29.4.15

SETE ESTRELO



Olha o Sete Estrelo. 
Acena-te na cintilação dos sete irmãos. 
Há quem lhe dê geométrica definição. 
Outros, 
os que desenham animais,
na compulsão de povoar o céu,
vêem o corpo, a cauda, 
adivinham-lhe as patas de bicho maior.
Sete estrelas, sete tentações, 
sete luzeiros a adornar a eternidade. 
Fecha a respiração, 
abre rasgões na noite,
adia o sono e a lassidão. 
Verás a pequenez da tua mão.

Licínia Quitério

27.4.15

A CASA



Não andava pela casa. Era a casa. As paredes abriam-se à sua passagem. Faziam-se portas e janelas viradas para lugar nenhum, mas de que se podia dizer rua ou quintal. Escutava o soalho a falar palavras antigas, sem sentido. Havia o tecto manchado de céu, de asas de borboleta. Não havia móveis. Ela sabia que há muito tinham fugido para áfricas, brasis, onde voltaram a ser árvores, antes do lenhador. Vozes na casa, nos corredores da casa, nas salas vazias. Vozes doces, redondas, limpas de estridências e soluços. Para lá das paredes abertas, os quintais em volta. Do húmus, a forte germinação das sementes. Um canto de pássaros do sul a rasar as copas, a rasar as estevas. Sem flor ainda, as estevas. Na mão, a lâmina de sol. Brandiu a espada que da lâmina nasceu. Um grito de fera ferida irrompeu da terra, atravessou as paredes abertas, cravou-se no azul do tecto. Fez-se noite. Ela deambulava pela casa, sendo a casa, quando a noite acabou e os móveis regressaram das florestas. O miar de um gato nas redondezas trouxe-lhe o despertar. Fechou a janela do quarto. No tecto havia aquela mancha que lhe lembrou um urro de animal. Não a apagaria.

Licínia Quitério

24.4.15

MANHÃ


Manhã soturna com gato e chuva. 
Há muitos anos, era outra a rua, outro o gato.
Logo mais haveria de ser Primavera. 
As ruas e os gatos sempre esperam uma nova estação.

Licínia Quitério

19.4.15

CRAVO


Escrevo-te daqui, da beira rua, 
com todas as letras decoradas, 
no tempo dos quintais e das amoras. 
Aprendi a casá-las, descasá-las, 
em trabalhos de verbos, em uniões de nomes.
Soube-me bem ouvi-las, 
a fabricarem músicas, arpejos, 
melodias, 
por vezes gritos, com eco noutro peito, 
noutra rua. 
Às vezes escrevo sol, outras caverna. 
Às vezes me demoro, outras me apresso.
Com cinco letras rubras, 
um dia escrevi 
Cravo 
e ele pegou raízes nesta casa. 
De tal sorte medrou, o passageiro de Abril, 
que a desordem nas letras se instalou.
Umas mais se juntaram, outras se retiraram. 
Assim, 
por mais que as mude, 
que as ordene, 
ao escrever Cravo, escrevo 
Liberdade.
Nada a fazer. 
Eu fico bem. 
Missiva terminada. 

Licínia Quitério

12.4.15

DO TEMPO BRUTO


Pouco se fala deste tempo bruto, 

falho de rituais, celebrações. 
Temível a escassez de dias novos, 
com gente a contemplar as áureas proporções,
de joelhos no saibro, 
atenta ao eco das esferas, 
comovida, silenciosa, 
longe, já muito longe
da multidão avara e ululante.

É este o tempo da corrida,
do mais lesto,
da luta, 
do mais forte,
do corpo, 
o mais violado.

Quem sabe, cala, 
que veloz é a luz,
e nada resta de quem com ela competir.
Forte é a gravidade que nos cola, 
sem apelo, 
a todos os fantasmas.
Do corpo, ah, do corpo,
só sabemos que nasce e vai morrendo,
indiferente ao abuso e ao incenso.

