25.4.11

25 DE ABRIL de 2011




Falar de Abril é um trabalho grande
de lágrimas e nervos e saudades
Falar como quem canta ou inventa
um deus tecido de alegria
É um falar absoluto de flores nas mãos,
de crianças ao colo, de abundância
Dizer um nome novo, fazer um amor novo,
gritar e construir a fecundidade do silêncio
Pouco mais



Licínia Quitério

18.4.11

FOZ


Um rio de securas,
porta aberta ao mar,
desejo forte de onda,
sonho de barcos, de remos,
de velas. Quem lhe dera.
Teve peixes, sim,
de prata pura.
No tempo das raparigas
de bronze e dos rapazes
de músculos inquietos.
No tempo dos cachos de uvas,
da jangada, 
das bocas das raparigas,
das vozes dos rapazes.
Foi um rio de risos,
de ousadias, de chapéus de flores,
de ninfas e efebos,
de iniciações e descobertas.
Um rio de foz,
sem novas de nascente,
um rio leito
de frescura e ardência.
Era jovem, amado
e as gaivotas poisavam
na sua respiração
de madrugar.
Se o mar de novo entrar
quem sabe brilharão
os dorsos das tainhas
e os chapéus de flores
e os bagos de oiro
voltarão a enfeitar
os risos de outras margens.

Licínia Quitério

10.4.11

A ÁRVORE



A árvore é tudo o que falta no céu
quando a contemplo.
Quem sabe ela ali estava antes de a desenhar
no meu livro de espantos e ternuras.
Tudo o que eu fizer, árvore, 
será com a caligrafia dos teus ramos 
bebedores do azul, da altíssima vibração
do azul na névoa das manhãs. 
Ninguém conhece o teu perfil
quando os meus olhos te não suportam
ou te desvias do meu corpo.
Os teus braços dizem berço e abraço
ou embaraço de outros braços de susto e perdição.
Por certo em teu redor dançaram maldições,
assobiaram pragas, esconjuros.
Assim fazem os néscios a quem
dá sombra ao verão e lenha ao frio
e poiso às aves de qualquer estação.
Inúteis ameaças.
Em minha nuca a tua seiva escorre.
Árvore que eu invento nunca seca. 

Licínia Quitério  

5.4.11

SE EU SOUBESSE PINTAR



Se eu soubesse pintar diria azul em tudo o que tivesse
uma passagem para o mar por mais modesta, 
qual semente de linho a acercar-se do rio. Verde
diria os meus olhos nos teus e os teus nos meus,
espelhos  de sonhos  e batalhas. Vermelho seria
o jeito de dizer a vida em mim e a mesma vida
em ti e o canto dos camponeses, afinado pelas  
cigarras, a fabricar a mais produtiva das preguiças.
Havia de ser amarela a escrita do sol a invadir
o quadro, a incendiar de febre esta mão, ignorante,
inábil, incapaz de traçar as marcas do teu rosto
no meu rosto, iguais, exactamente iguais,
às marcas do meu rosto no teu rosto, assim tão
fáceis de dizer num risco só, simples, como as
pequenas gotas do pequeno orvalho das enormes
madrugadas.
Se eu soubesse pintar, quem sabe eu procurasse
o branco que dissesse a casa que habitámos.

Licínia Quitério    

31.3.11

PEDRA A PEDRA

Pedra a pedra sabem os homens escrever
a memória dos tempos. Em Matchu Pichu, 
na Grande Muralha, na Grande Pirâmide,
ou em Babel que se diz teve uma torre.
Pedra a pedra, homem a homem, dor a dor,
chicote a chicote, a construção não para.
Mais alto, sempre mais alto, que a terra
é pouca e o céu é vasto. Inventam as escarpas
e sobem-nas, pé aqui pé ali, até ao medo.
Não olham para baixo que a pele da terra
os enfeitiça e no seu ventre há fogo. No topo,
diz-se, um ceptro de oiro a atiçar a cobiça.
Por ele continuam, ferida a ferida, corda a corda,
e as mãos sangrando, e as pedras poderosas
com janelas de sol, medindo luas, predizendo
futuros. Pelas alturas devorados, os homens
não regressam e já ninguém os sabe nomear.
Machu Pichu, Esfinge, Stonehenge, as pedras
essas ficaram e têm nomes. O ceptro de oiro
só o condor sabe onde reluz, mas não o diz,
e os homens continuam, de dor em dor, mais
alto, cada vez mais alto, cada vez mais longe,
até à fraga onde perdem o nome.

