26.12.13

ACORDAMOS


Acordamos com a franja da noite
a deixar entrever restos de sonhos.
Imagens incoerentes, tempos vivos
de mortos, absurdas torres, e a fala
mil vezes 
repetida, alucinada,
em demanda de abrigo, num limiar
de opala.


Na alegria e na tristeza, restos de sonhos
alimentam a poeira da casa, da estrada,
incandescente às vezes, branca, fria,
quando a noite volta e se derrama.

Licínia Quitério

21.12.13

SILENCIOSA


Fria casa do inverno
O sol abraça
a negritude
e dela faz rio
de milagres
As árvores
presas na boca
dos esfomeados
As ervas dormentes
na quietude do grão
Recolhimento
Os olhos
desmesuradamente
abertos
que esta luz não cega nem aquece
Os dedos
encurvados
A carne contra o gelo
Os corpos
caminhantes
na lentidão do dia
Círculos
Círculos
Círculos
A tontura
antes da noite
da arca da noite
Maior a noite
Silenciosa noite
Silenciosa

Licínia Quitério

15.12.13

DÃO-SE-ME


Dão-se-me os bichos e as plantas
como se para mim tivessem renascido.
Acontece porque neles penso e me demoro.
Pequenos anjos sabedores das frestas, das falhas,
das agulhas de luz com que se rasgam sombras.
E homens grandes, também,
fugazes, tristes, imperfeitos,
bebedores de abismos,
passageiros ardendo,
indo.

Licínia Quitério

8.12.13

A ESTRADA DE CLARISSE

                               


Longe dos álbuns, Clarisse continua-se nos dias da penumbra e do regresso. Já outra, sendo a mesma, que o retrato de si se adoça e pacifica. A estrada, limpa de sombras, conta-lhe os passos, guarda-lhes o rasto, o cheiro a cravos. De Clarisse permanece inteira, atrevida, a verdura do olhar. Duas folhas vivazes em árvore de Outono. Uma ostentação, um desafio. 

Licínia Quitério 

3.12.13

DISCO RÍGIDO


É mais um livro, o quinto, que me leva os escritos e os expõe à vontade de quem os quiser ler. Este diz-se em prosas, muito várias prosas, de vários tempos e lugares, de vários jeitos de escrever, de vários tamanhos e intensidades. Nele estão  recordações ficcionadas, divagações sobre os dias, desvarios até de uma Clarisse que sonha e é o próprio sonho. Realista, poético, onírico, avulso e descontrolado, numa poeira de palavras que se juntaram na gaveta dos novos tempos, no disco rígido do meu computador, que é como quem diz, na minha memória, esse lugar estranho onde tudo cabe e por vezes se deixa espreitar, por vezes se fecha a sete chaves, por vezes para sempre. 

Licínia Quitério

24.11.13

A BELEZA


Um tecido de nuvens não é mais belo que uma folha de plátano. Tudo tem seu lugar na imaginada tela de ternuras que irrompe nas tardes friorentas de gatos ronronando na mansidão dos donos. Nada é mais belo do que a liquidez de uma estrela no charco da solidão. Bela é a audácia das libelinhas afrontando a secura. E que dizer da claridade fechada nos punhos dos que lutam quando é de breu a desventura? Mora a beleza em seus palácios de vento, mutantes, inconformes, eternamente desassossegados. Nos espelhos a vemos, intocável, serena como os dosséis do sono.


