20.9.13

OS FIOS



Foram os fios que se enredaram na casa onde nasceu a avidez. A mesma casa, diz-se, onde os frutos secaram e as sementes voltaram, elas também tão secas que apagaram a memória das primeiras chuvas. Hoje fala-se de um lugar de fios prodigiosos que tilintam e reluzem pela casa, na hora de saber o que permaneceu, o que fugiu, o que se desfez, o que não viveu, no tempo da avidez. Os fios, tecelãos das próprias malhas, linho e estopa, amor e cupidez, véu de noiva e sudário, teia da solidão sobre a cidade. Com o incêndio dos fios há-de vir a nudez. Resgate e recomeço, corpo aberto. Ao longe, a encosta e o declínio.


Licínia Quitério

2 comentários:

Leonardo B. disse...


[as casas, cá dentro

os lugares que se projetam do chão,
os fios erguidos de nós.]

abraço, Amiga Licínia

Lb

O Puma disse...

Há folhas que resistem

apesar do Outono

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