Licínia Quitério 

27.3.11

COM TUAS MÃOS
















Com tuas mãos falantes é que me anunciavas
a fala das andorinhas e dizias o desenho
do relógio de sol. Como se eu entendesse
as tuas viagens nos passos em redor da sala.
Foi preciso ver as asas saindo dos teus dedos
e a sombra da haste no declínio do dia.
Nessa hora os teus passos fecharam a viagem.
As tuas mãos perfeitas se fizeram arco
e eu pude divisar a rua que viveste
com cuidados maternos a afagar as ervas.
Para lá do arco, disseram os teus olhos,
eu havia de ter a minha luz e as pedras
brilhariam a iluminar esquinas e veredas
e a amplidão dos mares e a solidão dos versos
e sempre e sempre as andorinhas haviam de voltar
porque é nas tuas mãos que começam as aves.

Licínia Quitério

23.3.11

TÃO ESTRANHA A NOITE


Tão estranha a noite. A noite e os   escombros, cicatrizes de diurnos abusos, esconderijos de vigilantes répteis e seus membros renascidos. No meu coração a pele dos muros, alfabeto de povos chacinados no sono acre dos deuses. Cabeleiras vegetais alongam  os ombros da noite,  encobrem a desistência das pedras, desenham tranças e cabalas. Há homens que acendem luminárias e as põem a vogar na noite. Com elas os espectros e as gargalhadas tracejantes onde não poisam flores. Nos meus olhos a grande lua e os seus presságios de nascimentos fáceis e marés altas e súbitas germinações. Ela me deixa aperceber o recorte do polipódio, verde pela manhã.

Licínia Quitério

17.3.11

QUEM TE DISSE



Quem te disse, meu amor de mar, meu leão de maré, minha onda antiga, meu cavalo marinho, minha espuma da noite, minha flor afogada, meu cofre de ametista, minha vertigem, minha corda bamba, minha ponte, meu mirante, meu verso branco,

Quem te disse das mãos de cinza pela tarde, do sal da boca pela manhã, dos olhos nas esquinas, do cheiro a febre do outono, das colheitas sempre por fazer, do vinho, da cor do vinho, do doce vinho da paixão, do espanto, do terror, da ira dos terramotos,

Quem te disse, meu amor, mentiu,

Verdade és tu e os teus sentidos, e os teus pressentimentos, e os teus sonhos, e o teu olhar de fera ou o teu olhar de pomba, e os teus cabelos soltos ou os teus cabelos presos, e o teu desejo em fonte ou o teu desejo em fogo,

O resto, os mundos saberão se aconteceu,


Licínia Quitério

14.3.11

AVISO

QUEM QUISER ADQUIRIR O MEU LIVRO "POEMAS DO TEMPO BREVE" PODERÁ CONTACTAR-ME ATRAVÉS DE

                                              liciniaquiterio@sapo.pt

ESTE É O POST MENOS POÉTICO QUE ALGUMA VEZ PUBLIQUEI, MAS PENSO QUE COMPREENDEM!

MUITO OBRIGADA.

LICÍNIA

11.3.11

"POEMAS DO TEMPO BREVE"

É já amanhã, Sábado, 12 de Março, pela 15 horas, no salão nobre dos Bombeiros Voluntários de Mafra, que será apresentado publicamente o meu livro "Poemas do Tempo Breve". Cristina Carvalho e Joaquim Pessoa tiveram a bondade de acrescentar aos modestos méritos dos meus poemas dois textos magníficos, pelos quais lhes expresso, também aqui, a minha gratidão e o meu carinho. Estarão ambos presentes no lançamento, bem como o meu Amigo de já longa data e grande "responsável" pela minhas aventuras poéticas, o José Fanha. Será um encontro de muitos amigos e, a pretexto deste livro, falar-se-á de poesia, dir-se-á poesia, será, enfim, a Poesia a grande homenageada nesta tarde que, espero, seja um tempo de fraternidade e luminosidade.

