19.3.19

O TEMPORAL



 



Podes ficar tranquilo.
O temporal passou.
O telhado furou
e a chuva pingou
sobre a dor do meu ombro.
O pouco que dormi
foi sempre em faz de conta,
não fosse a ventania
levantar o colchão
onde se escondia
das mágoas o cordão.
A parede rachou,
mas foi bom porque eu pude
ver um céu que foi meu,
em forma de crescente.
Recusei aceitar a hora do poente
e fiz bem, porque assim
nunca tive o punhal
do dia no final
a remexer a ferida
a esfacelar a pomba,
guardada no meu peito.
Depois, foi só esperar
que o temporal se fosse,
já farto de afrontar-me
da pele até ao osso.

Podes ficar tranquilo.
O temporal já foi.
Eu sei que outros virão,
em formas de tufão,
de lágrimas, cansaços,
mas eu aperto os braços
e seguro os pedaços
que sobraram de mim.
Semicerrando os olhos,
liberto a dor dos ombros,.
Compro um colchão de espuma
de sabão, do melhor.
Depois lá vou soprando
enquanto tiver força
e as bolas vão subindo,
de mil cores tingindo
o fio dos meus cabelos.

Podes ficar tranquilo.
Mais nenhum temporal
me pode causar mal.
Uma coisa te peço:
se entenderes que mereço,
embrulha com cuidado,
num pano de brocado,
meus desejos de corça
que um dia galopou
e na praia, ao nascente,
agita-o com firmeza
até teres a certeza
de que nada lá dentro
escondido ficou.


Licínia Quitério, 2001

6.3.19

RUAS


Gosto de ruas que vão dar ao mar.
Ruas que cheiram a sal, a barcos.
Ruas de homens e mulheres de muitas fainas,
de muitas falas, cantadas, onduladas
de marés várias. 
Em todo o mundo há ruas assim, 
com o mar ao fundo, a espreitar, 
a acenar, vem comigo marear.
As ruas sorriem e coram, 
mas não vão. 
Ficam em terra a acoitar 
as mulheres, os homens, a escutar 
suas histórias de pasmar.

Licínia Quitério

12.2.19

SIM


Os livros, sim. 
A escola, sim.
E a pele, e o ouvido, e o cheiro, e o olhar, e o paladar, sim, sim.
Olhar quem passa, ouvir o amigo e o inimigo, cheirar o pão, o ferro, o suor, o vinho, a maresia, sentir o frio, o calor, a macieza da pele, do pelo, sentir o corte, o empurrão, a dor, o aperto, o abraço, saber o amargo até ao fel, o doce até ao mel.
Se o tempo chegar, estudar a filosofia dos gatos, das magnólias, do xisto, dos velhos sábios, dos velhos ignorantes, da lua nova e da orion.
Depois dormir, com um livro inacabado sobre peito.


Licínia Quitério

31.1.19

SÍTIOS


Não têm cor os sítios
onde me detenho
e alongo memórias
alheias
que já nem sei
se são as minhas

Assim nos dias
serenos
da ausência do vento

Sítios onde soam vozes
antigas
de arestas ainda vivas
mas já inofensivas
recolhidas
no desvão dos anos

Licínia Quitério

1.1.19

2019



Mais um ano
tantos anos
os que passaram por mim
a apontarem o caminho
que eu nem sempre segui
mas nunca me arrependi
que o caminho somos nós
nossos o corpo e a vontade
nosso é tudo o que colhemos
seja bondade ou maldade
Inteiros vamos seguindo
as dores e os amores cruzando
com as canções que cantamos
com os versos que escrevemos
com os amigos que alcançamos
com os amigos que perdemos
Mais um ano
muitos anos
deste mundo em desvario
de gente à míngua de pão
de velho a morrer de frio
de fogo no arvoredo
de gente de arma na mão
de gente à beira do medo
Muitos anos hão-de vir
sem que eu os possa contar
Meu caminho foi somar
por vezes diminuir
e outras multiplicar
para poder dividir
sabendo que o resultado
desta vida desta escrita
depois de bem apurado
é uma dízima infinita

BOM ANO 2019!

Licínia Quitério

31.12.18

SE EU FOSSE


Se eu fosse lago
dizia-te dos peixes
que são ondulação e escama
e não fecham os olhos
nem na morte

Se eu fosse pedra
contava-te o desejo
de ser a curva do bambu
no abraço do vento
na sedução da água

Se eu fosse um ramo de salgueiro
ensinava-te o choro do corpo
no ardor da viagem

Se eu fosse o ar
dava-te a voz 

e o silêncio 
e as asas da partida

Licínia Quitério

22.12.18

PAZ

.

