13.12.11

ERA UM TEMPO DE MULHERES




Era um tempo de mulheres como estátuas, de olhos cegos, abertos, da cor das íris que nos arcos moram. Mulheres esbeltas, veladamente nuas, com  pés deslizantes como barcos à bolina. Mulheres mudas, com sorrisos desenhados pelas mãos das mães e dos homens. Mulheres que só ouviam os ecos das vozes das mães e dos homens. Era um tempo de flores que só as mulheres colhiam, de frutos que só as mulheres davam a comer. Era um tempo, digamos, todo verde. As mulheres estátuas eram também árvores verdes e as flores e os frutos delas nasciam. Não se sabiam verdes, as mulheres, nem estátuas, nem árvores. Sabiam de mães e de homens que lhes moldavam os olhos, a boca, o corpo. Amadureceram as mulheres e outras cores aprenderam. Sabem que são brancas, ou negras, e quebraram a ordenada mudez. Agora dizem filho e sabem que os seus olhos já não cegos são espelhos de flores, de novos frutos, de outras mães, de outros homens. Tudo nasce neste tempo das mulheres. 

Licínia Quitério  

5 comentários:

Justine disse...

Sim, aprendemos a dizer futuro nos rostos dos nossos filhos. E aprendemos a dizer raiva enquanto fazemos nascer o futuro!
Grande texto, Licínia:))
Beijo

José Carlos Brandão disse...

A mulher está no princípio da vida. Grande, Licínia.

George Sand disse...

Que tempo deslumbrante esse...

M. disse...

De novo, aqui, como uma bíblia.

Filoxera disse...

E tudo adquire outros contornos após a maternidade...
Beijinhos.

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