6.9.21

AS FALÉSIAS

 


Ontem eu andava na aprendizagem do Verão
e nos meus olhos não cabiam pedras gastas.
Hoje os mesmos olhos dizem
que as falésias envelheceram
e já não ensaiam esfinges no perfil.
Fartas de céu, deixam rolar as pedras.
Deitam-nas no chão que os homens vão pisar.
Eles não hão de perceber
a decadência das falésias.

Licínia Quitério

1.9.21

A MORNIDÃO DOS DIAS

A mornidão dos dias que nos cabem

nos anúncios de outono

é um bálsamo para as feridas do incêndio.
O nosso corpo abranda
a indecência da febre, da doença.
Saboreamos um intervalo que pode ser
uma linha de partida ou de chegada.
Confundimos os sonhos com a beleza
dos crepúsculos.
A ombreira da porta conhece o nosso desamparo,
chama-nos, mas recusamos a oferta.
Preferimos balançar. Sabemos da queda,
mas no outono tudo se esquece.



Licínia Quitério

20.8.21

UMA PEQUENA LUZ


 Uma pequena luz

Uma luz pequena e nova Nascida no bosque Na verdura do bosque Aguarda ser colhida Colhida e guardada Numa mão fechada Uma mão sem medo das fogueiras Uma mão capaz de segurar uma bala De segurar outra mão Consumada a colheita Da luz pequena e nova A mão que sem temor lhe tocou e a guardou Será candeia archote fogaréu A iluminar a cegueira dos olhos O negrume dos becos Os rostos gradeados das mulheres Era uma pequena e nova luz Na verdura do bosque Licínia Quitério

12.8.21

BALADA DA PORTA FECHADA

 É a porta fechada

dessa casa assombrada
no dizer das mulheres
ligeiras no andar.
E o vento a sussurrar:
Vai chegar vai chegar
o tempo de arrombar
essa porta fechada
dessa casa assombrada.
E a mulher a pensar:
É comigo é comigo
que ele está a falar.
Amanhã vou voltar
rente à casa passar
o meu ombro encostar
à ombreira da porta
baixinho perguntar:
Quem foi que te assombrou?
Quem foi que te fechou?
E a casa a responder:
Alguém que não gostou
da luz que em mim brilhou
e esta porta fechou
e sobre mim espalhou
este manto de sombra
e as mulheres afastou
e os homens afastou
e o medo semeou
e desde então ninguém
junto de mim passou
nem sequer reparou
que a luz não se apagou
e às vezes é luar
e às vezes nevoeiro
e às vezes é braseiro
a descair no mar.

A mulher despertou.
Não sabe se sonhou
mas pela casa passou
e a porta estava aberta
e lá dentro era dia
e o vento sussurrou:
Foste tu que passaste
contra o medo lutaste
e o teu ombro apoiaste
na ombreira da porta
que não mais se fechou.
Foste tu que mataste
a sombra que assombrou
a casa que voltou
a ser luz a ser guia.

E a casa sorria.
E a mulher sorria.

Licínia Quitério



10.8.21

OS HOMENS SÃO ASSIM

Há uma parede de silêncio

Uma casa vazia

Uma rua deserta

Um país sem nome

Aqui nasceram incêndios

Avalanches

Derrocadas aflições

Tudo passa é sabido

Amanhã tudo será diferente

Os homens são assim

Feitos para esquecer

O mal que fizeram

O mal que lhes fizeram

E também

O tamanho das casas

A cor das ruas

O antigo nome dos países

A parede de silêncio

Os homens são assim

Regressam refazem

Recomeçam a construção

Inauguram o mundo

Como se renascessem

Sempre


Licínia Quitério

4.8.21

MUDAR

 Mudar é o verbo que tudo faz crescer.

Repara na flor que em fruto se mudou
E o grão da espiga que em pão se tornou
E o riso desbragado a mudar, a estalar.
E tu a escreveres palavras que se mudam
E te mudam.
E tu que tão bem sabes quanto cresces
Quando alguém te censura dizendo que mudaste
Não mudes, continua assim, pequeno e leve,
Suave e claro. Não tens asas que subam. Fica.
Deixa lá o verbo pensar que tudo faz crescer.
O que tu és por dentro não se muda.

Licínia Quitério

O POÇO

 Na gola do poço as pedras

polidas pelos anos dos homens.

Curva contra curva, as pedras amparam

a coxa, a cintura, o bojo do ventre

de quem se abeira, se atreve, se inquieta.

Logo abaixo, no côncavo dos muros,

as avencas são o verde, a frescura,

o recorte miúdo da ternura.

Depois, a escuridão dos fundos,

cama de águas, espelho negro,

tentação e eco de velhos medos.

Se a nascente secar, o lodo guardará

a memória da água que dizia

a figura dos homens debruçados

nas pedras polidas, acima das avencas,

do fundo temerosos, desejosos.




20.2.21

IMAGINAÇÃO

 


Escusas de chamar por mim.

Hoje não estou para ninguém.

Podes gritar que eu não te oiço.

Faço de conta que fiquei surda de repente.

A campainha da porta não para de tocar

ou são os ecos de toques passados

que hoje se lembraram de soar.

Não vou abrir.

Mesmo que quisesse não podia.

Mudaram a fechadura e eu distraída deitei fora a chave.

Não atendo o telefone ou se atender digo

enganou-se no número aqui não mora ninguém.

Se tocares de novo eu desligo.

Se chamares da rua eu sei que não é comigo,

nunca tive aquele nome.

Dantes havia o quadro preto na parede.

A giz alguém escreveu a tua história, a minha.

Isso sou eu a imaginar uma história que ninguém escreveu,

num quadro preto que nunca foi pendurado

na parede que não havia.

