16.6.10
VOLTAS AO CAMPO
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14.6.10
AUTOBIOGRAFIA
Tudo passou por mim nas noites e nos dias:
a beleza dos corpos feitos de gelo ou brasa
fossem de gente ou ave ou seixo de riacho,
mudos como o luar ou com vozes de prata.
Eram bandeiras e choros e imprecações,
marchas negras de fome e arraiais e danças
e a ternura das mães e o desejo das mãos
e a deserção dos sujos e o abraço dos puros.
Houve também as paredes da casa e a janela
e a porta, como houve as minhas dores
recolhidas, fechadas. Aberta sempre a casa
a quem trouxesse o lume e a boa nova
ou precisasse de secar a roupagem dos olhos.
Com a fragilidade de um cristal de rocha
ou a exactidão e a força de uma teia de aranha,
por tudo vou passando e tudo em mim deixando
uma mancha de sol, uma breve lantejoula,
uma folha orvalhada, uma luz partilhada,
um amigo certo, uma palavra amada
e a loucura das rosas esquecidas do deserto.
Licínia Quitério
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10.6.10
CLARISSE 15
Foi esta uma maneira de contar a história de Clarisse, devoradora de passados e teimosamente construtora de futuros.
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8.6.10
CAMINHOS
Nos caminhos da sombra se acoitam nossos medos.
Ah não fossem as sombras como andariam loucos,
em desatino, a desfazer a nossa gargalhada, a desatar
o nosso abraço, a apagar o lume que o amor acende,
a ocultar os astros novos que as noites nos ofertam.
Libertos ficam os indícios das pedras que a outras
pedras nos conduzem, sempre mais amáveis, mais
redondas, mais lisas, mais conforme a lassidão do
nosso andar. E as cores, as cores, que nos traçam
os mapas na pele, nos olhos astrolábios, nas mãos
oceanos de gelo, lava de vulcões, nos braços a prata
do devir dos amantes, na boca o oiro com que
se beija um filho ainda por nascer ou já entregue
às pedras e aos medos e ao brilho imenso de viver.
Licínia Quitério
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6.6.10
PROVAVELMENTE
Provavelmente nada seria igual
se um tritão inda houvesse, meu amigo,
meu escravo, meu senhor, minha casa de mar.
Os tritões agora são de pedra,
nos lagos e nas fontes, fantasias
dos deuses depois da criação
de vaidades e ambições do tamanho do sol,
da via láctea ou da ínfima partícula
em que nenhum nome cabe para poder existir.
O tritão que eu sabia dos desenhos solares
que só as crianças constroem nas areias
era gentil e sorria quando eu o cavalgava.
Meu escravo, meu senhor, levava-me
a viver minha casa de mar com peixes
cor de luz e tudo o mais que eu não tive
que o meu amigo em pedra se tornou
e a criança assombrada na areia ficou.
Licínia Quitério
Apresento as minhas desculpas por, durante um tempo que espero breve, não visitar os vossos blogs, deixando os merecidos comentários. Grata pelas amáveis opiniões que sempre aqui fazeis o favor de expressar. Deixo-vos o meu terno abraço.
Licínia
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31.5.10
AS MENINAS
Eram meninas e brincavam.
Inventavam a floresta
e ela acontecia.
Foram meninas e brincaram...
Licínia Quitério
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24.5.10
SER ÁRVORE
Há um tempo que nos cabe
de sermos tronco adulto altivo
resistente à injúria e ao machado.
Raízes são olhares que deixamos
prender na solidão das casas
pejadas de gritos e abraços
e recados ao encontro do futuro.
Não me falem de ninhos, nem de sonhos,
nem de viagens, nem de contas-correntes.
Eu só quero ser árvore, ouvem bem,
árvore, com seivas elaboradas,
diligentes, cantarolando
uma húmida e suave barcarola.
Hei-de ter folhas rente ao chão
ao alcance da fome e da loucura
de quem sonhou demais e definhou.
