29.6.13

FLORES



Filhas dos esponsais da luz e da treva.
Florir é verbo entre nascer e morrer.
Cantam as flores a canção da terra.
O sangue delas ferve sobre o gelo.
Duram, imóveis e mudas.
Não se indignam. Renascem.

Licínia Quitério

26.6.13

TÃO POUCO FOI



Tão pouco foi o que mudou. A porta ainda a mesma, com seu chiar nos gonzos, seu gemer de cansaços. O céu semeia oiro ou água ou vento, a endoidecer as virgens, a agoniar os velhos. Bem vês, pequena é a mudança. A farinha ainda é pão e o pão é corpo e o corpo é alimento da vontade. Os sonhos continuam, talvez mais imprecisos, mais voláteis, e as vigílias mais longas, a segurar as pedras na encosta. Se queres saber do sobressalto dos pardais, posso dizer-te que já não bato as palmas, que aprendi o sossego das ramadas. Solto os braços, embrulho-mna tarde, abro o livro. Um novo conto há-de começar.

Licínia Quitério

19.6.13

CORRENTES


Quantos elos nos prendem, 

nos impedem, nos mutilam? 
Com as correntes vamos, 
por força de ventos e marés 
de escárnio e maldição. 
Contra as correntes vão os pulsos 
e deixamos o sangue escorrer 
e refazer a pele dos dias 
com suas noites dentro. 
Além dos pulsos há as mãos 
a prender outras mãos, 
a fabricar outras correntes, 
amáveis laços, ternurentas penas, 
força de amor e desamor, 
respiro ondulante, graça, vitória, 
do fogo ao ferro, do ferro ao sol, 
inexplicavelmente.

Licínia Quitério  

12.6.13

DAS FLORES


Posso falar-te das flores. Baixinho, na dobra do outono, quando se despedem as voadoras. Em voz clara, nas harpas da primavera, dedilhando a esperança. No cimo da montanha, na coroa do verão, de braço dado com as raparigas de desejo suadas. No inverno, sim, posso tentar a fala rouca das sementes na espera em seu covil. Flores de todo o ano, sempre vivas, adornando versos, muros, campas, berços, canteiros, boas vindas, despedidas. Ai de nós na desistência das flores, descoloridas, tímidas, procurando o chão, cansadas flores, despedaçadas, violetas em botas cardadas, ainda assim perfumadas, alento de poetas, de virgens esfomeadas. Falemos então das flores.

Licínia Quitério

4.6.13

DEVASTAÇÃO


Em tempo de desventura 
os poetas falam 
de ervas daninhas 

porque a escassez das rimas não ajuda
a conjugação precária do amor
Viram a nascente o coração e
soletram novas sílabas
nas malhas apertadas da ternura
Com o orvalho da manhã
nascem-lhes nos dedos margaridas
que abrandarão a raiva de saberem 

seus versos poluídos
nos ímpios altares da fortuna

Choram os poetas e 
os anjos acrescentam
penas
pétalas
cantos
aos seus campos
devastados

Licínia Quitério

28.5.13

ESTÁS AÍ




Estás aí à espera que o trigo germine 

como se as sementes não sofressem
da moléstia que sufoca a garganta dos rios. 
Não saberás a sede acidulada da terra 
exausta de arados rancores.
Por muitas moedas que semeies a confundir 
o grão não provarás a quentura do pão 
contra a pele do inverno. 
Sentado no veludo não sentirás 
a ternura que alaga o linho e o ilumina.
Limparás da mesa as vitualhas 
até que a bolsa te pese mais que o coração. 
A atravessar os anos o teu corpo a doer a afundar 
e as mãos vazias que o trigo não germina 
depois do joio antes do sal.

