23.12.10

IMAGENS



Miríades de imagens na película dos dias. Rostos vagabundos  na folhagem. Palpáveis os segredos muito antigos, decifrados. Os passos nas areias, o chapinhar nas águas, o gemido do amor a perceber a morte, o piar da coruja contra o chiar do rato. Altivos avançamos e os nossos pés doridos dos caminhos mais duros que a vontade de os fazer. Os olhos alagados  da cor dos temporais e das bonanças. Seguimos o leito do rio inconformado e os canaviais assobiadores do vento.  Porque sabemos da mulher de Lot, jamais retrocedemos, mas a dor do passado é um rasgão no ventre, uma saudade. E as imagens, em desfile incessante, a morderem os flancos, a queimarem o peito, a atarem gritos na mudez. Caminhamos na procura dos nomes  e dos corpos e dos rostos vagabundos, imprecisos, navegantes nas margens de um outro rio, outra estrada, outra estação, outra galáxia, outros que somos sendo os mesmos. Miríades de imagens nos contemplam. São a película dos dias.

Licínia Quitério


Aqui deixo os meus votos de um Natal de Paz e Amor para todos os meus queridos leitores.

Licínia

19.12.10

AJUDA-ME





Ajuda-me. Este cansaço pesa nas palavras e eu não digo mais o sabor da alegria, o riso da manhã, o poder da montanha, o murmúrio das marés, o crepitar do amor em nossas mãos. Ajuda-me. A inclinação das ruas tornou-se insuportável e eu preciso subi-las para abraçar a memória da pele das rosas, do veludo do café, do abrigo das madeiras. Eu sei, as andorinhas voltarão ao recorte do telhado, o plátano será mais uma vez a capa do meu verão, saberei ainda adivinhar os barcos na transparência das casas, soltarei o riso na indecisão dos nevoeiros, na adolescência dos peixes vermelhos. Quero trepar a escada dos sonhos adiados, das promessas de pão, do brilho do oiro, da luz una e dividida, da paz, da paz. Não me deixa este cansaço de mil vidas no meu peito. Ajuda-me. Eu espero.

Licínia Quitério

12.12.10

CAVALEIRO TRISTE



Também eu esgrimi contra gigantes 
e a minha espada  não quebrou
na dureza dos ferros.
O meu cavalo emagreceu 
nos pastos sobrantes das batalhas.
Guardo nos olhos a cor do pó
igual a chão e céu.
Nos ouvidos o tilintar das armas
e os urros dos gigantes
nos átrios da loucura.
Se não salvei a pátria
engrandeci o sonho.
Por minha dama resisti
ao medo e à cegueira
e defendi os fracos.
À guerra voltarei se me chamarem
cavaleiro triste.
Gosto de me sentar no campo,
ao pôr do sol,
aqui onde venci gigantes
e o vento se fez pão
e o meu cavalo solitário dorme
e a voz de minha dama ao longe,
dulcíssima,
tecendo para mim o seu cantar de amigo. 


Licínia Quitério

Foto da minha Amiga Bettips

5.12.10

INVERNO



Na fímbria dos invernos há cidades desertas onde os nossos dedos arrefecem. O trote de um cavalo branco escreve no empedrado os nomes dos construtores dos fornos, das cisternas, dos celeiros, dos estábulos, da ponte velha, da ponte nova, do cruzeiro, do quadrante solar. Para trás ficam as águas das fontes, do ribeiro bravo, da ribeira grande, da sede das gentes, da sede do gado. Destrancados os portais, o vento dá-lhes o chiar dos gonzos e o choro das madeiras. Nas casas vazias do inverno quebram-se os vidros na violenta agonia dos pássaros perdidos da viagem. Um relâmpago breve acende lembranças de sol na melancolia das ervas, no esverdeado das paredes, nas crinas impantes do cavalo. O desamor do inverno envelheceu, sujou, adoeceu o rosto da cidade. Só lhe resta esperar o cavalito branco, a galopar, pelo trilho dos nomes, a anunciar as novas seivas, o regresso das aves, a chama renovada dos amantes, contra o frio, o gume, a escuridão.


Licínia Quitério 

27.11.10

ACREDITA EM MIM



Acredita em mim. O gelo há-de quebrar. Não te direi quantas manhãs terás de inaugurar com a frialdade dos corpos desistentes. Com o arrepio das vozes persistentes. Com a tremura daquelas mãos ausentes. Tu tens a força e as balas não penetram no teu peito. Avanças indiferente à calúnia e à ingratidão e delas dizes - passaram não as vi. Incansavelmente colhes os frutos magros e os secas ao sol para que o doce nasça e o distribuas. Deste a última manta mas outra hás-de tecer com as artes da memória que guardaste. Quando te dizem morte e noite escura sorris e acendes vida nas portadas. Vê bem. O choro que foi sangue  é agora a pureza da linfa, o brilho das nascentes. Não tarda o dia da planura ardente com desejos de céu. Nela entrarás sorrindo sem nada te doer. Esquecerás o gelo e com as mãos revolverás as cinzas em busca do diamante dos teus dias.  Encontrarás o antigo coração e o embalarás colado ao teu e uma nuvem te abrigará da poeira do mundo que pisaste. Continua sorrindo que o fogo muito ao longe já está ganhando cor. Acredita em mim.