Hei-de ter copa, sim, da matéria
das sombras que o luar constrói
na cal dos muros, nos caminhos da noite.
Depois serei colosso, serei lenho,
as seivas já sem canto, só soluço,
em debandada as sombras e os espectros.
Velha serei, mas árvore e deixarei,
viçosas, esperançosas, algumas
jovens folhas rente ao chão.
Licínia Quitério
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16.5.10
LADAINHA EM REDOR DE UM BÚZIO
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9.5.10
VISITAR O SÓTÃO
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30.4.10
LEMBRANÇAS DE UM MAIO
Vermelho, sim, como as papoilas
e os lábios quentes das mulheres
e o canto livre que de outra cor
não se fazia.
Vermelhas as roupagens
da liberdade que soava
e punha mãos em mãos
que não se conheciam.
Tão doce o amor nascido
de gestos improváveis
e olhares incendiados
como nunca se vira.
Nome não teve a festa
porque sem nome é tudo
o que é maior que o sonho.
Havia sede, uma sede imparável
e a água se oferecia
que tudo era sem preço nesse dia.
Cravos vermelhos havia
nas portas e nos braços
dos rapazes que sorriam
perdido o medo da alegria.
Era um clamor de passos
uma batida que ecoava
na quentura dos ares
e entontecia.
Era um rio de pássaros
de asas vermelhas
como o riso das moças.
E os poetas não pararam de dizer
a urgência da palavra
há tanto encarcerada e agora aberta,
inteira e ousada.
Ela também vermelha como o dia.
Licinia Quitério
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24.4.10
25 DE ABRIL de 2010
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17.4.10
DEMANDAS O ABRIGO
e nela o sono breve e inquieto.
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8.4.10
ANIVERSÁRIO
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4.4.10
O POEMA NÃO VEM
O poema não vem quando se chama
Desobediência é sua inclinação
ou seu jeito de ouvir é uma brandura
que só percebe falar de coração
Aguardarei que a pedra
lançada ao lago no anoitecer
regresse reluzente à minha mão
e se diga palavra ou vento ou amanhecer
Licínia Quitério
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24.3.10
LEVE A CARÍCIA
Leve a carícia deste sol de Março
com matizes de nuvens em farrapos
rasando as agudezas dos pinheiros.
Penso no sol de outras primaveras
e não sei se o que penso é somente
o desejo de alguma vez o ter sentido.
Observo os gatos em gestos obsessivos
de lavarem com sol o corpo inteiro
e é o meu corpo inteiro que se alonga
até às águas primevas da memória.
Um homem e uma mulher amam-se
desde o dia em que decidiram saber
se o amor que os outros dizem tem
o sabor de amoras rubras ou é tão só
a alegria de haver amoras nos caminhos.
Talvez eu esteja longe e tenha envelhecido
na contemplação das horas que não mudam
porque nada muda nem as dúvidas
que carregamos no côncavo do tempo.
De pouco serviria o afago deste Março
se a cicatriz do frio não morasse no longe
onde talvez eu tenha envelhecido
olhando um homem e uma mulher
que se amam decididamente na alegria
de amoras rubras em breves descaminhos.
Licínia Quitério
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15.3.10
É BOM HAVER COMBOIOS
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7.3.10
DERIVA
Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som das suas falas
que já nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais
As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Apeteceu-me reler Sophia. A das palavras claras que penetram no fundo do tempo. Sempre me encanta. Começo a sentir saudades dos poetas que escreveram na luz. Há por aí tanta escuridão, tanta fealdade, em jovens poetas talentosos. Sinais dos tempos, dizem-me. Sinto pena. Por eles, por mim.
Licínia Quitério
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26.2.10
AS DOCES MÃOS DA INFÂNCIA
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19.2.10
RUÍNAS
Na vila velha, a casa velha,
ou as veias nas fendas onde correm
trepadeiras de campainhas azuis
que sempre voltam com as andorinhas,
ou os gatos invisíveis nos parapeitos,
a lamberem feridas inventadas,
ou os restos teimosos da tinta verde
nas paredes da sala de jantar,
ou o frio respirar das lagartixas no beiral.