Lá nos encontraremos. Grata por todos os apoios que aqui me têm sido dados.

Licínia Quitério

9.3.11

AINDA QUE QUISESSSES


Ainda que quisessses, como poderias sequer pensar "Não valeu a pena."?
O vento gélido perfurou-te a manta e arrefeceu-te o sono?
Mandaram-te calar a pequenez da tribo e a avidez do chefe?
Foi a ti que disseram "Sai do meu caminho e deixa-me brilhar."?
Riram-se quando pediste "Não me dêem jóias que me pesam nos ossos."?
A chuva foi tão bruta que te alagou os sonhos? 
Foste tu que gritaste "Nunca mais!" e agora ouves o riso das hienas reclamando o festim?
Tudo isto foi contigo, em ti, na tua carne, no teu choro, no teu luto de tantas mortes, no teu longo tempo de lobos e de rosas.
Foi por elas, pelas rosas, que enfrentaste o abismo e regressaste, incólume, de sorriso entre as mãos, com a voz vestida de palavras sonoras, tranquilas, aladas, prontas para a partida.
E há mais.
A laranjeira fértil, sobranceira, que te obriga a dizer, ajoelhada, aturdida, plena "Sim, valeu a pena.".
E continuas, na senda perfumada dos desejos que por ti frutificaram. 

Licínia Quitério   

2.3.11

PODIA DIZER-TE

Podia dizer-te a luz da tarde acesa na janela,
ou a alegria envergonhada das ramadas,
ou as vozes dos amigos esboçando um fado,
ou a  nostalgia das bandeiras reclamando pátrias,
ou ainda as casas, sim, as sábias, astutas casas
debruadas de amores e perdições.

Podia até pintar uma aguarela, ou escrever um poema,
ou modelar um rosto, ou compor um adágio,
ou soltar um grito, ou correr, ou saltar,
ou abraçar-te, ou lançar um papagaio de papel
e depois dizer-te: Vês, eu não sei nada. Ou então:
Que queres de mim? Ou (porque não?): Amo-te.

Não podia dizer o coração da terra
nem a esperança fechada nas mãos dos homens
quando sofrem.

Licínia Quitério 

18.2.11

CONVITE



Aqui tenho o prazer de anunciar o nascimento do meu novo livro de poemas. Estão todos convidados para o melhor manjar que sou capaz de vos oferecer.   Voltarei a dar-vos notícias sobre o dia em que espero ver e rever muitos de vós, num abraço de gratidão pelo grande incentivo que me têm dado nesta caminhada da escrita, meu trabalho e meu deleite.

Licínia Quitério

13.2.11

DEIXEM-ME




Deixem-me ser a alegria da magnólia no estertor do inverno. Assim rosada, virada aos céus, livre de folhas que só depois virão. Depois de mim, do meu esplendor, da branca solidão, depois do amor guardado na raiz, do suor da festa dos rapazes, do riso da festa das raparigas, da partida demorada dos velhos, da partida súbita dos novos, dos livros duas vezes lidos, do grito dos pobres na aresta da fome. Deixem-me estar, plantada à beira vida, solene e intensa, perfumada e limpa, sem outro anseio que o regresso das canções em bando, da gravidez aveludada das mulheres, da generosidade dos insectos em novas primaveras. Deixem-me. Eu sou assim...

Licínia Quitério    

4.2.11

UMA COR

Uma cor vibrante, uma cor galante,
uma cor estridente, uma cor diferente,
uma cor suave.
Grave é não ter cor ou supor
que se mente quando se diz: 
a cor do amor é a cor do mar.
Do mar de amar,
do mal de amar, da dor
de não saber
o sabor de ter
um castelo de cor
ali ao pé, ali ao peito, 
no jeito transparente
de cada amanhecer.


O meu amigo tem olhos da cor do fim de tarde, envolta em cheiro de rosmaninho e em doçura de velos de cordeiros.
A voz do meu amigo é da cor do canto dos riachos de margens muito antigas, polvilhadas de amoras e silêncios.
A pele do meu amigo é da cor da ardência do deserto e do arrepio da tundra.
O sangue do meu amigo tem a cor dos sonhos dos homens, das estrelas moventes, não cadentes, da respiração dos escravos, ao longe.