É preciso falarmos do que importa.
Da concha do caramujo, da espiral dos dias.

Licínia Quitério 

10.4.15

NOVE ANOS


O SÍTIO DO POEMA nasceu faz agora nove anos, num tempo em que eu desbravava caminhos, na pele ainda a marca da cor das olaias, a afastar as silvas das bermas, a erguer a voz para dizer o que na casa morava e eu não sabia. Tenho muita ternura por este lugar virtual, meu caderno de apontamentos de escritas e olhares, fermento de livros que nasceram, porque outro tempo foi vingando, outros saberes de tristeza e alegria, de novidade sempre. 
Parabéns, companheiro do bom desassossego.

Licínia Quitério

6.4.15

CAMINHOS


Envelhecidos de abandono e ferrugem, os caminhos já não levam nem trazem. 
Aguardam a derrocada ou a maquilhagem. 
Quem os viveu deles reteve os cheiros da limalha e da salsugem. 
Agora diz brinquei aqui, amei ali, um lamento de viés, um dizer dantes havia gente, agora é o deserto.
No caos, a aparição de velha dama, sombrinha de renda, a mão enluvada. 
O temor e a sedução da decadência. 
Estética de filmes negros, de prostitutas maltratadas e bêbados perdidos da vertical do amor. 
Quantas histórias no cenário, este em que os homens se deixaram jogar com cartas viciadas, confiados na sorte de uma só bala na câmara. 
Ainda há barcos deitados no rio, pescadores de lodos e desgraças, passantes de passos perdidos em busca de memórias dos que dali fugiram, desfeita a ordem dos dias da aventura. 
Caminhos que é preciso dizer.

Licínia Quitério

30.3.15

UM BARCO PRESO AO CABELO




















Digo-te,
a miúda tinha um barco preso ao cabelo.
O mar, esse, estava preso ao barco.
Quando a miúda corria,
o barco deslizava,
e o mar com ele,
digo o mar ou
o pedaço de azul 
que me cabia nos olhos
a seguirem a miúda
que corria, 
e não sabia
do barco preso ao cabelo,
do mar preso ao barco,
dos meus olhos
a segui-la,
livre, 
solta.

Licínia Quitério

27.3.15

EU A ROLAR NA PAISAGEM


Eu a rolar na paisagem, 
dormente, 
dizendo, vamos.Eu levada pelo rodado do dia, 
a pensar nas árvores derrubadas, 
no grito das árvores, 
no suor do lenhador, 
na raiva do lenhador presa à fome dos filhos.
Os gritos das árvores acesas, 
o rosto malvado do lenhador, 
a panela ao lume, 
a fervura do caldo.
Benditas árvores 
que são lume 
que água não apague, 
que caldo é muro contra as fomes.
A chaga no peito do lenhador, 
e a mulher por detrás do fumo, 
por detrás do caldo.
Ah não há fome que resista 
à fúria do homem vestido de lenhador, 
a enfrentar o pavor das árvores.
Logo mais,
o silêncio. 
Por detrás do fumo, 
o rosto da mulher, 
da vestal manchada de nascimentos, 
a apagar-se.

Licínia Quitério

25.3.15

HERBERTO HELDER


Não, não entendi, não amei a poesia de Herberto Helder nos meus anos verdes de leitora. Deixei de lado, ali no canto dos "obscuros", dos que sabia um dia haveria de ler, amando. Foi tarde que aconteceu, não sei quando nem como nem porquê. Lembro-me de ter folheado, displicentemente, um dos livros do canto e pensar, como é que eu não vi isto, o tempo que eu perdi. Foi daí que me apaixonei pelo HH, que passei a pensar nos seus poemas mesmo sem os ler, qualquer coisa que eu não sei explicar, como se a força dele também estivesse em mim e me guiasse as palavras em direcção aos seus ritmos de terras negras e águas ferventes. Talvez eu esteja atacada de algum lirismo serôdio, tão desajustado do pulsar de HH, mas a sua "morte sem mestre", não a do livro que me inquietou, me causou estranheza, mas a morte dele, deu-me uma dor de perda de algo, ou de alguém muito amado, mestre e guia, um homem grande, triste, bebedor de abismos, passageiro ardendo, indo.

