26.12.11

CLARISSE E OS ÁLBUNS




17. Foram os anos insidiosos nas páginas do álbum de lombada doirada. Entraram, um a um, pelas pequeninas frestas entre as folhas, e ajustaram contas com as cores. Como um vento desatinado que tivesse mudado as coisas, os lugares, as gentes, dando-lhes outros poisos, outros tons, outros tempos. Uma peça de teatro com um encenador enlouquecido que da tragédia fez comédia e deu grandeza ao vilão e sonho ao imbecil. É por isso que Clarisse não consegue lembrar-se em que céu aconteceu o voo triunfante do pássaro branco de peito negro. Talvez no céu azul da terra quente em que se deitava de costas no pino do verão.   Afundava os pés na areia de oiro, as pernas dobradas pelo joelho, e cavava pequenas crateras circulares, 
com as mãos espalmadas, até que o chão as cobrisse até aos pulsos. Clarisse gostava de se pensar planta a enraizar terra dentro, firme, muito firme, tranquila na imobilidade vegetal que desejava. Poderia bem ser a terra das casas baixinhas e azuis, agora mais azuis, esquecidas da brancura dos dias felizes. Encurvados os telhados, encurvados os dias de Clarisse, intacta apenas a curva do olhar. No ano que chegar, Clarisse há-de com ele encetar desafios na busca de retratos que o vento não tenha violado. Assim permaneça na beira do tanque, à tardinha, a rola de peito róseo a que falta uma asa.


Licínia Quitério

19.12.11

CLARISSE E OS ÁLBUNS




16. Não pode Clarisse suspender o balanço dos dias. Imóvel só o pêndulo sobre os retratos dos álbuns. Há um tempo de regresso, feito de memórias breves, pequenos grãos de saudade, pétalas amargas de flores suicidadas, lágrimas puras dos dias azuis. Nos arcos dos templos visitados, os olhos dos seus olhos ainda atentos às rolas de asas quebradas. Clarisse não reconhece os lugares, mas sabe que a esperam no dobrar de uma folha amarelada, num serão de contos a amaciar o inverno. Recorda como diziam havemos de lá ir como se tivessem já ido e voltado. Tamanho era o lago do presente que era também futuro e tudo nele se bebia. Clarisse afaga com os olhos verdes as colunas verdes e sorri à varanda das viagens do grande tempo de sorrir. Não tem pressa. Uma noite virá de saber o retrato da cidade inteira, das varandas de homens dormentes, das cantigas de roda, dos labirintos, dos morcegos, da vibração dos amarílis. Essa a grande certeza de Clarisse, a fechar com doçura o álbum das viagens.


Licínia Quitério
    

13.12.11

ERA UM TEMPO DE MULHERES




Era um tempo de mulheres como estátuas, de olhos cegos, abertos, da cor das íris que nos arcos moram. Mulheres esbeltas, veladamente nuas, com  pés deslizantes como barcos à bolina. Mulheres mudas, com sorrisos desenhados pelas mãos das mães e dos homens. Mulheres que só ouviam os ecos das vozes das mães e dos homens. Era um tempo de flores que só as mulheres colhiam, de frutos que só as mulheres davam a comer. Era um tempo, digamos, todo verde. As mulheres estátuas eram também árvores verdes e as flores e os frutos delas nasciam. Não se sabiam verdes, as mulheres, nem estátuas, nem árvores. Sabiam de mães e de homens que lhes moldavam os olhos, a boca, o corpo. Amadureceram as mulheres e outras cores aprenderam. Sabem que são brancas, ou negras, e quebraram a ordenada mudez. Agora dizem filho e sabem que os seus olhos já não cegos são espelhos de flores, de novos frutos, de outras mães, de outros homens. Tudo nasce neste tempo das mulheres. 