Uma cor, duas cores, sete cores, até ao pote de ouro, ao coração da terra, ao bicho cego, ao prenúncio do verde.
Uma cor, uma só cor, a maior, a mais serena de todas as cores, aqui à mão, aqui ao peito.
Uma bandeira contra o negro.


Pobre de quem não sabe
a cor do amor,
igual ao mar
de amar.


Licínia Quitério

25.1.11

TENS DE SENTIR



tens de sentir o respirar da terra.
não há outra evidência sobre a vida.
tens de acreditar na dança diurna das estrelas.
não terás outra vantagem para o amor.
duvida sempre da perenidade das águas no teu rio,
da persistência da alegria no teu andar de corça.
tens de estar atenta ao calendário das marés
se queres saber a soma dos teus passos.
olha as chagas nos ombros da velhice e,
se vires a fragilidade das perpétuas roxas,
foge da vidraça e espera o riso.
ele há-de passar rente à janela.
depois enrola-o no pescoço e diz
agasalho como se dissesses
recomeçar ou abrir os olhos no primeiro verão.


Licínia Quitério

18.1.11

A MADRUGADA





De uma asa posso falar no torpor da madrugada.
De uma asa onde mora o inteiro pássaro.
Adivinhar o canto é condão de meninos, por entre os frutos verdes do tempo moço.
Espero o vento cor de mel da manhã adulta, povoada de signos e augúrios, a soprar a poalha de amores nascidos no perfume do anoitecer.
Afirmo não saber o gosto das manhãs e sempre me confundir e dizer azul em vez de beijo, sanguíneo em vez de saliva, flor de zimbro em vez de baga, algodão e não canela ou camomila.
Tamanha é a minha esperança na asa, no pássaro novo, na espuma do dia claro, na força do vento morno.



Licínia Quitério 

11.1.11

UM POEMA DE AMOR



Estás comigo há tantos anos e sempre te pergunto porquê. Porque é que as tuas mãos de estátua grega se entrelaçam assim como se explicassem toda a beleza do mundo? Será que foste tu que colheste os girassóis e os ofereceste à jarra para que os meus olhos pudessem ver a luz no quarto escuro? Eu não falo de Vincent, mas de ti e do relâmpago do teu rosto sobre as paredes brancas da sala. Estão sempre as tuas mãos dentro do quadro, aquele ali colado na vidraça e que disseste ser a transparência do meu sorriso. Falamos de pintura, como poderíamos dizer ternura ou construção ou a eternidade possível deste amor. Posso perguntar se foste tu que pintaste os girassóis. Responderás não sei com uma flor de verdade na boca e a humildade dos inventores de futuro. Posso chamar-te Vincent e responderás como se fosse o  teu próprio nome. Achas natural. Eu também. Todos os nomes são iguais. A diferença mora na beleza das tuas mãos entrelaçadas na explicação da transparência do meu sorriso. 

Licínia Quitério  

3.1.11

O TEMPO



O tempo é o tempo é o tempo
um tecido um contínuo um tropel
um oceano um buraco uma forma
uma cor um odor uma pele
um allegro um andante um nocturno
um prelúdio uma fuga um vibrato
um da vinci um magritte um azimov
um pas de deux um bolero um trapézio
o pescoço do cisne o olhar do leão
o tronco da sequóia a avenca a lentilha
a aurora boreal o furacão a neve
o desejo o delírio  o repouso a vigília
uma esperança um contrato uma sorte
uma espera uma ausência uma morte


Licínia Quitério





23.12.10

IMAGENS



Miríades de imagens na película dos dias. Rostos vagabundos  na folhagem. Palpáveis os segredos muito antigos, decifrados. Os passos nas areias, o chapinhar nas águas, o gemido do amor a perceber a morte, o piar da coruja contra o chiar do rato. Altivos avançamos e os nossos pés doridos dos caminhos mais duros que a vontade de os fazer. Os olhos alagados  da cor dos temporais e das bonanças. Seguimos o leito do rio inconformado e os canaviais assobiadores do vento.  Porque sabemos da mulher de Lot, jamais retrocedemos, mas a dor do passado é um rasgão no ventre, uma saudade. E as imagens, em desfile incessante, a morderem os flancos, a queimarem o peito, a atarem gritos na mudez. Caminhamos na procura dos nomes  e dos corpos e dos rostos vagabundos, imprecisos, navegantes nas margens de um outro rio, outra estrada, outra estação, outra galáxia, outros que somos sendo os mesmos. Miríades de imagens nos contemplam. São a película dos dias.