É minha a paz das mãos que alimentam 
dessedentam curam afagam 
afastam do precipício 
ajudam na subida iluminam,
a paz dos olhos atentos 
olhos-guia olhos-companhia 
olhos-livro de memória,
a das bocas falantes sussurrantes 
bocas-corola bocas-enseada 
bocas-silêncio-e-música.
Dos corpos nada digo.
Deles me esqueço me ausento 
corpo-apenas-onda-apenas-prado.
Há uma paz só minha: 
a dos telhados brancos onde um anjo se alonga.

Licínia Quitério

11.12.18

UMA ROSA




Uma rosa é uma rosa

A rosa nasce
onde a dor se apresenta
se afinca a morder a roer
a rasgar o tecido
a amarelar o sangue
a corromper o nervo
No coração da ferida
nasce a rosa
É um sorriso no matagal
uma maçã no escombro
Nasce de noite
sobre a erva má
Quando amanhece
e o corpo aquece
a rosa cresce
a rosa dança
ao derredor da chaga
e a perfuma
e a enlaça
e o corpo esquece
a fundura do poço
o tremor o fervor
da pele até ao osso
Ora sim ora não
o corpo avança
Rosa rosae
é uma declinação
é uma oração
a desviar a lança

Licínia Quitério

6.12.18

AS ESPERAS


É a hora de preparar o deserto para a noite longa, 
de falar baixo ou calar, 
de recolher as roupas, 
de desligar os motores, 
de convocar o silêncio do peito, 
de procurar sentido para as mãos, 
de juntar palavras de dia com palavras de noite
e escrever a louca saudade da maré alta, 
dos pinheiros altos, 
da janela alta das esperas.

Licínia Quitério

30.11.18

A AUSÊNCIA


É preciso partir. 
Amarrar viagens ao bordão de saudades 
que bem cedo florescem.
Fechar as asas da insânia

a pairar sobre os leitos.
Nas mesas espalhar o mel 
para que voltem as abelhas.
Visitar as aldeias da infância 
que tão mal conhecemos. 
Nunca retroceder, antes correr
ao encontro das vozes dos ausentes.
Fugir dos precipícios que sorriem,
dos cães danados,
do voo das harpias,
da boca de lava dos tiranos.
Decifrar a escrita do vento
nos livros das florestas.
Nunca dormir antes do ocaso.
Nunca dormir depois do ocaso.
A viagem não se faz de noite nem de dia.
A viagem navega em nossas veias
onde não há luz nem escuridão.
Quando partimos começamos
a construir a nossa ausência.
Também se pode dizer a eternidade.

Licínia Quitério

21.11.18

UM PAÍS



Há um país onde tudo arde
menos a boca das mulheres
onde a água se demora
e os olhos dos homens
onde a água escorre
É um país onde tudo seca
e treme
e desmorona
Só a água se demora na boca das mulheres
à espera de ser leite
e ser criança
Só dos olhos dos homens escorre a água
que vai ser lago
e afogar a cinza
Há um país à beira do abismo
Há uma mulher a contar as ovelhas
Há um homem a juntar as sementes
Nenhum deles quer saber o nome do país


Licínia Quitério

6.11.18

OS PEIXES



Contra o tempo nascidos
a terra os cria,
a guerra os mata, a guerra
a fome os mata, a fome
o medo os mata, o medo

Eis os sobrevivos, os andantes
os foragidos da tragédia
os do sangue fervente
por beberem as dunas
como se fossem água
por comerem as pedras
como se frutos fossem

Sonham com barcos
por não haver cavalos no deserto

O mar os chama
o mar os leva
o mar os traga

Alcançarão a frieza dos peixes
o seu bailado
a sua morte breve
líquida

Licínia Quitério

20.9.18

NOVO LIVRO


17.9.18

OBJECTOS


A tranquilidade dos objectos, 
o seu silêncio 
ajudam-me, 
acrescentam-me. 
Partilhamos histórias, segredos.
Eu sou, eles estão.
Usamos o mesmo canto de mundo,
a liquidez da noite.
Por sorte, eles não têm coração.

