2.3.11
PODIA DIZER-TE
ou a alegria envergonhada das ramadas,
ou as vozes dos amigos esboçando um fado,
ou a nostalgia das bandeiras reclamando pátrias,
ou ainda as casas, sim, as sábias, astutas casas
debruadas de amores e perdições.
Podia até pintar uma aguarela, ou escrever um poema,
ou modelar um rosto, ou compor um adágio,
ou soltar um grito, ou correr, ou saltar,
ou abraçar-te, ou lançar um papagaio de papel
e depois dizer-te: Vês, eu não sei nada. Ou então:
Que queres de mim? Ou (porque não?): Amo-te.
Não podia dizer o coração da terra
nem a esperança fechada nas mãos dos homens
quando sofrem.
Licínia Quitério
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18.2.11
CONVITE
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13.2.11
DEIXEM-ME
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4.2.11
UMA COR
A voz do meu amigo é da cor do canto dos riachos de margens muito antigas, polvilhadas de amoras e silêncios.
A pele do meu amigo é da cor da ardência do deserto e do arrepio da tundra.
O sangue do meu amigo tem a cor dos sonhos dos homens, das estrelas moventes, não cadentes, da respiração dos escravos, ao longe.
Uma cor, duas cores, sete cores, até ao pote de ouro, ao coração da terra, ao bicho cego, ao prenúncio do verde.
Uma cor, uma só cor, a maior, a mais serena de todas as cores, aqui à mão, aqui ao peito.
Uma bandeira contra o negro.
Pobre de quem não sabe
a cor do amor,
igual ao mar
de amar.
Licínia Quitério
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25.1.11
TENS DE SENTIR
tens de acreditar na dança diurna das estrelas.
não terás outra vantagem para o amor.
duvida sempre da perenidade das águas no teu rio,
da persistência da alegria no teu andar de corça.
tens de estar atenta ao calendário das marés
se queres saber a soma dos teus passos.
olha as chagas nos ombros da velhice e,
se vires a fragilidade das perpétuas roxas,
foge da vidraça e espera o riso.
ele há-de passar rente à janela.
depois enrola-o no pescoço e diz
agasalho como se dissesses
recomeçar ou abrir os olhos no primeiro verão.
Licínia Quitério
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18.1.11
A MADRUGADA
De uma asa onde mora o inteiro pássaro.
Espero o vento cor de mel da manhã adulta, povoada de signos e augúrios, a soprar a poalha de amores nascidos no perfume do anoitecer.
Afirmo não saber o gosto das manhãs e sempre me confundir e dizer azul em vez de beijo, sanguíneo em vez de saliva, flor de zimbro em vez de baga, algodão e não canela ou camomila.
Tamanha é a minha esperança na asa, no pássaro novo, na espuma do dia claro, na força do vento morno.
Licínia Quitério
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11.1.11
UM POEMA DE AMOR
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3.1.11
O TEMPO
um tecido um contínuo um tropel
um oceano um buraco uma forma
uma cor um odor uma pele
um allegro um andante um nocturno
um prelúdio uma fuga um vibrato
um da vinci um magritte um azimov
um pas de deux um bolero um trapézio
o pescoço do cisne o olhar do leão
o tronco da sequóia a avenca a lentilha
a aurora boreal o furacão a neve
o desejo o delírio o repouso a vigília
uma esperança um contrato uma sorte
uma espera uma ausência uma morte
Licínia Quitério
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23.12.10
IMAGENS
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19.12.10
AJUDA-ME
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12.12.10
CAVALEIRO TRISTE
Também eu esgrimi contra gigantes
e a minha espada não quebrou
na dureza dos ferros.
O meu cavalo emagreceu
nos pastos sobrantes das batalhas.
Guardo nos olhos a cor do pó
igual a chão e céu.
Nos ouvidos o tilintar das armas
e os urros dos gigantes
nos átrios da loucura.
Se não salvei a pátria
engrandeci o sonho.
Por minha dama resisti
ao medo e à cegueira
e defendi os fracos.
À guerra voltarei se me chamarem
cavaleiro triste.
Gosto de me sentar no campo,
ao pôr do sol,
aqui onde venci gigantes
e o vento se fez pão
e o meu cavalo solitário dorme
e a voz de minha dama ao longe,
dulcíssima,
tecendo para mim o seu cantar de amigo.
Licínia Quitério
Foto da minha Amiga Bettips
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5.12.10
INVERNO
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27.11.10
ACREDITA EM MIM
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16.11.10
O CORAÇÃO DA PEDRA
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8.11.10
POR VEZES
Por vezes tudo se confunde. As minhas mãos
são sol dentro das tuas e há cintilações nos campos
do Outono onde se guardam nuvens e esmeraldas.
Por vezes tudo se transforma. O céu cansado
mergulha na película dos lagos e adormece
em sono leve rente aos limos e às memórias.
Há um rumor de passos de ninguém e um lamento
de aves sem canto nem asilo. Há um fim de tarde
suspenso nas ramagens das árvores do Verão.
Por vezes sou o Verão a suportar a casa.
Por vezes sou a casa e acolho a sombra.
Por vezes tudo se confunde e sou a sombra.
Por vezes.
Licínia Quitério
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30.10.10
TU SABES
Dizes que muito sabes quando te sentas na praia
e silente enfrentas céu e água e com eles relembras
artes de voar e marear como se fosses peixe
como se fosses pássaro. Conheces os fundos
das cavernas e a textura das algas que nomeias.
