27.12.09

BOM ANO



Um dia destes o calendário nos dirá que já é maior a soma dos anos havidos. Encetaremos mais uma contagem do tempo das nossas vidas. Ficarão para trás as dores e alegrias que nos rechearam os dias. Olharemos mais uma vez o filme do passado e deitaremos contas ao que doámos e ao que negámos, ao que construimos e ao que adiámos, às horas que rimos e às que chorámos, aos amigos novos que conquistámos e aos que nos esqueceram ou partiram para sempre.
Fazemos votos de um novo ano diferente e melhor. A esperança ainda não morreu. Bem por dentro do nosso coração, projectamos um mundo luminoso e solidário, povoado de homens e mulheres com gestos verticais, rodeados de crianças de risos abundantes. Rejeitamos palavras como guerra e fome e doença e solidão. Em seu lugar, sonhamos árvores frondosas e cantares em bando e mesas fartas de pão e de poemas. Assim continuamos desenhando a estrada. Fortes e frágeis, austeros e ternos,  decididos e titubeantes, desesperados e esperançosos, humanos e imperfeitos que somos.

Bom Ano para todos.

Licínia Quitério

18.12.09

OS SINOS



Os sinos tocam. Repicam. Tangem. Dobram.  Os sinos falam. Rezam. Cantam. Riem. Choram. Chamam. Para acordar e para recolher. Para a festa e para o luto. Dão sinais. Dão avisos. Dão as boas-vindas e as despedidas. Envelhecem. Enrouquecem. Deformam-se. Têm vidas longas. Serenas. Sabem muito do silêncio. Edificam-no. Prolongam-no. Afirmam-no. Moram nas alturas e são atentos à fala da Terra. À fala dos Homens. Há quem os ame. Há quem os deteste. Não há quem fique indiferente ao seu soar. Quem os constrói sabe de fórmulas secretas. Rigorosas. Mágicas. São elas que dão voz aos sinos. Como se fossem gente. Como se fossem vida.

Licínia Quitério

6.12.09

VAI LONGE O TEMPO



Vai longe o tempo de peregrinar
por searas fartas e maduras
como se fossem mesa,
como se fossem pão.
Agora há um deserto em cada esquina
e a palavra Nunca é um desatino,
uma prega de gelo no olhar.
Porém, na madrugada há um vapor de seda
a cavalgar as pedras,
a despertar os bichos,
e os rios nos acolhem,
com seus barcos tranquilos,
seus espelhos de céu,
seu sabor a nascente.
Seguir nos dias o rumo da corrente,
com um sonho ancorado
no fio do horizonte,
um grão de sal em cada mão,
um desejo de porto
amarrado no peito.
Até dizer seara como quem diz viagem.
Até morder a vida como quem morde o pão.

 
Licínia Quitério

27.11.09

DA AUSÊNCIA

 
Podia dizer-te da ausência como quem morde a espuma ou apunhala sombras e afastar um sonho enroscado no pulso. Pegar na espuma e nas sombras e depô-las na paisagem com a leveza que as aves ensinam.  Se eu caminhasse sobre os campos de neve e olhasse para trás e apercebesse um rasto verde de agulhas e um cheiro morno de incenso no altar da distância, quem sabe a ausência mais não fosse que uma garra cravada na garganta do inverno, dor provisória, amortecida, guardadora dos casulos da memória.


Licínia Quitério

17.11.09

SE EU PUDESSE


Se eu pudesse dizer-te:  amanhã à tardinha havemos de respirar o verão das cigarras, caminhar enlaçados nas cordas do orvalho, saborear a memória da construção do templo.
Ah se eu pudesse recuperar a humidade das avencas ainda que tivesse de inventar os poços, à minha rua voltariam os sons dolentes da aldeia, como os dos rebanhos que apenas os poemas me disseram.
É tão útil escrever versos e com eles fazer ramos de saudade.

Licínia Quitério

5.11.09

A ESCRITA DA CHUVA



A escrita da chuva é miúda, madrugadora, breve. 
Escrita, apenas, livre da escravatura das palavras. 
Quem  sabe ler a sua transparência?
Quem lhe desvenda o verbo na liquida mudez? 
Alguém falou do tempo efémero na cintura do dia,
de relâmpagos e árvores tombadas à entrada das cidades,
de cavalos fumegantes e do susto das donzelas na orla das planícies.
Nada a propósito da escrita da chuva no recorte do Outono.

Licínia Quitério

29.10.09

NA ARESTA DA ÁGUA



Na aresta da água o canto dos corais.
Insone este mar de náufragos.
Na órbita dos barcos tudo é lume.
Desapossados do beijo das estrelas, 
na praia nos quedamos e bebemos
azul em lâminas de sal.
Dói-nos a espada da infância sobre o ventre
e um menino lança contos de encantar.
Sobre o mar. Sobre a legenda do mar.

Licínia Quitério

20.10.09

DESCALÇA VOU



Descalça vou pelos trilhos do sempre.
Levo na boca a aspereza das amoras
que os melros rejeitaram.
O meu bordão é de oliveira
e não floriu ainda.
Um passo é só um passo e a rocha é quente.
Os latidos dos cães  me dizem a distância
e eu vou, descalça e firme e sequiosa.
Os adivinhos me dirão
a lonjura da fonte e a cama do ocaso.
Se me perguntam quem me doou 
este manto de espuma e a verdura do olhar,
respondo:
Quem me fadou assim, descalça,
a desvendar a estrada?