Licínia Quitério

16.11.10

O CORAÇÃO DA PEDRA



Vem comigo. Eu ensino-te a ver o interior das pedras. Fecha os olhos. Tacteia o fuste. Sente a fria lisura na palma da tua mão. Abraça a coluna até onde chegar a vontade dos teus braços. Encosta o ouvido como se faz a um búzio. Podes até pensar que tens um corpo vivo  ali ao teu dispor. Escuta o bater do teu coração. Há muito não o ouvias, eu sei. É preciso sonhar com o interior das pedras para ouvir o relógio da vida. Aquieta-te. Não desvies o teu pensamento do coração da pedra. Bate como o teu, não é? Já não está fria a pedra. Podia bem ser um corpo vivo. Há agora água dentro dos teus olhos. Não tarda molhará a pedra e chorarão as duas. Não mais dirás que és diferente da pedra. Depois farás o mesmo com a árvore. Não mais dirás então que tu e a árvore são diferentes. Farás o mesmo com uma estrela quando ela cruzar o teu caminho. Saberás que és igual à estrela. Estarás  pronta para conhecer e amar o coração dos homens.

Licínia Quitério

8.11.10

POR VEZES



Por vezes tudo se confunde.  As minhas mãos
são sol dentro das tuas e há  cintilações nos campos
do Outono onde se guardam nuvens e esmeraldas.
Por vezes tudo se transforma. O céu cansado
mergulha na película dos lagos e adormece
em sono leve rente aos limos e às memórias.
Há um rumor de passos de ninguém e um lamento
de aves sem canto nem asilo. Há um fim de tarde
suspenso nas ramagens das árvores do Verão.
Por vezes sou o Verão a suportar a casa.
Por vezes sou a casa e acolho a sombra.
Por vezes tudo se confunde  e sou a sombra.
Por vezes.

Licínia Quitério

30.10.10

TU SABES



Dizes que muito sabes quando te sentas na praia
e silente enfrentas céu e água e com eles relembras
artes de voar e marear como se fosses peixe
como se fosses pássaro. Conheces os fundos
das cavernas e a textura das algas que nomeias.
Já foste mastro e vela no tempo em que aprendeste
o odor e a cor dos ventos. Ouviste vozes que só
podiam vir de novas gentes. Partiste e foste  casco
e abrigo de vontades, de ousadias. Foi a estrada
do mundo mulher nova que se abriu ao teu desejo
secular de possuir a terra e a fecundar. Gravaste
a ferro e sangue sinais de amor e dor nos campos
da conquista temerária. Sempre voltaste à praia
da saudade para entregar o oiro e as cicatrizes.
A mesma praia onde agora te sentas e entranças
memórias e acenas aos barcos e às gaivotas.
Perdido o oiro e o rumo, as terras saqueadas,
vais fingindo esperar o nevoeiro que não virá,
tu sabes.
Continuarás, imóvel, a inventar um sonho
possível como todos os sonhos, tu sabes.


Licínia Quitério

Respondendo a perguntas de alguns meus queridos comentadores, esclareço que todas as fotos que publico são minhas, salvo indicação em contrário. Sou assim a única responsável pela ousadia. Obrigada a todos.

Licínia

22.10.10

DESASSOSSEGO



Desassossego é o que nos diz o rumor das ruas
de gentes cabisbaixas, com a palidez no olhar.
Num raio de sol vem um farrapo de saudade
da outra cidade em que bebemos flores
e nos embriagámos. Imóvel a barcaça que fundeou
no cais e ali ficou disposta a recolher o que sobrou
desta gente traída, espoliada do sonho, do azul.
Guardadas as palavras bem no fundo do peito
não vá alguém roubá-las e devolvê-las decepadas,
prostituídas, insonoras. Desassossego é esta
abordagem do silêncio no dobrar das noites.
Dormentes sobre os retalhos de falas coloridas,
de abraços de oiro, de coração a coração,
vamos olhando o templo e os vendilhões.
Amanhã visitaremos a barcaça, mas desta vez
não partiremos. Havemos de ficar até que a rua
esteja limpa e acolha os nossos passos remoçados,
as nossas vozes prenhes das milenares sementes
da planta que só tem um nome: Liberdade.

Licínia Quitério

14.10.10

ÁGUAS VIVAS



Estou só. Semicerro os olhos e vejo-te no longe,
a acenar. A tua mão é a corrente a que me prendo
por vontade, a demorar o tempo de partir.
Hei-de saber, amor, se nome tem esta batida
do meu coração dentro do teu. Vem para o pé
de mim. Senta-te no sofá que guarda a forma
do teu corpo intenso, com cheiro ao veludo das manhãs. 
Fala-me mesmo que as palavras nada digam
a não ser o que sempre dissemos e continuaremos
a dizer até ao fim dos dias. Preciso da tua voz
no meu ouvido para saber o canto das marés.
Não tenhas pressa. Amanhã sairemos à rua
e seremos a febre de todas as lutas e abraçaremos
os amigos que não envelheceram, que não adormeceram
nos tapetes de flores. E nós, que nos amamos
para além do nevoeiro, há muito a encobrir a nossa rua,
beijar-nos-emos no meio da multidão, e o sol virá.
Seremos árvores até que delas fique não mais
do que um recorte em águas vivas onde repousa o céu.