Licínia Quitério

20.3.15

DIA DE ENVELHECER


Um dia de envelhecer, 

um daqueles dias cor de ferrugem, 
com sombras muito oblíquas, 
mãos pendentes corpo abaixo, 
as costas dobradas na subida, 
na boca o gosto acre de aluviões.  
É preciso que o diga, 
por estas ou por outras palavras, 
eu não sabia o que era envelhecer 
antes de passar pelo portão da casa, 
um portão de ferro da cor do tempo, 
um trabalho de ferreiro, 
de pé à boca da forja, 
o suor a arrefecer-lhe as axilas, 
os músculos do braço mais cheios, 
menos cheios, 
e aquela mão enorme, 
dona e senhora do martelo, 
a bater, a bater, 
e os gritos do metal em brasa, 
a ceder, a estirar, a dobrar, a curvar, 
sem quebrar, 
que o ferreiro conhece o limite 
e ousa bater, bater.
Nos dias de envelhecer, 
quem passa pelo portão 
e nele prega o olhar, 
fugaz mas firme o olhar, 
soletra fogo com letras de rio 
e afasta-se 
com o verbo apagar por entre as pedras.

Licínia Quitério  

16.3.15

É DIA


É dia e ao marinheiro amanhece um barco carregado de esperança. 
Nada pode parar esta viagem.
As mãos são remos de oiro. 
O vento o peito enfuna e faz-se vela.
Não lhe importa que praga, que feitiço.
Um barco de virtude não se teme, navega. 
A proa é rosto e a popa o outro lado desse rosto. 
Entre os dois, um corpo que é sorriso e canto de ninar.
Pela água vai o barco. 
Vai e voga. 
Voa.
Dos remos de oiro vão saltando lumes, faúlhas, cintilações da sombra.
Solto, audaz, o barco avança. 
Não sabe de destino. 
Vai, carregado de esperança.
Outro dia não há. 
É o que sabe.

Licínia Quitério

8.3.15

O FAZEDOR DE PAISAGENS


Dizias casa grande, e  abrias 
os braços,
de parede a parede, 
como se casa fosse de verdade. 
Quem te olhava acreditava na precisão do gesto 
e julgava-te a abarcar o mundo, 
que só podia ser tão vasto 
como a vontade de o saberes. 
Perto da casa havia o mar e, 
de o pensares, 
os teus olhos ficavam verdes de algas, 
e azuis de sol, 
e cinzentos de procela. 
Se havia árvores de vento, 
em redor da casa, 
tu o dizias na tremura dos ombros.
Quem passava afirmava, 
esta é a casa, 
este o mar, 
estas as árvores do vento. 
Tu não te sabias fazedor de paisagens, 
mas continuaste a esboçar lugares 
que depois albergavas 
na casa maior do coração.


Licínia Quitério

15.2.15

NOVO LIVRO

E os poemas se fizeram livro, desta vez nomeado O LIVRO DOS CANSAÇOS. Aqui fica a notícia da apresentação, para a qual estão todos convidados. Será uma agradável tarde de conversa, na Ericeira, em sala com vista de mar. Grata pela vossa presença assídua neste sítio de poemas.

Licínia Quitério

3.2.15

DIAS DE NADA



Os dias de nada não são de tristeza nem de alegria.
São sem entusiasmo nem decepção. 
São só dias de nada, dormentes sem sono, quietos sem espera. 
Não são úteis nem inúteis.
Olham a chuva e não se molham. 
Pode o vento soprar que não se desalinham. 
Existem, apresentam-se, não se demovem da sua nulidade. 
Sem os dias de nada não tentaríamos tudo. 
Ao menos tentamos.