Licínia Quitério

19.11.13

HAVIA VENTO


Havia vento nesse tempo. É dele 
que me lembro a arrastar segredos 
há muito resguardados nas areias 
e nos grãos de sal amolecidos. 
Ainda a boca se recorda do sabor 
dos murmúrios nascidos no deserto, 
das vozes negras, desgrenhadas, 
perdidas dos alfabetos sobrevivos. 
Esse vento foi o mais misterioso 
de todos que por mim se anunciaram.
Acontecia, apenas, como acontece 
a morte ou a paixão. E não havia tempo 
de o pensar, de o acolher, no sono ou na vigília. 
Deixava um odor a searas maduras 
que nos punha no colo um gesto largo, 
uma açucena por detrás do olhar. 
Inadiável é um novo vento
que diga donde vem, para onde vai, 
que sopre diligente sobre o mar, a emprenhar 
os barcos de força e abundância, 
os homens de sossego e inocência.
Das Áfricas virá que dela veio a vida 
e se perdeu, ensandeceu, num vento
norte de gelo e inclemência. 

Licínia Quitério

9.11.13

NADA DEMAIS



Nada demais, amigo. 
Tudo cabe nas nossas águas. 
Um retalho de céu não é maior 
que a página do livro onde o escrevemos. 
Miragens, dizes, e eu digo torres, 
tão altas, tão fundas, tão iguais 
ao giz com que as traçámos. 
Nas nossa águas, antes da noite, 
poderão nadar todos os peixes 
nascidos dos fios 
das conversas adiadas. 
Tudo cabe, tudo vive, tudo se move, 
nos mil andares de luzes e de sombras. 
Tal como as nossas mãos, 
nada se toca, nada se magoa, 
nada fere, nada queima, nada. 
Intacta a carne e o fogo 
que em vez de a devorar a alimenta. 
Tudo acontece na outra lâmina dos nossos lagos.

Licínia Quitério  

23.10.13

NOITE


Transfigura-se o homem na poalha da noite, 

o musgo a crescer na invisibilidade das cortinas. 
Na pele da noite pingam soluços. 
Borboletas gigantes endoidecem e 
rasgam as asas na melancolia do homem. 
Todas as ruas sobem. 
O homem avista um castelo e sobe, 
os ossos atados ao coração. 
Todas as noites são de chuva se 
o homem tiver esquecido o sabor das lágrimas. 
Quem sabe uma palavra fundamental 
o guie na subida, o restaure, e o seu nome
se dissolva numa avalanche de luar.
Só a noite absoluta condena ou purifica.

Licínia Quitério

15.10.13

ESTA CASA













Esta casa tão frágil que qualquer brisa abana
guarda elmos, espadas e couraças,
testemunhos de guerra no tempo da inquietude.
Dos dias da acalmia nem as rendas ficaram
que os bichos nos armários delas se alimentaram.
É uma casa pintada a manchas, cicatrizes,
com uma asa de corvo presa ao tecto a lembrar
o anúncio, a persistência, o rancor, o triunfo.
Solitária casa abandonada, exposta ao invasor
que conta portas e lhes arranca os trincos.
Não resiste a casa. Ganhou a transparência,
a leveza dos véus que já não velam. Sobe.

Licínia Quitério

12.10.13

NÃO SÃO ASSIM


Não são assim os lobos, 
na luz compacta do calor. 
Esta é a luz dos sonhos 
em que eles se passeiam 
e nós com eles vamos, 
sem nada nos doer, 

tranquilos, mudos, leves.
E as árvores connosco.


Licínia Quitério

7.10.13

O MÁRMORE



Podias lá tu saber, rei de absoluto poder e relativas fraquezas, que, mais de dois séculos volvidos sobre o vulto do teu sonho de pedra, 
os meus olhos ficariam presos numa certa luz, numa certa música que, numa certa hora, se desprenderam da inocência, da brancura, da lhaneza de dois anjinhos, com asas e penas e cabelos anelados, espreitando, um ao outro aconchegados, aquela vastidão, aquela altura, aquela estonteante simetria. Quiseste, ó rei, deslumbrar outros reis, outros reis de reis, outros planetas que ainda não haviam nascido, já que tais nascimentos não houveras decretado. Filhos de teus filhos, que pela grande pedra viriam ao teu mundo, nela receberiam coroas e depois túmulos e as mesmas coroas e outros túmulos, que de tal se faz a vida e a morte dela. Tudo assim foi e assim não foi e tu de nada soubeste, na frieza de outras pedras menos claras. De verdade, os meus olhos agora aqui, absortos, debruçados na longevidade do mármore, no breve tempo dos reis. 

