2.1.07

PERCURSOS


Venho de longe
de terras pobres
caseadas de portas
com trincos de madeira

Trago nos olhos
os microcosmos
das brasas das fogueiras


Nos cabelos
os cheiros da queima das ervas

a esconjurar maleitas


No longe havia gente
que atirava palavras

à dor e à alegria

e aos bichos tresmalhados


Para trás ficaram
as fontes e a sede dos cântaros

e a evidência da Cassiopeia

e o bailado dos vaga-lumes

Venho guiada pelo murmúrio

de raízes subaquáticas

Perdi o mapa das viagens

e desprezo regressos


Aqui cheguei
para conjugar o verbo

no tempo dos meus passos


Percorres-te. E vais abrindo sulcos até chegares ao ponto em que te vejas.
Tropeçarás em músculos, nervos e artérias onde pulsa o vermelho. Continuarás sem pressas e pensarás como cidade velha que rompeu as muralhas.
Quem te habitou? Quem te viveu? Quem de ti emigrou?
De tanto caminhares na inclinação do corpo, mesmo encostado ao osso te hás-de achar.
Muito sereno, sem nada te doer, esquecido das espadas, enfim dirás:
Prazer em conhecer-te. Contigo vou ficar.

Licínia Quitério

25 comentários:

Maria P. disse...

"Percursos" ou trilho certo das palavras.
Gostei.

Beijinho:)

JPD disse...

Muito bem combinados o poema e o texto.
:)

António Melenas disse...

Pois... sem mapa é difícil regressar... sobretudo quando o regresso nos é voluntariamente interdito
A qualidade de sempre
Beijinho

hfm disse...

Gostei muito destes "passos". Bom ano!

agua_quente disse...

Percursos do conhecimento de nós. Percursos para dentro de nós?
Beijos

alice disse...

querida licínia. queria ter vindo antes. e vim. mas só hoje pude escrever. o mais bonito deste post na minha opinião. é a promessa de um ano inteirinho de poesia. que fique sempre connosco. um grande beijinho.

bettips disse...

Que longo caminho e tão deserto... Tudo tentaremos. Também o fio de horizonte e a pergunta. E será suficiente? Penso que muitas vezes emigramos de nós e encontramos o nosso sentir, algures, em palavras de outros.

maria disse...

Querida Licínia,

Excelente, como de costume!
Como de costume, também, é na prosa azul que me deixo, verdadeiramente, arrebatar com a tua escrita.

Um bom ano novo, pleno desta tua magnífica criatividade e com tudo o que te faça feliz!

Um beijo.

TINTA PERMANENTE disse...

Trilhos de palavras poema-prosa em jeito de olhar o extremo da jorna; mesmo que o ponto seja apenas o engano da convenção...
Afectuosamente

Teresa David disse...

É bom neste novo ano voltar ao encontro destas palavras sempre tão bem escritas e com um conteúdo tão interessante de acompanhar.
Bjs
TD

vida de vidro disse...

Um percurso para chegarmos até nós, depois de todas as experiências do caminho. Uma leitura excelente, neste início de ano. **

Cusco disse...

Ai que prazer que é ter um bom texto ou poema para ler e lê-lo.
Que a inspiração continue o guiar da caneta misturando estas pequenas letras que qual alavanca também movem o mundo.
Feliz 2007 e o meu muito Obrigado, por tudo.

bjs

aquilária disse...

o lento despojamento pode ser, também, uma descoberta. e um regresso ao puramente essencial.


abraço, licínia

FOTOESCRITA disse...

O despojamento ajuda a encontrarmo-nos no essencial, penso eu.

herético disse...

mudamos, para ficarmos os mesmos...

apenas a vibração do verbo é sempre outra...

"prazer em conhecer-te", quem poderá dizer, sem um estremecimento de emoçao?!

gostei mto.

blugaridades disse...

Vim de longe e por aqui fiquei presa na leitura do poema e do texto que o complementa.
Gostei. Muito!
Voltarei a a fazer estes percursos.
Beijinhos

FOTOESCRITA disse...

Licínia, voltei cá para te reler. E digo-te: - É mesmo bonito o que aqui escreveste.

Menina_marota disse...

As passagens breves ou longas... os percursos da nossa Vida e da nossa alma... e poder dizer:

Prazer em conhecer-te.

O prazer é nosso. Acredita.

Um abraço carinhoso e bom fim de semana ;)

ana prado disse...

Ah minha amiga,
fico sempre sem palavras, com as palavras que nos dás.

Um ano pleno, como o abraço que te deixo.

ana prado disse...

minha amiga, mais uma vez resta-me a mudez ante as palavras que nos deixas.

Um ano pleno, como abraço que te dou.

rouxinol de Bernardim disse...

Gostei muito deste blogue! A imagem é "gémea" do meu!
Confirma e visita-o. Ainda não posso abrir comentários pois estou a ser altamente "perseguido" por um autêntico louco e aguardo uma decisão do tribunal para me pronunciar sobre as imundícies desse "monstro".

Anónimo disse...

Desculpem por este comentário não ter nada a ver com o “comentável”. Mas penso que divulgar um evento cultural vale este “abuso”: Concorram aos V Jogos Florais de Avis. O regulamento está disponível em www.aca.com.sapo.pt
Saudações culturais!

legivel disse...

venho de longe
tão longe que temo
despir-me de monge
vestir-me de demo.
de longe das serras
de ribeiros e rios
do inverno das terras
que não têm estio.
de longe dos mares
das terras do norte
de muitos azares
e de pouca sorte.
de longe cheguei
vi esta miragem
que com ela sonhei
eis-me de paragem



... há dias (no caso noite), que o melhor mesmo é rimar. Também tenho momentos menos bons e o tempo a pressionar-me. Mas é sempre bom vir aqui.

batista filho disse...

tua postagem, belíssima! - me fez lembrar um poema que fiz, que um colega musicou... e que eu já tinha esquecido...

grato por reavivar-me a memória. deixo um enxerto:

"... crianças, mulheres e homens
tangidos pela sede e fome.
homens, mulheres, crianças
nos corações uma só esperança:
um dia voltar que nem, que nem, que nem asa branca
e juntos cantar... cantar a ciranda, como em criança
como em criança, cantar a ciranda!

eu venho de muito longe..."

Sandra disse...

"Perdi o mapa das viagens
e desprezo regressos"


De nada nos serve o mapa nesta viagem; precisamos é de levantar os olhos do chão e sentir o canto das estrelas; se errarmos o caminho, logo encontraremos um atalho e nisso reside a sabeoria.


Beijinho

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