19.8.10

PAISAGEM SEM BARCOS


Há uma hora em que todos
se vão embora do retrato.
Ficamos sós, senhores do nada,  
acreditando em tudo. 
No silêncio do mundo
evaporam-se as águas
e uma bruma de rendas
desfoca contornos vegetais.
Se guerras houve por ali
e assassinos a soldo
e a loucura invadiu a cidade,
tudo se esvai naquela hora.
Ficamos nós e as brancas mãos
e os cabelos de fogo
e as lágrimas antigas
dos olhos das fadas
esperando eternamente
o tempo de chorar.
Sob as brumas ou cinzas,
tanto faz, um barco há-de
surgir, com gente dentro,
a remar devagar, reconstruindo
um tempo de beijar.

Licínia Quitério

11 comentários:

Lídia Borges disse...

Há uma hora em que as esperas se imobilizam no espaço...
Os barcos virão trazer o movimento à paisagem de um tempo parado...

L.B.

Maria P. disse...

E que regresso:)

Beijinho Amiga*

bettips disse...

Talvez um barco-âncora-poema
tivesse assomado a essa janela.
Muitos o esperavam.
Para arrumar a gaveta
do esquecimento.
Bj

hfm disse...

Há a hora da esperança. Belo poema!

legivel disse...

.... Valdemar esperou, esperou, mas de barcos nem sinal. Estranho, muito estranho, cogitou. E agora como atravessar o rio que separava unindo as duas cidades? Para grandes males, grandes remédios (de preferência genéricos... ). Tirou da pasta uma folha A4, branca, e desenhou a paisagem que se apresentava perante os seus olhos. Depois acrescentou-lhe aquilo que ela não tinha: um barco, atracado ao pontão. Um grupo de pessoas que esperavam por transporte há tanto tempo como ele prguntaram-lhe se podiam acompanhá-lo na travessia. Que sim, anuiu, mas não se responsabilizava pela sua segurança, acrescentou, pois era a primeira vez que viajava num barco de papel.

Abraço e sorrisos.

Maria disse...

Haverá sempre um tempo para acreditar. Mesmo que seja num único beijo...

Um abraço, Licínia.

Justine disse...

Encontraste por esses recantos serenidade, silêncio e memórias. E a poesia nasceu dentro de ti. E a partilha, mesmo estando ausente, é possível!
Obrigada:))

Graça Pires disse...

Vestida de silêncio. Um silêncio quebrável se houver barcos por perto. Talvez ao longe haja algum sinal de proa... Mas podemos compreender sem barcos o emocionado universo dos sentidos.
Um poema muito belo, Licínia.
Um grande beijo.

Rui Fernandes disse...

Compreendo que é por causa da gente que a gente escreve e lê, fotografa e vê. Mas, e no dia em que o retrato não tiver poeta a disparar palavras e fotógrafo a carregar no botão à chegada do barco? Nem gente dentro com barcos e cidades e guerras? E só restar o retrato e nós e a plenitude do silêncio?

O teu poema semeia em mim a inquietação... e a expectação.

Beijos.

M. disse...

Será um outro retrato.
Belo o que disseste sentindo.

heretico disse...

há solidões assim. enormes...

(ainda que por vezes povoadas)

gostei muito. muito

belíssimo

beijos

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