21.9.21

A FIGURA

 Em jogos de luz e sombra, inquietos,

os espelhos mostram a figura
que será a nossa e aos outros exibimos.
Somos o orgulho de quem se julga eterno.
A figura caminha e vai mudando,
mas nós continuamos altivos,
seguros da permanência da luz
no desenho perfeito do que somos,
do que continuaremos a ser.
O dia chegará de o espelho devolver
as rugas da mãe, a palidez do avô.
A desfigura avança, encolhe, entorta,
assusta quem se julgou o figurante,
o caminhante da beleza,
os braços da alegria ao seu dispor.
Um vapor branco vai dominando o espelho,
apagando o rasto do orgulho,
até que estala o apagão
e nada mais importa ao figurante que passou.

Licínia Quitério

20.9.21

MUTANTE

 Perdemos o antigo saber da mão na mão,

os dedos enlaçados, o aperto leve,

nascente o suor maninho.

Da boca a boca, já pouco sabemos,

só a lembrança  de uma certa fala

nascida talvez no coração.

Do abraço, tão perto o braço,

esquecemos o formato. 

Passámos a dizer infindo laço que tivemos.

A pouco e pouco o corpo vai morrendo.

Ai de quem se atreveu a dizer

eu  sou, eu estou, eu ficarei.

Havia de vir um ladrão maior que os outros,

embora o mais pequeno, o mais mutante.

Aí o temos, enquanto formos o que somos.


Licínia Quitério


19.9.21

REGRESSO

 Não há regresso. 

Escusas de  dizer eu já fui assim e assim hei-de regressar.

Confortas-te a pensar no sorriso que foste,

no olhar sempre aberto,

pricipalmente nas mãos de luar.

Dizes, tudo volta a ser o que já foi.

É só esperar o vento suão. 

 

Não te iludas, eu aprendi há pouco,

disse-te, não há regresso.

Quando tudo parece caminhar em frente

até fechar o círculo,

eis a rocha que estala,

o sopro que arremessa

e tudo fica igual a nada

apenas porque o tudo e o nada se contêm.

 

Só há regressos simulados. 

Aprendi há pouco, eu avisei-te.


Licínia Quitério



18.9.21

MADRUGADA


 Acordou cedo e saiu para a sua tarefa de saber a madrugada.

A neblina esbatia os contornos das casas, das árvores, das coisas que os humanos penduram nos fios tensos do correr dos dias.
Fitou o lugar donde lhe vem o medo e deteve-se, musculada e avolumada.
Só o recorte das narinas fremia, ao ritmo do coração.
Como qualquer ser animado, no seu primeiro cuidado de defender a vida.
Escolheu-me para ser igual a ela.
Ensinou-me a prezar as madrugadas.

6.9.21

AS FALÉSIAS

 


Ontem eu andava na aprendizagem do Verão
e nos meus olhos não cabiam pedras gastas.
Hoje os mesmos olhos dizem
que as falésias envelheceram
e já não ensaiam esfinges no perfil.
Fartas de céu, deixam rolar as pedras.
Deitam-nas no chão que os homens vão pisar.
Eles não hão de perceber
a decadência das falésias.

Licínia Quitério

1.9.21

A MORNIDÃO DOS DIAS

A mornidão dos dias que nos cabem

nos anúncios de outono

é um bálsamo para as feridas do incêndio.
O nosso corpo abranda
a indecência da febre, da doença.
Saboreamos um intervalo que pode ser
uma linha de partida ou de chegada.
Confundimos os sonhos com a beleza
dos crepúsculos.
A ombreira da porta conhece o nosso desamparo,
chama-nos, mas recusamos a oferta.
Preferimos balançar. Sabemos da queda,
mas no outono tudo se esquece.



Licínia Quitério

20.8.21

UMA PEQUENA LUZ


 Uma pequena luz

Uma luz pequena e nova Nascida no bosque Na verdura do bosque Aguarda ser colhida Colhida e guardada Numa mão fechada Uma mão sem medo das fogueiras Uma mão capaz de segurar uma bala De segurar outra mão Consumada a colheita Da luz pequena e nova A mão que sem temor lhe tocou e a guardou Será candeia archote fogaréu A iluminar a cegueira dos olhos O negrume dos becos Os rostos gradeados das mulheres Era uma pequena e nova luz Na verdura do bosque Licínia Quitério

12.8.21

BALADA DA PORTA FECHADA

 É a porta fechada

dessa casa assombrada
no dizer das mulheres
ligeiras no andar.
E o vento a sussurrar:
Vai chegar vai chegar
o tempo de arrombar
essa porta fechada
dessa casa assombrada.
E a mulher a pensar:
É comigo é comigo
que ele está a falar.
Amanhã vou voltar
rente à casa passar
o meu ombro encostar
à ombreira da porta
baixinho perguntar:
Quem foi que te assombrou?
Quem foi que te fechou?
E a casa a responder:
Alguém que não gostou
da luz que em mim brilhou
e esta porta fechou
e sobre mim espalhou
este manto de sombra
e as mulheres afastou
e os homens afastou
e o medo semeou
e desde então ninguém
junto de mim passou
nem sequer reparou
que a luz não se apagou
e às vezes é luar
e às vezes nevoeiro
e às vezes é braseiro
a descair no mar.