Licínia Quitério  

6.12.11

DÊEM-ME


Dêem-me
um resto de verão uma franja de lenço um caroço de alperce um pião uma bruma da tarde uma escama de peixe um dó menor uma folha de trevo um retrato a sépia uma fresta de luz
uma razão
uma razão
para construir para defender para louvar para caminhar para refazer para atacar
para voltar
para voltar
ao ninho à árvore à estrada ao mar à música ao grito
ao riso
ao riso
na prata das sereias na rouquidão dos machos no veneno das bruxas na natural infância na vibração
do amor
do amor

Dêem-me
quero dizer
a sede

a água
a água
o desejo


Licínia Quitério


1.12.11

GRAÇA


com a graça da tarde desmaiada
poisas nas varandas da cidade
a álacre nudez das borboletas

em vez de dizeres rio dizes mar
em vez de mar falas de mundo
em vez de amor soletras vida

trazes contigo o odor das  rosas
de janeiro e do pão fermentado
nos alvores da liberdade

terá outra varanda o amanhã
para poisares a verde madureza
o doce sobressalto e o cansaço
das pedras com que dizes tempo

Licínia Quitério

Nota 1: Foto trabalhada a partir de um original de M.
Nota 2: Publicação (foto e texto) dedicados à M. e à B. 

24.11.11

MAIS DO QUE BRISA


Mais do que brisa
uma carícia no cetim da noite
um mudo harpejo
que só elas sentem
que só elas ouvem

É o tempo dos búzios
no peito das mulheres
o grande oculto mar
onde rebenta a onda
onde desaba o choro
dos que hão de nascer
dos que nasceram

No tempo dos búzios
a praia das mulheres
ou os seus olhos
ganha cintilações
de lagos encantados
no despertar dos mundos

As mulheres os homens
que as habitam
e os búzios e os búzios

Licínia Quitério

19.11.11

TANTAS VEZES SUBIMOS


Tantas vezes subimos os degraus da paixão
a esconjurar demónios de viagem
a conjugar passados com futuros

Tempo de brincar com palavras carnívoras -
sexo gengibre estandarte
ou imponderáveis -
abraço infinito teorema

Às vezes era o sol
que nos vestia de ouropel
e apagava o rasto dos chacais

As mãos pousadas em redes de silêncio
tecíamos pontes sobre o tédio

Antes de sabermos a medida do frio
quando se extingue a brasa
e as flores de gelo descem
exangues
a vertical das noites

Antes da verdura nas paredes



Licínia Quitério


8.11.11

AH QUE BONITO


Ah que bonito este país todo mar todo
azul todo saudade e fado e poetas e
mercadores que vão da índia às índias
e voltam com dentes de oiro no sítio
do sorriso ou não voltam e morrem por lá
pelas áfricas e brasis e américas várias
com a bandeira à tiracolo e uma dor no
peito. Todos tão semelhantes tão pintados
de espanto tão navalha na boca e coração
de pomba. Ei-los que partem heróis dos mares
e dos caroços das europas frutuosas.
Ah este país a entornar passado a despejar
os galos de barcelos a inventar provérbios
e um jeito antigo de encolher os ombros
e dizer que não há-de ser nada
que havemos de fazer eu volto logo
cuidado com os miúdos.

As mãos dos loucos ficaram para trás
e escalam as paredes e deixam manchas
marcas signos anúncios proclamações
de desespero futuro.

Frio é o sol nos abismos de verde.


Licínia Quitério


31.10.11

PODES PEDIR-ME UM BEIJO




Podes pedir-me um beijo nos dias de escarlate
quando as trepadeiras sangram
e eu visto a leveza dos vinte anos e dos outros
que decidimos guardar para não morrer.
Sabíamos que tudo havia de passar -
os muros, a trepadeira, o coro das velhas pela noitinha,
a tua mão pedindo a minha no declive da serra,
na ameaça do tojo.
Continuámos a desbravar ruínas,
a construir palácios de ninguém,
a apregoar unguentos,
que as feridas não soubemos afastar.
Breve foi o tempo, grande foi o lugar,
saudosa a guerra que ninguém perdeu,
amor menino que não envelheceu.
A trepadeira vive, o meu vestido é leve.
Nenhum beijo tem mais de vinte anos.
Digo-te sim nos dias de escarlate.


Licínia Quitério

25.10.11

POSSO ESCREVER


Posso escrever sobre coisas banais e dizer
que me bateram à porta quase noite e não
abri receosa de saber quem batia. Posso
escrever sobre grandes causas e afirmar
que as inventei e daí me veio a obrigação
de as defender. Posso, é bem claro, escrever
sobre os desgostos de pessoas tão iguais
a mim, tão iguais. Sobre milhões de coisas
e de causas e de pessoas à janela dos dias
do oiro, dos dias do chumbo, dos dias da raiva,
dos dias do amor. Posso escrever até ao dia
das janelas abertas, das coisas claras, das causas
maiores, das pessoas que me batem à porta
de manhã e eu abro sem medo de saber
quem bateu. 
O dia será em que tudo foi escrito.

