seus membros renascidos. No meu coração a pele dos muros, alfabeto de povos chacinados no sono acre dos deuses. Cabeleiras vegetais alongam  os ombros da noite,  encobrem a desistência das pedras, desenham tranças e cabalas. Há homens que acendem luminárias e as põem a vogar na noite. Com elas os espectros e as gargalhadas tracejantes onde não poisam flores. Nos meus olhos a grande lua e os seus presságios de nascimentos fáceis e marés altas e súbitas germinações. Ela me deixa aperceber o recorte do polipódio, verde pela manhã.

Licínia Quitério

17.3.11

QUEM TE DISSE



Quem te disse, meu amor de mar, meu leão de maré, minha onda antiga, meu cavalo marinho, minha espuma da noite, minha flor afogada, meu cofre de ametista, minha vertigem, minha corda bamba, minha ponte, meu mirante, meu verso branco,

Quem te disse das mãos de cinza pela tarde, do sal da boca pela manhã, dos olhos nas esquinas, do cheiro a febre do outono, das colheitas sempre por fazer, do vinho, da cor do vinho, do doce vinho da paixão, do espanto, do terror, da ira dos terramotos,

Quem te disse, meu amor, mentiu,

Verdade és tu e os teus sentidos, e os teus pressentimentos, e os teus sonhos, e o teu olhar de fera ou o teu olhar de pomba, e os teus cabelos soltos ou os teus cabelos presos, e o teu desejo em fonte ou o teu desejo em fogo,

O resto, os mundos saberão se aconteceu,


Licínia Quitério

14.3.11

AVISO

QUEM QUISER ADQUIRIR O MEU LIVRO "POEMAS DO TEMPO BREVE" PODERÁ CONTACTAR-ME ATRAVÉS DE

                                              liciniaquiterio@sapo.pt

ESTE É O POST MENOS POÉTICO QUE ALGUMA VEZ PUBLIQUEI, MAS PENSO QUE COMPREENDEM!

MUITO OBRIGADA.

LICÍNIA

11.3.11

"POEMAS DO TEMPO BREVE"

É já amanhã, Sábado, 12 de Março, pela 15 horas, no salão nobre dos Bombeiros Voluntários de Mafra, que será apresentado publicamente o meu livro "Poemas do Tempo Breve". Cristina Carvalho e Joaquim Pessoa tiveram a bondade de acrescentar aos modestos méritos dos meus poemas dois textos magníficos, pelos quais lhes expresso, também aqui, a minha gratidão e o meu carinho. Estarão ambos presentes no lançamento, bem como o meu Amigo de já longa data e grande "responsável" pela minhas aventuras poéticas, o José Fanha. Será um encontro de muitos amigos e, a pretexto deste livro, falar-se-á de poesia, dir-se-á poesia, será, enfim, a Poesia a grande homenageada nesta tarde que, espero, seja um tempo de fraternidade e luminosidade.

Lá nos encontraremos. Grata por todos os apoios que aqui me têm sido dados.

Licínia Quitério

9.3.11

AINDA QUE QUISESSSES


Ainda que quisessses, como poderias sequer pensar "Não valeu a pena."?
O vento gélido perfurou-te a manta e arrefeceu-te o sono?
Mandaram-te calar a pequenez da tribo e a avidez do chefe?
Foi a ti que disseram "Sai do meu caminho e deixa-me brilhar."?
Riram-se quando pediste "Não me dêem jóias que me pesam nos ossos."?
A chuva foi tão bruta que te alagou os sonhos? 
Foste tu que gritaste "Nunca mais!" e agora ouves o riso das hienas reclamando o festim?
Tudo isto foi contigo, em ti, na tua carne, no teu choro, no teu luto de tantas mortes, no teu longo tempo de lobos e de rosas.
Foi por elas, pelas rosas, que enfrentaste o abismo e regressaste, incólume, de sorriso entre as mãos, com a voz vestida de palavras sonoras, tranquilas, aladas, prontas para a partida.
E há mais.
A laranjeira fértil, sobranceira, que te obriga a dizer, ajoelhada, aturdida, plena "Sim, valeu a pena.".
E continuas, na senda perfumada dos desejos que por ti frutificaram. 

Licínia Quitério   

2.3.11

PODIA DIZER-TE

Podia dizer-te a luz da tarde acesa na janela,
ou a alegria envergonhada das ramadas,
ou as vozes dos amigos esboçando um fado,
ou a  nostalgia das bandeiras reclamando pátrias,
ou ainda as casas, sim, as sábias, astutas casas
debruadas de amores e perdições.

Podia até pintar uma aguarela, ou escrever um poema,
ou modelar um rosto, ou compor um adágio,
ou soltar um grito, ou correr, ou saltar,
ou abraçar-te, ou lançar um papagaio de papel
e depois dizer-te: Vês, eu não sei nada. Ou então:
Que queres de mim? Ou (porque não?): Amo-te.