Licínia Quitério

6.10.13

PRAIA


No dia em que tudo estiver gasto, o riso da hiena, o arrulhar do pombo, a palavra rochedo, a palavra algodão, e, mais do que isso, a vontade de morder um fruto como quem bebe a lua, nesse dia falar-te-ei de coisas inocentes, cá dentro da porta selada, da casa do silêncio, dos móveis mil vezes limpos, do adejar das traças sobre as roupas, que só eu oiço, só eu. Era uma vez, assim começo, um grão de areia, dois grãos de areia, três grãos de areia que juntei e fui fazer a praia. Era uma vez, assim termino, uma praia, outra praia, e outra, e as juntei e nada mais pude fazer.

Licínia Quitério

25.9.13

A CONSTRUÇÃO



Incansáveis, constroem caminhos. Enredam, alinham, desalinham, enredam. Novos caminhos atam e desatam, ao longo dos primeiros, e outros, a atravessá-los, outros mais, até à malha inextricável, ao campo inexpugnável. Do alto do seu navio de glóriadeclaram-se senhores do labirinto. Dentro dele viverão a paz dos cercos. O nascimento das rosas será o sinal da saída do campo que já foi aberto, navegável, antes do segredo da construção, antes do afã dos construtores.

Licínia Quitério

20.9.13

OS FIOS



Foram os fios que se enredaram na casa onde nasceu a avidez. A mesma casa, diz-se, onde os frutos secaram e as sementes voltaram, elas também tão secas que apagaram a memória das primeiras chuvas. Hoje fala-se de um lugar de fios prodigiosos que tilintam e reluzem pela casa, na hora de saber o que permaneceu, o que fugiu, o que se desfez, o que não viveu, no tempo da avidez. Os fios, tecelãos das próprias malhas, linho e estopa, amor e cupidez, véu de noiva e sudário, teia da solidão sobre a cidade. Com o incêndio dos fios há-de vir a nudez. Resgate e recomeço, corpo aberto. Ao longe, a encosta e o declínio.


Licínia Quitério

14.9.13

A ESTRADA


Na estrada longa, o nosso carro de sol e chuva vai pegando passageiros, largando outros, numa viagem de conhecer, desconhecer. As sinuosidades encobrem as velhas margens e quem nelas caminhou ou se perdeu. Vão-se apagando as marcas do rodado. Indelével, a memória dos vivos e dos mortos, a impedir o esquecimento. A luz que indicia o fim da estrada revela os nomes de passageiros que continuam no carro, invisíveis, intocáveis, silenciosos, testemunhas da inacabada solidão.


Licínia Quitério

8.9.13

NAVEGAMOS



Acendemos barcos nos telhados para não sossobrar na penumbra dos claustros. Encobrimos fissuras com os fios sobrantes do naufrágio. Percebemos que a luminescência do silêncio pode guardar o segredo da viagem. Tempo sobre tempo restauramos a nau. Aprendemos a bolina mas não nos precavemos contra o capricho dos mandadores dos ventos. Confiamos e vamos e tantas vezes 
voltamos. Outras tantas perdemos a vela e o encanto. Empobrecemos, enriquecemos, vendemos o pano e as vísceras. Em terra somos a hesitação entre a procela e a bonança. Imóveis, navegamos, os barcos acesos vigiando o mar.


Licínia Quitério

2.9.13

RÉPTEIS


Têm a fala sibilina dos répteis, o andar rasante dos répteis, os lábios ausentes dos répteis, a ligeireza na fuga, o silêncio antes da presa, a transfuga da pele, o transvase da linfa, o desdem pela recta,  o êxtase dos tiranos, a ambição dos tolos. Quem lhes dera uma fita azul que atasse o corpo ao céu e ensinasse negócios de subida, de brancura, de travessia sem barqueiro e sem óbolo.  Quem nos dera a água que lavasse, a pedra que pesasse, o sopro que os mudasse e fossem peixe que nadasse ou ave que voasse ou réptil que de homem não soubesse.