Licínia Quitério

19.5.13

ESCURIDÃO

Licínia Quitério



Sabemos que o vidro se quebrou que o candeeiro se apagou

Da luz que nos morreu passamos a dizer escuridão que um nome há de ser dado ao que nos leva ao cimo e ao fundo e sempre e sempre à vogal mais sonora do silêncio fechada em nossa mão



10.5.13

SETE


Com sede nomeio o cais e os sete barcos velhos com sete homens que chegaram por sete estradas desertas que a água lhes foi levada para sete cofres fortes fechados a sete dores sete vezes tantas vezes quantas as vozes caladas quantas as bocas seladas com sete selos de raiva em sete salas de breu
Com sede digo gaiola e o pássaro fugido e o pássaro colorido com sete penas de jaspe com sete penas de fogo
E a gaiola doirada escancarada e inútil como o cofre aferrolhado com sete chaves de cinza com sete chaves de sangue
Vai o pássaro voando com sete espigas no bico sete grãos de liberdade para sete homens que chegaram ao cais onde barcos velhos se perderam na saudade

Licínia Quitério

16.4.13

AUSENTAM-SE


Ausentam-se e deixam as marcas do vidro 
nos rebordos das mesas, 
no preto e branco das salas vermelhas. 
Sentam-se, com se vivos fossem, 
no chão vermelho a preto e branco. 
Não desistem de nos afagar os cabelos, 
de nos beijar a boca, de nos deitar no sono, 
de nos deixar exaustos de bem-querer. 
Circulam, ondeiam, nas pupilas dilatadas 
à entrada dos túneis. 
Antes ou depois, entenderemos os loucos da cidade.

Licínia Quitério

31.3.13

PRECISO


Preciso de um assombro, de algo que transtorne a intermitência das sombras, que desalinhe as paralelas infinitas, que impeça a monotonia dos calendários, que arrase e desfaça e refaça e recrie, sem explicação, sem teorema, sem axioma, que não responda nem pergunte, que não brilhe nem se apague, que seja a ponta da espada e a bainha e a força do punho e não fira nem salve, não inunde nem seque, que tenha a voz e a mudez que nos nasce e nos mata. Que seja.


Licínia Quitério

24.3.13

LUZ



Tudo é luz, dizias, quando as sombras te percorriam os braços e as agulhas do desalento se insinuavam no teu prato. De luz se faziam as flores da voz e desenhavam corpos porque os cantavas sem nunca lhes dares um nome, nem sequer o de mulher. De luz a escuridão dos corredores da casa, atenta aos roedores nocturnos. A presença e a ausência, a música e o silêncio, tudo é luz, digo.

Licínia Quitério  

7.3.13

UM PRESSENTIMENTO


Um pressentimento apenas, um recado em água de riacho. Longe ainda o seu caminho de asas, buscando a cor na malva-rosa, num sortilégio nascido e apetecido. É no torpor da tarde que o milagre acontece, as bruxas dançam e o magma acende estátuas nas colinas. Se de rebanhos se falasse soariam chocalhos e balidos a anunciar a escuridão de volta. Marmóreo o corpo encerra a claridade e repete a metamorfose da rosa que será terra, bicho, estrela-mãe, na minúscula imensidão do que sabemos. 

Licínia Quitério 

22.2.13

SIM, PERCEBI


Sim, percebi que queres nascer. Esses toques subtis na minha mansidão, essas palavras que ressaltam nos teclados ou nos ramos das árvores, essas contracções inesperadas no meu leito de pensar, esse desassossego no parapeito da tarde, tudo isso, eu sei, é o anúncio da tua urgência de chegar ao lugar de sempre, junto aos outros que acolhi e moldei e a quem agradeci com enlevo e cansaço antes de os n
omear. Serás também poema e serás o tudo e o nada de quem lê, de quem ouve, de quem se não contenta com o limiar das coisas. Eu percebo a tua pressa, o teu medo de que um dia no mundo não haja lugar para poemas ou anjos. Por agora, não te posso dizer a cor da hora de te receber. Vais aguardar, no corredor da tua espera, da minha espera, que aquela borboleta bata asas e um pólen de prata inunde o quarto do meu segredo, do teu segredo, poema.