Licínia Quitério

3.1.15

PODE ACONTECER


Pode acontecer que o piar de um pássaro te chame à amurada do navio e lhe perguntes donde vens, de que terras te perdeste, que procuras no meio do nada, que recado trazes lá donde partiste, donde fugiste. 
Que sabes tu da dor de um pássaro no meio da tarde, no meio do mar, olhando-te, sim, olhando-te, o seu olhar de vidro igual ao olhar dos mortos, mesmo assim de corpo alucinado, e tu perguntando, repetindo, mais alto, donde vens, que escondes que não me dás, que queres de mim, perdida de mim, no meio desta tarde, no meio deste mar, sabendo agora de um pássaro de nenhures, que me visita, me desafia, me enternece. 
Foi breve o tempo do pássaro no navio. Partiu, como veio, sulcando o nada, e tu, num aceno, a dizeres um nome improvável para um pássaro em perpétua viagem.

Licínia Quitério

1.1.15

ANO NOVO



Esplendoroso dia. 
Sobre a cidade o sortilégio do azul. 
Nada pode calar este assombro. 
Dizemos liberdade com a voz dos pássaros.
Vamos colher a novidade.
Vamos.


Licínia Quitério

24.12.14

O CISNE



Quem te via deslizar na tarde ficava preso no teu encanto, na serenidade do teu rosto, quase perfeito, quase triste.
Era impossível não pensar na dama do lago que lançava pérolas às águas na hora exacta do poente.
Sua filha serias, ou irmã, ou talvez ela tivesse voltado, com o seu colo de cisne branco, sua mudez, suas penas a fecharem-lhe os olhos.
Quem te via não sabia que nome te chamar, que o tinhas bem escondido no cerrado da boca.
Leda seria um nome, mas quem se atreveria, temendo que cantasses, e ao cantar morresses, e afinal fosses mais cisne que Mulher. 


Licínia Quitério

17.12.14

QUERIA-TE


Queria-te na agonia das cores 
quando a tarde acalmava. 
Era como se um pássaro de cinza 
esvoaçasse ao invés dos meus passos. 
Eu ainda não entendia 
o signo que trazia preso ao bico. 
Um batuque de distâncias atravessava-me 
e eu não sabia porque me doíam  
as lembranças dos mares da infância. 
Queria-te mas não te queria assim 
na hora da desistência dos mágicos. 
Queria-te mas não podia chamar-te 
ao caminho onde tudo estava, tinhas dito, 
era só descobrir. 
Não voltou o pássaro de cinza 
e o caminho continua, imenso. 
Vou juntando pedaços de mistérios, 
com a certeza de que tudo ali foi semeado, 
como disseste. 
É só saber colher. 

Licínia Quitério

10.12.14

NUVENS



São água, pouco mais.
São minúsculas gotas, são poeira de céu, são penas de anjo, ou penas de homem, é igual.
Varredura de vento, suspensão de gelos, oráculo de chuvas.
Alguém me ensine o corpo exacto de uma nuvem, a cor de cada floco, a distância que vai do azul à minha mão, o tempo de vida de um castelo de sonhos, o sabor da maresia, a duração do amor.
Se nada me ensinarem, tão pouco vale o meu olhar colado às nuvens.
Melhor deixá-las ir, deixá-las.

Licínia Quitério

1.12.14

ROSAS DA NOITE



São as rosas da noite que te embalam o sono, te segredam promessas de adornar a árvore dos dias. Rosas a preto e branco, rosas descoloridas, magníficas rosas, simetrias radiantes, invisíveis na claridade das ruas, na penumbra das casas. Só no chão das noites se alimentam, na poeira acidulada dos leitos,  e sobem, sobem, rodopiam, entrelaçam silêncios, dançam histórias sem princípio nem fim, dizem-te dorme, dorme, o teu sono é a nossa vida, o nosso tempo. Amanhã recordarás um tilintar de loiça fina, a despertar-te, e um doce aroma a inundar-te as horas. Dirás de goivos, de laranjas, de jasmins. Não saberás das rosas que vivem nas paredes das noites, rosas loucas, rosas de carne, impossíveis flores no estrépito diurno.