Licínia Quitério

28.8.13

VEM COMIGO


Vem comigo. Há um caminho 
de vontades que nunca pisámos. Calça as sandálias de atravessar as grécias. Desta  vez não persigas os cervos que eles te fugiram para sempre. Dá-me a tua mão e sente na minha a brancura das tardes que me fizeram pitonisa das estradas de breu.  Vamos convocar o brilho de um astro para este degredo de espadas embainhadas, de cisnes cantores. Pronunciaremos amor em todas as línguas dos homens até à revolta dos cegos, dos deserdados, dos dementes. Vem pelo caminho infinito da vida e da morte dos mundos. Tens de jurar que não pronuncias palavras de regresso. Nem de perdão.

Licínia Quitério 

23.8.13

LEÃO



Ah se eu te contasse, leão, a sede da savana, o choro das crias, a solidão das fêmeas, a fúria dos machos, o susto das presas, a morbidez dos caçadores, se eu te contasse, leão, e fosses carne e pelo e vida inteira, regressarias ao teu tanque, vestirias a pedra, e a água escorreria, em soluços, da tua boca aberta, da tua língua esquecida do sangue, vagamente lembrada dum bocejo, na tarde quente dos leões que passaram, que passaram.


Licínia Quitério

20.8.13

ESTE CALOR



Este calor impróprio a lamber os telhados, a abrasar as copas, a atear as raivas, a beber os charcos, a dizer áfricas, desertos, fomes sem lágrimas, ervas vermelhas, êxodos. Também doçura, sumo, suor, sossego, sedução, sesta, serão de lua, cante. Só o gelo é igual.


Licínia Quitério

15.8.13

A LOBA



Ali estavas, olhando-me. Breves segundos para sabermos uma da outra. Havia a rede, a minha perturbação, a tua perturbação. Lá vives com a tua alcateia, cá vivo com a minha. O teu cercado é vasto, o meu cercado é vasto. Havemos ambas de saltar a rede, uma noite, quando a Lua nos chamar.

Licínia Quitério

12.8.13

A MUDEZ DOS DESERTOS


Insectos insaciáveis, corpos do nosso sangue em outros corpos, chegam enxames de palavras. Trazem nas patas toda a seiva, toda a luz, toda a aspereza dos matos invocados em vão. Em nossas bocas libertam-se do pó dos caminhos, da acidez dos doentes, do arrepio das lâminas, da rouquidão dos efebos. Demoram-se a adejar nos nossos vãos, soltam zumbidos de árvore, aflições de guitarra, sobressaltos de madeira, silêncios de capela. Quem dera poder amá-las, dobrá-las, torná-las agradecidas servas da mudez dos desertos. Reconstruir, palavra por palavra, o tecido sonoro das ágoras. Sem pressa, que nada sabe de seu fim.


Licínia Quitério

9.8.13

LOBO


Olha-me nos olhos. Assim, de frente, de perto. Não me ignores, lobo. Olha-me, diz-me do teu rancor, do teu estado de bicho, da tua oculta mansidão, do teu segredo, do teu amor de lobo pela loba, das tuas Luas cheias, do teu medo de seres homem, de perderes o teu olhar de fogo, de te perderes na serra, de te perderes de amores, nas noites claras da Cassiopeia, nas dobras dos uivos que povoam o teu cio, a tua raiva, o teu poder de fera, o lobo-lobo que há em ti. Olha-me, lobo, assim de frente, assim de perto, uma única vez e não te esquecerei. 