Licínia Quitério
.

17.10.11

ENTRANÇA AS MÃOS







Entrança as mãos. Assim,
como asas a caminho do sol.
Imagina que o meu corpo
foi pássaro e de pássaro
foram o desnorte, as subidas
doiradas, as descidas a abismos,
os esponsais de vento. Olha-me.
Aguarda o meu sorriso a desenhar
o coração das nossas águas.

Foi o que disse e tu cumpriste.
Permaneces imóvel num repouso
de penas. Espera mais um pouco.
Nas tuas mãos desperta o meu
corpo de pássaro. Um sorriso
demora. Virá no vento morno
e dirá o que nunca foi dito.
Por agora não saias do retrato.


Licínia Quitério

12.10.11

INFORMAÇÃO



À venda também nas livrarias

- Livraria e Papelaria 77, em Mafra

- Ao pé das Letras, na Ericeira

Obrigada.

Licínia Quitério

11.10.11

A PERFEIÇÃO




A perfeição não cabe
no cálice do peito.
Transborda, alaga os pátios
interiores, procura a foz
para morder restos de pedra,
rasgar as flores altivas
do silêncio, gritar o nome
da grande deusa das manhãs.
A perfeição é impiedosa.
Sufoca, agride, aperta,
é um amor selvagem,
uma garra de tigre, um
batuque no longe, um
hibisco a sangrar, uma
pomba, uma pomba a adejar
no coração.
Insuportável bem que não existe.

Licínia Quitério


2.10.11

SABER O MAR



Saber o mar, cara a cara, sal a pele,
na branca viagem dos barcos
que me sulcam as mãos.
Olhá-lo de manhã como quem bebe
a rosa líquida do dia.
Ao fim da tarde como quem pensa
uma criança nua ou uma cidade devastada.
Não me deter no olhar e caminhar,
descer a rua, uma rua qualquer,
que todas vão dar a outra rua que
as conduz ao mar.
Será o mar o meu amor
maior que mãe, amante, amigo.
Será  a minha pátria e o meu desejo
permanente de partir ficando.
Por isso desço a rua e o fito, cara a cara,
a qualquer hora, e bebo o sal e
molho a pele e fecho as mãos
que  guardam barcos e choro.
E fico.

Licínia Quitério 

28.9.11

QUANDO NASCE UM POEMA

Quando nasce um poema
nasce com ele um mundo de paisagens
absurdas com florestas de gelo e
frutos palpitantes. E as gotas
de água de um amor antigo a refrescar
desertos. Um poema é um microcosmo
de ternura e de raiva, de mel e azedia,
de paixão ardida e renovada. Se cor
tem o poema nunca foi nomeada. Se
forma tem é a de um anjo ou melhor
a das asas que o anjo perdeu.

Ao certo só sabemos que o poema
nasceu quando um pássaro canta ou
um homem desperta e se levanta.



Licínia Quitério

22.9.11

HÃO-DE TOMBAR OS FRUTOS



Hão-de tombar os frutos e a madureza
há-de manchar a folha branca e alastrar
em delta de doçura no início das palavras,  
na polpa das palavras antes presas
na aflição das mães, na escuridão do inverno,
no sangue negro das feridas, na solidão
das viúvas de homens por haver, no pavor
noturno dos precipícios, no choro velado
das mulheres veladas, na pacificação
do ópio, nas fúrias naturais, na explosão
das bombas no coração dos homens.
Ó senhores do desprezo, abri vossas janelas
que a palavra nascida e a doçura dos frutos
serão a vossa terra e o vosso céu,
e a flor do lótus, e o jarro de cristal,
a linfa, o bosque e a ninfa, o tabernáculo,
o miserável servo dos palácios,
a decepção do ourives sem o ouro,
a grandeza do Amor, do Amor, do Amor.
Assim acontece porque um fruto cai.
Podes dizer maçã.