Licínia Quitério


Aqui deixo os meus votos de um Natal de Paz e Amor para todos os meus queridos leitores.

Licínia

19.12.10

AJUDA-ME





Ajuda-me. Este cansaço pesa nas palavras e eu não digo mais o sabor da alegria, o riso da manhã, o poder da montanha, o murmúrio das marés, o crepitar do amor em nossas mãos. Ajuda-me. A inclinação das ruas tornou-se insuportável e eu preciso subi-las para abraçar a memória da pele das rosas, do veludo do café, do abrigo das madeiras. Eu sei, as andorinhas voltarão ao recorte do telhado, o plátano será mais uma vez a capa do meu verão, saberei ainda adivinhar os barcos na transparência das casas, soltarei o riso na indecisão dos nevoeiros, na adolescência dos peixes vermelhos. Quero trepar a escada dos sonhos adiados, das promessas de pão, do brilho do oiro, da luz una e dividida, da paz, da paz. Não me deixa este cansaço de mil vidas no meu peito. Ajuda-me. Eu espero.

Licínia Quitério

12.12.10

CAVALEIRO TRISTE



Também eu esgrimi contra gigantes 
e a minha espada  não quebrou
na dureza dos ferros.
O meu cavalo emagreceu 
nos pastos sobrantes das batalhas.
Guardo nos olhos a cor do pó
igual a chão e céu.
Nos ouvidos o tilintar das armas
e os urros dos gigantes
nos átrios da loucura.
Se não salvei a pátria
engrandeci o sonho.
Por minha dama resisti
ao medo e à cegueira
e defendi os fracos.
À guerra voltarei se me chamarem
cavaleiro triste.
Gosto de me sentar no campo,
ao pôr do sol,
aqui onde venci gigantes
e o vento se fez pão
e o meu cavalo solitário dorme
e a voz de minha dama ao longe,
dulcíssima,
tecendo para mim o seu cantar de amigo. 


Licínia Quitério

Foto da minha Amiga Bettips

5.12.10

INVERNO



Na fímbria dos invernos há cidades desertas onde os nossos dedos arrefecem. O trote de um cavalo branco escreve no empedrado os nomes dos construtores dos fornos, das cisternas, dos celeiros, dos estábulos, da ponte velha, da ponte nova, do cruzeiro, do quadrante solar. Para trás ficam as águas das fontes, do ribeiro bravo, da ribeira grande, da sede das gentes, da sede do gado. Destrancados os portais, o vento dá-lhes o chiar dos gonzos e o choro das madeiras. Nas casas vazias do inverno quebram-se os vidros na violenta agonia dos pássaros perdidos da viagem. Um relâmpago breve acende lembranças de sol na melancolia das ervas, no esverdeado das paredes, nas crinas impantes do cavalo. O desamor do inverno envelheceu, sujou, adoeceu o rosto da cidade. Só lhe resta esperar o cavalito branco, a galopar, pelo trilho dos nomes, a anunciar as novas seivas, o regresso das aves, a chama renovada dos amantes, contra o frio, o gume, a escuridão.