Lá dentro, uma tosse miúda, persistente,
ou um ranger de portas empenadas
ou os talheres a tilintar na mesa,
a abafar suspiros censurados,
ou os gritos do medo pelo escuro
ou tão só o piar do velho mocho
ou as correrias das crianças:
não me apanhas, não me apanhas…
Ali a casa ainda habitada
a alimentar ruínas.
Licínia Quitério "Da Memória dos Sentidos"
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12.2.10
O MAR IMENSO, DIZIA
O mar imenso, dizia,
como se dissesse sede de viagens.
A leveza das aves, dizia,
se o ar não se detinha no cálice das mãos.
As pedras robustas, dizia,
quando não sabia das areias
movediças, no jardim da casa.
Nos umbrais das esperas,
os frutos maduraram,
as crianças cresceram.
Já era velha a tarde
quando a estrada lhe pegou os passos,
duas gotas de orvalho nos cabelos,
uma lua de prata presa ao peito.
Foi a hora de aprender com as cigarras
o ofício de cantar a vastidão dos campos
e o breve breve tempo do Verão.
Licínia Quitério
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3.2.10
QUANDO A SOMBRA
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27.1.10
AMEI O VERÃO
Amei o verão e as sombras ofertantes
de grutas e desvãos e amáveis
copas aos tórridos amantes.
Imensa a praia onde me deitei
e mais ninguém pisou como eu pisei.
Eram então os dias em que o corpo
se vestia de carmim e açafrão
para receber o desenho dos pássaros
na frescura da lâmina da tarde
e a minha escrita era líquida e nua
a deixar-se tomar por peixes verdes
que um poeta andarilho me oferecera.
Foi claro e breve o tempo da inocência.
A praia essa continua imensa.
Licínia Quitério
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7:29:00 p.m.
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18.1.10
HAITI
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11.1.10
O GRITO
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3.1.10
COM O VENTO NO ROSTO
Com o vento no rosto e as mãos despidas
detemo-nos e escutamos
um murmúrio de vozes muito antigas.
Aos nossos pés tombam palavras
fatigadas de saberem tantos mares.
É quando as aves saem da paisagem,
um manto de espuma cobre a praia
e uma janela se abre sobre o tempo
que somos. O corpo esse nos sobra
dorido e persistente guardador
das marcas de água ou do nosso rasto.
Licínia Quitério
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8:24:00 p.m.
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27.12.09
BOM ANO
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12:08:00 p.m.
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18.12.09
OS SINOS
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6.12.09
VAI LONGE O TEMPO
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27.11.09
DA AUSÊNCIA
Podia dizer-te da ausência como quem morde a espuma ou apunhala sombras e afastar um sonho enroscado no pulso. Pegar na espuma e nas sombras e depô-las na paisagem com a leveza que as aves ensinam. Se eu caminhasse sobre os campos de neve e olhasse para trás e apercebesse um rasto verde de agulhas e um cheiro morno de incenso no altar da distância, quem sabe a ausência mais não fosse que uma garra cravada na garganta do inverno, dor provisória, amortecida, guardadora dos casulos da memória.
Licínia Quitério
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Licínia Quitério
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1:02:00 p.m.
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17.11.09
SE EU PUDESSE
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4:43:00 p.m.
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5.11.09
A ESCRITA DA CHUVA
A escrita da chuva é miúda, madrugadora, breve.
Escrita, apenas, livre da escravatura das palavras.
Quem sabe ler a sua transparência?
Quem lhe desvenda o verbo na liquida mudez?
Alguém falou do tempo efémero na cintura do dia,
de relâmpagos e árvores tombadas à entrada das cidades,
de cavalos fumegantes e do susto das donzelas na orla das planícies.
Nada a propósito da escrita da chuva no recorte do Outono.
Licínia Quitério
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Licínia Quitério
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9:19:00 a.m.