Licínia Quitério

8.10.10

VEM DA ÁGUA


Vem da água e do sangue e do fogo aceso
pelo amor quando penetra o mesmo amor.
De um minúsculo grão se faz um homem
e a sua história é sempre igual à história
de outro homem. Nos sentidos que houver
há-de saber o mundo, mas nunca saberá
onde começa e acaba a sua própria casa.
Será máximo e ínfimo, tão perto das estrelas
como do irmão distante. Uma águia no penhasco,
quando abraça a amada, uma ameba,
uma lama quando lhe foge o filho.
Um farrapo de rua ou um rei poderoso
 - o nada igual a nada.
Mineiro de metais, de versos ou memórias,
perguntará aos retratos antigos a cor dos olhos,
a explicação das coisas simples fora da sua mão.
Lutará pelo oiro das sementes e pelo banho
de luar junto das ninfas em bosques de paixão.
Partirá sem certezas, sem moedas, sem pranto,
numa nau de viagem, para o destino maior.

Licínia Quitério

3.10.10

DESFOLHO-ME


desfolho-me cansada de verão.
dispo-me. ofereço o corpo ao vento.
rasgo-me nas arestas da infâmia.
grito. e a minha boca é um prado ardente.
um animal sem nome. tenho sede e tenho
todos os rios da noite na cintura.
respiro. ou não. estou viva. já pari todos
os filhos de ninguém. estou só. como tu.
como todos. quero tombar  como
os plátanos. com as raízes hão-de vir
as casas com gente dentro. sou cruel.
amo. amo tudo o que houve antes de mim.
tenho cheiro de lírios de caminhos.
sou pura. amo tudo o que sei e o que não sei.
libertei todos os bichos. abri gaiolas e jaulas.
tenho fome. nenhum manjar me serve.
já comi mirtilos e coentros e maçãs.
isso foi no tempo de correr os campos.
fui gazela. nunca os leões me feriram.
sou mansa. sou fúria. saiam da minha rua.
estou nua e canto. não sou pedra. sangro.
reclamo as jóias do futuro. que virão.
sou sibila.

Licínia Quitério

28.9.10

SÓ AS ÁGUAS



Só as águas me acalmam. Águas frias
dos deuses regressados da loucura.
Nelas mergulho as mãos ao encontro
dos peixes da alegria. Com elas vão
os olhos e as imagens daqueles dias
em que o dia foi de todos. Antes
do saque da cidade. Antes dos muros.
Antes de nos venderem o medo de ter medo
e as sete chaves para fechar o coração.


As águas me darão o santo e a senha,
o novo abre-te sésamo das portas
da abundância repartida, do amor
de mão em mão, da claridade.

No hoje espero, as mãos na água,
e com elas os olhos e os pés bem firmes
na brancura das pedras que restaram.




Licínia Quitério




21.9.10

SÓ O VENTO


Foto de aguarela de MANUEL ARRUDA, por atenção da Fátima.


Não é igual o chão e os pés que o conheceram estão cansados.
As casas resistiram até à nova idade. Ruínas foram de pobreza
e galhardia. Aguentaram firmes na espera do pintor que tinha olhos
e mãos para as saber. Outro o chão outras as casas outras as vozes 
ou ainda as mesmas, de memória vazia. Alguém dirá um dia:
era uma vez uma varanda e uma escada e uma casa e decerto
pequenas as histórias da pequena miséria da casa tão pequena.
Mesmo à beira da casa esteve a árvore que tudo soube e calou
e à terra entregou o seu saber de sol e água e choros de gente
que só ela ouviu. Os pés cansados no chão já não o mesmo
sentirão, na descida tarde, um rumor de seivas, um adejar sem
asas, um tactear sem mãos. Ramagens de outro tempo.
Só o vento ficou.


Licínia Quitério

15.9.10

AS OLIVEIRAS



Nesse tempo as paredes eram todas oblíquas.
Ao razá-las as aves quebravam o limiar das asas.
Impediam os filhos de deixarem o ninho.
Nesse tempo o chão era uma onda negra,
um dorso de dragão com espinhos de cristal.
As maçãs recusavam-se a deixar as árvores
e apodreciam de medo no cansaço dos ramos.
Nesse tempo o silvo dos comboios foi destruído
pelo grito dos homens que abrasava a planície.
Foi decretada uma nova geometria e as paralelas
morreram sem se terem beijado no infinito.
Foi banido o ângulo recto  e as dores se tornaram
agudas e os sonhos obtusos até à anulação.
Foi o tempo do fogo e da avidez dos corvos
sobrevoando as cinzas. Tornou-se obrigatório 
o choro dos violinos e o latido dos cães.
Proibida para sempre a vertical da vida.
Mais tarde, muito tarde, vieram as oliveiras.