Licínia Quitério

7.10.09

SUAVE A CHUVA

.



A chuva cai e eu sou uma frase que experimenta voar.
Lágrimas de deuses aprisionados nas nuvens.
As oliveiras tremem e o violoncelo chora no leito dos amantes.
Como se não houvesse barcos para o amanhã e o teu rosto
fossem as últimas maçãs do ramo. Suave a chuva.
A liquidez da tarde e eu esquecida do estrépito da escrita.

Licínia Quitério

29.9.09

OUTONO


É o Outono, dizem, este arrepio das ervas rasando-nos o corpo.
O murmúrio de insectos na vertical do olhar.
Promessas do bosque  na queda dos  frutos com sabores ao êxodo das aves.
Crianças abrindo portas para um sono leve.
É o Outono, dizem as velhas de mãos azuis com cheiro a alfazema.
A memória das folhas, implacável, a anunciar destinos madurados.
Um remoinho súbito, uma prece indistinta, um rumor, um estalido.
Melancólicas águas de outros tempos a inundar os passos da ternura.
É o Outono, digo.

Licínia Quitério

23.9.09

NENÚFARES




Vêm dos fundos e repousam os braços na finíssima linha de água. Florescem e perduram com pétalas de porcelana. Têm pequenos estremecimentos acompanhando os remoinhos súbitos que o vento traz. Oferecem conchas e abraços aos peixes coloridos. São a tentação das libelinhas rasantes que lhes afagam as folhas. Pacientes, procuram a quietude, o sono de vestais no templo. Respiram a bruma do lago e transpiram gotas reluzentes. Quando os vemos nos quadros sabemos que nos escutam os silêncios. Falo de nenúfares. Ou de antigas esperas.

Licínia Quitério

19.9.09

NÃO SE MEDE ESTA FORÇA


Não se mede esta força de atar
folhas verdes a troncos velhos.
A força de amarrar os barcos
ou de pegar nos frágeis ovos.
De esmagar o veneno ou
de amparar o sopro da tarde.
De acarinhar a pele ou
de empurrar o corpo encosta acima.
Não se mede esta força.
Por agora não há como nem porquê.
Saberemos do ofício quando
o tempo vier de dizer fome
com as letras de pão,
com o peso das penas,
com as cores da madrugada.

Licínia Quitério

9.9.09

OS CAMINHOS VELHOS

Envelheceram as bermas dos caminhos.

Sombras, muitos risos fugidos do amanhã.

Por dentro do meu peito voam pássaros,

redondos pássaros de redondos cantos.

Levo-os a visitar caminhos de ontem.

Liberto-os no deslumbre do ribeiro.

Voltarão ao ninho, ao coração da frágua.

O sol a pique na queima da memória.

E a água em seu labor, criando o verde.


Licínia Quitério

1.9.09

ENQUANTO O LOBO

Enquanto o lobo não chega
com o tempo atado nas goelas,
vigiamos a escuridão e os sinais
de luz nas matas sonolentas.

Quem sabe, vaga-lumes esquecidos
das infâncias, ou o sabor do pão
das mães a iluminar a fome.

Indistintos contornos de meninos
perdidos ou de mulheres insanas
com breu e oiro nos cabelos.

É a lua, dizem, que nos solta
da raiva primitiva dos presídios
e nos ensina o uivo disfarçado
no vai-vém incansável das marés.

Luar de fel por vezes, solitária luz.
Por entre os dedos fios de amor
escondido sob o adro de lajedos.

Luar de mel, também, na berma
clara de um caminho novo,
na trama de uma manta de segredos,
na média noite sem grades e sem lei.


Licínia Quitério

26.8.09

O POEMA


Que te posso dizer daqui da beira-mar
se não anunciar que o poema nasceu?
Uma batida incerta a querer romper o peito,
uma breve tontura, uma agonia quase.
O mar vizinho, sempre inconformado,
apertado entre os céus e os fundos abissais.
O cheiro intenso a peixe, a náusea do que fomos,
a seduzir os braços do poema.
Ele aí vai, a roçagar escamas de luz,
febril, bamboleante, ébrio de sons,
ensaiando o nome do silêncio,
na estrada atapetada de algas e de búzios.
Em eterna vigília ficará, te digo,
o poema nascido à beira-mar.


Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"

18.8.09

HAJA UM TEMPO


Haja um tempo em que o Verão
abra caminhos limpos, intervalos
de sombra onde dormitem musgos,
e as asas dos pássaros se aquietem
e os pés cansados se refresquem
na leveza das águas, no recorte
das ervas.
Num tempo assim hão-de ecoar
cantares de amor e abundância
no côncavo dos poços, nas cavernas
do frio, na garganta dos tristes.
Dobrados, rente ao medo, esperam.
O tempo há-de chegar.