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29.10.09
NA ARESTA DA ÁGUA
Na aresta da água o canto dos corais.
Insone este mar de náufragos.
Na órbita dos barcos tudo é lume.
Desapossados do beijo das estrelas,
na praia nos quedamos e bebemos
azul em lâminas de sal.
Dói-nos a espada da infância sobre o ventre
e um menino lança contos de encantar.
Sobre o mar. Sobre a legenda do mar.
Licínia Quitério
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6:32:00 p.m.
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20.10.09
DESCALÇA VOU
Descalça vou pelos trilhos do sempre.
Levo na boca a aspereza das amoras
que os melros rejeitaram.
O meu bordão é de oliveira
e não floriu ainda.
Um passo é só um passo e a rocha é quente.
Os latidos dos cães me dizem a distância
e eu vou, descalça e firme e sequiosa.
Os adivinhos me dirão
a lonjura da fonte e a cama do ocaso.
Se me perguntam quem me doou
este manto de espuma e a verdura do olhar,
respondo:
Quem me fadou assim, descalça,
a desvendar a estrada?
Licínia Quitério
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7:03:00 p.m.
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7.10.09
SUAVE A CHUVA
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6:46:00 p.m.
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29.9.09
OUTONO
O murmúrio de insectos na vertical do olhar.
Promessas do bosque na queda dos frutos com sabores ao êxodo das aves.
Crianças abrindo portas para um sono leve.
É o Outono, dizem as velhas de mãos azuis com cheiro a alfazema.
A memória das folhas, implacável, a anunciar destinos madurados.
Um remoinho súbito, uma prece indistinta, um rumor, um estalido.
Melancólicas águas de outros tempos a inundar os passos da ternura.
É o Outono, digo.
Licínia Quitério
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4:14:00 p.m.
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23.9.09
NENÚFARES
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11:28:00 a.m.
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19.9.09
NÃO SE MEDE ESTA FORÇA
Não se mede esta força de atar
folhas verdes a troncos velhos.
A força de amarrar os barcos
ou de pegar nos frágeis ovos.
De esmagar o veneno ou
de amparar o sopro da tarde.
De acarinhar a pele ou
de empurrar o corpo encosta acima.
Não se mede esta força.
Por agora não há como nem porquê.
Saberemos do ofício quando
o tempo vier de dizer fome
com as letras de pão,
com o peso das penas,
com as cores da madrugada.
Licínia Quitério
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3:07:00 p.m.
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9.9.09
OS CAMINHOS VELHOS
Envelheceram as bermas dos caminhos.
Sombras, muitos risos fugidos do amanhã.
Por dentro do meu peito voam pássaros,
redondos pássaros de redondos cantos.
Levo-os a visitar caminhos de ontem.
Liberto-os no deslumbre do ribeiro.
Voltarão ao ninho, ao coração da frágua.
O sol a pique na queima da memória.
E a água em seu labor, criando o verde.
Licínia Quitério
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2:05:00 p.m.
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1.9.09
ENQUANTO O LOBO
Enquanto o lobo não chega
com o tempo atado nas goelas,
vigiamos a escuridão e os sinais
de luz nas matas sonolentas.
Quem sabe, vaga-lumes esquecidos
das infâncias, ou o sabor do pão
das mães a iluminar a fome.
Indistintos contornos de meninos
perdidos ou de mulheres insanas
com breu e oiro nos cabelos.
É a lua, dizem, que nos solta
da raiva primitiva dos presídios
e nos ensina o uivo disfarçado
no vai-vém incansável das marés.
Luar de fel por vezes, solitária luz.
Por entre os dedos fios de amor
escondido sob o adro de lajedos.
Luar de mel, também, na berma
clara de um caminho novo,
na trama de uma manta de segredos,
na média noite sem grades e sem lei.
Licínia Quitério
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1:21:00 p.m.
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26.8.09
O POEMA
se não anunciar que o poema nasceu?
