21.12.21
MAR
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10.12.21
QUASE
Um pássaro deixou tombar um fruto
ou o vento embalou uma semente,
um quase nada.
Vi da terra sair um gomo verde,
ainda quase nada.
Percebi tua vontade de crescer
e dei-te terra, água.
Mostraste flores singelas,
quase nada.
Os grãos de pólen convocaram as abelhas.
Os frutos vieram minúsculos,
quase nada.
A vida nos juntou e foste
a minha árvore sem nome,
quase tudo.
Licínia Quitério
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22.11.21
A CONSTRUÇÃO
A gente constrói.
A gente constrói-se.
A gente reconstrói.
A gente reconstrói-se.
Nas fundações da construção, os braços da ruína.
A gente teima.
A gente diz que este não é o tempo da ruína.
Constrói, reconstrói.
A gente ilude o tamanho do tempo.
Constrói, reconstrói.
Constrói, reconstrói.
Licínia Quitério
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11.11.21
OS MALDITOS
Caminham sempre até os pés se gastarem, até se perderem dos filhos, das mães.
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8.10.21
A ESTRADA
Na estrada longa, o nosso carro de sol e chuva
segue a viagem de conhecer, esquecer.
Passageiros sobem, passageiros descem.
Sinuosidades encobrem as margens
e apagam quem nelas caminhou e se perdeu.
Indelével, a memória dos vivos e dos mortos.
Revelados são os nomes dos passageiros
que continuam no carro, invisíveis,
testemunhas da inacabada solidão.
Todos os caminhos vão dar a Roma, dizia-se
quando o mundo era o tamanho da cidade.
Neste tempo sabemos que todos os caminhos
vão dar a uma cidade de nome Vida e o seu contrário.
Licínia Quitério
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7.10.21
MADRUGADA
Acordou cedo e saiu para a sua tarefa
de saber a madrugada.
A neblina esbatia os contornos das casas, das árvores,
das coisas que os humanos penduram
nos fios tensos de amarrar os dias.
Fitou o lugar donde lhe vem o medo e deteve-se,
musculada e avolumada.
Só o recorte das narinas fremia,
ao ritmo do coração.
É um ser animado,
no seu primeiro cuidado de defender a vida.
Escolheu-me para habitar com ela,
para viver como ela,
para ser ela, se quiser.
Sendo ela, espero aprender a prezar as madrugadas.
Licínia Quitério
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6.10.21
APRENDIZAGEM
A aprender o silêncio, o murmúrio,
a fala, o grito,
a voz e a sua negação.
Tudo.
Na minha aprendizagem, a ajuda
do pequeno visitante de corpo alado,
de penas cinzentas,
a espiar-me por entre a folhagem do salgueiro.
Sem nome, o meu espreitador,
que nome também não tem
a minha invenção
da liberdade.
Não se demora na lição do dia.
Parte desenhando no azul
a sua escolha do silêncio,
da vastidão.
A procurar merecer o seu ensinamento.
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5.10.21
CLARO-ESCURO
De luz e sombra cobrem-se os dias dos homens.
Porque não têm memória de outras estrelas
afincam-se a guardar a luz do sol
nos olhos, nas mãos, no coração.
Na noite escura, quando o frio e o medo
assomam ao rés do corpo,
dizem baixinho,
meu amor minha luz,
e acende-se um raio de futuro.
No dia claro, alimentam-se de lembrança
de outras luzes
e dizem a meia voz,
meu amor meu natal.
Assim sempre, a vida clara, a vida escura.
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2.10.21
O PRINCÍPIO
Nas manhãs de sábado podem acontecer
vulcões por dentro do silêncio.
O nosso corpo-corpo e o nosso corpo-Terra
a construírem cenários do princípio.
Fixamo-nos no tempo
em que tudo se preparava para nos receber,
a casa já firme, o máximo e o ínfimo ao nosso dispor.