Licínia Quitério 

27.11.10

ACREDITA EM MIM



Acredita em mim. O gelo há-de quebrar. Não te direi quantas manhãs terás de inaugurar com a frialdade dos corpos desistentes. Com o arrepio das vozes persistentes. Com a tremura daquelas mãos ausentes. Tu tens a força e as balas não penetram no teu peito. Avanças indiferente à calúnia e à ingratidão e delas dizes - passaram não as vi. Incansavelmente colhes os frutos magros e os secas ao sol para que o doce nasça e o distribuas. Deste a última manta mas outra hás-de tecer com as artes da memória que guardaste. Quando te dizem morte e noite escura sorris e acendes vida nas portadas. Vê bem. O choro que foi sangue  é agora a pureza da linfa, o brilho das nascentes. Não tarda o dia da planura ardente com desejos de céu. Nela entrarás sorrindo sem nada te doer. Esquecerás o gelo e com as mãos revolverás as cinzas em busca do diamante dos teus dias.  Encontrarás o antigo coração e o embalarás colado ao teu e uma nuvem te abrigará da poeira do mundo que pisaste. Continua sorrindo que o fogo muito ao longe já está ganhando cor. Acredita em mim.

Licínia Quitério

16.11.10

O CORAÇÃO DA PEDRA



Vem comigo. Eu ensino-te a ver o interior das pedras. Fecha os olhos. Tacteia o fuste. Sente a fria lisura na palma da tua mão. Abraça a coluna até onde chegar a vontade dos teus braços. Encosta o ouvido como se faz a um búzio. Podes até pensar que tens um corpo vivo  ali ao teu dispor. Escuta o bater do teu coração. Há muito não o ouvias, eu sei. É preciso sonhar com o interior das pedras para ouvir o relógio da vida. Aquieta-te. Não desvies o teu pensamento do coração da pedra. Bate como o teu, não é? Já não está fria a pedra. Podia bem ser um corpo vivo. Há agora água dentro dos teus olhos. Não tarda molhará a pedra e chorarão as duas. Não mais dirás que és diferente da pedra. Depois farás o mesmo com a árvore. Não mais dirás então que tu e a árvore são diferentes. Farás o mesmo com uma estrela quando ela cruzar o teu caminho. Saberás que és igual à estrela. Estarás  pronta para conhecer e amar o coração dos homens.

Licínia Quitério

8.11.10

POR VEZES



Por vezes tudo se confunde.  As minhas mãos
são sol dentro das tuas e há  cintilações nos campos
do Outono onde se guardam nuvens e esmeraldas.
Por vezes tudo se transforma. O céu cansado
mergulha na película dos lagos e adormece
em sono leve rente aos limos e às memórias.
Há um rumor de passos de ninguém e um lamento
de aves sem canto nem asilo. Há um fim de tarde
suspenso nas ramagens das árvores do Verão.
Por vezes sou o Verão a suportar a casa.
Por vezes sou a casa e acolho a sombra.
Por vezes tudo se confunde  e sou a sombra.
Por vezes.

Licínia Quitério

30.10.10

TU SABES



Dizes que muito sabes quando te sentas na praia
e silente enfrentas céu e água e com eles relembras
artes de voar e marear como se fosses peixe
como se fosses pássaro. Conheces os fundos
das cavernas e a textura das algas que nomeias.
Já foste mastro e vela no tempo em que aprendeste
o odor e a cor dos ventos. Ouviste vozes que só
podiam vir de novas gentes. Partiste e foste  casco
e abrigo de vontades, de ousadias. Foi a estrada
do mundo mulher nova que se abriu ao teu desejo
secular de possuir a terra e a fecundar. Gravaste
a ferro e sangue sinais de amor e dor nos campos
da conquista temerária. Sempre voltaste à praia
da saudade para entregar o oiro e as cicatrizes.
A mesma praia onde agora te sentas e entranças
memórias e acenas aos barcos e às gaivotas.
Perdido o oiro e o rumo, as terras saqueadas,
vais fingindo esperar o nevoeiro que não virá,
tu sabes.
Continuarás, imóvel, a inventar um sonho
possível como todos os sonhos, tu sabes.


Licínia Quitério

Respondendo a perguntas de alguns meus queridos comentadores, esclareço que todas as fotos que publico são minhas, salvo indicação em contrário. Sou assim a única responsável pela ousadia. Obrigada a todos.

