Mudar é o verbo que tudo faz crescer.
4.8.21
MUDAR
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O POÇO
Na gola do poço as pedras
polidas pelos anos dos homens.
Curva contra curva, as pedras amparam
a coxa, a cintura, o bojo do ventre
de quem se abeira, se atreve, se inquieta.
Logo abaixo, no côncavo dos muros,
as avencas são o verde, a frescura,
o recorte miúdo da ternura.
Depois, a escuridão dos fundos,
cama de águas, espelho negro,
tentação e eco de velhos medos.
Se a nascente secar, o lodo guardará
a memória da água que dizia
a figura dos homens debruçados
nas pedras polidas, acima das avencas,
do fundo temerosos, desejosos.
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20.2.21
IMAGINAÇÃO
Escusas de chamar por mim.
Hoje não estou para ninguém.
Podes gritar que eu não te oiço.
Faço de conta que fiquei surda de repente.
A campainha da porta não para de tocar
ou são os ecos de toques passados
que hoje se lembraram de soar.
Não vou abrir.
Mesmo que quisesse não podia.
Mudaram a fechadura e eu distraída deitei fora a chave.
Não atendo o telefone ou se atender digo
enganou-se no número aqui não mora ninguém.
Se tocares de novo eu desligo.
Se chamares da rua eu sei que não é comigo,
nunca tive aquele nome.
Dantes havia o quadro preto na parede.
A giz alguém escreveu a tua história, a minha.
Isso sou eu a imaginar uma história que ninguém escreveu,
num quadro preto que nunca foi pendurado
na parede que não havia.
Foi a imaginação que criou este dia
em que não estou para ninguém
como se alguém não parasse de chamar por mim.
Licínia Quitério
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23.1.21
PERDIDOS
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18.1.21
NÃO PASSARÃO
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5.1.21
ABSURDO
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1.1.21
LONGE
E o Mundo fez-se espanto
E o espanto fez-se medo
Montámos o cerco
Dentro dele gaiolas
Os pássaros entravam
E saíam
E nós no lugar deles
Espantados
Temerosos
Ignorantes
Esperávamos
No silêncio
Pensávamos distância
E o perto fez-se longe
Licínia Quitério
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28.12.20
LADAINHA PARA O ANO NOVO
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22.12.20
A IDADE
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13.12.20
DEZEMBRO
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28.11.20
MÃOS
Nas minhas mãos nascem caminhos
por onde o sangue corre
a levar recados do coração.
Sei de borboletas que ali flutuam
porque o bater das asas se anuncia
no tremor da pele.
Digo borboletas
mas poderia dizer antigos sonhos
que não desistem de adejar.
Digo das mãos
para dizer trabalhos nunca acabados,
na orla das grandes tempestades,
à entrada dos túneis imensos
com uma sombra ao fundo.
Digo mãos
como se amor fosse
a mão a acenar a outra que passa,
branca e fugidia,
nas noites de lua nova.
Licínia Quitério
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15.11.20
DESERTAS AS CIDADES
Desertas as cidades
quando todos faltaram
ao encontro com o medo
e a derrota
Nem a voz dos cães
nem o restolhar das folhas
Nada soa nas paredes das casas
Nem o respirar dos velhos
nem a risada dos novos
Cidades prisioneiras
de gente prisioneira
do silêncio novo
encomendado e servido
em bandejas de cobre
oxidadas de verdete e malícia
Cidades programando a ruína
desprezando a gente e os seus lamentos
alimentando a lassidão ou o desespero
a raiva ou a desistência
num bailado incoerente
estúpido e silencioso
Não há traço de morte nas cidades desertas
Vivem o seu prelúdio da loucura
Licínia Quitério
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1.11.20
MARÉ
não posso escrever sobre o sal
como se fosse areia
uma rocha é uma rocha e não posso
esmagá-la com os dedos desta mão
não posso escrever medo
com as letras todas do amor
no tempo do impossível
tudo é o contrário de si mesmo
e a minha vontade pouco conta
contra o muro invisível
da tormenta
tudo muda e tudo permanece
entre o longe e o perto
apagou-se a distância
não posso escrever porque não sei
o inacessível alfabeto
da silenciosa impiedosa maré
Licínia Quitério
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1.10.20
POEMA MILITANTE
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25.9.20
21.9.20
VERÃO
Anda por aí, de porta em porta, em despedidas.
Não é como o pai natal.
No saco não traz presentes
mas ameaças.
Diz, envolto num pano de vento:
Portem-se bem,
não abram os armários da ternura,
esqueçam tudo o que aprenderam sobre o amor.
Se assim fizerem,
voltarei para o ano a visitar
as vossas cidades de gelo.
Há quem lhe chame o medo.
É apenas um Verão
que aprendeu a mentir.
Licínia Quitério
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5.9.20
HAVEMOS DE VOLTAR
Havemos de voltar deste degredo
com a bagagem que guardámos
a salvo da inclemência e da usura.
A nossa pele terá envelhecido
esquecida do calor do outro corpo.
Proibida a volúpia
as nossas mãos serão maiores
porque espalmadas longo tempo
nas coxas, nas mesas,
nos vidros das janelas.
Na aprendizagem das fronteiras
soletrámos medo com as letras
que dantes nos diziam amor
ou ousadia.
Havemos de voltar da guerra
sem saber para que servem
os braços ou os lábios
a não ser para funções de sobrevida.
Por muito tempo havemos de temer
o irmão, a mãe, o filho,
todos capazes de nos matar
com a arma invisível
que o seu sangue transporta.
Voltaremos do palácio da demência
à casa donde nunca saimos
e nada contaremos da viagem.
Licínia Quitério
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18.8.20
O POEMA
Palavras chegam, limpas, arrumadas,
segundo a ordem natural da fala.
Estranho despertar, com o poema
oferecido, desnudo, cruel, maravilhoso.Obscuro o poder das palavras na pele
que de lágrimas se faz quanto de força.
Agradeço e aceito e amaldiçoo o poema.
Com ele vou pelos caminhos do dia,
a desbravar o tédio e os silvados.
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