Licínia Quitério 
 

20.11.14

A VOZ


Foi à voz que me prendi. Traz o veludo do musgo onde apetece rolar para depois nos erguer no canto do rouxinol. Tem pausas que convidam a entrar, a encetar acordes nunca ouvidos. Liberta um impreciso aroma que procura o meu cabelo e se aconchega no travesseiro da noite. A uma voz assim dá-se colo e carícias de menino. Não é bem uma voz, é um fio de prata a ligar o visível ao invisível, o profano ao sagrado, o corpo limitado à imensidão. Não, não se trata de amor, mas de vertigem, fonte do inominado e inominável, vibração da erva antes do vento, sonoridade havida antes da morte, antes da vida.

Licínia Quitério

18.11.14

ENSOMBRAM-NOS


Ensombram-nos os caminhos sem árvores.
Pegam-nos na mão a ajudar no salto.
Dão-nos brilho e nada sabem de estrelas.
Caminham pelas bermas, sob as pontes, na orla dos precipícios.
Não nos respondem, mas é na nossa garganta que cravam as perguntas.
Circulam lentamente nos implacáveis calendários.
Hoje lava escorrente, amanhã fumarola.
Serão assombrações.
Serão mutantes, caminhantes eternos na margem da alegria.

Licínia Quitério

17.11.14

CHEGAVAS TARDE



Chegavas tarde e chamavas-me Lua e eu ficava pálida a pensar como seria a minha luz no dia em que te fosses para outro céu ou te apagasses, que ser lume também cansa, também queima.

Hoje, na minha mão uma candeia acesa a iluminar, na Lua Nova, as noites e os dias baços em que procuras a oliveira e só eu sei em que ramos te acoitas.

Licínia Quitério

11.11.14

NÃO OLHES



Não olhes o Sol no zénite. Podes cegar. Os teus olhos não suportam o desafio dos deuses. Aguarda a descida, o momento em que o teu corpo se inclinar para a relva, a tua respiração a ganhar o compasso das esferas, a tua mão a tender para a concha. Esse é o tempo do encontro. Se o teu olhar se cobrir de névoa, é o sinal de que os deuses te protegem da cegueira. É a tua hora da mais perfeita solidão. Podes até ajoelhar sobre o altar da noite. Ninguém te acordará.


Licínia Quitério 

3.11.14

CONTINUAR



Sim, vou continuar. A casa vai-se desmoronando e nós esquecemos os ofícios com que se ergue a casa. É preciso voltar ao princípio, à gruta onde tudo começou, mas desaprendemos os caminhos da planície. Achámos que o olvido era o segredo para a alegria, mas perdemos a chave do segredo. Com que vontades rasgarei a tela poluída que encobre as constelações? Com que ânimo sustentarei as novas pedras e as darei umas às outras e lhes direi vós sois a nova casa? Sei, tenho de continuar, presa aos ritmos naturais dos rios, às vozes das feras e das pombas, antes do colapso, antes de a ferrugem se apoderar dos ossos, porque depois nenhum véu há-de querer mascarar a ruína. 

Licínia Quitério  

25.10.14

CANTANDO


Bichos afogados, circulantes, espelhos no interior das pálpebras, viste-os. 
Tacteia agora este grão, este sal, esta flor marítima. 
Nasceu noite fora no limiar da minha porta, à beira-mar, sempre à beira do mar. 
Leva-me amarrada ao teu carro de vento, a flor de sal no meu cabelo. 
Os retratos dos afogados empalidecem, diluem-se, e tu não saberás que forma tinham quando vivos, quando estátuas, quando gritos de correntes. 
Há sangue novo nos pássaros, ouves, é deles o sopro de subida, no bico trazem uma palavra, sempre a mesma, do nascente das maçãs ao poente dos cravos. 
Hão-de soltá-la no coração da tempestade, e tudo será água, tritão, sereia, e um homem só sentado na praia, cantando.