Já foste mastro e vela no tempo em que aprendeste
o odor e a cor dos ventos. Ouviste vozes que só
podiam vir de novas gentes. Partiste e foste casco
e abrigo de vontades, de ousadias. Foi a estrada
do mundo mulher nova que se abriu ao teu desejo
secular de possuir a terra e a fecundar. Gravaste
a ferro e sangue sinais de amor e dor nos campos
da conquista temerária. Sempre voltaste à praia
da saudade para entregar o oiro e as cicatrizes.
A mesma praia onde agora te sentas e entranças
memórias e acenas aos barcos e às gaivotas.
Perdido o oiro e o rumo, as terras saqueadas,
vais fingindo esperar o nevoeiro que não virá,
tu sabes.
Continuarás, imóvel, a inventar um sonho
possível como todos os sonhos, tu sabes.
Licínia Quitério
Respondendo a perguntas de alguns meus queridos comentadores, esclareço que todas as fotos que publico são minhas, salvo indicação em contrário. Sou assim a única responsável pela ousadia. Obrigada a todos.
Licínia
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Licínia Quitério
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22.10.10
DESASSOSSEGO
de gentes cabisbaixas, com a palidez no olhar.
Num raio de sol vem um farrapo de saudade
da outra cidade em que bebemos flores
e nos embriagámos. Imóvel a barcaça que fundeou
no cais e ali ficou disposta a recolher o que sobrou
desta gente traída, espoliada do sonho, do azul.
Guardadas as palavras bem no fundo do peito
não vá alguém roubá-las e devolvê-las decepadas,
prostituídas, insonoras. Desassossego é esta
abordagem do silêncio no dobrar das noites.
Dormentes sobre os retalhos de falas coloridas,
de abraços de oiro, de coração a coração,
vamos olhando o templo e os vendilhões.
Amanhã visitaremos a barcaça, mas desta vez
não partiremos. Havemos de ficar até que a rua
esteja limpa e acolha os nossos passos remoçados,
as nossas vozes prenhes das milenares sementes
da planta que só tem um nome: Liberdade.
Licínia Quitério
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14.10.10
ÁGUAS VIVAS
Estou só. Semicerro os olhos e vejo-te no longe,
a acenar. A tua mão é a corrente a que me prendo
por vontade, a demorar o tempo de partir.
Hei-de saber, amor, se nome tem esta batida
do meu coração dentro do teu. Vem para o pé
de mim. Senta-te no sofá que guarda a forma
do teu corpo intenso, com cheiro ao veludo das manhãs.
Fala-me mesmo que as palavras nada digam
a não ser o que sempre dissemos e continuaremos
a dizer até ao fim dos dias. Preciso da tua voz
no meu ouvido para saber o canto das marés.
Não tenhas pressa. Amanhã sairemos à rua
e seremos a febre de todas as lutas e abraçaremos
os amigos que não envelheceram, que não adormeceram
nos tapetes de flores. E nós, que nos amamos
para além do nevoeiro, há muito a encobrir a nossa rua,
beijar-nos-emos no meio da multidão, e o sol virá.
Seremos árvores até que delas fique não mais
do que um recorte em águas vivas onde repousa o céu.
Licínia Quitério
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8.10.10
VEM DA ÁGUA
Vem da água e do sangue e do fogo aceso
pelo amor quando penetra o mesmo amor.
De um minúsculo grão se faz um homem
e a sua história é sempre igual à história
de outro homem. Nos sentidos que houver
há-de saber o mundo, mas nunca saberá
onde começa e acaba a sua própria casa.
Será máximo e ínfimo, tão perto das estrelas
como do irmão distante. Uma águia no penhasco,
quando abraça a amada, uma ameba,
uma lama quando lhe foge o filho.
Um farrapo de rua ou um rei poderoso
- o nada igual a nada.
Mineiro de metais, de versos ou memórias,
perguntará aos retratos antigos a cor dos olhos,
a explicação das coisas simples fora da sua mão.
Lutará pelo oiro das sementes e pelo banho
de luar junto das ninfas em bosques de paixão.
Partirá sem certezas, sem moedas, sem pranto,
numa nau de viagem, para o destino maior.
Licínia Quitério
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3.10.10
DESFOLHO-ME
desfolho-me cansada de verão.
dispo-me. ofereço o corpo ao vento.
rasgo-me nas arestas da infâmia.
grito. e a minha boca é um prado ardente.
um animal sem nome. tenho sede e tenho
todos os rios da noite na cintura.
respiro. ou não. estou viva. já pari todos
os filhos de ninguém. estou só. como tu.
como todos. quero tombar como
os plátanos. com as raízes hão-de vir
as casas com gente dentro. sou cruel.
amo. amo tudo o que houve antes de mim.
tenho cheiro de lírios de caminhos.
sou pura. amo tudo o que sei e o que não sei.
libertei todos os bichos. abri gaiolas e jaulas.
tenho fome. nenhum manjar me serve.
já comi mirtilos e coentros e maçãs.
isso foi no tempo de correr os campos.
fui gazela. nunca os leões me feriram.
sou mansa. sou fúria. saiam da minha rua.
estou nua e canto. não sou pedra. sangro.
reclamo as jóias do futuro. que virão.
sou sibila.
Licínia Quitério
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