Licínia Quitério

10.9.10

SOMOS



Somos carne, somos pele, somos ossos.
Somos assombro ou  sombra, luz ou treva.
Chamam-nos gente e dizem-nos:
um homem bom, uma mulher ardente,
um zé ninguém, um estorvo, uma
Maria mais de deitar sem dormir.
Têm medo de nós se somos prumo.
Fazem troça de nós se está vazia
a gaveta do oiro.
Somos sangue e suor e sémen e saliva,
as dores da terra, a pressa dos rios, as águas do amor.
E o cansaço, esta vara atravessada de ombro a ombro,
que nos sustem o corpo e nos perfura os sonhos, o desejo.
Somos tudo, somos nada, somos ontem, somos hoje.
Podemos amanhã ser a saudade e com ela fazer
uma estátua, um poema, a rosa branca de toucar,
um beija-flor, ou apenas boca que se deixa beijar.
Somos isto. Um animal que ri e chora e luta
e desanima e se reergue e abraça o dia
de vindimar, ou de cozer o pão, ou de  acabar o livro
prestes a começar.

Licínia Quitério

1.9.10

CREPÚSCULO



Foste a minha noite, o meu ócio, o meu vício,
a argila com que moldei os cântaros da madrugada,
meu talismã contra o medo e a peste e a solidão,
a névoa luminosa dos meus olhos cerrados,
o meu canteiro de conversa e água fresca.
Hoje consulto, nos céus crepusculares, hieróglifos,
aguarelas de barcos em pedaços,
labirintos, enigmas, profecias.
O dia chegará de saber ler na nova escrita
a explicação da noite e da curva da adaga a 
desfazer as altas aves e as coisas partilhadas.

Licínia Quitério
   


28.8.10

COM UMA ROSA

Com uma rosa na mão
ou a rosa o tinha assim despido
de queimas ou de espinhos.
A rosa se fez mão e acenou,
tal o homem inteiro
no campo aberto ao sol.
E os insectos a procurar a rosa.
Rosa-não. Rosa-mão.
Um homem livre e bom
Sabia agora o preço do amor.
Sentira a rosa, a mão,
declarara aos insectos:
Rosa-não. Rosa-mão. 
Um dia entenderá
da Natureza a gratidão.

Licínia Quitério

25.8.10

PEDI UM NOME


Pedi um nome, ou uma rua,
ou uma aldeia, ou um país,
ou um continente, ou um planeta
mesmo pequeno, do tamanho da lua.
Todos os nomes tinham sido dados,
a rua era só uma e tinha dono,
aldeias se as havia só desertas,
um país era coisa de pouco durar,
um continente, sem guerras nem vulcões,
difícil de encontrar.
Sem ser a lua qualquer planeta poderia ter.

Deram-me um mapa,
fui seguindo as manchas,
cor a cor vivendo.

Para tão vasto mundo eu só pedi um nome.
E não mo deram. 

Licínia Quitério

19.8.10

PAISAGEM SEM BARCOS


Há uma hora em que todos
se vão embora do retrato.
Ficamos sós, senhores do nada,  
acreditando em tudo. 
No silêncio do mundo
evaporam-se as águas
e uma bruma de rendas
desfoca contornos vegetais.
Se guerras houve por ali
e assassinos a soldo
e a loucura invadiu a cidade,
tudo se esvai naquela hora.
Ficamos nós e as brancas mãos
e os cabelos de fogo
e as lágrimas antigas
dos olhos das fadas
esperando eternamente
o tempo de chorar.
Sob as brumas ou cinzas,
tanto faz, um barco há-de
surgir, com gente dentro,
a remar devagar, reconstruindo
um tempo de beijar.

Licínia Quitério

7.8.10

VOLTAR


Uma aflição, uma corda de baloiço prestes a rebentar, os cachos das glicínias longe daquela mão, os olhos a lavarem-se no rio, assim serpenteando, debruçados na varanda que o tempo não levou. 
Uma dor sem lugar, a pairar, a espiar o vinho cor de sangue e o copo antigo e o corpo antigo e a varanda e a beleza cruel de tão intensa a calar a palavra, a suspender o gesto. 
A lua, cor do fogo, por entre os ombros da distância, subindo, enorme, lanternim da noite, balão liberto do cordel, senhora das penumbras, alumiando passos caminheiros que o dia pôs na serra e se perderam.
Voltar é esta força de calar os vidros sob os trilhos, ouvir os risos nas escadas e o chiar das portas e o saltar da rolha da garrafa.
Voltar é brindar, a mão a mesma, o copo igual, o vinho cor de sangue, a estilhaçar o inquebrável coração.
É preciso voltar dos ombros da distância, ser fogaréu na noite, chamar-se lua e subir e subir até ao fim da dor, até ao novo dia.