Licínia

22.10.10

DESASSOSSEGO



Desassossego é o que nos diz o rumor das ruas
de gentes cabisbaixas, com a palidez no olhar.
Num raio de sol vem um farrapo de saudade
da outra cidade em que bebemos flores
e nos embriagámos. Imóvel a barcaça que fundeou
no cais e ali ficou disposta a recolher o que sobrou
desta gente traída, espoliada do sonho, do azul.
Guardadas as palavras bem no fundo do peito
não vá alguém roubá-las e devolvê-las decepadas,
prostituídas, insonoras. Desassossego é esta
abordagem do silêncio no dobrar das noites.
Dormentes sobre os retalhos de falas coloridas,
de abraços de oiro, de coração a coração,
vamos olhando o templo e os vendilhões.
Amanhã visitaremos a barcaça, mas desta vez
não partiremos. Havemos de ficar até que a rua
esteja limpa e acolha os nossos passos remoçados,
as nossas vozes prenhes das milenares sementes
da planta que só tem um nome: Liberdade.

Licínia Quitério

14.10.10

ÁGUAS VIVAS



Estou só. Semicerro os olhos e vejo-te no longe,
a acenar. A tua mão é a corrente a que me prendo
por vontade, a demorar o tempo de partir.
Hei-de saber, amor, se nome tem esta batida
do meu coração dentro do teu. Vem para o pé
de mim. Senta-te no sofá que guarda a forma
do teu corpo intenso, com cheiro ao veludo das manhãs. 
Fala-me mesmo que as palavras nada digam
a não ser o que sempre dissemos e continuaremos
a dizer até ao fim dos dias. Preciso da tua voz
no meu ouvido para saber o canto das marés.
Não tenhas pressa. Amanhã sairemos à rua
e seremos a febre de todas as lutas e abraçaremos
os amigos que não envelheceram, que não adormeceram
nos tapetes de flores. E nós, que nos amamos
para além do nevoeiro, há muito a encobrir a nossa rua,
beijar-nos-emos no meio da multidão, e o sol virá.
Seremos árvores até que delas fique não mais
do que um recorte em águas vivas onde repousa o céu.

Licínia Quitério

8.10.10

VEM DA ÁGUA


Vem da água e do sangue e do fogo aceso
pelo amor quando penetra o mesmo amor.
De um minúsculo grão se faz um homem
e a sua história é sempre igual à história
de outro homem. Nos sentidos que houver
há-de saber o mundo, mas nunca saberá
onde começa e acaba a sua própria casa.
Será máximo e ínfimo, tão perto das estrelas
como do irmão distante. Uma águia no penhasco,
quando abraça a amada, uma ameba,
uma lama quando lhe foge o filho.
Um farrapo de rua ou um rei poderoso
 - o nada igual a nada.
Mineiro de metais, de versos ou memórias,
perguntará aos retratos antigos a cor dos olhos,
a explicação das coisas simples fora da sua mão.
Lutará pelo oiro das sementes e pelo banho
de luar junto das ninfas em bosques de paixão.
Partirá sem certezas, sem moedas, sem pranto,
numa nau de viagem, para o destino maior.

Licínia Quitério

3.10.10

DESFOLHO-ME


desfolho-me cansada de verão.
dispo-me. ofereço o corpo ao vento.
rasgo-me nas arestas da infâmia.
grito. e a minha boca é um prado ardente.
um animal sem nome. tenho sede e tenho
todos os rios da noite na cintura.
respiro. ou não. estou viva. já pari todos
os filhos de ninguém. estou só. como tu.
como todos. quero tombar  como
os plátanos. com as raízes hão-de vir
as casas com gente dentro. sou cruel.
amo. amo tudo o que houve antes de mim.
tenho cheiro de lírios de caminhos.
sou pura. amo tudo o que sei e o que não sei.
libertei todos os bichos. abri gaiolas e jaulas.
tenho fome. nenhum manjar me serve.
já comi mirtilos e coentros e maçãs.
isso foi no tempo de correr os campos.
fui gazela. nunca os leões me feriram.
sou mansa. sou fúria. saiam da minha rua.
estou nua e canto. não sou pedra. sangro.
reclamo as jóias do futuro. que virão.
sou sibila.

Licínia Quitério

28.9.10

SÓ AS ÁGUAS



Só as águas me acalmam. Águas frias
dos deuses regressados da loucura.
Nelas mergulho as mãos ao encontro
dos peixes da alegria. Com elas vão
os olhos e as imagens daqueles dias
em que o dia foi de todos. Antes
do saque da cidade. Antes dos muros.
Antes de nos venderem o medo de ter medo
e as sete chaves para fechar o coração.