Licínia Quitério

12.8.09

CLARISSE 14

Ainda lá está, o banco. Clarisse fez questão de voltar ao pequeno largo e de saber notícias do tempo ido. Podemos chamar-lhe álbum, mas há dias em que Clarisse põe outras dimensões no olhar e vê, por exemplo, como o sol das onze horas num dia de Setembro se apodera do banco e o torna senhor do largo, como se não houvesse o austero edifício e a pequena igreja e as flores amáveis da azálea que se oferecem como bouquets de noiva, em berma de estrada. As fotos antigas transportam castelos de nuvens. Claro-escuras, de céus carregados de tempo e de bruma. Pensa-se deitada no chão da praia, não vês o coelho a espreitar, por detrás da torre do castelo. Isso mesmo, o vento está a desfazer-lhe a orelha, o pobrezito. É o caminho dele, seguir a tarde até ser barco, ou perfil de velho, ou nada que tenha nome a não ser de nuvem. Clarisse nunca fixou rostos, a não ser os de olhos falantes, melhor ainda se gostosos de brilhar. Prefere imaginá-los, na mancha de café sobre a mesa, no recorte da folha do livro antigo, na sombra dos ramos no luar da cal. Varrendo a foto, lentamente, com o vagar das horas que lhe sobram do colo, consegue recuperar uma silhueta de mulher que um dia passou no largo sem olhar o banco guardador de sol. A mulher, diz agora, caminhava devagar e sorria e quem sabe se o Homem sorria ao seu lado e nem precisavam de saber do banco, que o cansaço ainda não nascera e o sol morava dentro deles em quatro estações. Clarisse não tem emenda. Persiste em contar histórias que as fotos não dizem e em inventar rostos de olhos falantes que dos outros, em verdade, se esquece.

Licínia Quitério

6.8.09

FOI SEMPRE ASSIM



Violência é a fome, o choro
infindável de etiópias, o medo
de as saber e rastejar aos pés
da escarpa triunfante, cesárea,
coroada.

O amor, ah sim o amor, a poesia,
as danças e o pôr-do-sol a desabar
cornucópias de cor no litoral.

Foi sempre assim, não é? O riso impune
das hienas e a espera dos abutres.
Desde que o homem é homem.
Ou quando já não é. Amen.

Licínia Quitério

31.7.09

CLARISSE 13



Parece não pertencer ao álbum. Uma índia em chão de sol e areia. De pronto Clarisse a revisita, num fim de tarde ardente, frente ao pequeno rio de atrevimentos e inocências. A fragilidade dos barquinhos a remos, chape-chape no zumbido da tarde. O dorso prateado das tainhas brincalhonas, em saltos pelas tangentes dos rodopios concêntricos. Dizia: o mar está a entrar. Ou então: o rio está fechado. Aquele não era um rio de saída. Esperava a subida da maré e acolhia minúsculos camarões translúcidos. Ganhava ondas, pequeninas é certo, e saboreava o sal e os farrapos de algas cor de alface. Clarisse pensava: assim há-de ser o meu rio em tempo de maré alta. Inquietações renovadas, sabores exóticos, anúncios de outras paragens. Por agora, ficava assim, sentada, os braços rodeando os joelhos, os pés na areia quente e húmida, aguardando a chegada da sombra que o morro estendia no rio, a ensinar o poente, o recolhimento aos fundões do leito, o sono dos peixes sem pálpebras. Na esteira do olhar de Clarisse há uma jangada, rio acima, e um chapéu de palha vermelho que lá esqueceu na última travessia. Voltará, uma manhã, quando o primeiro sol soltar da pele do rio os véus do despertar. Clarisse dirá: o mar está a entrar. O Homem dirá: esperava que o dissesses. E só ela saberá da alegria no sorriso envergonhado do Homem que finge medir com uma vara a altura do sol.

Licínia Quitério

28.7.09

DOS TIGRES


O novelo das horas tem as cores térreas do tigre,
a tensão das garras do tigre na tapada,
a quietude do concílio das gaivotas,
um zumbido de moscas em redes de ganância.

Só a água, quando for dela o dia, ternamente,
dissolverá o erro, e o medo escorrerá, aveludado,
pelos corpos dos amantes. Da fúria, um beijo novo.
Os tigres dormem, na tapada.

Licínia Quitério

22.7.09

ROSA LÍQUIDA

Uma rosa líquida nas veias
é o que resta do jardim
depois do vento agudo
no esplendor do ácer.
Da abundância da chuva
ficaram feridas no saibro
provisório dos caminhos.
Cicatrizes serão, enigmáticas,
belas, nos dias quentes
dos sabidos enganos, desejados.
Uma rosa negra, líquida,
desafiando a fome, o vidro.