Licínia Quitério

11.2.13

HOUVE UM TEMPO



houve um tempo em que as águas se moviam brandas 
nas vozes dos homens que murmuravam preces 
a deuses conhecidos nomeados de sol e mar e 
montanha e vento e amor de homem e amor de mulher 
e vulcão e lua e caça e caçador e tudo tudo 
o conhecido e o desconhecido o desejo e o desejado 
a fúria e a posse e o possuído e o calor da pele e 
o frio da pele e o crescimento das árvores e dos filhos 
e dos irmãos e das feras ainda por domar ainda por amar

houve um tempo houve um tempo de inocência e 
de muito azul de frutos por trincar de mares por sulcar 
de pedras por cortar de sangue por jorrar de não haver 
esperas nem demoras nem cansaço nem suor nem dor 
nem prazer nem riso nem lágrima nem gente nesse tempo


Licínia Quitério  

3.2.13

DEAMBULAR



Deambular nos álbuns do passado à procura do fio que nos explique o tecido que somos. Suportar o aperto que dizemos no peito para não dizermos alma ou outra palavra escusa e impalpável.Tudo e nada é retorno. Tudo é memória. Despojos da passagem pedem histórias e nós as construimos, linha a linha, no silêncio, que tudo o que for dito arrisca-se à verdade ou à mentira de ouvidos néscios, julgadores. Quando todos partiram, ficamos nós e os objectos. Vai-se a carne, fica o osso.  Na sombra dos salões, no mofo dos papéis, ausências se apresentam e presenças se esfumam. A imobilidade é desafio, afronta, sedução e repulsa. Revisitar. Balancear. Regressar à casa onde a luz e o sangue. Ousar o impossível.

Licínia Quitério

25.1.13

VIVE


Arrima-te. O tronco vive erecto à flor da terra. Abraça-o. Rodeia-o. Dança, contradança, clama, reclama. A floresta inteira escuta o teu rumor, o teu rancor. Alonga-te, prolonga-te, ri no sol e na sombra, aplaude a fornalha e a geleira, o negrume e o alumbre. Admira-te, decepciona-te, insulta e abençoa. Explode em raiva e tomba em desalento. Reergue-te. Tu és o fulcro da alavanca e a alavanca. És o fulgor do metal e és o óxido. Incendeia-te. Acalma-te. És o carro do fogo e o de Poseidon. És o sim e o não de todas as misérias. És um homem e a sua solidão. Sobre o tudo e o nada, vive.

Licínia Quitério 

17.1.13

EM NOSSA VOLTA TUDO ARDIA



Em nossa volta tudo ardia
mas o lago crescia
e as nossas mãos teciam
sílabas abertas de futuro
No crepitar das chamas
soavam palmas e cantares
de amor amigo
Limpámos as águas e bebemos
o vinho curtido pela espera

À ameaça do fogo lançávamos
as palavras frescas 
do tempo fresco e novo
Livros abriam-se à passagem
inaugural do riso 
Os cães dormiam sobre
a nossa interminável vigília

Ninguém sabe dizer
há quanto tempo foi
esse bater de corações
vertiginosamente doces
essa febre de vida
doidamente apetecida

Pode ser já se diz
que não tenha acontecido
Pode ser amanhã
a seguir ao dilúvio
a seguir ao incêndio
no repique dos sinos
na saudade da festa

Há-de ser já se diz
num qualquer amanhã


Licínia Quitério

10.1.13

RECEBO A NOITE


Recebo a noite
sobre o estendal do dia 

e suas horas novas
e suas horas adolescentes
e seus minutos que não têm
não sessenta segundos
mas muitos mais ou menos
conforme é larga a dor
ou breve a alegria.
Quando o dia envelhece
é que se pronuncia
o céu arroxeado a luz 

do candelabro a azedia 
da erva o canto
áspero da toutinegra.