Licínia Quitério

18.10.14

VÃO


Há homens que se vão embora, se cansam, desamam, desgostam e vão, sem dizerem uma palavra, sem um lamento, sem um destino.
Vão.

Há mulheres que ficam, amarram os filhos, choram, soltam imprecações, gritam, dizem és tal e qual o teu pai.
Ficam.

Os homens que vão transformam-se em gatos vadios, de telhado em telhado, chamam as gatas quando o cio aperta, não esquecem a casa, rondam-na sem serem vistos, esquecem os filhos quando crescem.
Vão.

As mulheres que ficam transforma-se em galinhas, de tanto abrirem as asas, debicarem à cata de alimento, cacarejarem.
Ficam.
Há mulheres que se cansam, desamam, desgostam, procuram esquecer o homem amado, o filho que não quiseram.
Vão.
As mulheres que vão transformam-se em cabras, procuram os cumes, saltam de penedo em penedo, rejeitam os machos, saboreiam a aspereza da erva, descem à planície, às ocultas da noite, que os homens e as mulheres querem açoitá-las.
Há homens que vão ainda que fiquem.
Há mulheres que ficam ainda que vão.
Chamamos anjos aos que vão e não ficam, ainda que fiquem e não vão.
Caem.

Licínia Quitério

12.10.14

ATRAVESSAR


Atravessar a rua como se fosse rio e navegasse.
Atravessar o rio como se fosse pena e me levasse.
Erguer o corpo ao céu em jeito de ave que voasse.
Desafiar o dia, chamar-lhe noite, pedir-lhe contas dos trabalhos nunca feitos, da escuridão das ervas, do torpor dos órfãos, das manadas dispersas, do brilho obsoleto das espadas.
Quem dera adivinhar o ponto de viragem, repor, recompor, religar, desenredar o fio da meada, perceber o recado da chuva na vidraça.
Voltar se for preciso a atravessar a rua como se eu fosse o rio e me salvasse.

Licínia Quitério

2.10.14

AFASTA-TE



Afasta-te dos mentores das tempestades. Podem ser a leveza de um chuvisco e tu, incauto, deixas-te molhar. Ou golpe de sol e deixas-te abrasar. Ou a brisa e deixas-te levar. Depois vem a torrente, o incêndio, o furacão. Foi o instante que te derrubou, traiu, violou. Dormia o medo nos teus vasos secretos e tu foste o peito dado às balas, a comoção das feridas, o choro dos salgueiros. Foge deles, abriga-te, dorme se for preciso, mas não creias, não confies, não confundas o doce com o visco. Cairás de novo, até que chegue o dia de saberes o mel, a calmaria, a rectidão das pautas, a alegria das praças. Se nada mais souberes fazer, recorda os hinos de madrugar, e canta, canta, que os danados da noite não suportam o canto, enlouquecem e vão.


Licínia Quitério  

19.9.14

ASTROS


Não vale a pena procurar astros morrentes, que para tal nos basta o espelho de água, nas voltas do tempo vário.
Grandiosa a corrida dos peixes rio acima, na sua estação de esperanças, na ignorância da força da corrente.
Maior é a vida que carregam.
Correm as folhas do Outono, monte abaixo, ao sabor da levada, arrefecida a seiva, cegas pelas esperas.
Entre o peixe e a folha um astro se levanta.
Nascentes, inaugurais, brotam palavras.

Licínia Quitério

15.9.14

VAI


Vai, traz-me do longe o pássaro de chamas.

Longe é o passeio do nosso olhar.
Volta, eu te darei a asa líquida da noite.
Perto é o bater do nosso peito contra o outro, embora longe, ao largo, num lençol navegante, remo ou vela, barco ou pedra, tanto faz.