Foi a imaginação que criou este dia

em que não estou para ninguém

como se alguém não parasse de chamar por mim.


Licínia Quitério

23.1.21

PERDIDOS



Que foi que nos aconteceu,
país de fado e saudade e poetas e visionários?
País de frases feitas, não há-de ser nada,
não há mal que sempre dure,
e tudo está a acontecer
e não se sabe como nem quando acabará.
"Pode haver quem te defenda
quem beije o teu chão sagrado
mas a tua vida não."
Perdidos no labirinto, estamos.
Como seremos depois do pó, das cinzas?
Um povo somos igual a outros mais,
mas a si mesmos desiguais.

Licínia Quitério

18.1.21

NÃO PASSARÃO

 


Daqui desta Lisboa à beira Tejo
Daqui deste silêncio feito pedra
Desta tristeza vil sem ter poetas
Daqui eu vejo o antes e o agora
E o depois em palco de neblina
E eu tremo e conto histórias
Que ninguém quer ouvir
Mas a voz que me guia não desiste
E solto imprecações e solto versos
Que outras armas não tenho
Senão a liberdade de gritar
De pé, meu pobre coração
Eles não passarão

Licínia Quitério

5.1.21

ABSURDO

 


Este sol absurdo
a incandescer telhados
e vidros das janelas
e nós absortos
perguntamos
quando será aberta a praia
aberto o mar
para podermos navegar
quando seremos mão da outra mão
pele da outra pele
e o sol absurdo brilha
e faz brilhar a onda
a escama
a fruta do inverno
e nós absortos
vamos enrouquecendo
sem o mel na voz
vamos esmorecendo
sem o sal na pele
e este sol absurdo
a iluminar a praia
e nós absortos
sem poder navegar

Licínia Quitério

1.1.21

LONGE

 


E o Mundo fez-se espanto

E o espanto fez-se medo

Montámos o cerco

Dentro dele gaiolas

Os pássaros entravam

E saíam

E nós no lugar deles

Espantados

Temerosos

Ignorantes

Esperávamos

No silêncio

Pensávamos distância

 

E o perto fez-se longe


Licínia Quitério

28.12.20

LADAINHA PARA O ANO NOVO



ele sabe do ano que está no fim
e do outro e do outro
que findaram muito antes
de ele aqui chegar
tem os pés cansados
de contar os metros
que tem a rua
que o tem a ele
que não tem mais nada para contar
a não ser a história
dos seus pés cansados
que nem sequer é uma história
apenas uma verdade
sobre uns pés
de atravessar os anos
de atravessar a vida
de atravessar a rua
que o tem a ele
que não sabe quantos metros ela tem

Licínia Quitério

22.12.20

A IDADE


De Verão calçava sabrinas vermelhas, de bailarina.
Os lábios pintados de vermelho, a condizer.
Estava bem, diziam, para a idade.
Ela sorria ao cumprimento e entristecia ao dobrar a esquina.
No Outono calçava botas altas, brancas.
Os lábios sempre vermelhos.
Continuava muito bem, para a idade.
Ela sorria ao cumprimento e entristecia ao dobrar a esquina.
No Inverno usava chapéu preto, de aba larga.
Os lábios sempre vermelhos.
Que bem estava para idade.
Deixou de sorrir ao cumprimento e de entristecer ao dobrar a esquina.
Na Primavera, era uma mulher sem idade.

Licínia Quitério

13.12.20

DEZEMBRO

 



Dezembro, mês de folhas afogadas nas bermas onde agora ninguém passa. Mês das romãs do nosso calendário com seus bagos de sangue à espera da explosão.
Dezembro de velhas estrelas nas hastes das corças para que aconteça um estrépito na noite.
Mês de florestas violadas nos últimos incêndios onde o verde é uma lenda do setentrião.
Em Dezembro fala-se da morte para que tudo renasça.
É o tempo para uma gargalhada a assombrar os gestos da cidade. Licínia Quitério

28.11.20

MÃOS

 


Nas minhas mãos nascem caminhos
por onde o sangue corre
a levar recados do coração.
Sei de borboletas que ali flutuam
porque o bater das asas se anuncia
no tremor da pele.
Digo borboletas
mas poderia dizer antigos sonhos
que não desistem de adejar.
Digo das mãos
para dizer trabalhos nunca acabados,
na orla das grandes tempestades,
à entrada dos túneis imensos
com uma sombra ao fundo.
Digo mãos
como se amor fosse
a mão a acenar a outra que passa,
branca e fugidia,
nas noites de lua nova.

Licínia Quitério

15.11.20

DESERTAS AS CIDADES


Desertas as cidades

quando todos faltaram

ao encontro com o medo

e a derrota

Nem a voz dos cães

nem o restolhar das folhas

Nada soa nas paredes das casas

Nem o respirar dos velhos

nem a risada dos novos

Cidades prisioneiras

de gente prisioneira

do silêncio novo

encomendado e servido

em bandejas de cobre

oxidadas de verdete e malícia

Cidades programando a ruína

desprezando a gente e os seus lamentos

alimentando a lassidão ou o desespero

a raiva ou a desistência

num bailado incoerente

estúpido e silencioso

Não há traço de morte nas cidades desertas

Vivem o seu prelúdio da loucura


Licínia Quitério

1.11.20

MARÉ

 



não posso escrever sobre o sal

como se fosse areia
uma rocha é uma rocha e não posso
esmagá-la com os dedos desta mão
não posso escrever medo
com as letras todas do amor
no tempo do impossível
tudo é o contrário de si mesmo
e a minha vontade pouco conta
contra o muro invisível
da tormenta
tudo muda e tudo permanece
entre o longe e o perto
apagou-se a distância
não posso escrever porque não sei
o inacessível alfabeto
da silenciosa impiedosa maré

Licínia Quitério

arquivo

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