As águas me darão o santo e a senha,
o novo abre-te sésamo das portas
da abundância repartida, do amor
de mão em mão, da claridade.

No hoje espero, as mãos na água,
e com elas os olhos e os pés bem firmes
na brancura das pedras que restaram.




Licínia Quitério




21.9.10

SÓ O VENTO


Foto de aguarela de MANUEL ARRUDA, por atenção da Fátima.


Não é igual o chão e os pés que o conheceram estão cansados.
As casas resistiram até à nova idade. Ruínas foram de pobreza
e galhardia. Aguentaram firmes na espera do pintor que tinha olhos
e mãos para as saber. Outro o chão outras as casas outras as vozes 
ou ainda as mesmas, de memória vazia. Alguém dirá um dia:
era uma vez uma varanda e uma escada e uma casa e decerto
pequenas as histórias da pequena miséria da casa tão pequena.
Mesmo à beira da casa esteve a árvore que tudo soube e calou
e à terra entregou o seu saber de sol e água e choros de gente
que só ela ouviu. Os pés cansados no chão já não o mesmo
sentirão, na descida tarde, um rumor de seivas, um adejar sem
asas, um tactear sem mãos. Ramagens de outro tempo.
Só o vento ficou.


Licínia Quitério

15.9.10

AS OLIVEIRAS



Nesse tempo as paredes eram todas oblíquas.
Ao razá-las as aves quebravam o limiar das asas.
Impediam os filhos de deixarem o ninho.
Nesse tempo o chão era uma onda negra,
um dorso de dragão com espinhos de cristal.
As maçãs recusavam-se a deixar as árvores
e apodreciam de medo no cansaço dos ramos.
Nesse tempo o silvo dos comboios foi destruído
pelo grito dos homens que abrasava a planície.
Foi decretada uma nova geometria e as paralelas
morreram sem se terem beijado no infinito.
Foi banido o ângulo recto  e as dores se tornaram
agudas e os sonhos obtusos até à anulação.
Foi o tempo do fogo e da avidez dos corvos
sobrevoando as cinzas. Tornou-se obrigatório 
o choro dos violinos e o latido dos cães.
Proibida para sempre a vertical da vida.
Mais tarde, muito tarde, vieram as oliveiras.

Licínia Quitério

10.9.10

SOMOS



Somos carne, somos pele, somos ossos.
Somos assombro ou  sombra, luz ou treva.
Chamam-nos gente e dizem-nos:
um homem bom, uma mulher ardente,
um zé ninguém, um estorvo, uma
Maria mais de deitar sem dormir.
Têm medo de nós se somos prumo.
Fazem troça de nós se está vazia
a gaveta do oiro.
Somos sangue e suor e sémen e saliva,
as dores da terra, a pressa dos rios, as águas do amor.
E o cansaço, esta vara atravessada de ombro a ombro,
que nos sustem o corpo e nos perfura os sonhos, o desejo.
Somos tudo, somos nada, somos ontem, somos hoje.
Podemos amanhã ser a saudade e com ela fazer
uma estátua, um poema, a rosa branca de toucar,
um beija-flor, ou apenas boca que se deixa beijar.
Somos isto. Um animal que ri e chora e luta
e desanima e se reergue e abraça o dia
de vindimar, ou de cozer o pão, ou de  acabar o livro
prestes a começar.

Licínia Quitério

1.9.10

CREPÚSCULO



Foste a minha noite, o meu ócio, o meu vício,
a argila com que moldei os cântaros da madrugada,
meu talismã contra o medo e a peste e a solidão,
a névoa luminosa dos meus olhos cerrados,
o meu canteiro de conversa e água fresca.
Hoje consulto, nos céus crepusculares, hieróglifos,
aguarelas de barcos em pedaços,
labirintos, enigmas, profecias.
O dia chegará de saber ler na nova escrita
a explicação da noite e da curva da adaga a 
desfazer as altas aves e as coisas partilhadas.

Licínia Quitério
   


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