Licínia Quitério

7.9.14

O MAR


Um homem diante do mar pode ser toda a praia, todo o céu e alguma ave passageira.
Sentado na areia, pode receber uma onda ou recusá-la.
Talvez a sétima, disseram-lhe, mas ele não sabe contar.

Licínia Quitério

Foto de O MAR, de Jean-Michel FOLON


6.9.14

ERA UM VIOLINO


Era um violino.
Nada mais.
Um chapéu preto,  um vestido vermelho, o perfil mudo de menina, uns olhos fechados, o violino preso ao vestido.
Havia o silêncio  dos olhos e o vermelho  do  vestido.
Um cão não havia, mas o saco onde tombavam moedas.
O violino tocava  e as folhas do Outono roçavam o vermelho, no ombro do vestido, no braço do violino.
Era o Outono.
Nada mais.
Um violino em silêncio, um perfil em silêncio, uma moeda no saco e outra, e outra, até ao fim do arco, até ao cão do Inverno. 


Licínia Quitério

25.8.14

OS POETAS


Os poetas morrem muito. 
Morrem antes de fecharem um poema. 
Os poetas morrem cedo. 
Morrem com a luz da madrugada
ou com a noite a que chamam madrugada. 
Não se sabe que idade têm os poetas quando morrem. 
Têm a idade do primeiro ou do último poema que foram. 
Quando morrem não acrescentam estrelas às estrelas.  
Não foi para isso que nasceram. 
Morrem e brilham, os poetas.

Licínia Quitério

foto de António José Borges

24.8.14

AS ÁGUAS


Poucos se salvam das águas.
Muitos se perdem nas águas.
Todo o mar abismo, perdição.
Mais sal, menos sal, 
mais sangue, menos sangue.
À beira-mar, à beira-vida, à beira-morte.
Dizem haver ilhas tão belas
que os homens se aventuram
e vão. Muito mar, muita dor,
até findar o mar, achar o outro lado,
que pode ser ilha ou coisa nenhuma.
Pela fome é que vamos, dizem uns.
Outros dirão: é pela ambição.
Em terra sempre fica quem 
aprontar melhor embarcação,
não vá o mar crescer e afogar
ou secar e salgar.
Salgada e seca, sim, a pele de Ulisses
cansado de marear.

Licínia Quitério

20.8.14

A LUZ DA NOITE


Vou com a luz da noite. 

Não digo escuros os dias. 
Digo a fuga do arco-íris 
e a violação do pote de ouro, 
sem ouro, só reflexos de ouro. 
Cegos os homens de cegueira nova, 
vergados à ilusão das varas. 
Veladas as mulheres, 
videntes, bruxas, pitonisas, 
a carregarem filhos, flores de areia, 
estilhaços de metal e fome. 
A luz da noite me dará a cor dos campos, 
os rostos das mulheres, 
os homens recuperados da escuridão, 
os filhos-flores. 
Para trás ficará o estrépito da guerra, 
o peso das varas e o seu rancor. 
Pode ser que a luz da noite me segrede a explicação do dia. 

Licínia Quitério

14.8.14

JÁ NÃO TE LEMBRAS


Já não te lembras de me teres falado da sobrevivência das rosas, da sua permanência nos desertos, onde os homens lhes dão nomes impróprios, ignorantes da teimosia das rosas revelando a água, prometendo novos lagos que matarão a sede, matarão a insânia. Eu recordo como o brilho dos teus olhos atraía o perfume das rosas, ainda que o inverno corresse áspero, e das rosas do quintal não houvesse mais que uma estação de esperas. Neste tempo de cardos e fogueiras, revejo as rosas que dizias, na infâmia das cidades. São as rosas de sangue, rente aos muros, a afirmarem a impermanência do ódio e a anunciarem os lagos que, disseste e não te lembras, serão o fim da  seca e da loucura. 


Licínia Quitério 

arquivo

Powered By Blogger
 
Site Meter