Licínia Quitério

1.1.13

REDONDO O MUNDO


Redondo o mundo de caminhar em frente, 
paralelamente ao cordão de tristezas, 
uma mão de alegrias de onde em onde,
que se podem somar, multiplicar 

por desejos de opala, preciosos,
úteis como esporas que fazem sangrar,
que fazem correr.
Todo o corpo arde na febre da viagem,
todo o corpo arrefece na praça da memória.

Um só corpo não basta para voltar
à casa construída, ainda que fosse barco
e navegasse.
Na outra ponta do mundo, no outro vão
do arco, uma luz se levanta, cada dia mais 
clara, mais bondosa. É o sinal do silêncio,
do anoitecer na linha da partida.
Um corpo continua para que outro recomece.
Nunca uma casa permanece.

Licínia Quitério

29.12.12

DESEJO PARA O ANO NOVO


Espero os dias de algodão doce
a lambuzarem os narizes
empinados das casas.
Um anjo de feira de asas de oiro
ou um belo gigante das arábias,
cada um de seu jeito, a soltarem
risadas, na colheita do açúcar
nas alturas. Da solidão das casas
nunca amadas sairão borboletas,
corações, lenços de namorados,

coisas assim, esquecidas,
aprendidas no chão das outras
casas, quando o lume era aberto
e na sala de entrada brincava
o sol com a preguiça dos gatos.

O dia do céu de novo fértil, 
das casas baixas, com portas
pequeninas para os gatos,
para as fadas, com janelas
grandes onde os meninos 
se debrucem lambuzados
de açúcar, partilhado em segredo
com os anjos de feira, com
os bons gigantes.

Licínia Quitério

23.12.12

NOITE


Há de haver uma noite
que ponha nos caminhos 

a glória dos astros
o silêncio dos bichos
a ternura  dos homens
o espelho das águas
subitamente calmas


Um átomo de amor
uma nova leveza 
um clarão entre muros
um azul de safira
a cravejar o negro
a consolar a solidão
das pedras da passagem

Será hoje ou num ano
qualquer de qualquer vida
num tempo sem relógios
de ânsias e cansaços
nem velhos calendários
em que tudo é exacto
previsível e baço

Virá a noite esplêndida
de braços maternais
com o seu pomo de oiro
o seu sabre de prata
seus sete véus de bruma
seu unicórnio branco
seu amante seu dia

Licínia Quitério

13.12.12

LADAINHA DA LUA NOVA


Lua mais nova de todas as luas
meditativa sombra
noite apagada


ausência

senhora das trevas
sono dos lobos
cegueira das encruzilhadas
protectora dos tristes
dos possessos
dos desistentes
lua dos fugitivos
dos evadidos
dos perseguidos
dos sem lei
sem sorte
sem morte
noite escura
perdão de inocentes
acalmia das dores

resignação

lua invisível
luz recusada
noite serena



silêncio 

mudez do céu
presença eterna


lua





Licínia Quitério

7.12.12

MANHÃS


A incongruência das manhãs está nos olhares dos homens que se perderam no estio quando esqueceram as canções com chave para o sonho,  o sabor do mel de rosmaninho nas bocas das mulheres, a debandada dos  falsos profetas, a volúpia da carne das cerejas, as danças em redor do fogo, em redor da alegria. Vagos os olhares dos homens a enfrentarem a humidade das manhãs, a escrita indecifrada das nuvens, a imobilidade das casas. Esqueceram o repique do sino, o silvo do comboio, a ladainha das ciganas, o piar da coruja. Apuram o ouvido e apenas ouvem o estilhaçar de espelhos. Dizem dos olhos dos filhos verde-seco em vez de verde-mar. Tornaram a dizer putas, perdidas as amigas, as irmãs. Ainda sonham mãe, mas dizem velha ao acordar. Já viveram demais, ou não viveram, ou aguardam o abrir de uma janela, de uma porta, de um regaço onde entrar e pousar as muitas mortes que souberam. Numa segunda vida, dizem, quem lhes dera ser árvore, regato, vento, alguma coisa que cantasse.