Licínia Quitério

14.9.18

RITMO



O gato dorme as suas horas de gato.
Os peixes ensaiam acrobacias.
As plantas crescem ao ritmo do silêncio.
Ventos furiosos massacram povos
longe do gato que dorme, dos peixes acrobatas,
do crescimento das plantas.
Eu espero ventos novos, sensatos.

Licínia Quitério

15.8.18

Que faremos


Dizemos que horror
que pena me dão
navegantes de barcos velhos
caminhantes de sandálias gastas
míseros de pão minguado
descrentes de milagres
comprados com as dores
dos finais infelizes

Fica pequeno o nosso coração
mas a nossa casa continua grande
a nossa pele ao abrigo das feras

Se tocarem à nossa porta
que perguntas lhes faremos
em que língua nos darão respostas

Deixaremos à solta os cães do medo
ou por sinais diremos
meu menino teu menino
água fresca mesa posta



Licínia Quitério

25.7.18

O INFINITO


Tudo é possível para lá do vidro.
Um candelabro, muros em pedaços,
rostos, folhas verdes,
um ou outro animal.
Reflexos, dizes, encontros, digo.
A luz é isto,
a transparência, o real e o virtual,

a verdade e a mentira.

A luz permite,
o vidro esconde, o vidro mostra.
Para lá do vidro todo o mundo habita
a mesma dimensão.
O nosso olhar
com o real não se conforma
e busca para além do vidro
o reflexo, dizes,
eu digo a ilusão, o infinito.

Licínia Quitério

23.7.18

O POEMA


Um poema não nasce nas pontas dos dedos
Não cresce porque o Sol se levanta
Um poema não se esconde nos retratos
Não espreita na cortina da noite
Não bebe no soluço da fonte
Um poema anda por aí
Na escuridão na claridade
No antes no depois
É preciso saber o nome do poema
Antes do nome a voz
Antes da voz
O silêncio
A casa onde o poema nos espera

Licínia Quitério

10.7.18


6.7.18

LUZ


Resistir, mudar, sobreviver
Um sonho a vários tempos
A casa, o corpo
Enquanto luz houver

Licínia Quitério

29.6.18


28.6.18

SIGNOS


Signos por decifrar, travessias de espelhos, fumarolas dançantes, soluços, agonias,
e também
risos, retratos gloriosos, fórmulas mágicas de poções mágicas, jardins de lírios e maçãs, anjos de pão e paz,
e também
demónios matadores, violadores de corpos e palavras, meninos afogados,
o desespero dos homens leiloados, o desespero das mulheres oferecidas, as gargalhadas dos invasores, as gargalhadas dos vendedores,
o rasgão na cortina, o estilhaço do vidro, o rasto de sangue no caminho das pedras.
Este rol infindável de carimbos na pele, este sufoco, esta ignorância, este desejo de luz que ilumine e não cegue
é o que nos habita os dias ensombrados
e também
os outros, quase felizes, ensolarados.

Licínia Quitério


14.6.18

MENINOS



Meninos
Na deriva dos ventos
Perdida a terra e a mãe
No grande mar balançam
Em frágeis fingidos barcos
Novas faluas sem barqueiro
Só frio só medo só sede
Quem os resgata
Quem os ampara
Na noite dos fantasmas
Quem lhes chama filhos
Quem lhes dá um nome
Quem lhes abre o porto
Quem

Licínia Quitério

10.6.18

COISAS RARAS




Estava no fundo do rio.
Era uma pedra, um segredo?
Só eu sei que senti frio.
Era Verão e tive medo

que a pedra me seduzisse,
que o segredo me tentasse,
que o sorriso me fugisse,
que a tua voz me escapasse.

Guardei o rio na memória
das coisas raras que achei.
Assim se conta uma história
de pontes que atravessei.

Licínia Quitério

9.6.18

CONVITE

http://www.centesima.com/content.asp?startAt=4&categoryID=15&newsID=859

Na Livraria Centésima Página, em Braga, no dia 22 de Junho, pelas 18h30m,

com os meus livros e as caligrafias de Ariana Andrade.

Apresentação de Virgínia do Carmo, da Poética Edições.

Apareçam.