Licínia Quitério

7.8.13

É NO COLO DAS MÃES



É no colo das mães que tangem os sinos do princípio dos dias. É o cheiro das flores do tecido das mães que alaga a pele e se faz céu e lago dos últimos dias. Pelo meio da história, o sabor do leite, a dor do coágulo, a tormenta do linho. Depois, a insipidez do soro, a mudez dos sinos, a ausência do cheiro das flores.  Recuperado o colo. 

Licínia Quitério

31.7.13

DE QUANTAS VIDAS


De quantas vidas me vivo? Quantos sonhos, quantos sustos, quantos lutos, quantas lutas, quantos amores, quantas dores, quantos minutos de espanto, quantos segundos de pranto, quanta guerra, quanta garra, quanta batalha perdida, quanta força renascida, quanto mundo me agarrou, quanta terra me soltou. Tudo muito e mais e tanto que me canso e me descanso na estrada que fui pisando, na rede que fui tecendo, no livro que fui escrevendo, a paixão continuando e os olhos alongando para o lado de lá do mar onde a água será tanta e tão salgada e tão doce como esta história de mim, tão banal, tão mentirosa como se verdade fosse.

Licínia Quitério

29.7.13

A INCONSTÂNCIA DAS ÁGUAS



A inconstância das águas inunda-me a memória quando me debruço no leito imemorial das fontes. Ao meu encontro vêm as sombras ondulantes dos castelos submersos pela incúria dos homens, pela quezília dos deuses. Um canto ignoto aflora a minha dor e uma dança acontece-me nas estradas do corpo. São flores inertes, silenciosas, imponderáveis, de pétala aguçada, de fogo e de gelo, tão distantes da vida, tão distantes da morte. O apelo da mãe de água, seu anúncio de limos, seu  respirar de réptil, meu desvario, meu cansaço, minha vontade de ficar e de partir, silente e nua, também líquida, na abstinência dos sentidos, na absoluta ignorância do amor.

Licínia Quitério    

23.7.13

SENTO-ME


Sento-me na inutilidade das coisas quando secam os frutos à míngua de carícias. Peso tanto como as minhas pernas cansadas de alinhavar viagens. A penumbra é um lugar indeciso aninhado no veludo do tempo. Na hora de folhear as outras horas, passam por mim cavaleiros de infindáveis batalhas, corças assustadas, cabeleiras fulvas, flores de oiro velho. Espero um teatro novo, de carne e não de sombras, de vozes alagadas de riachos, de corpos nus, terrenos, fabulosos, fabricando o pão, repartindo. Adormeço.

Licínia Quitério 

9.7.13

SE TU VIESSES


Se tu viesses ver-me e eu pudesse amar-te para além das coisas claras, perceber a noite e o seu dia futuro, matar o mal que nos ferra a virtude, ressuscitar o lobo que se perdeu no escuro quando perdeu a loba, explicar a persistência da floresta que espreita nas areias, dizer que continuo e não sei se comecei a falar-te deste sítio imenso e eterno, janela da casa sempre por construir, açoteia, vigia de estrelas, perdição, precipício, amor maior que as coisas claras, luz ausente, vida plena, morte. Se tu viesses.

Licínia Quitério

29.6.13

FLORES



Filhas dos esponsais da luz e da treva.
Florir é verbo entre nascer e morrer.
Cantam as flores a canção da terra.
O sangue delas ferve sobre o gelo.
Duram, imóveis e mudas.
Não se indignam. Renascem.

Licínia Quitério

26.6.13

TÃO POUCO FOI



Tão pouco foi o que mudou. A porta ainda a mesma, com seu chiar nos gonzos, seu gemer de cansaços. O céu semeia oiro ou água ou vento, a endoidecer as virgens, a agoniar os velhos. Bem vês, pequena é a mudança. A farinha ainda é pão e o pão é corpo e o corpo é alimento da vontade. Os sonhos continuam, talvez mais imprecisos, mais voláteis, e as vigílias mais longas, a segurar as pedras na encosta. Se queres saber do sobressalto dos pardais, posso dizer-te que já não bato as palmas, que aprendi o sossego das ramadas. Solto os braços, embrulho-mna tarde, abro o livro. Um novo conto há-de começar.