Licínia Quitério

17.7.09

CLARISSE 12



Ainda hoje Clarisse não fala de vulcões com a voz em sosssego. Nunca tinha visto algum, até ao dia em que pisou terra nascida quando Clarisse já contava alguns sedimentos. No declive, sentiu que o chão lhe ditava o avanço do corpo, sem que ela comandasse os próprios passos. Lembra-se do rugido do mar, lá em baixo, encorpado e escuro, ameaçando violar a juventude do monte, grande demais para que filho lhe chamasse. Recorda, com clareza, no longe-perto, a mudez dum rosto a esfumar-se contra o céu em fogo. E ela, Clarisse, olhando para trás e caminhando, encosta abaixo, cada vez mais perto da voz do profundo. Não sentia medo, mas um espanto que lhe punha lágrimas nas palmas das mãos. Tudo se confundia, na poeira dum tempo ignoto. Como num sonho dentro de outro e de outro ainda, sem porta para o despertar. Foi quando se apresentou um obstáculo sob os pés. Uma plantinha, verde, tímida, pedindo para não ser esmagada. Um aceno de vida nova, perfurando a lava, afastando a incomodidade da areia. Era da cor dos seus olhos e atrevia-se a enfrentar pequenos insectos que voltavam. Talvez peixes de outrora, abandonados no confronto brutal entre o fogo e a água. O corpo de Clarisse reganhou vontade e gesto. Sorriu à planta e retrocedeu. No perto-longe, o rosto esperava-a e mostrava-lhe uma estrada polvilhada de caminheiros. Clarisse aceitou a estrada e disse baixinho: Pareceu-me avistar uma rola de peito róseo. O rosto explicou, condescendente: Não as há nesta latitude. Hoje gostou de rever o registo no álbum. Só ela consegue divisar o rosto contra o céu. Uma presença, uma espera. Clarisse sabe que há uma paisagem que lhe pertence e a que voltará. Que importa que seja lava, ou mar, ou planta, ou fogo? Tudo o que for lá será.

Licínia Quitério

12.7.09

UMA PRECE, UM TIJOLO



Uma prece, um tijolo,
uma deusa, uma pedra,
uma morte, uma tinta,
um cimento de suor e de fé.

O desafio do tecto,
a certeza do arco,
as batalhas da luz,
a escalada dos muros,
o aprumo, o rigor,
o atrevimento, o risco.

A mão do arquitecto
presa ao fuste
e um rasto de cor
ensanguentada
a encher o copo de oiro
do anúncio do dia
de uma outra construção.


Talvez igual, talvez a tal.

Licínia Quitério

6.7.09

CLARISSE 11


Arqueologia de passados é o mester de Clarisse. A leitura dos vestígios cada vez mais difícil. Houve um tempo, um modo, um lugar. Houve porque as marcas lá estão. Mas que ficou das linhas do rosto, do desenho do corpo? Da vibração das cores que seduziram Clarisse e o seu outro olhar? Qual o nome da terra, do rio, se nome teve, das árvores que por perto tinha de haver? Que murmúrios de seixos na corrente, que gentes ali passando ou vivendo? Clarisse semi-cerra os olhos, tentando ver para além do grão do tempo, da cortina acastanhada a enevoar o quadro outrora luminoso e fresco. Fotograma salvo do rescaldo do incêndio que abrasou a cidade e deixou assomos de dor nas polpas dos dedos de Clarisse. Uma noite passou e uma ligeira febre agitou os sonhos de Clarisse. Cavalgando as dúvidas do dia, a incongruência do sono mostrou-lhe uma montanha forrada de abetos. Clarisse subia a montanha, suspensa por um fio. Vistas de cima, as árvores abriam as copas quais alfaces gigantes. Reparou que calçava chinelas de uma só tira que ameaçavam cair ao menor balanço do fio. Afligiu-se, temeu a nudez dos pés, reparou que sob as copas havia movimentos que podiam ser de feras, ávidas de comida chegada dos altos. Pediu socorro sem voz ao seu outro olhar, mas ele estava entretido a medir pelo relógio a altura da montanha. A um esticão do fio, acordou e, estremunhada, correu a rever o fotograma. O sonho devolvera-lhe o lugar, o tempo, os nomes. Consegue distinguir as chinelas, pousadas numa pedra, e sentir nos pés o frio da água. Clarisse lembra-se agora de ter sido assim. Subia montanhas e calçava chinelas vermelhas de uma só tira. Sempre pronta a mergulhar em fios de água pura no brilho do seu outro olhar. Histórias que os álbuns reeditam...

Licínia Quitério

1.7.09

FRAGMENTOS



Pode ocorrer um verão em que o calor
seja martelo e escopro contra as dunas
e as fragmente teimosamente fragmente
até que a visão táctil das miragens
desfaça a maldição dos velhos
e o sangue do mar em terra firme
apazigue o cansaço dos rebanhos
e a secura aprendida dos escravos.

Intactas ficarão as grutas dos mistérios
com as tábuas de sal por decifrar.
Os homens do deserto moldarão
com as mãos ardidas letras novas
outras perguntas cantos jovens
repetidos rostos de mulheres-leoas
enigmáticas como devem ser.

Ínfimos fragmentos só o verão os traz
e os crava na dor da pele em chamas.