Licínia Quitério 

23.11.12

RUMOROSAS AS ASAS


Rumorosas as asas ou as mãos na palidez do rosto. Do meu rosto em frente à pedra, na lembrança viva da pedra, nas rosas de pedra antes vivas, latejantes, e o seu sangue quente atravessando-me os dias, do oriente ao ocaso.  Dias e noites trepidantes com a febre nas têmporas, um vidro vermelho no candeeiro, uma canção de embalar, as sombras, as sombras na parede. Um morcego, uma borboleta, as orelhas do coelho, as asas, altíssimas. As manchas no teto, os mapas dos países de ida e de volta, uma dor sem princípio, a pedra enegrecida pela fuligem que fica nas mãos quando um amor morre. Santas mãos, miraculosas, berços, catres, esquifes, doçura tanta, mágoa infinita, viandantes mãos sem corpo, no meu corpo de antes, no meu corpo presente, no meu corpo futuro, no meu copo, no teu copo, no nosso copo de todos os dias, agora e em todas as horas, vazio e pleno, ofertado e recusado. Só as mãos nos acodem, no negrume e na alvura, na cupidez e na devassa, na sede e na fome, no primeiro dia, no último dia. Sempre. 


Licínia Quitério

21.11.12

NO SILÊNCIO DE SEDA

,


Erguias  muros e sorrias nas esquinas que dobravas, deixando para trás, aflitos, os emparedados do sol. Ensinaram-te a dizer palácio e sonhavas com a seda a roçar-te a nudez. Para sempre triunfante, pensavas, aprisionada a maldição divina no labirinto indecifrável. Livre, dizias-te, saciada a fome na prata dos banquetes. Diariamente decidias da vida e morte de estrelas. Todo o poder dos mundos no toque dos teus dedos. Reinavas, marmórea, no silêncio de seda,  na mais perfeita solidão dos muros.

Licínia Quitério

11.11.12

NASCEU

OS SÍTIOS já tiveram a sua apresentação ao público, feita com a elevação que a HÉLIA CORREIA põe em tudo o que diz e escreve. Foi uma tarde de encontros e abraços e risos, dos amigos de hoje e de sempre. A Poesia foi bem tratada, bem escutada, bem festejada. O livro aí está a dar os primeiros passos em direção aos leitores. 
Para meu contentamento, a Hélia disse dele: 

"Esta poesia é logocêntrica - a palavra é o centro de onde se parte e onde se volta, sobre o qual se medita, cuja luz esclarece tudo o mais e que ainda nos convida a uma espécie de curiosidade científica sobre a linguagem, quase experimentação: (Há um conhecimento do ofício, uma competência técnica quanto baste)."

Quem o quiser adquirir pode contactar-me por e-mail para 

liciniaquiterio@sapo.pt 

8.11.12

OBLÍQUO

O sol oblíquo nas tábuas, digo baixinho. Demoro-me na obliquidade da linha de sol, no seu tempo angular, na sua origem celeste, no seu efeito de régua sobre as tábuas. Enquanto digo e penso, o ângulo altera-se, aumenta ou diminui, de um lado ou de outro das tábuas, e eu permaneço, relativamente indiferente ao avanço do degrau de sombra a lamber-me os pés, na absoluta indiferença das tábuas ao seu toque, agora a apagar-se, a apagar-me as palavras sobre a efemeridade das linhas de sombra. Baixinho disse - o sol oblíquo nas tábuas. Assim sempre. 