Não podia dizer o coração da terra
nem a esperança fechada nas mãos dos homens
quando sofrem.

Licínia Quitério 

18.2.11

CONVITE



Aqui tenho o prazer de anunciar o nascimento do meu novo livro de poemas. Estão todos convidados para o melhor manjar que sou capaz de vos oferecer.   Voltarei a dar-vos notícias sobre o dia em que espero ver e rever muitos de vós, num abraço de gratidão pelo grande incentivo que me têm dado nesta caminhada da escrita, meu trabalho e meu deleite.

Licínia Quitério

13.2.11

DEIXEM-ME




Deixem-me ser a alegria da magnólia no estertor do inverno. Assim rosada, virada aos céus, livre de folhas que só depois virão. Depois de mim, do meu esplendor, da branca solidão, depois do amor guardado na raiz, do suor da festa dos rapazes, do riso da festa das raparigas, da partida demorada dos velhos, da partida súbita dos novos, dos livros duas vezes lidos, do grito dos pobres na aresta da fome. Deixem-me estar, plantada à beira vida, solene e intensa, perfumada e limpa, sem outro anseio que o regresso das canções em bando, da gravidez aveludada das mulheres, da generosidade dos insectos em novas primaveras. Deixem-me. Eu sou assim...

Licínia Quitério    

4.2.11

UMA COR

Uma cor vibrante, uma cor galante,
uma cor estridente, uma cor diferente,
uma cor suave.
Grave é não ter cor ou supor
que se mente quando se diz: 
a cor do amor é a cor do mar.
Do mar de amar,
do mal de amar, da dor
de não saber
o sabor de ter
um castelo de cor
ali ao pé, ali ao peito, 
no jeito transparente
de cada amanhecer.


O meu amigo tem olhos da cor do fim de tarde, envolta em cheiro de rosmaninho e em doçura de velos de cordeiros.
A voz do meu amigo é da cor do canto dos riachos de margens muito antigas, polvilhadas de amoras e silêncios.
A pele do meu amigo é da cor da ardência do deserto e do arrepio da tundra.
O sangue do meu amigo tem a cor dos sonhos dos homens, das estrelas moventes, não cadentes, da respiração dos escravos, ao longe.


Uma cor, duas cores, sete cores, até ao pote de ouro, ao coração da terra, ao bicho cego, ao prenúncio do verde.
Uma cor, uma só cor, a maior, a mais serena de todas as cores, aqui à mão, aqui ao peito.
Uma bandeira contra o negro.


Pobre de quem não sabe
a cor do amor,
igual ao mar
de amar.


Licínia Quitério

25.1.11

TENS DE SENTIR



tens de sentir o respirar da terra.
não há outra evidência sobre a vida.
tens de acreditar na dança diurna das estrelas.
não terás outra vantagem para o amor.
duvida sempre da perenidade das águas no teu rio,
da persistência da alegria no teu andar de corça.
tens de estar atenta ao calendário das marés
se queres saber a soma dos teus passos.
olha as chagas nos ombros da velhice e,
se vires a fragilidade das perpétuas roxas,
foge da vidraça e espera o riso.
ele há-de passar rente à janela.
depois enrola-o no pescoço e diz
agasalho como se dissesses
recomeçar ou abrir os olhos no primeiro verão.


Licínia Quitério

18.1.11

A MADRUGADA





De uma asa posso falar no torpor da madrugada.
De uma asa onde mora o inteiro pássaro.
Adivinhar o canto é condão de meninos, por entre os frutos verdes do tempo moço.
Espero o vento cor de mel da manhã adulta, povoada de signos e augúrios, a soprar a poalha de amores nascidos no perfume do anoitecer.
Afirmo não saber o gosto das manhãs e sempre me confundir e dizer azul em vez de beijo, sanguíneo em vez de saliva, flor de zimbro em vez de baga, algodão e não canela ou camomila.
Tamanha é a minha esperança na asa, no pássaro novo, na espuma do dia claro, na força do vento morno.



Licínia Quitério 

11.1.11

UM POEMA DE AMOR



Estás comigo há tantos anos e sempre te pergunto porquê. Porque é que as tuas mãos de estátua grega se entrelaçam assim como se explicassem toda a beleza do mundo? Será que foste tu que colheste os girassóis e os ofereceste à jarra para que os meus olhos pudessem ver a luz no quarto escuro? Eu não falo de Vincent, mas de ti e do relâmpago do teu rosto sobre as paredes brancas da sala. Estão sempre as tuas mãos dentro do quadro, aquele ali colado na vidraça e que disseste ser a transparência do meu sorriso. Falamos de pintura, como poderíamos dizer ternura ou construção ou a eternidade possível deste amor. Posso perguntar se foste tu que pintaste os girassóis. Responderás não sei com uma flor de verdade na boca e a humildade dos inventores de futuro. Posso chamar-te Vincent e responderás como se fosse o  teu próprio nome. Achas natural. Eu também. Todos os nomes são iguais. A diferença mora na beleza das tuas mãos entrelaçadas na explicação da transparência do meu sorriso. 