Licínia Quitério

17.6.09

CLARISSE 10


Seria bem diferente quando a colaram no álbum. Naquele tempo, as flores brancas corriam pelos campos ou definhavam na estreiteza das jarras. Esta sobrenadava águas tão próximas do céu que podia tocar a liquidez das estrelas. Foi o que assustou Clarisse que logo fechou o álbum, olhando em volta como se alguém a espiasse. Receosa dos seus próprios gestos, abriu a gaveta, empurrou o álbum bem para o fundo, para o lugar onde repousam os álbuns que nasceram para nunca serem folheados e fechou-a à chave como há muito não o fazia. Sentou-se, afagou o gato impertinente a trepar-lhe para o colo e assim ficou, com uma inquietação húmida a desafiar-lhe os ombros. Antes de fechar os olhos, Clarisse fixou as mãos sobre o lombo do gato e admirou-se dos rios azuis que as percorriam, com seus afluentes e deltas. Não se lembra de os ter visto quando pela primeira vez visitou aquele álbum. Que acontecera então desde que alguém tentou contrariar a brevidade da flor, fixando-lhe a verdade, a idade, a essência? Mudaram as cores, dissolveram-se os traços, afirmou-se uma nova luz que Clarisse pensou transparência. Cumpriu-se o destino da flor? Avançou, insidiosa, a construção dos rios azuis? Clarisse está segura de que é o tempo das gavetas que mede a beleza da flor branca e das suas mãos de maré cheia, também elas flores de carícias sem hora nem porquê.


Licínia Quitério


Nota - Voltarei no sétimo mês. A este e ao Outro Sítio. Penso que Clarisse não deixará de me acompanhar. Lembrando Luís de Stau Monteiro, aconselho: Agarrem o Verão, Amigos, agarrem o Verão!

Licínia

12.6.09

RETRATO DE CIDADE



Quando nasci, foste-me casa e rua,
o nome duma história a descobrir
e o mundo numa praça à beira rio.

Pela minha cidade me pensei
transeunte da boémia e da saudade,
a rimar caravela e desacato.

Entristeci nos palcos e nos becos
até que o cheiro a cravo se soltou
e Arlequim pulou e a lágrima secou.

Então te amei de amor aberto e rubro
neste pontão de enganos, nesta luz
sempre acesa no vidro dos telhados.

Pelas esquinas de vultos rente ao escuro,
de novo se alimenta esta cidade
com sobras de ternura e ousadia.

Persistência de pombos e mendigos
na rapina do sol e das sementes.
Meu corpo, minha terra, minha gente.


Licínia Quitério

7.6.09

CLARISSE 9

Que linda falua que lá vem, lá vem. É uma falua que vem de Belém. É assim que Clarisse começa a cantarolar, mal o álbum lhe abre o portão do pátio. As meninas em fila e a outra, destacada, perguntando. Peço ao meu barqueiro se nos deixa passar. Passará, passará. Se não for a mãe da frente, é o filho lá detrás. O barqueiro decidia. Tu. E tu. E tu. Tu não. Clarissse sentiu um aperto no peito. Hoje o barqueiro voltou a rejeitá-la. Quedou-se nesta margem, chorando baixinho, para as outras meninas não ouvirem. Que lin-da fa-lu-a... Pelo chão, as redondezas meladas das nêsperas que os pardais dilaceraram, sem piedade. As ameixas verdes já maiores que cerejas. Se os ventos desabridos da primavera não lhes matarem a vontade de crescer, haverá troncos de árvore vergados ao peso das bolinhas amarelo-doce. No pátio vizinho, por detrás do muro alto, Clarisse pode ouvir o coro das falas gritadas dos rapazes que não brincam aos barqueiros com poderes de rejeitar. Falta no muro uma pedra, do tamanho da curiosidade no centro do olhar de Clarisse. Recorda o desassossego nos bicos dos pés, o tum-tum do coraçãozito nos ouvidos, a alegria de ter visto, do lado de lá do muro, o menino que já lia histórias, o menino que todo o tempo depois leu a Clarisse as maravilhosas histórias do mundo. Era o sol a pique a rendilhar de sombras a terra batida e os bancos de pedra e a brancura do poço. Tapado, pois claro, que lá dentro morava a donzela com cabelos de fogo que água nenhuma conseguia apagar. Numa noite de lobos famintos, o Homem que foi menino contou a Clarisse como no fundo dos poços mais fundos viviam filhos dilectos de estrelas e dançavam feitiços de luar. Hoje, Clarisse não teme a escolha do barqueiro nem a ameaça dos lobos, apaziguadores que são os velhos álbuns em que dormitam pátios interiores.


Licínia Quitério

2.6.09

CLARISSE 8

Que vês em mim, perguntava Clarisse, antes de pensar em folhear os álbuns. Diz-me de que cor são os teus olhos, respondia-lhe o Homem. Só tu, que sabes ler, podes saber, insinuava Clarisse. Eram longos e limpos os dias de perguntas sem respostas e de respostas nunca perguntadas. Falavam da cor dos olhos para desvendarem o mistério do tanque da horta. Clarisse gostava de lápis de cor. Pedia-lhes que lhe ensinassem o início do tanque quando ainda aguardava a chegada das folhas caídas e o nascimento das larvas. Nunca conseguiu que lhe dissessem. Talvez o tanque tivesse chegado depois das águas com acordos secretos de vida e morte em sua substância. Também o Homem procurava a transparência das tintas que lhe desse a cor primordial dos líquidos. Em vão. Sempre a enganadora imobilidade de um mundo onde, sabiam, se agitavam multidões de predadores, em ritos de sobrevivência. Os lápis de cor de Clarisse lado a lado com as tintas do Homem. Interrogando-se na mudez do olhar. Que vês em mim, perguntava Clarisse. Qual é a cor dos teus olhos, dizia o Homem. Nenhum deles aprendeu a cor antes do tanque, antes da água, antes do apodrecimento das folhas e da metamorfose das larvas. Vivia assim Clarisse, quando ainda não devorava passados. Já uma rola de peito róseo matava a sede no tanque, sempre que a horta se reerguia na frescura da tarde velha.