Licínia Quitério

18.9.11

TUDO É POSSÍVEL


Tudo é possível no balcão dos sonhos
podes vir de mansinho com outro rosto
e eu sem nada me pesar dizer há muito
espero por ti Dirk e a bandeja na mão
a bandeja do Rick que passou a ser tua
e o piano vermelho a flutuar naquela rua
de Veneza não não era um canal era uma
rua ou talvez não fosse Veneza e o teu
sorriso dorido de café e gin igualzinho
ao do Dirk porque eu sei também o teu
estava a sofrer há um tempo assim de
tudo doer e digo mesmo tudo a bandeja
o piano a rua a cidade inteira é uma dor
informe talvez a vida seja isso um tempo
de doer e fugir para o balcão abaulado
dos sonhos a preto e branco há quem
diga que são a cores os sonhos das
pessoas tristes há quem fale de uma luz
que faz vermelhos os pianos que flutuam
quanto a mim fico à tua espera Dirk podes
estar em Lisboa ou Casablanca podes até
não vir sei o sonho de cor.

Licínia Quitério

17.9.11

AS TORRES

As torres. Sempre as torres.
Os homens cavalgam os verbos
e constroem.
Por cada pedra o custo de uma vida.
Eia, eia! Um palmo mais, um ombro mais, eia!
E as torres crescem, e a ambição consome,
mais que a fome.
As torres têm olhos e vigiam as noites
com os homens dentro.
No cimo das torres há agulhas, desafios,
gritos mudos.


A lua grande passa, abraça.
A torre conta luas.  Um dia
a torre cai. A lua volta.




Licínia Quitério


Foto de Rui Medeiros.

12.9.11

CANSADO DA SUPERFÍCIE


Cansado da superfície 
assim dizia o homem
em  manhãs bafientas da estação.
Tardam as notícias do fundo
onde se prendem gritos e vontades
e os peixes dormem com os olhos
abertos dos esfomeados.
Dizia brancas mãos o homem
e chorava como choram os homens
na vastidão dos seus lagos
interditos.
Não será hoje o dia
de cortar as águas
que a faca da memória
ainda sangra.
Homem, as brancas mãos virão.
No fundo, os peixes dormem.

Licínia Quitério

3.9.11

FOI NO TEMPO



Foi no tempo da velhice das rosas.
Os flamingos presos na tarde lodosa
dos tiranos. Sinais de fumo
na pele atormentada do pântano.
Escamas de virtudes
do tempo jovem das rosas
punham um brilho diamantino
na placidez das palavras.
Ausentes o viço e a turgidez das pétalas.
Presentes o odor a cais e
o vulto dos peixes-náufragos.
A cor das rosas podia ser dos flamingos
ou do cansaço de um tempo
anterior às auroras sanguíneas
e à sede infinita dos vulcões.
Podia e não podia. As rosas
guardam o regresso das vozes 
no borbulhar dos pântanos.
Escuta.


Licínia Quitério

29.8.11

O BALANÇO, O BALOIÇO


O balanço, o baloiço,
para cá, para lá,
vai acima, vai abaixo,
corre corre, para para,
sobe agora, desce logo,
tem cautela, sem temor,
lá ao longe, aqui ao pé,
foge foge, fica fica,
não te largues, salta agora,
fecha os olhos, abre a boca,
porque gritas, porque cantas,
tantas vezes, quantas vezes,
olha o chão, olha as estrelas,
e o menino, qual menino,
já não é, já não se lembra,
foi pequeno, foi maior,
subiu subiu, desceu desceu,
e o balanço e o baloiço
vai acima, vem abaixo,
para a frente, para trás,
mais depressa, devagar,
e a menina, qual menina,
já não é, já lá não está,
foi acima, foi abaixo,
foi ao céu, caíu ao chão,
correu correu, chorou chorou,
e o baloiço e o balanço
já não sobe, já não desce,
e o menino não voltou
e a menina não voltou,
e o baloiço lá ficou.
Foi a sorte que mandou.

Licínia Quitério

23.8.11

TIVE ENCONTRO


Tive encontro com o vento. 
O olhar de lume dos cavalos alados.
Os chicotes na desfolha dos palmares. 
Os meus cabelos de medusa, não mulher,
não serpente, não sossego.
Posso contar da leveza, da premonição,
do rodopio, da tentação.
Oiço, claramente oiço, as novas
do deserto soletrando água
nos sons primordiais.  
Línguas sem vogais que só o vento guarda
e anuncia no vórtice terrível, devastador,
da sua escrita de areia e lava.
Maior o meu tremor que o meu temor.