Licínia Quitério  

3.1.11

O TEMPO



O tempo é o tempo é o tempo
um tecido um contínuo um tropel
um oceano um buraco uma forma
uma cor um odor uma pele
um allegro um andante um nocturno
um prelúdio uma fuga um vibrato
um da vinci um magritte um azimov
um pas de deux um bolero um trapézio
o pescoço do cisne o olhar do leão
o tronco da sequóia a avenca a lentilha
a aurora boreal o furacão a neve
o desejo o delírio  o repouso a vigília
uma esperança um contrato uma sorte
uma espera uma ausência uma morte


Licínia Quitério





23.12.10

IMAGENS



Miríades de imagens na película dos dias. Rostos vagabundos  na folhagem. Palpáveis os segredos muito antigos, decifrados. Os passos nas areias, o chapinhar nas águas, o gemido do amor a perceber a morte, o piar da coruja contra o chiar do rato. Altivos avançamos e os nossos pés doridos dos caminhos mais duros que a vontade de os fazer. Os olhos alagados  da cor dos temporais e das bonanças. Seguimos o leito do rio inconformado e os canaviais assobiadores do vento.  Porque sabemos da mulher de Lot, jamais retrocedemos, mas a dor do passado é um rasgão no ventre, uma saudade. E as imagens, em desfile incessante, a morderem os flancos, a queimarem o peito, a atarem gritos na mudez. Caminhamos na procura dos nomes  e dos corpos e dos rostos vagabundos, imprecisos, navegantes nas margens de um outro rio, outra estrada, outra estação, outra galáxia, outros que somos sendo os mesmos. Miríades de imagens nos contemplam. São a película dos dias.

Licínia Quitério


Aqui deixo os meus votos de um Natal de Paz e Amor para todos os meus queridos leitores.

Licínia

19.12.10

AJUDA-ME





Ajuda-me. Este cansaço pesa nas palavras e eu não digo mais o sabor da alegria, o riso da manhã, o poder da montanha, o murmúrio das marés, o crepitar do amor em nossas mãos. Ajuda-me. A inclinação das ruas tornou-se insuportável e eu preciso subi-las para abraçar a memória da pele das rosas, do veludo do café, do abrigo das madeiras. Eu sei, as andorinhas voltarão ao recorte do telhado, o plátano será mais uma vez a capa do meu verão, saberei ainda adivinhar os barcos na transparência das casas, soltarei o riso na indecisão dos nevoeiros, na adolescência dos peixes vermelhos. Quero trepar a escada dos sonhos adiados, das promessas de pão, do brilho do oiro, da luz una e dividida, da paz, da paz. Não me deixa este cansaço de mil vidas no meu peito. Ajuda-me. Eu espero.

Licínia Quitério

12.12.10

CAVALEIRO TRISTE



Também eu esgrimi contra gigantes 
e a minha espada  não quebrou
na dureza dos ferros.
O meu cavalo emagreceu 
nos pastos sobrantes das batalhas.
Guardo nos olhos a cor do pó
igual a chão e céu.
Nos ouvidos o tilintar das armas
e os urros dos gigantes
nos átrios da loucura.
Se não salvei a pátria
engrandeci o sonho.
Por minha dama resisti
ao medo e à cegueira
e defendi os fracos.
À guerra voltarei se me chamarem
cavaleiro triste.
Gosto de me sentar no campo,
ao pôr do sol,
aqui onde venci gigantes
e o vento se fez pão
e o meu cavalo solitário dorme
e a voz de minha dama ao longe,
dulcíssima,
tecendo para mim o seu cantar de amigo. 


Licínia Quitério

Foto da minha Amiga Bettips

5.12.10

INVERNO



Na fímbria dos invernos há cidades desertas onde os nossos dedos arrefecem. O trote de um cavalo branco escreve no empedrado os nomes dos construtores dos fornos, das cisternas, dos celeiros, dos estábulos, da ponte velha, da ponte nova, do cruzeiro, do quadrante solar. Para trás ficam as águas das fontes, do ribeiro bravo, da ribeira grande, da sede das gentes, da sede do gado. Destrancados os portais, o vento dá-lhes o chiar dos gonzos e o choro das madeiras. Nas casas vazias do inverno quebram-se os vidros na violenta agonia dos pássaros perdidos da viagem. Um relâmpago breve acende lembranças de sol na melancolia das ervas, no esverdeado das paredes, nas crinas impantes do cavalo. O desamor do inverno envelheceu, sujou, adoeceu o rosto da cidade. Só lhe resta esperar o cavalito branco, a galopar, pelo trilho dos nomes, a anunciar as novas seivas, o regresso das aves, a chama renovada dos amantes, contra o frio, o gume, a escuridão.


Licínia Quitério 

arquivo

Powered By Blogger
 
Site Meter