Uma batida incerta a querer romper o peito,
uma breve tontura, uma agonia quase.
O mar vizinho, sempre inconformado,
apertado entre os céus e os fundos abissais.
O cheiro intenso a peixe, a náusea do que fomos,
a seduzir os braços do poema.
Ele aí vai, a roçagar escamas de luz,
febril, bamboleante, ébrio de sons,
ensaiando o nome do silêncio,
na estrada atapetada de algas e de búzios.
Em eterna vigília ficará, te digo,
o poema nascido à beira-mar.
Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"
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4:15:00 p.m.
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18.8.09
HAJA UM TEMPO
Haja um tempo em que o Verão
abra caminhos limpos, intervalos
de sombra onde dormitem musgos,
e as asas dos pássaros se aquietem
e os pés cansados se refresquem
na leveza das águas, no recorte
das ervas.
Num tempo assim hão-de ecoar
cantares de amor e abundância
no côncavo dos poços, nas cavernas
do frio, na garganta dos tristes.
Dobrados, rente ao medo, esperam.
O tempo há-de chegar.
Licínia Quitério
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Licínia Quitério
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10:41:00 a.m.
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12.8.09
CLARISSE 14
Ainda lá está, o banco. Clarisse fez questão de voltar ao pequeno largo e de saber notícias do tempo ido. Podemos chamar-lhe álbum, mas há dias em que Clarisse põe outras dimensões no olhar e vê, por exemplo, como o sol das onze horas num dia de Setembro se apodera do banco e o torna senhor do largo, como se não houvesse o austero edifício e a pequena igreja e as flores amáveis da azálea que se oferecem como bouquets de noiva, em berma de estrada. As fotos antigas transportam castelos de nuvens. Claro-escuras, de céus carregados de tempo e de bruma. Pensa-se deitada no chão da praia, não vês o coelho a espreitar, por detrás da torre do castelo. Isso mesmo, o vento está a desfazer-lhe a orelha, o pobrezito. É o caminho dele, seguir a tarde até ser barco, ou perfil de velho, ou nada que tenha nome a não ser de nuvem. Clarisse nunca fixou rostos, a não ser os de olhos falantes, melhor ainda se gostosos de brilhar. Prefere imaginá-los, na mancha de café sobre a mesa, no recorte da folha do livro antigo, na sombra dos ramos no luar da cal. Varrendo a foto, lentamente, com o vagar das horas que lhe sobram do colo, consegue recuperar uma silhueta de mulher que um dia passou no largo sem olhar o banco guardador de sol. A mulher, diz agora, caminhava devagar e sorria e quem sabe se o Homem sorria ao seu lado e nem precisavam de saber do banco, que o cansaço ainda não nascera e o sol morava dentro deles em quatro estações. Clarisse não tem emenda. Persiste em contar histórias que as fotos não dizem e em inventar rostos de olhos falantes que dos outros, em verdade, se esquece.Licínia Quitério
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3:43:00 p.m.
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6.8.09
FOI SEMPRE ASSIM
Violência é a fome, o choro
infindável de etiópias, o medo
de as saber e rastejar aos pés
da escarpa triunfante, cesárea,
coroada.
O amor, ah sim o amor, a poesia,
as danças e o pôr-do-sol a desabar
cornucópias de cor no litoral.
Foi sempre assim, não é? O riso impune
das hienas e a espera dos abutres.
Desde que o homem é homem.
Ou quando já não é. Amen.
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31.7.09
CLARISSE 13
Licínia Quitério
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6:41:00 p.m.
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28.7.09
DOS TIGRES
O novelo das horas tem as cores térreas do tigre,
a tensão das garras do tigre na tapada,
a quietude do concílio das gaivotas,
um zumbido de moscas em redes de ganância.
Só a água, quando for dela o dia, ternamente,
dissolverá o erro, e o medo escorrerá, aveludado,
pelos corpos dos amantes. Da fúria, um beijo novo.
Os tigres dormem, na tapada.
Licínia Quitério
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