Licínia Quitério

19.6.13

CORRENTES


Quantos elos nos prendem, 

nos impedem, nos mutilam? 
Com as correntes vamos, 
por força de ventos e marés 
de escárnio e maldição. 
Contra as correntes vão os pulsos 
e deixamos o sangue escorrer 
e refazer a pele dos dias 
com suas noites dentro. 
Além dos pulsos há as mãos 
a prender outras mãos, 
a fabricar outras correntes, 
amáveis laços, ternurentas penas, 
força de amor e desamor, 
respiro ondulante, graça, vitória, 
do fogo ao ferro, do ferro ao sol, 
inexplicavelmente.

Licínia Quitério  

12.6.13

DAS FLORES


Posso falar-te das flores. Baixinho, na dobra do outono, quando se despedem as voadoras. Em voz clara, nas harpas da primavera, dedilhando a esperança. No cimo da montanha, na coroa do verão, de braço dado com as raparigas de desejo suadas. No inverno, sim, posso tentar a fala rouca das sementes na espera em seu covil. Flores de todo o ano, sempre vivas, adornando versos, muros, campas, berços, canteiros, boas vindas, despedidas. Ai de nós na desistência das flores, descoloridas, tímidas, procurando o chão, cansadas flores, despedaçadas, violetas em botas cardadas, ainda assim perfumadas, alento de poetas, de virgens esfomeadas. Falemos então das flores.

Licínia Quitério

4.6.13

DEVASTAÇÃO


Em tempo de desventura 
os poetas falam 
de ervas daninhas 

porque a escassez das rimas não ajuda
a conjugação precária do amor
Viram a nascente o coração e
soletram novas sílabas
nas malhas apertadas da ternura
Com o orvalho da manhã
nascem-lhes nos dedos margaridas
que abrandarão a raiva de saberem 

seus versos poluídos
nos ímpios altares da fortuna

Choram os poetas e 
os anjos acrescentam
penas
pétalas
cantos
aos seus campos
devastados

Licínia Quitério

28.5.13

ESTÁS AÍ




Estás aí à espera que o trigo germine 

como se as sementes não sofressem
da moléstia que sufoca a garganta dos rios. 
Não saberás a sede acidulada da terra 
exausta de arados rancores.
Por muitas moedas que semeies a confundir 
o grão não provarás a quentura do pão 
contra a pele do inverno. 
Sentado no veludo não sentirás 
a ternura que alaga o linho e o ilumina.
Limparás da mesa as vitualhas 
até que a bolsa te pese mais que o coração. 
A atravessar os anos o teu corpo a doer a afundar 
e as mãos vazias que o trigo não germina 
depois do joio antes do sal.

Licínia Quitério

19.5.13

ESCURIDÃO

Licínia Quitério



Sabemos que o vidro se quebrou que o candeeiro se apagou

Da luz que nos morreu passamos a dizer escuridão que um nome há de ser dado ao que nos leva ao cimo e ao fundo e sempre e sempre à vogal mais sonora do silêncio fechada em nossa mão



10.5.13

SETE


Com sede nomeio o cais e os sete barcos velhos com sete homens que chegaram por sete estradas desertas que a água lhes foi levada para sete cofres fortes fechados a sete dores sete vezes tantas vezes quantas as vozes caladas quantas as bocas seladas com sete selos de raiva em sete salas de breu
Com sede digo gaiola e o pássaro fugido e o pássaro colorido com sete penas de jaspe com sete penas de fogo
E a gaiola doirada escancarada e inútil como o cofre aferrolhado com sete chaves de cinza com sete chaves de sangue
Vai o pássaro voando com sete espigas no bico sete grãos de liberdade para sete homens que chegaram ao cais onde barcos velhos se perderam na saudade