Foto de escultura de Cargaleiro

Licínia Quitério

30.10.12

VI


Vi não sei bem se vi com os meus olhos de ver se com as mãos ou com a matéria incandescente do desejo na brevidade das mãos vi ou não vi no átrio a porta entreaberta o tilintar da loiça a sirene ao longe o aroma da alfazema vi agora posso afirmar agora que esse roçar de pele esse repique de sinos me acordou sim juro solenemente vi a tua cabeça esquecida do corpo do átrio dos ruídos dos cheiros da 
obscenidade da morte a tua cabeça a luz da tua cabeça a voz da tua cabeça tão igual tão antiga a voz dizia eu na fresta da porta no torpor da tarde pedindo ou dando é igual a sílaba única do meu nome as duas sílabas do sítio ainda inabalável redondo fogo e cinza janela e porta e a tua cabeça ou melhor a voz da tua bela cabeça dizendo

Licínia Quitério

NOVO LIVRO



E assim vai aparecer mais um livro de poemas. É o meu quarto livro, de geração tardia, como os outros, mas escrito com a vontade que a vida quis que em mim se renovasse, com a dedicação maior que ponho nas palavras, com tudo o que afinal sei e sou. No dia do lançamento, farei a festa como gosto, com os amigos de ontem e de hoje, do perto e do longe, com a voz que tenho, com a comoção que nunca falha. Não é nada importante. É só um livro. É só mais um bocadinho de mim.

A apresentação, que será feita pela HÉLIA CORREIA, decorrerá em Mafra, no salão dos Bombeiros Voluntários, no dia 10 de Novembro, pelas 15 horas.

Lá vos espero para o abraço. Muito obrigada.

Licínia


23.10.12

UM CANSAÇO




Há um cansaço por dentro desta tarde. Uma falsa quietude de seivas adoecidas. Bichos por entre as folhas mortas, amontoadas. Uma vozearia rumorosa, de palavras decompostas, insignificantes. O rodado dos carros é um rugido de feras severamente castradas. A minha cabeça inclina-se sobre a luz das candeias que nunca acendi. Há pobres à minha porta que desdobram papéis e recitam orações de santos que nunca adorei. Espero ainda as respostas impossíveis às perguntas impossíveis com que nasci. Chama-me a tarde, apodrecida e escura, entre o asfalto e as canas bravas, as velhas estrelas e um novo planeta. Cansada tarde, inclinada sobre a minha cabeça, comovida pelas luzes das candeias que ainda brilham, que ainda brilham.


Licínia Quitério

17.10.12

A NOVA ESTAÇÃO


Escuta, é a primeira chuva da estação. 
A minha boca seca aflora o barro, cheiroso 
à ingenuidade dos presépios da infância 
com seus espelhos-lagos a anularem maldições.
Põe a tua mão sobre a minha. Sente o sangue 
por baixo da pele, as toupeiras por baixo da terra. 
Cegos são e escavam vida inteira suas veias
infindas, desejando a  luz, dela fugindo.
Tens o espanto nos olhos. Há um livro que gorjeia. 
Eu explico - os pássaros andam mudos e eu guardei 
as vozes nos versos brancos dos meus livros.
Depois da chuva, a tua mão longe da minha,
o meu sangue paralelo às toupeiras, o barro
a desfazer-se com a memória dos presépios,
a debandada dos pássaros mudos. Nos livros,
o desenho das pautas dos seus imensos cantos.
É a nova estação. Podes já não escutar.

Licínia Quitério

5.10.12

INFORMAÇÃO

No dia 10 de Novembro próximo, será a apresentação pública de "Os Sítios", o meu novo livro de poemas.
Em devido tempo, darei as necessárias informações. Por agora, limito-me a deixar aqui convosco a expressão do meu contentamento por, mais uma vez ainda, reunir em livro poemas com que vou construindo os dias, os desejos, acalmando as sombras, os sustos, encontrando as amizades ou amores, que uma mesma coisa são para quem, como eu, confunde o riso com a lágrima, ambos fáceis, ambos indispensáveis. 

Voltarei para o convite.

Abraços, meus Amigos.