Licínia Quitério

17.8.11

SE AGORA



Se agora aqui estivesses, neste tempo

de brumas pegajosas, com sinetas de

alarme no coração dos ossos, ficarias

suspenso no adejar das raparigas,

remoendo silêncios de velha porcelana.

Caminharias no limiar dos precipícios,

para trás e para diante, numa demora

insustentável, num ritmo sublinhado

pelo metrónomo dos dias, assim

traçando as linhas da argúcia, da lucidez,

da amargura que se lia no vago tremor

das mãos, no desejo imerso nas pupilas,

na tentação da fogueira, sim, da fogueira

a chamar-te no estertor dos rios.

Se aqui estivesses, nestes dias de breu,

dirias, com os braços a despertar nos meus:

Hoje há chuva de estrelas.

Só no escuro as veremos.



Licínia Quitério

12.8.11

OS PENSAMENTOS




Os pensamentos do homem
fazem germinar objectos.
Antes da cadeira existir
já o homem se sentava
e fabricava os pensamentos,
a desenhar letras de fumo
na imobilidade do tecto.
Os olhos entrançavam danças rápidas.
Depois paravam e dir-se-ia um vapor
de saudade o que escorria pelos braços
que um dia seriam da cadeira.
Ainda que um cachimbo se demore
na bainha dos lábios, o homem dirá,
pelo canto da boca, as dimensões ideais
do seu antigo, único projecto.
Por ele ali chegou, ao lugar onde é possível
afirmar: loucura é nome de pássaro
na seara da noite.
Disse
e o carrossel de estrelas acendeu-se.


Licínia Quitério

6.8.11

OS HOMENS PLANTARAM



Os homens plantaram os cedros e disseram: Nós saberemos o vosso  tempo de crescer. Sereis os guardiões do vento e dos olhares indesejados. Não ficareis doentes nem morrereis sem nossa ordem. Ser verdes e fortes é o vosso labor e o cumprireis. Aceitareis os nossos excessos e não direis da vossa estranheza. Não dareis asilo a aves palradoras. Jamais quebrareis a mudez e o alheamento. Para nosso deleite, tereis frutos pequenos e olorosos. Não penseis em deitá-los à terra, pois os arrancaremos. Obedecer é o vosso destino, o vosso inestimável conforto. Imperturbáveis, os cedros. Dir-se-iam felizes os súbditos verdes dos homens cinzentos. Não se entende porque apareceu uma rede entre os cedros e os homens. Há quem diga que os protege da mudez absoluta dos cedros.

Licínia Quitério

1.8.11

QUE SABES TU



Que sabes tu da casa?
Abriga-te, veste-te a dor e a alegria,
dá-te olhos para saberes os mundos.
É enorme e vazia no verão de cada inverno.
Cheirosa a sândalo, pequena, 
na festa imaginada do amigo ausente.
Pouco mais sabes.
Nunca saberás quantos pombos a olharam
nem o dia em que o vento lhe roubará
a transparência das vidraças.

É a tua casa, ou és tu a casa. Tanto faz.

Licínia Quitério

25.7.11

QUANDO OS MUROS


Quando os muros desabam
e as cancelas apodrecem,
é o tempo da explosão das sementes,
as mais ousadas, as mais sofredoras,
as mais simples.
Tocam sinos a rebate nos torrões calcinados, 
o orvalho das madrugadas reaprende
o seu ofício de nascente
e o pólen dos cravos nomeia os ventos,
os insectos, as vozes dos homens.
É nesse tempo sem relógios
que o amor se faz baga e folha e haste
e aroma de glicínias e doçura de figos 
e o alarido das gralhas e o coaxar das rãs 
na fertilidade dos charcos.
Desabam os muros e as cancelas apodrecem
na inutilidade dos advérbios.
As sementes, as mais sábias, despertam.
Acontece outra vez.
Milagre, se lhe quisermos chamar.

Licínia Quitério

19.7.11

ENCOLHES OS OMBROS






Encolhes os ombros a afastar
os répteis da lembrança.
Os teus olhos vagueiam
pelas feridas das casas.
Tens medo de saber a chegada da água,
o cheiro a lodo nos remos,
os metais corroídos,
o desejo a afundar, a afundar.
Cada sombra um sobressalto,
uma gota de suor na palma da mão.
Porque guardas a moeda
se não acreditas no barqueiro?