Licínia Quitério

16.4.13

AUSENTAM-SE


Ausentam-se e deixam as marcas do vidro 
nos rebordos das mesas, 
no preto e branco das salas vermelhas. 
Sentam-se, com se vivos fossem, 
no chão vermelho a preto e branco. 
Não desistem de nos afagar os cabelos, 
de nos beijar a boca, de nos deitar no sono, 
de nos deixar exaustos de bem-querer. 
Circulam, ondeiam, nas pupilas dilatadas 
à entrada dos túneis. 
Antes ou depois, entenderemos os loucos da cidade.

Licínia Quitério

31.3.13

PRECISO


Preciso de um assombro, de algo que transtorne a intermitência das sombras, que desalinhe as paralelas infinitas, que impeça a monotonia dos calendários, que arrase e desfaça e refaça e recrie, sem explicação, sem teorema, sem axioma, que não responda nem pergunte, que não brilhe nem se apague, que seja a ponta da espada e a bainha e a força do punho e não fira nem salve, não inunde nem seque, que tenha a voz e a mudez que nos nasce e nos mata. Que seja.


Licínia Quitério

24.3.13

LUZ



Tudo é luz, dizias, quando as sombras te percorriam os braços e as agulhas do desalento se insinuavam no teu prato. De luz se faziam as flores da voz e desenhavam corpos porque os cantavas sem nunca lhes dares um nome, nem sequer o de mulher. De luz a escuridão dos corredores da casa, atenta aos roedores nocturnos. A presença e a ausência, a música e o silêncio, tudo é luz, digo.

Licínia Quitério  

7.3.13

UM PRESSENTIMENTO


Um pressentimento apenas, um recado em água de riacho. Longe ainda o seu caminho de asas, buscando a cor na malva-rosa, num sortilégio nascido e apetecido. É no torpor da tarde que o milagre acontece, as bruxas dançam e o magma acende estátuas nas colinas. Se de rebanhos se falasse soariam chocalhos e balidos a anunciar a escuridão de volta. Marmóreo o corpo encerra a claridade e repete a metamorfose da rosa que será terra, bicho, estrela-mãe, na minúscula imensidão do que sabemos. 

Licínia Quitério 

22.2.13

SIM, PERCEBI


Sim, percebi que queres nascer. Esses toques subtis na minha mansidão, essas palavras que ressaltam nos teclados ou nos ramos das árvores, essas contracções inesperadas no meu leito de pensar, esse desassossego no parapeito da tarde, tudo isso, eu sei, é o anúncio da tua urgência de chegar ao lugar de sempre, junto aos outros que acolhi e moldei e a quem agradeci com enlevo e cansaço antes de os n
omear. Serás também poema e serás o tudo e o nada de quem lê, de quem ouve, de quem se não contenta com o limiar das coisas. Eu percebo a tua pressa, o teu medo de que um dia no mundo não haja lugar para poemas ou anjos. Por agora, não te posso dizer a cor da hora de te receber. Vais aguardar, no corredor da tua espera, da minha espera, que aquela borboleta bata asas e um pólen de prata inunde o quarto do meu segredo, do teu segredo, poema.



Licínia Quitério

11.2.13

HOUVE UM TEMPO



houve um tempo em que as águas se moviam brandas 
nas vozes dos homens que murmuravam preces 
a deuses conhecidos nomeados de sol e mar e 
montanha e vento e amor de homem e amor de mulher 
e vulcão e lua e caça e caçador e tudo tudo 
o conhecido e o desconhecido o desejo e o desejado 
a fúria e a posse e o possuído e o calor da pele e 
o frio da pele e o crescimento das árvores e dos filhos 
e dos irmãos e das feras ainda por domar ainda por amar

houve um tempo houve um tempo de inocência e 
de muito azul de frutos por trincar de mares por sulcar 
de pedras por cortar de sangue por jorrar de não haver 
esperas nem demoras nem cansaço nem suor nem dor 
nem prazer nem riso nem lágrima nem gente nesse tempo