Licínia Quitério

1.10.12

DEIXA-TE FICAR

Deixa-te ficar. Encosta o cansaço
ao vermelho da rosa 
esquecida ela também de ser botão. 
Pensa na história mil vezes contada 
e acrescentada e sempre a mesma 
e já outra, a história.
Podes até não falar. 
Passeia os olhos nas capas dos livros, 
para cá, para lá, numa procura 
sem tempo de achamento. 
Os relógios não dizem tic-tac, 
mas tu vais ouvi-lo e leve, muito leve, 
a tua mão na mesa num batuque do longe, 
das  terras quentes que te não viveram. 
Fica mais um pouco. 
No vermelho da rosa aflora o negro. 
No teu rosto um sorriso de lua, 
a memória da prata.
Espera o piar dos mochos,
o coaxar das rãs, o cio triunfal
da vida sobre a morte.
Agora vai. A história espera
que a inventes, a contes, a acrescentes.
Que nunca o dia chegue de a saberes.


Licínia Quitério 

14.9.12

UMA EXPLICAÇÃO

Amigos,

Por uns tempos, enquanto preparo a publicação de um novo livro de poemas, estarei mais ausente deste sítio. Poderão encontrar-me por vezes no outro.

Muito obrigada por todas as vossas atenções e até sempre.

Licínia

3.9.12

SETEMBRO


Alguém que se ausentou 
nos dias violentos de setembro
deixou em testamento a garra do calor 
a vergar-nos as pernas na subida.
Na porta escancarada da manhã
podemos divisar sobejos de banquete
e os ossos da casa abandonada.
Despedem-se as aves viageiras 
em concílios no reino das areias.
Obreiras cegas trabalham 
na desmontagem dos umbrais.
Chega até nós o eco de fogueiras
extintas pela fúria da maré.
Há o cansaço de luas grandes
nos ventres das mulheres.
Herdeiros somos de tantos mortos
que assim nos pesa a vida
na adição dos meses
na subtração dos dias.

Licínia Quitério

28.8.12

MEIO DIA


Nos teatros do meio dia acontecem as tragédias.
As sombras poisam imóveis na ambição da luz.
São a definição, a petrificação das formas.
Ao meio do dia morrem as estátuas.

Licínia Quitério

24.8.12

URGÊNCIA



Urgência é esta febre de romper 
as brumas matinais e divisar 
os sinais da viagem. 
Sei da finitude dos astros 
e do infinito vazio onde nadam os sonhos. 
Milhares de livros se abriram 
à minha passagem e outros me aguardam
num desvão da cidade.
Um rasgão no telhado há de surgir 
e os meus ombros vergarão 
à luz da grande mãe.

Escrevo com as letras que aprendi
e mais não posso fazer
do que esperar o cântico do silêncio.

Licínia Quitério

14.8.12

QUE CHOVA


Que chova. Abundantemente, chova. 

Que o mar receba as lágrimas do céu 
e lhes ensine o sal e a saudade. 
Que a chuva alumbre as dores 
dos penhascos e os livre da sede 
e os agrida e os comova e os lave.
Que chegue a noite e a chuva dance
nos faróis, no vento, nas grutas
onde dorme o pó e a escuridão.
Que chova sobre o tédio e a demência
e as mãos dos homens sejam concha
e reaprendam o saber das águas
vivas, livres, circulares, eternas.

Licínia Quitério

6.8.12

AGOSTO


Neste hemisfério, onde agosto 
se abre  
à devassa do sol, é que folheio o verão,

soletro a imensidão dos dias e recupero
o olhar magnífico dos homens do deserto.
As macieiras vergam-se ao poder dos sumos.
As fadas da luz soltam risadas e tomam 
nomes de crianças polvilhando as praias.
A impaciência das chamas só acalma 
nas memórias de paz jazentes nos aquários.
No mês da grande lua, um frémito perpassa
as folhagens da noite. Trémulos, os homens
avançam a derrubar as invisíveis grades.
Os seus braços sobem, ansiando pelas torres
onde possam ser corujas, fartos de serem ratos.

Licínia Quitério

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