Licínia Quitério  

2.8.10

VERDE


Não fora o verde e o nosso olhar não saberia
da dimensão do dia, da sua fúria ou calmaria, 
da serena ou inquieta voz da madrugada, 
da espessura ou liquidez do céu que a noite traz.
Verde a persistência da trave e do beiral
da casa nunca feita mesmo quando habitada,
do arco ou do lintel tempos depois do fogo.
No verde os pássaros se amam e compõem o canto
e a lagarta verde é o destino do verde que tragou.
Quando o sol quer o verde é também oiro
e a lua  derrama sobre o verde a poalha de prata.
Verde é a alegria de todas as infâncias
por muito que o deserto as tente ressequir, escurecer.
Serão verdes os sonhos de quem nunca encontrou
a loucura, a quentura, a ternura maior que dizemos amor.
O verde é a frescura do caminho de quem sabe correr
preso a raízes, o tronco erecto, multiplicando folhas,
pintando cachos de uvas, verdes ainda, infantes,
maduras amanhã, falantes sempre do verde que as criou.

Licínia Quitério

Para a M., companheiras que somos de verdura e madureza. 

19.7.10

PARA SEMPRE


Pouco fica depois do temporal que quebrou a janela
sem dar tempo a guardar o frio sob as mantas.
A devassa da casa, insuportável, violando segredos,
desrespeitando os cofres e as gavetas e as jarras
com flores e os velhos linhos e os livros duas vezes lidos.
Depois do temporal não há bonança, não há brilhos,
há só estilhaços de silêncio nas paredes cinzentas,
nas gargantas sujeitas a uma corda impalpável.
Os rostos são iguais a outros rostos de porcelana
fina, frágil, ferida, sulcada de impropérios, vilanias.
As paredes resistem, assistem ao desmontar da cena,
que outra virá tal qual as que se foram, que tudo
se repete e tudo é novo e todo o vidro quebra
que o vento sempre volta a visitar a casa,
a resgatar o preço das palavras trocadas, frente 
a frente, em silêncio, sem pressa, para sempre. 

Licínia Quitério

NOTA: Este blog vai entrar de férias umas semanitas. Pode ser que lhe faça bem e que regresse ao vosso convívio com novos ares poéticos. Até lá, fiquem bem, Amigos.

Licínia

11.7.10

ENLOUQUECER

Que fazer deste dia a transbordar
músicas imprecisas de longínquas terras,
vozes esfarrapadas, ásperas, doridas,
dos homens que já viram tudo, que já calaram tudo
e  têm  uma navalha sobre os sonhos
e as mãos aflitas, desapossadas da forja e do metal?
Homens que levaram restos de homens pelos ares,
abriram as portas ao monstro e ao chicote,
viram o negro a rasgar-se em vermelho,
a escorrer pela savana donde os leões fugiram.
São loucos, dizem, estamos loucos, dizem.
Fizeram filhos antes de enlouquecerem
e não lhes disseram do sangue antes das flores,
das cordas, das feridas, da raiva, do medo.
Deram-lhes pão de farinhas amassadas
em águas que limparam da antiga sujidade.
Falaram-lhes de um mundo que haveria
de ter as fomes saciadas e planetas amáveis
onde seriam príncipes respeitados, beijados.
Que fazer agora deste dia em ruínas,
os fantasmas saindo dos escombros
e o desprezo dos filhos e a zanga das mulheres
e uma cruz de silêncio a apagar-lhes os gritos?
Mais logo cantarão, enlouquecidos.

Licínia Quitério

4.7.10

DO AMOR


Trazemos no olhar o tecido dos dias
que desejamos claro, com a suavidade
mate duma primeira e tão fugaz infância.
Navegamos mares, cruzamos ares,
resistimos à traição do escuro do abismo.
Esbanjamos desejo para dele sabermos.
Poupamos no amor para o termos inteiro,
sem importar o rosto ou o nome, que ele
é a mão e a voz e uma infinita paz, de pele
a pele, de vontade a vontade. A água sobre a água,
a pedra contra a pedra construindo a vereda,
um fogo brando, maior a  luz que a chama,
a iluminar um arco de passagem até ao fim do tempo.
E para lá do fim, teimosamente, a água sobre a água.

Licínia Quitério

28.6.10

NOITE

Como se não houvesse noite
E a chuva mais não fosse que
A inconstância dos teus olhos
Regando as malva-rosas
E acalmando a secura dos relógios,
Assim tu foste o despertar da terra
E a claridade das vertentes ao sul,
Mesmo que o sul não seja mar
E o amor se esconda para sempre
Na mão que te recusas a abrir.
Transportaste a tocha e o clarão
E acendeste o fogo e iluminaste
O quarto escuro e as letras do meu nome.
Por isso a chuva cai enquanto durmo
Embora seja dia, que não verei
De novo a solidão das pétalas
Encolhidas, rasgadas, chorosas

Por o sol ter falhado o encontro,
O afago, o bom-dia, a palavra
que transporta o oiro e a imensidão.