Licínia Quitério


12.7.11

NAQUELA HORA


Naquela hora todas as portas
se abriram e o teu corpo ganhou
o tamanho das palavras
que não quiseste dizer.
Havia o cheiro a alecrim e incenso
das procissões nos caminhos serranos.
Ouviram-se sinos nos campanários
distantes de aldeias distantes
em mapas ainda mais distantes.
Veio o cipreste e afirmou
ser irmão doutro lugar ao norte.
Era uma árvore perdida a reclamar
asilo como acontece nas histórias.
Nas vidraças podia ler-se o desenho
branco das máscaras de Veneza.
Se não fosse inconcebível,
um barco subiria as escadas
e tu, ainda de pé, com um menino
ao colo, embarcarias, sorrindo,
murmurando um cante do país ao sul.
Noutra hora, todas as portas voltaram
a fechar-se. 

Licínia Quitério

28.6.11

VOLTAR


Voltar. O que é voltar?
Nadar contra a corrente,
subir o rio, procurar
o lago antes do açude. 
Ler os sinais na morte das aranhas.  
Ser Alice na senda do coelho 
e tropeçar no fio do impossível.
Fechar os olhos até sentir
o recado do sol
numa folha de vidro.
Voltar ao infinito azul
embora seja branco
embora seja negro.
Ficar entre o corvo e o cisne.
Esperar eternamente
entre o cisne e o corvo.

Licínia Quitério  

21.6.11

VAMOS SUBIR




Vamos subir com as asas da manhã.
Sacudir o torpor da insónia e os fantasmas
nocturnos, repetentes, nas teias da memória.
É Verão, dizem, e acredito. Acredito
no pregão dos calendários, na vara de sombra
na parede da casa, na virgindade das areias.
Vamos, com a tenacidade dos peregrinos,
descobrir o adro dos encontros, dos abraços,
dos sorrisos, das danças de roda das mulheres,
das danças de roda dos homens, das danças
de roda dos filhos das mulheres e dos homens.
É Verão, eu sei, o dia é largo e as hienas
farejam as feridas e a fraqueza das crias.
Vamos devagar, com rasto de preguiça
nas sandálias leves. Atenção aos abutres
de olhar de pomba, nos seus poisos altos.
Longo, longo, o tapete de sol
que da nossa garganta se desdobra.
Continuemos, pois.

Licínia Quitério

     

15.6.11

DEVORAS-ME


Devoras-me, devoro-te. Há milénios.
Começámos ainda os dias se chamavam
sol ou lua, e as palavras eram outras,
mais curtas, mais sonoras, e nas vozes
se faziam estalos de chicote ou o gorgolejar
de líquidos à boca das ânforas.
A palmeira devora o deserto. Devoram-se.
Antes da areia, quando as tâmaras
eram só o mel das tâmaras.
O leão devora. Os leões devoram-se.
Desde o dia em que as mães esconderam
os filhos no coração das grutas.
Céu e mar devoram-se. Mar e céu
regurgitam-se, ritmados.
Voam os peixes e os pássaros mergulham.
Porque te amo, devoro-te.
Há milénios és a areia, a água,
a nuvem, o leão, o mel. Devoras-me.
Sou um fruto maduro na curva da idade.
Decifrei o segredo da Estrela Polar.

Licínia Quitério

8.6.11

TEM DE HAVER UM POEMA



Tem de haver um poema numa pedra de sol,
numa gota de sal, num riacho a florir.
Bem por dentro do vento, há-de estar uma pluma.
Abre a mão e verás uma ave do sul a piar, a piar.
É um espinho, um soluço, uma seta, um trovão?
Um passado, um caminho, uma luz, um porvir.
Música tem de ser o crocitar do corvo,
o choro dos escravos, a saudade, a saudade.
O rosto da infâmia, as mãos da crueldade,
o dorso da inveja, o ventre suicidado.
É urgente o instante de agarrar o poema,
desvendar a palavra, vesti-la, devorá-la,
fazer com ela amor.
Esperar a chuva e a serenata, a tília e o luar.
O inominado, o inacabado, o imperfeito,
a vida.