A mulher despertou.
Não sabe se sonhou
mas pela casa passou
e a porta estava aberta
e lá dentro era dia
e o vento sussurrou:
Foste tu que passaste
contra o medo lutaste
e o teu ombro apoiaste
na ombreira da porta
que não mais se fechou.
Foste tu que mataste
a sombra que assombrou
a casa que voltou
a ser luz a ser guia.

E a casa sorria.
E a mulher sorria.

Licínia Quitério



10.8.21

OS HOMENS SÃO ASSIM

Há uma parede de silêncio

Uma casa vazia

Uma rua deserta

Um país sem nome

Aqui nasceram incêndios

Avalanches

Derrocadas aflições

Tudo passa é sabido

Amanhã tudo será diferente

Os homens são assim

Feitos para esquecer

O mal que fizeram

O mal que lhes fizeram

E também

O tamanho das casas

A cor das ruas

O antigo nome dos países

A parede de silêncio

Os homens são assim

Regressam refazem

Recomeçam a construção

Inauguram o mundo

Como se renascessem

Sempre


Licínia Quitério

4.8.21

MUDAR

 Mudar é o verbo que tudo faz crescer.

Repara na flor que em fruto se mudou
E o grão da espiga que em pão se tornou
E o riso desbragado a mudar, a estalar.
E tu a escreveres palavras que se mudam
E te mudam.
E tu que tão bem sabes quanto cresces
Quando alguém te censura dizendo que mudaste
Não mudes, continua assim, pequeno e leve,
Suave e claro. Não tens asas que subam. Fica.
Deixa lá o verbo pensar que tudo faz crescer.
O que tu és por dentro não se muda.

Licínia Quitério

O POÇO

 Na gola do poço as pedras

polidas pelos anos dos homens.

Curva contra curva, as pedras amparam

a coxa, a cintura, o bojo do ventre

de quem se abeira, se atreve, se inquieta.

Logo abaixo, no côncavo dos muros,

as avencas são o verde, a frescura,

o recorte miúdo da ternura.

Depois, a escuridão dos fundos,

cama de águas, espelho negro,

tentação e eco de velhos medos.

Se a nascente secar, o lodo guardará

a memória da água que dizia

a figura dos homens debruçados

nas pedras polidas, acima das avencas,

do fundo temerosos, desejosos.




20.2.21

IMAGINAÇÃO

 


Escusas de chamar por mim.

Hoje não estou para ninguém.

Podes gritar que eu não te oiço.

Faço de conta que fiquei surda de repente.

A campainha da porta não para de tocar

ou são os ecos de toques passados

que hoje se lembraram de soar.

Não vou abrir.

Mesmo que quisesse não podia.

Mudaram a fechadura e eu distraída deitei fora a chave.

Não atendo o telefone ou se atender digo

enganou-se no número aqui não mora ninguém.

Se tocares de novo eu desligo.

Se chamares da rua eu sei que não é comigo,

nunca tive aquele nome.

Dantes havia o quadro preto na parede.

A giz alguém escreveu a tua história, a minha.

Isso sou eu a imaginar uma história que ninguém escreveu,

num quadro preto que nunca foi pendurado

na parede que não havia.

Foi a imaginação que criou este dia

em que não estou para ninguém

como se alguém não parasse de chamar por mim.


Licínia Quitério

23.1.21

PERDIDOS



Que foi que nos aconteceu,
país de fado e saudade e poetas e visionários?
País de frases feitas, não há-de ser nada,
não há mal que sempre dure,
e tudo está a acontecer
e não se sabe como nem quando acabará.
"Pode haver quem te defenda
quem beije o teu chão sagrado
mas a tua vida não."
Perdidos no labirinto, estamos.
Como seremos depois do pó, das cinzas?
Um povo somos igual a outros mais,
mas a si mesmos desiguais.

Licínia Quitério

18.1.21

NÃO PASSARÃO

 


Daqui desta Lisboa à beira Tejo
Daqui deste silêncio feito pedra
Desta tristeza vil sem ter poetas
Daqui eu vejo o antes e o agora
E o depois em palco de neblina
E eu tremo e conto histórias
Que ninguém quer ouvir
Mas a voz que me guia não desiste
E solto imprecações e solto versos
Que outras armas não tenho
Senão a liberdade de gritar
De pé, meu pobre coração
Eles não passarão

Licínia Quitério

5.1.21

ABSURDO

 


Este sol absurdo
a incandescer telhados
e vidros das janelas
e nós absortos
perguntamos
quando será aberta a praia
aberto o mar
para podermos navegar
quando seremos mão da outra mão
pele da outra pele
e o sol absurdo brilha
e faz brilhar a onda
a escama
a fruta do inverno
e nós absortos
vamos enrouquecendo
sem o mel na voz
vamos esmorecendo
sem o sal na pele
e este sol absurdo
a iluminar a praia
e nós absortos
sem poder navegar

Licínia Quitério

1.1.21

LONGE

 


E o Mundo fez-se espanto

E o espanto fez-se medo

Montámos o cerco

Dentro dele gaiolas

Os pássaros entravam

E saíam

E nós no lugar deles

Espantados

Temerosos

Ignorantes

Esperávamos

No silêncio

Pensávamos distância

 

E o perto fez-se longe


Licínia Quitério

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