Licínia Quitério

27.6.10

OS MENINOS


Os meninos sentam-se. Não precisam mais do que de um pedaço de chão. Pouco se olham. Ainda não sentem o fascínio dos espelhos. Tocam-se apenas para lutar. Mais tarde lhes dirão do abraço que magoa. A luta não. Os homens são grandes e não se sentam. No chão, não. Ficam cansados, de pé, olhando os meninos, não vão eles sujar-se no chão. Ou apanharem o bicho que passa, muitas patas, pouco corpo. Os deditos dos meninos seguem o bicho que partilha com eles o chão. Há também mulheres grandes que não se sentam. Cansam-se de ficar de pé, olhando os homens e os meninos. Estão tão contentes os meninos. Não se olham, sorriem e com os deditos desenham o caminho sinuoso do bicho. Tantas patas para tão pouco corpo. Não lhe tocam que os homens e as mulheres, cansados, de pé, assustam-se e gritam. São grandes, estão cansados e têm medo, pensam os meninos. Senta aqui, mãe. Senta aqui, pai. Não sentam. São grandes e o chão mete-lhes medo, como o bicho que já lá vai, tão longe, a rabiar seu  corpo magrinho de pernas tantas. Acabou o tempo dos meninos no chão. Os grandes, cansados, medrosos, dizem: vamos embora. Vão todos sentar-se num animal de corpo grande e poucas patas. Os grandes riem, já não estão cansados, nem sentem medo. O animal grande anda depressa, mas os deditos dos meninos ainda não esqueceram o rabiar do outro, de corpo fino e muitas patas. Desta vez olham-se, sorriem e desenham o caminho do bicho pequenino nas costas dos bancos onde se sentam os grandes que já não estão cansados, nem sentem medo porque não sabem do bicho que lhes caminha nas costas. Os grandes não adivinham os segredos dos meninos marotos que acham que o chão é para sentar.

Licínia Quitério

20.6.10

QUENTE FOI O VERÃO

Era no tempo do estio em que as searas não passavam da lembrança do verde ondear. Os caminhos ardiam e os animais fugiam, as árvores ardiam e assobiavam um bailado de fogo. Veio o medo das bruxas e elas fugiam das chamas que lhes queimavam o nome. Os corações ardiam de uma paixão desconhecida, surgida das matas frias de um desejo devorador e antigo. Falavam de demónios vermelhos vindos de longe para fazerem a guerra. E os homens respondiam: "Nós trazemos o corpo inteiro e os livros da paz". E o medo das bruxas encorpava. Mulheres havia que esconderam as crianças. Era o medo do demónio, do fogo, da guerra, das sombras más que uivavam como lobos, diziam-lhes. O pão, escasso e duro, era fechado nas arcas. E os homens diziam: "Nós trazemos o pão, o leite, o mel e o vinho". No luar se encontraram, afastados, resguardados dos estranhos que diziam palavras estranhas como livro e paz. Lá no cimo, ao longe, as matas estavam acesas, um fogo rasteiro, de devorar restolho e afugentar coelhos. De homens nem sinal. E as mulheres diziam: "Foi o demo que lá passou. De manhã cedo vai-se embora e veste-se como um homem e fala como um homem, com palavras novas como livro e paz". Quando o dia nasceu, os homens limparam os caminhos e lavaram as águas e não  roubaram o pão e falaram às crianças numa língua que só elas entenderam. Já havia mulheres que diziam: "Eles não trazem a guerra. Lavaram a água e limparam os caminhos". Havia ainda os que diziam: "Mil formas tem o demo. Até de anjo se veste". E persignavam-se. No próximo luar, os homens sentaram-se, já mais perto dos que ali pertenciam, abriram livros e leram histórias de encantar. Um cão veio enroscar-se ao pé dum homem que lia. As crianças tinham os olhos muito abertos e diziam "mais" quando uma história acabava. Era já tarde quando se recolheram. De madrugada, uma mulher madura e esfarrapada bateu à porta dos homens. Trazia uma couve. "Façam um caldo, mas não contem a ninguém que eu aqui estive". Era sempre a primeira a chegar para ouvir as histórias. Sozinha, que desquitadas não eram boa companhia. Limpos todos os caminhos, lavada toda a água, lidos todos os livros, os homens partiram. "Afinal eram boa gente". E ouviu-se o choro abafado de uma mulher e o latido de um cão. Os homens subiram a serra, com cautela. Em volta tudo ardia.

Licínia Quitério

18.6.10

JOSÉ SARAMAGO

Este é o tempo em que todos me morrem.


Eu não sou nada e tenho a sorte de ter amado


a grandeza de homens imperfeitos.


Por isso, hei-de voar.


Licínia Quitério



Junho de 2005

Junho de 2010

16.6.10

VOLTAS AO CAMPO




Voltas ao campo, à horta, ao tanque, aos animais,
como se alguma vez ali tivesses pertencido.
Dizes ruína, mas nunca conheceste a infância
das pedras e da cal e do carinho dos homens.
O cheiro dos coentros traz-te lembranças
das ervas que nunca pisaste que o teu lugar
sempre foi o casulo das cidades cansadas
onde deixaste os passos e as esperas.
O telhado está roto, dizes, mas nunca lhe
soubeste a inteireza com que afrontava
o vento e o orgulho com que estancava
a chuva. Agora tens  a solidão nos olhos
e os braços vazios e a memória a pesar
nos ombros e na fala com que dizes voltar.
Perdeste o tempo e o lugar e o cantar
dos pássaros. Cidade foste tu e o teu modo
de abraçar o mundo. Só o amor te salvou
e te mostrou o caminho de volta. Esse que hoje
desbravas e constróis  no abrigo das arcadas
protectoras do sol abrasador que te esperava.