Licínia Quitério

1.6.11

UM ESBOÇO


Um esboço, uma pegada, um trilho.
Escada de corda das nossas emoções,
bamboleante vertigem do nosso atrevimento.
Assim se abrem os dias de subir as ruas,
de cumprir as tarefas maiores que as nossas mãos,
de aceitar as árvores cortadas,
os olhos dos velhos, aguados, 
a raiva dos despojados,
o silêncio dos culpados,
o ranger dos ossos.
Há ainda um pássaro sobrante
no susto da falésia e notícias
de ramos coloridos nas auroras de gelo.
Um passo e outro passo,  
o coração no vento, uma voz alheia na garganta.
A escalada da rua, a construção do dia,
a sagração da vida.
Tudo, ainda.

Licínia Quitério

26.5.11

NÃO HÁ LUZ QUE NOS BASTE






Não há luz que nos baste, ó meu amado.
Não há terra que chegue para a nossa solidão.
Observa os muros onde as pedras nascem
antes da madrugada. Quem sobe as escadas
que vão dar ao mar, ó meu amado?
Ficaram em terra as gaivotas e piam
com a voz dos barcos naufragados.
Não há céu onde poisar as penas do cansaço.
Não te assustes se as ervas recusarem o verde
e se chamar anil o pó do teu olhar.
Sabes que tudo muda, meu amado?
O lugar das coisas já é outro e outro o tempo
e outro o homem e a mulher é bem outra.
Igual sempre há-de ser o princípio e o fim.
Falemos, meu amado, da flor da amendoeira,
da sede das línguas, da fúria do vulcão,
da vida, das vidas.

Licínia Quitério

20.5.11

Estou presa



Estou  presa no verde da cidreira,
na sanguínea do bago da romã,
na coroa de céu do agapanto,
na seda do lírio, no linho,
da semente ao lençol,
do lençol à lenda de esponsais,
na noite da coruja,
no rouxinol do imperador,
na crueldade dos impérios,
no amarelecer da pele,
no rosado do pêssego.
Enredada estou na quadrícula
das sílabas, no ardil das palavras,
no labirinto dos poemas
de todos os poetas
de todos os tempos,
no cansaço das dúvidas,
do clamor das servidões,
da lentidão das utopias.
Presa e enredada estou
na soberba vontade de saber
a carne do infinito.


Licínia Quitério

14.5.11

SOU POBRE



Sou pobre. Fui sempre pobre. Serei  pobre.
Tenho tudo o que quero. Tive tudo o que quis.
O brilho do ouro incomoda-me. Tenho o sol.
Gosto das peles dos animais enquanto vivos.
Não tenho nada.  Não quero ter nada. Tudo é meu.
Tenho os quadros nos museus. Tenho o colar de Nefertite.
Tenho tudo o que as montras me oferecem.
Tenho a relva em que caminho.
Tenho as florestas que conheço e as que inventei.
Tenho todos os países do mundo e poucos visitei.
Tenho a música que compuseram para mim.
Tenho os versos de todos os poetas.
Tenho a amizade que dou e o amor que vivo.
Tenho os olhos de esmeralda da minha gata.
Tenho uma casa do meu tamanho e nela acolho
os pobres e os ricos mais pobres deste mundo.
Não sou dona. Nunca fui dona. Não serei.
Tenho o mar e a maresia.
Sou o que não tenho.

Licínia Quitério 

8.5.11

AS MULHERES



Passaram por mim. As mulheres.
Tinham cantos presos ao pescoço
e respirações de cavalos em fuga.
As mulheres. Quando rezavam
fechavam nos braços os filhos
por nascer. As mulheres. Resistiam
aos invasores com a brancura
do corpo inviolável. As mulheres.
Matavam-se para não morrerem
de vergonha. As mulheres. Dansavam
nas bodas com sangue nos cabelos.
As mulheres. Oferendas traziam
contra a ira antiquíssima dos deuses.
As mulheres. Electra. Antígona. Hécuba.
Bernarda. Adela. Yerma. As mulheres.
As cidades sempre ardem. Os homens
sempre se apunhalam. Os filhos nascem
e morrem. Há luas várias de presságios
vários. As mulheres amam  e não há guerra
que as detenha no seu destino de fontes.
Joana, Helena, Isabel, Teresa, Amélia.
Um desfile imparável de subterrâneas 
tragédias.
As mulheres.

Licínia Quitério  

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