Licínia Quitério  

3.2.13

DEAMBULAR



Deambular nos álbuns do passado à procura do fio que nos explique o tecido que somos. Suportar o aperto que dizemos no peito para não dizermos alma ou outra palavra escusa e impalpável.Tudo e nada é retorno. Tudo é memória. Despojos da passagem pedem histórias e nós as construimos, linha a linha, no silêncio, que tudo o que for dito arrisca-se à verdade ou à mentira de ouvidos néscios, julgadores. Quando todos partiram, ficamos nós e os objectos. Vai-se a carne, fica o osso.  Na sombra dos salões, no mofo dos papéis, ausências se apresentam e presenças se esfumam. A imobilidade é desafio, afronta, sedução e repulsa. Revisitar. Balancear. Regressar à casa onde a luz e o sangue. Ousar o impossível.

Licínia Quitério

25.1.13

VIVE


Arrima-te. O tronco vive erecto à flor da terra. Abraça-o. Rodeia-o. Dança, contradança, clama, reclama. A floresta inteira escuta o teu rumor, o teu rancor. Alonga-te, prolonga-te, ri no sol e na sombra, aplaude a fornalha e a geleira, o negrume e o alumbre. Admira-te, decepciona-te, insulta e abençoa. Explode em raiva e tomba em desalento. Reergue-te. Tu és o fulcro da alavanca e a alavanca. És o fulgor do metal e és o óxido. Incendeia-te. Acalma-te. És o carro do fogo e o de Poseidon. És o sim e o não de todas as misérias. És um homem e a sua solidão. Sobre o tudo e o nada, vive.

Licínia Quitério 

17.1.13

EM NOSSA VOLTA TUDO ARDIA



Em nossa volta tudo ardia
mas o lago crescia
e as nossas mãos teciam
sílabas abertas de futuro
No crepitar das chamas
soavam palmas e cantares
de amor amigo
Limpámos as águas e bebemos
o vinho curtido pela espera

À ameaça do fogo lançávamos
as palavras frescas 
do tempo fresco e novo
Livros abriam-se à passagem
inaugural do riso 
Os cães dormiam sobre
a nossa interminável vigília

Ninguém sabe dizer
há quanto tempo foi
esse bater de corações
vertiginosamente doces
essa febre de vida
doidamente apetecida

Pode ser já se diz
que não tenha acontecido
Pode ser amanhã
a seguir ao dilúvio
a seguir ao incêndio
no repique dos sinos
na saudade da festa

Há-de ser já se diz
num qualquer amanhã


Licínia Quitério

10.1.13

RECEBO A NOITE


Recebo a noite
sobre o estendal do dia 

e suas horas novas
e suas horas adolescentes
e seus minutos que não têm
não sessenta segundos
mas muitos mais ou menos
conforme é larga a dor
ou breve a alegria.
Quando o dia envelhece
é que se pronuncia
o céu arroxeado a luz 

do candelabro a azedia 
da erva o canto
áspero da toutinegra.

Licínia Quitério

1.1.13

REDONDO O MUNDO


Redondo o mundo de caminhar em frente, 
paralelamente ao cordão de tristezas, 
uma mão de alegrias de onde em onde,
que se podem somar, multiplicar 

por desejos de opala, preciosos,
úteis como esporas que fazem sangrar,
que fazem correr.
Todo o corpo arde na febre da viagem,
todo o corpo arrefece na praça da memória.

Um só corpo não basta para voltar
à casa construída, ainda que fosse barco
e navegasse.
Na outra ponta do mundo, no outro vão
do arco, uma luz se levanta, cada dia mais 
clara, mais bondosa. É o sinal do silêncio,
do anoitecer na linha da partida.
Um corpo continua para que outro recomece.
Nunca uma casa permanece.

Licínia Quitério

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