Licínia Quitério

30.5.09

PAISAGENS



Se nos falam de céu pensamos nuvem.
Se pegamos a nuvem cavalgamos.
O que era o alto faz-se espelho e lago.
A vastidão não é assombro. É leito.
Há-de vir a manhã dos sonhos descobertos.
Paisagens fluidas, luminosas, maternais.


Licínia Quitério

24.5.09

À TARDE O VENTO









Chegam, nas mãos do tempo,
as flores de papel. Amarrotadas. Esmaecidas. Brilharam em festões de romarias sem santos nem milagres. Suportaram a fúria de corações em fogo e as bátegas mornas, com cheiro acidulado de vulcões. Enregelaram na solidão da serra e dormiram sem sonhos de manhã. A lembrança da árvore foi o fio, a seda, a corda que as sustentou nas paredes do vento. São dele agora as flores e a leveza. Quando passam por nós, ao fim da tarde, e um mesmo vento as beija, há um tremeluzir por entre as copas, a indiciar novas florestas.



Licínia Quitério

19.5.09

A SEDE

Atravessamos oceanos de palavras que nunca escreveremos. Navegamos, perdidos no fulgor dos pássaros dos trópicos. Dolorosamente trepamos pelas palavras dum irmão desconhecido. Morremos de cansaço à beira do jardim. Ressuscitamos pelo orvalho que um dia lemos nos olhos cegos da deusa de pedra que nos ensinou os frutos do despertar. Como árvores de uma única estação, guardamos a memória dum lugar em que nos despíamos e vestíamos ao som dos tambores e das flautas, entontecidos pela dança das estátuas que rodopiavam. Assim mitigávamos a grande sede. Bendita sede da última estação.


Licínia Quitério

13.5.09

O FOGO E AS ÁGUAS


Tantas vezes no gelo
adormecemos.
Tantas vezes o fogo sob as águas
nos desperta.
Cristais de sal no olhar.
Sinais de espuma
na quadrícula dos dias.
Dizer eu tive eu fui eu quero.
Tocar o mármore
e vislumbrar o átrio.
Redesenhar o quadro
e expô-lo à claridade.
Dar o corpo ao presente
como se faz no amor.
Enquanto o fogo sob as águas.

Licínia Quitério

7.5.09

RAÍZES

Desmesuradas, as raízes,
cansadas de seus trilhos
profundos de toupeira,
esquecidas dos sinais
que lhes mostraram
âncoras, amarras,
contextos vegetais,
eis que se soltam
dos lodos do passado.
Afiam garras,
irrompem pelas terras,
pelas águas,
olham as copas,
moradas soberbas de animais,
sugam reservas de húmus
e avançam, seguras e ousadas.
Olham para trás a fixar memórias,
respiram virgindade no presente
e vão à frente.
Sobem pelas escarpas
e só descansarão
quando o ninho das águias mais não for
que mácula minúscula na rocha.
Depois, fortalecidas, as raízes
retomarão suas matrizes
e fecharão o círculo,
na imitação das copas habitadas
pelos verdes radicais.


Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"

Nota: De regresso, um poema antigo em tradução fotográfica recente. Agradeço as visitas, na ausência. Beijos.

Licínia

20.4.09

VIAJO



Por vezes, viajo. Não o faço quando as asas da partida e da chegada ficam pesadas demais para os meus ombros. Digo da viagem concreta das estradas. Que da outra, inacabada, misteriosa, única, hoje ninguém alcançaria a minha fala.

Voltarei quando Maio ainda for giesta e rosa.

Até lá, o meu abraço de gratidão.


Licínia Quitério

15.4.09

TORRE

Mensageira entre o azul e o negro, o ardor e o gelo.
Esconderijo de anónimos segredos.
Indiferente à ofensa do machado, à ingratidão dos fracos, à vileza dos fortes, à afronta dos ventos sem mudança.
Árvore ressurrecta, refeita, recomposta, soberba.
Uma pedra ou um livro, um cântico ou uma fonte.
Escultura da memória.
Cerne de vida, lenho de morte.
De pé, sobre o alto dos altos, exposta, ofertada, violenta.
Torre, testemunha de castelo havido.

Licínia Quitério

6.4.09

CHEGAM PELA TARDINHA

Chegam pela tardinha
com as costelas doridas
e o amargo nas pupilas.
Um dia mais, pleno de
turvações e folhas mortas.
Pensam caminhos sobre
feno acabado de cortar,
mas vem tão longe o estio.
Fazer a festa, o gesto largo,
armar o palco das palavras
e pô-las a tocar, olhar e ver.
Pegar a voz nas mãos unidas
e lançá-la, despudorada e forte,
do cimo da vontade, até ao céu.
Soltar o medo e apear os ídolos
dos pedestais de cera.
Fazer soar um sino na garganta
e expulsar a rouquidão
das névoas persistentes.
Do magenta ao escarlate é
um pé descalço e o peito aberto
à tentação do vento.
Que venha o tempo de pôr asas na voz
e desvendar segredos de Epidauro.

