A água desistiu dos cântaros.
No novelo dos dias por contar
os caminhantes da fortuna
tecem mantas
de aconchego e perdição.
As velas ardem a alumiar a estrada.
Talvez esse Poema que todos procuramos um dia assome a esta janela
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Licínia Quitério
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De que serve um poema
se não for também sangue também ferida
se não disser da esperança assassinada
da negra solidão dos precipícios
Que poema desgraçado será
o que disser amor e não souber
o seu odor a mar o seu toque
que do cardo faz cetim
Um poema tem de crescer por dentro dos escombros
a salvar as crianças soterradas
Se não souber de guerras cale-se o poema
Se não souber de paz também se cale
Um poema indiferente
que não souber dizer senhora liberdade
não servirá de estrada não voará
mesmo que diga ave da madrugada
Os homens precisam de poemas
que digam carne e soluço
desfaçam vendas e amarras
abracem os nascidos e os que vão nascer
Poemas haja de vida e morte
que digam princípio e fim
por isso o caos e a ordem
por isso a sorte e a contradita
Um poema virá do novo tempo
a desfazer a tempestade
com a força das sílabas sonoras
a anunciar o reabrir da claridade
Licínia Quitério, na antologia "Numa rua completamente às escuras movem-se estes versos"
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quero passar a fronteira
trago comigo
fechado neste saco
o pouco que aprendi
na mala a abarrotar
a teimosia de viver
mais nada a declarar
a não ser
senhor agente
este frasco a cheirar
às mãos da minha mãe
em afago permanente
senhor agente
vou dizer-lhe um segredo
uma fronteira é um traço
num mapa
é só passar um dedo e apagar
não conte a mais ninguém
e deixe-me passar
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Vai passar vai passar a tempestade
Escuta o discurso do vento
Recolhe a folha seca
Com um recado inscrito
Podes não ter aprendido
A linguagem das nervuras
Mas elas conhecem
O desenho da tua mão
A voz do vento dir-te-á
Um nome que esqueceste
Numa conversa de outro tempo
A chuva canta no parapeito
Um cânone de outras paragens
A tempestade vem e vai e voltará
Tu continuarás sem entender
A impermanência dos dias da bonança
Licínia Quitério
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A aranha tece a teia
No seu labor de carcereiro
A mosca toca os fios
Da frágil fortaleza
Aprende a imobilidade
Não percebeu a sedução
Da irradiante geometria
A aranha guarda o visco
Que nos ata nos mata
Somos apenas moscas
Licínia Quitério
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1:33:00 p.m.
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Estremece, a casa velha.
Vai soltando pedras.
Nem o musgo as sustem.
Outro o desenho da cal.
Fissuras vão abrindo
A porta ao esquecimento.
Na hora de tombar
Cumpre-se, a casa velha.
Licínia Quitério
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10:31:00 a.m.
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A vassoura, com sua haste altiva,
varria, que para isso vassoura foi criada.
Empunhada a preceito, que tudo tem de ter sua mestria,
varria o pó acumulado nas dobras dos degraus.
Cuidados de enfermeira, digamos maternais,
pouco usuais em tempos imperfeitos.
Quem dera ser degrau que alguém subisse
e fosse acumulando sombras pelos cantos.
Vassoura chegaria, que mesmo para ela tempo há,
e varreria, eficaz, por vezes a roçar uma carícia,
os restos que até lá fossem parar
para que degrau de pedra pessoa se sentisse.
Licínia Quitério
Mafra, Dezembro de 2005
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12:15:00 p.m.
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Tenho o vício dos teus olhos
das tuas mãos em tremura
da tua boca de seda
escaldante como o carvão
na minha lareira acesa.
Da tua voz registada
no meu ouvido profundo.
Tenho o vício de te ver
em memórias de veludo
nas sementes espalhadas
pelas flores que não cuidei.
Tenho o vício de sentir
as dores que não rejeitei.
Tenho o vício de cheirar
campos que não cultivei.
Tenho o vício de voltar
a caminhos que não pisei.
Tenho o vício de me rir
do choro que já chorei
e o vício da solidão
que me envolva de lembranças
das andanças que vivi.
Tenho o vício de escutar
segredos que me contaram
e aqueles que não contei.
Mais do que toda a virtude
é água pura a correr
o vício de te querer
sabendo que te não quero.
Licínia Quitério, 2006
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Para além de nós ficam as mãos.
Com elas percebemos e palpamos
e moldamos o ar que respiramos.
As carícias, mesmo as que não demos,
fazem das mãos a nossa eterna idade,
a nossa infância a tactear o mundo.
Com elas nos prendemos ou soltamos
e falamos mais fundo do que as vozes.
São as mãos que nos marcam a presença.
Talvez não mãos, mas asas ansiosas
sempre à espera do voo nas alturas.
Há belas mãos, inteiras, tão galantes,
mãos de príncipe a desbravar silvados,
sem se doerem inda que o sangue aflore.
Pelas mãos nos perdemos e achamos.
Onde elas chegam chega o nosso amor.
Licínia Quitério, 2005
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9:22:00 a.m.
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4:45:00 p.m.
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Alguém pediu ajuda.
Ou foi o murmurar da água do ribeiro?
Ou o rumorejar das hastes do salgueiro?
Ou o cão a pisar folhas mortas de Outono?
É um choro de criança ao abandono?
É o lamento de um pobre esfomeado?
É a raiva do peixe picado pelo anzol?
É mulher a parir desamparada?
É um andar peregrino?
Uma onda de mar que se perdeu do sal?
Um pássaro do norte que se perdeu ao sul?
Um abraço sem força que se perdeu do amor?
Uma palavra solta que perdeu o sentido?
Uma saudade do amigo distante?
Uma dor sem remédio?
Uma flor despedida pelo vento do jardim?
Um sorriso sem rosto onde possa habitar?
Uma voz desgarrada sem saber ecoar?
Alguém pediu ajuda.
Ou foi no meu ouvido o sangue a latejar?
Melhor partir, dormir ou fingir ignorar.
Licínia Quitério
Mafra, Fevereiro de 2006
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4:38:00 p.m.
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o mar embraveceu alevantou-se
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era outro o tempo
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