Licínia Quitério

14.6.10

AUTOBIOGRAFIA




Tudo passou por mim nas noites e nos dias:
a beleza dos corpos feitos de gelo ou brasa
fossem de gente ou ave ou seixo de riacho,
mudos como o luar ou com vozes de prata.
Eram bandeiras e choros e imprecações,
marchas negras de fome e arraiais e danças
e a ternura das mães e o desejo das mãos
e a deserção dos sujos e o abraço dos puros.
Houve também as paredes da casa e a janela
e a porta, como houve as minhas dores
recolhidas, fechadas. Aberta sempre a casa
a quem trouxesse o lume e a boa nova
ou precisasse de secar a roupagem dos olhos.
Com a fragilidade de um cristal de rocha
ou a exactidão e a força de uma teia de aranha,
por tudo vou passando e tudo em mim deixando
uma mancha de sol, uma breve lantejoula,
uma folha orvalhada, uma luz partilhada,
um amigo certo, uma palavra amada
e a loucura das rosas esquecidas do deserto.

Licínia Quitério

10.6.10

CLARISSE 15


Muito tempo passou desde que Clarisse folheou o último álbum. Nesse ano a invernia foi intensa, cruel, não deixando abertas no céu para que o sol  aquecesse o peito enregelado. Clarisse fingia-se sem tempo para reviver passados, numa moleza encostada a lareiras apagadas e a conversas alongadas com gente de outros álbuns. Já mal recordava os lugares e as músicas e os silêncios irrepetíveis bordados de pétalas de flores que ninguém se atrevia a nomear. E  caía numa melancolia de romance quando as rolas vinham beber ao tanque de regas, tão precisado de obras como se alguém ainda se importasse com a secura da terra que o verão impõe. Já a primavera ia adiantada quando um estremeção a fez virar-se, rodando sobre a cintura, resguardando a segurança dos pés, temendo por instinto uma tontura. E ela veio, leve e distante, sem exageros, como em sonhos. Do sonho seria a rola de peito róseo a que faltava uma asa e que a fitava, com seu olhinho de vidro, à beira de água, sem beber. Clarisse entendeu o sinal e foi finalmente folhear o último álbum. A humidade do inverno fizera das suas e um rosto que jurava ter conhecido estava agora manchado, de contornos esbatidos, como se fosse uma pintura a quem o desgaste não tivesse porém ocultado a serenidade e a beleza que se desprendem da palavra amor. Clarisse sentiu que a história tinha chegado ao fim e que não voltaria a folhear os álbuns. Antes de o fechar,  viu uma rosa branca, ainda estranhamente branca, a segurar um poema. Ilusão, só podia ser. A rosa e o poema tinham partido há muito com o homem do retrato manchado, sereno e belo, que o tempo não deixou que noutro se tornasse. Os olhos de Clarisse continuam verdes, verde-água, quando for tempo disso, e a enfrentar a estrada onde nunca faltam poemas e rosas brancas.

Foi esta uma maneira de contar a história de Clarisse, devoradora de passados e teimosamente construtora de futuros.

Licínia Quitério

8.6.10

CAMINHOS



Nos caminhos da sombra se acoitam nossos medos.
Ah não fossem as sombras como andariam loucos,
em desatino, a desfazer a nossa gargalhada, a desatar
o nosso abraço, a apagar o lume que o amor acende,
a ocultar os astros novos que as noites nos ofertam.
Libertos ficam os indícios das pedras que a outras
pedras nos conduzem, sempre mais amáveis, mais
redondas, mais lisas, mais conforme a lassidão do
nosso andar. E as cores, as cores, que nos traçam
os mapas na pele, nos olhos astrolábios, nas mãos
oceanos de gelo, lava de vulcões, nos braços a prata
do devir dos amantes, na boca o oiro  com que
se beija um filho ainda por nascer ou já entregue
às pedras e aos medos e ao brilho imenso de viver.

Licínia Quitério

6.6.10

PROVAVELMENTE




Provavelmente  nada seria igual
se um tritão inda houvesse, meu amigo,
meu escravo, meu senhor, minha casa de mar.
Os tritões agora são de pedra,
nos lagos e nas fontes,  fantasias
dos deuses depois da criação 
de vaidades e ambições do tamanho do sol,
da via láctea ou da  ínfima partícula
em que nenhum nome cabe para poder existir.
O tritão que eu sabia dos desenhos solares
que só as crianças constroem nas areias
era gentil e sorria quando eu o cavalgava.
Meu escravo, meu senhor,  levava-me
a viver minha casa de mar com peixes 
cor de luz e tudo o mais que eu não tive
que o meu amigo em pedra se tornou
e a criança assombrada na areia ficou.