Licínia Quitério

Nota: Uma breve pausa para outros lugares, outros olhares. Até à volta. Fiquem bem. Deixo um abraço e um sorriso.
Licínia

30.3.09

HÁ QUEM DIGA


Rasgões em ameaça à coesão da cal, as plantas invasoras, vingativas, rejeitadas pela placidez dos bosques, as cores decadentes, tumulares, o sossobrar do prumo nas empenas, a desistência da onda nos beirais.

Há quem diga assim a casa velha.

A porta só no trinco, em alarde vermelho, as trepadeiras vivas abraçando a cal, em cada telha um ninho ou uma espera, um sossego, um tempo livre de traições ou abandonos. A respiração dos passos na soleira, o calor no inverno, o amor de quem partiu e a paz que se aprendeu.

Há quem diga assim a casa velha.


Licínia Quitério

25.3.09

RESISTEM À CLAUSURA



Resistem à clausura porque perderam, diz-se,
o livro das palavras incoerentes.
Silenciosos, bailam e o ondear das vestes
desmente a crueldade das miragens.
Em noites de lua nova há peixes mortos,
por medo de que o brilho se não cumpra.
Mas, nas manhãs solares, levanta-se um vapor
de sonho inacabado sobre as águas.

Licínia Quitério

20.3.09

SE ALGUMA VEZ A NOITE


Se alguma vez a noite,
cansada de esperar
pelo oiro da manhã, antecipasse
o despertar do dia?

Sem rumo as barcas,
pejadas de palavras,
em súplica de rimas,
como quem pede um vento de feição
ou ata a um desejo as sílabas cadentes.

Não soaria azul o azul de mar,
nem prata de luar as mãos de sal.

O sono da donzela sobre a fraga
apagaria grifos e quimeras.

Só na noite o poema é fonte de delírio
e se faz corpo e corda e lume e perdição.


Licínia Quitério

14.3.09

DEPOIS DO INCÊNDIO


Sei que depois do incêndio
os mitos se alimentam
de sobras de minúcias
na ponta diamantina
dos ocasos

Pudera eu
divisar a fractura
onde arrefece a cinza
e acompanhar
as vozes da planura
antiga clara principal

Para sempre caminhar
e não chegar e não chegar


Licínia Quitério













Nota: Clarisse pede-me que agradeça a hospedagem no Sítio e a amabilidade das visitas. Assim faço.

Licínia

8.3.09

CLARISSE 7


Numa página clandestina do álbum, um passageiro de lugares apagados perturbou a visão de Clarisse. Não podia tê-lo conhecido, tal como isso se diz de corpo e voz. Em pequena, habituara-se a vê-lo num grande quadro a óleo, oferta de amigo artista, como lhe contavam. Quantas gerações depois se apresentou Clarisse? Não pode precisar. Achara-o muito velho, quase tão velho como o Jesus crucificado na cómoda do quarto da avó. Agora o retrato diz-lhe um belo jovem com o perto e o longe no olhar. Pensa, com algum pudor, que ficaria bem ali, ao lado dela, não fora a morte a sépia que lhe deram. Houve uma bela casa, mandada construir pelo belo homem. Não a pode ter conhecido Clarisse, a não ser pelas histórias acrescentadas a um batente de bronze, em garra de leão, que hoje pisa papéis na escrivaninha antiga. Como aparecem então os peixes vermelhos no lago, por detrás do retrato? E o cão Piloto à sombra da romãzeira? E o vitral do guarda-vento e a porta giratória e as andorinhas viúvas, duas de cada lado do relógio de capela? O belo homem foi hoje o desassossego de Clarisse. Porque não o conheceu de corpo e voz, não pode nomeá-lo. A revolta do baralho de cartas e os gritos da rainha de copas são um súbito calor nas têmporas. O gato, esse, é o sorriso sobre a romãzeira. Indiferente, uma rola de peito róseo na beira do lago. O coração de Clarisse é um vaso de loiça fina cansado da corrida. Foram anos, foram séculos, foi o dia de ontem.

Fecha o sétimo álbum. O verde dos seus olhos amainou. É assim Clarisse, devoradora de passados.