Ainda os deuses não tinham nascido,
ainda o medo não se mostrava.
Ainda o corpo-corpo e o corpo-Terra
não se tinham separado,
a lava ainda não tinha arrefecido,
mas as lutas da água e do fogo
eram já o anúncio do eterno jogo
entre o princípio e o fim.
Os deuses aguardam que os inventem
quando o medo rugir no corpo-Terra.
Licínia Quitério
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30.9.21
TRILHOS
para lembrar os dinossauros
entretanto construímos novos trilhos
a afirmar nossas pegadas
poucos anos durará
a flor que somos
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24.9.21
VARIAÇÕES SOBRE O CORPO
Há lá maior intimidade do que esta
a que o corpo nos liga todo o tempo
sem pedir licença, sem fingir.
É a total pertença, nós com o nosso corpo
de que nada sabemos a não ser
que um dia ali não estará.
Dois pés são instrumentos para nos ensinarem
os metros do corredor e depois a largura da rua
e, se houver para tal força e vontade,
a contar os degraus da escada,
avançar um pouco mais e abarcar o labirinto.
Só não saberemos onde começaram
e irão acabar os nossos pés,
se é que alguma vez foram os nossos.
Falam dela como se de pano ou vela
ou parte inteira se tratasse
e nunca véu ou escama ou marca de água.
Pele devem dizer, como nascimento,
ou crescimento ou acrescento ou, em tempo seco,
outra estação que chega e só ela saberá
que seda, que beijo, que mortalha.
O corpo constrói-se. Reconstrói-se.
Nas fundações da construção
multiplicam-se os braços da ruína.
Licínia Quitério
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23.9.21
O ROSTO
O rosto. A gente sabe lá o que é o rosto, o nosso rosto.
Quem o viu chegar e à luz o percebeu
não saberá quem é, quem será, por quanto tempo.
Pode até acontecer que se esqueça de si,
do tal rosto que os outros olham
e que ele de verdade nunca viu.
Um dia mostram-lhe um espelho,
põem-no ali mesmo de fronte.
A mão do rosto aflora a superfície fria e pergunta
quem é que tem um rosto assim, quadriculado,
parece que vai desmoronar.
Ficam a olhar-se, como se fossem dois e perguntassem
Quem é esta figura tão igual, tão desigual.
Sabem-no ambos, mas guardarão segredo.
Licínia Quitério
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21.9.21
A FIGURA
Em jogos de luz e sombra, inquietos,
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20.9.21
MUTANTE
Perdemos o antigo saber da mão na mão,
os dedos enlaçados, o aperto leve,
nascente o suor maninho.
Da boca a boca, já pouco sabemos,
só a lembrança de uma certa fala
nascida talvez no coração.
Do abraço, tão perto o braço,
esquecemos o formato.
Passámos a dizer infindo laço que tivemos.
A pouco e pouco o corpo vai morrendo.
Ai de quem se atreveu a dizer
eu sou, eu estou, eu ficarei.
Havia de vir um ladrão maior que os outros,
embora o mais pequeno, o mais mutante.
Aí o temos, enquanto formos o que somos.
Licínia Quitério
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19.9.21
REGRESSO
Não há regresso.
Escusas de dizer eu já fui assim e assim hei-de regressar.
Confortas-te a pensar no sorriso que foste,
no olhar sempre aberto,
pricipalmente nas mãos de luar.
Dizes, tudo volta a ser o que já foi.
É só esperar o vento suão.
Não te iludas, eu aprendi há pouco,
disse-te, não há regresso.
Quando tudo parece caminhar em frente
até fechar o círculo,
eis a rocha que estala,
o sopro que arremessa
e tudo fica igual a nada
apenas porque o tudo e o nada se contêm.
Só há regressos simulados.
Aprendi há pouco, eu avisei-te.
Licínia Quitério
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18.9.21
MADRUGADA
Acordou cedo e saiu para a sua tarefa de saber a madrugada.
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