Licínia Quitério

Apresento as minhas desculpas por, durante um tempo que espero breve, não visitar os vossos blogs, deixando os merecidos comentários. Grata pelas amáveis opiniões que sempre aqui fazeis o favor de expressar. Deixo-vos o meu terno abraço.

Licínia

31.5.10

AS MENINAS


Eram meninas e brincavam.

Inventavam a floresta
e ela acontecia.
Escondiam-se e um manto
de asas de anjo as encobria.
A noite era um sítio longe
e o dia brotava-lhes das mãos.
Escutavam as árvores, 
o namoro das copas. 
As meninas tinham caixas
de guardar segredos
com chaves pequeninas,
invisíveis.
Nelas dormiam os cavalinhos brancos
de galopar, de galopar.
As meninas apressam-se a crescer.
Apagam as florestas antes que a noite chegue.
Já não se escondem, as meninas.
Souberam que não há anjos sem asas.
Deitaram fora as caixas dos segredos.
Foram-se embora  os cavalinhos,
a galopar, a galopar.
Estão tão grandes as meninas.
Pequeninas ficaram as chaves
invisíveis, 
para que o vento as leve
mundo fora, a voar, a voar.

Foram meninas e brincaram...

Licínia Quitério

24.5.10

SER ÁRVORE


Há um tempo que nos cabe
de sermos tronco adulto altivo
resistente à injúria e ao machado.
Raízes são olhares que deixamos
prender na solidão das casas
pejadas de gritos e abraços
e recados  ao encontro do futuro.
Não me falem de ninhos, nem de sonhos,
nem de viagens, nem de contas-correntes.
Eu só quero ser árvore, ouvem bem,
árvore, com seivas elaboradas,
diligentes, cantarolando
uma húmida e suave barcarola.
Hei-de ter folhas rente ao chão
ao alcance da fome e da loucura
de quem sonhou demais e definhou.
Hei-de ter copa, sim, da matéria
das sombras que o luar constrói
na cal dos muros, nos caminhos da noite.
Depois serei colosso, serei lenho,
as seivas já sem canto, só soluço,
em debandada as sombras e os espectros.
Velha serei, mas árvore e deixarei,
viçosas, esperançosas, algumas
jovens folhas rente ao chão.

Licínia Quitério

16.5.10

LADAINHA EM REDOR DE UM BÚZIO

Encosta-o ao ouvido,
a mão em concha
a modelar-lhe o dorso.
Agora fecha os olhos,
aparta-te do mundo,
murmura búzio como
quando pela última vez
disseste meu amor
e só o mar te ouviu.
Escuta o clamor das ondas,
lá longe, onde findaram
as praias, as falésias,
e os navios  fantasmas
não podem aportar.
Espera um pouco mais.
Uma voz hás-de ouvir
que só pode ser água
que só pode ser vento
ou então a mesma  voz
com que disseste amor
pela última vez 
e só o mar ouviu
e para sempre guardou
no côncavo de um búzio.
E tu o tens colado no ouvido,
e tu de olhos fechados
e tu apartada do mundo
e tu escutando o mar
que no fundo da noite
acolheu tua voz
dizendo meu amor
de joelhos na praia.
Mulher de marinheiro
que foi e não voltou. 

Licínia Quitério

9.5.10

VISITAR O SÓTÃO



Chegou o tempo de visitar o sótão
onde ficaram presos, mutilados,
os dias da abundância e da aventura.
Do antigo fulgor, um brilho leve,
envergonhado, a recordar
as horas sensuais da seda pura.
Pela noite, o corpo era a ardência
da haste e a frescura dos ramos
e os olhos água com medo da ternura. 
Da festa só ficou o cheiro bafiento
das arcas guardadoras de bragais
e as cores dos óxidos a devorarem,
ímpios, a luzente alegria  dos metais.

Licínia Quitério
  

30.4.10

LEMBRANÇAS DE UM MAIO

O dia veio e a cor brotou.
Vermelho, sim, como as papoilas
e os lábios quentes das mulheres
e o canto livre que de outra cor
não se fazia.
Vermelhas as roupagens
da liberdade que soava
e punha mãos em mãos
que não se conheciam.
Tão doce o amor nascido
de gestos improváveis
e olhares incendiados
como nunca se vira.
Nome não teve a festa
porque sem nome é tudo
o que é maior que o sonho.
Havia sede, uma sede imparável
e a água se oferecia
que tudo era sem preço nesse dia.
Cravos vermelhos  havia
nas portas e nos braços 
dos rapazes que sorriam
perdido o medo da alegria.
Era um clamor de passos
uma batida que ecoava
na quentura dos ares
e entontecia.
Era um rio de pássaros
de asas vermelhas
como o riso das moças.
E os poetas não pararam de dizer
a urgência da palavra
há tanto encarcerada e agora aberta,
inteira e ousada.
Ela também vermelha como o dia.

Licinia Quitério

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