Licínia Quitério

1.3.09

CLARISSE 6



As ameixas e as abelhas, juntas em cada Verão. A passividade dos frutos em oferenda ao zumbido das asas. Acontecia a doçura antes do mel, como é preciso acontecer no amor. Nas folhas do agrião triunfava o verde, em louvor da água escorrida do tanque. Concha de regas, de lavagens de roupa e de banhos de alegria das crianças, em miragens de mar. Clarisse passeia-se no quintal da casa que dantes lhe contavam. Campo de engenhos e de esforços de mulher com sementeiras e colheitas nos braços. As árvores, as flores, os frutos, as sementes, em espaço exíguo, medido a palmo, estudadas com rigor a sombra e a luz e a demora dos dias. Histórias de vitórias e derrotas contra bichos devoradores, sempre à espreita de lugar na mesa posta, atravessavam as ameias dos muros e pairavam na rua para serem levadas no bico dos pássaros, ao fim da tarde. Foi por uma rola de peito róseo que Clarisse veio a sabê-las, de coração, como se fossem suas. Esta lassidão que não abandona Clarisse põe um véu sobre o rosto da casa que torna a ser jovem e liso, com o olhar aberto e limpo das tecelãs flamengas. A casa parada num tempo em que nada envelhece, em que ninguém falta à chamada. Coabitam as idades intactas e cruzam falas da história que lhes coube. Clarisse entende os sons da casa: o silvo do vapor nas panelas, as vozes do folhetim na rádio, o pedalar da máquina de costura, o sacho nas ervas daninhas, o chiar da roldana no poço, os gritos das crianças, de todas as crianças que permanecem, únicas, continuadas. Clarisse distingue-as pelas alturas, que em tudo o resto lhe parecem iguais. Vendo melhor, uma delas tem o nome Fernando no bolso do bibe e um livro debaixo do braço.

Clarisse esforça-se, em vão, por recordar o nome da grande terra, mãe da casa que a habita. Espera tê-lo de volta, ao folhear, descuidada, uma insónia, num álbum que não sabia.

Licínia Quitério

23.2.09

CLARISSE 5



Um homem-menino chegado da soleira de outro tempo abriu um sorriso nos olhos de Clarisse. Não se lembra do nome dele. Dirá que se chama Fernando. Tinha fome e tinha medo e levaram-no ao encontro de outras fomes, de outros medos. Era uma vez uma aldeia perdida, lá no fundo, passado que fosse o leito seco do ribeiro... Era? Clarisse no declive da serra, rodeada de canções de luta e sobressalto, levando nos braços a maior esperança do mundo. Fernando espantava os medos acariciando livros de ensinar a ler, os livros com que ele, Fernando, ensinaria a ler. Pelas serras fora, os ogres ateavam fogos e tocavam sinos a rebate, anunciando a chegada do anti-Cristo. Clarisse duvida agora se aquele foi tempo de desejo ou de passagem. Os álbuns não mentem, mas confundem. O sol do meio-dia era uma afronta nas paredes enrugadas e na magreza das couves. Histórias que talvez tenham contado a Clarisse ou, quem sabe, ela as tenha inventado quando à noitinha uma mulher lhe bateu à porta para ser ouvida. Mulher-desgraça, desacertada, pecadora de amores alheios, solteira e perdida e calada. Fernando era o rei dos meninos quando lhes lia histórias e os deixava tocar as capas grossas dos livros. Havia enxadas e forquilhas e ameaças de exorcismos. Ou não. Não pode saber quando isso acabou. Se acabou. Clarisse julga lembrar-se de ter falado, no luar, na rua. As pessoas iam chegando e ficavam e sentavam-se no chão. Um lobo uivou ali perto. Ninguém se importou. Os cães estavam sossegados, lambendo o pelo e as feridas. Que terá dito Clarisse? Por certo, as palavras necessárias que não sabia e já esqueceu. Os livros de Fernando a passarem de mão em mão, a fecharem a roda dos corpos no luar de todos. Que mais terá acontecido? Por onde andará em contra-luz aquele homem-menino? Que novas fomes terá sabido? Que histórias contará sobre o luar das noites que o fizeram rei das crianças, naquele Verão de fantasmas contra o tempo?

Clarisse há-de ter as respostas que moram noutros álbuns. Entretanto...


Licínia Quitério

16.2.09

CLARISSE 4

Tão verdade era o sono que Clarisse subiu e poisou na varanda do último andar. No Verão, todos os homens passavam as noites nas varandas. As mulheres vigiavam-nos por detrás das portadas, não fossem eles cair à rua em sobressaltos de vinho e desamor. Na varanda onde Clarisse se achou, estava um homem ainda acordado na sua cadeira de pensar. Tinha poisada no ombro uma rola a que faltava uma asa. Não deram por Clarisse, distraído o homem a contar os carros que subiam a rua e ocupada a ave a alisar com o bico as penas róseas do peito. As paredes de todos os prédios tinham a palidez das pedras colhidas de madrugada. Havia um grande silêncio no mesmo tom, apesar dos muitos carros que desciam e subiam para serem contados. Clarisse disse estou aqui, mas ninguém lhe respondeu. Rodopiou na estreiteza da varanda, mas o homem não desviou o olhar da rua e a rola não suspendeu os esmeros da tarefa. Foi então que Clarisse decidiu abandonar o sítio para que pudesssem ver-lhe a ausência. Sentou-se no parapeito, as pernas para o lado de fora, a baloiçar. Um impulso breve do tronco a fez descer, devagar, com passadas largas, os braços desbravando transparências, o corpo a afundar, a afundar. Do chão da rua, despontou e floriu um leque de mãos de luz. Nele alongou a leveza e ali ficou, tranquila e nua, igual às pedras no leito, antes da madrugada.

Quanto tempo dormiu Clarisse? O tempo sem horas de revisitar a rua das varandas com homens dormentes nas noites de calor. A quantas ruas regressará ainda? Estão tão arruinados, os álbuns.


Licínia Quitério

arquivo

 
Site Meter