Licínia


6.6.18



5.6.18

VOLTAR


Voltamos aos lugares onde passámos
de mão dada com a pequena idade.
Foi a rua que estreitou
ou os nossos braços se alongaram
em busca de outras ruas outros sóis.
Era uma terra amável de bons dias boas tardes
então por cá menina.
As tias velhas eram mais novas do que eu
agora sou. 
O tio levava-me ao castelo. 
O braço dele a apontar
vês lá em baixo o rio.
Hoje não sei ao certo como chegar
ao rio nem isso é importante
depois de tantos rios ter passado
e nem sequer dos nomes me lembrar.
Gostei de ver as andorinhas
iguaizinhas às que rasavam a janela.
Juro que ouvi a voz da tia
anda para dentro está a arrefecer.
Puxei para cima a gola do casaco
caminhei sem do calor me aperceber.

Licínia Quitério

16.5.18

A SEDE


Nasceram há muito
inda o país era um desejo
de terras férteis águas mornas
onde pousar a espada e acasalar


Guerrearam os que chegavam


Não sabiam que partilhada

a terra cresce  e alimenta
a água brota e dessedenta

Deuses com deuses nunca se entenderam


Os homens com eles aprenderam
a vigiar dos altos quem se atreve
a cruzar o caminho da abundância

a cobiçar mulheres do outro dono

Pedra sobre pedra subiram torres
muralhas a proteger as torres
fortes e fortins e revelins

A cidade cresceu encarcerada
nas pedras do seu medo
até que os homens se atreveram
ao campo aberto e livre
na paz da vizinhança

Hoje passeiam o olhar 
pela inutilidade dos castelos

A água brota lá dos fundos
benfazeja e morna

Nos homens adivinha a persistência
da sede de outros muros

Licínia Quitério

8.5.18

TRAVESSIA


A noite em terra alheia é promessa 

de conforto e resguardo,
de novos convivas em redor da mesa,
em redor da afinação das vozes,
solitárias ainda e logo mais soando
em tímidos duetos
até que a embriaguez aquém do vinho
aclare e aqueça e a palavra se faça
caminho e destino da viagem.

Lá fora estão as árvores pujantes
e as fontes quentes e o rio manso
com os  peixes prateados.
Tudo contido em seus limites
como se falássemos de quadro 
concebido e pintado por um monge
na média luz do claustro.

Se a promessa se cumpre eu já não sei.
Sei das luzes que se acendem na rua,
da renda de sombras nos vidros da janela,
do rumor da água do rio sob as pontes.
Só me falta saber quando farei a travessia.

Licínia Quitério

1.5.18

A DOR DO RIO


O homem não sabia a fundura do colo
Pensou na mãe
Disse estou aqui vou-me deitar estou cansado
Disse acorda-me amanhã devagarinho
Foi abaixo e voltou
e voltou e voltou
O rio estremeceu
Do suspiro do homem nasceu um remoinho
Depois tudo ficou sereno e limpo
Um corpo deitado na corrente
A gente sabe lá a dor de um rio
quando se afoga um homem

Licínia Quitério

24.4.18

TAIS-TOI

Tais-toi, poète,
tu sais, la guerre
est avare de tes mots.
Garde-les,
garde-les bien,
abimés dans ton coeur.
Personne ne saura
pourquoi tu deviendras
un poète muet.
On dira
que ta vie est gachée.
Calme-toi, poète,
tu sais, la guerre
s’achèvera sans te prendre tes mots
si bien gardés
au fond de tes sanglots
au bout de ton silence.
Écoute-moi, poète,
attend!
Le temps arrivera
pour tes mots,
pour ta voix
pour ton chant libéré,
encore plus haut,
en demandant le tout,
l’immensité.


Licínia Quitério

21.4.18

O BINÓMIO


Quem sabe um dia a vida tenha sido
a duas cores
duas

das que se guardam no arco-íris

A luz do dia verde
verde
da mãe das flores e das sementes

A luz da noite azul
azul
do céu da tempestade e da bonança

Se foi assim
com as duas cores 

os homens refizeram o mundo

Deitaram-se à tarefa de
escolher
separar
multiplicar
combinar
recompor
inventar

desesperar
descansar
desistir

Foi num abrir e fechar de olhos
que tudo se desdobrou
do vermelho ao violeta
em mil e um degraus
que vemos e não vemos
pois reclusos ficámos
entre o sim e o não
o negrume e a alvura
a candura e o nojo
o excesso e o defeito

A tantas cores o mundo
e homens que vêem branco
e homens que vêem negro

num binómio incolor de suicidas

Licínia Quitério

8.4.18

LULA



Vem dos países da terra e do metal.
Em seu redor os muitos filhos
roubados à fome e à nudez
gritam o seu nome
de consoantes doces
vogais quase fechadas.
É um Homem vestido de luta
a contar a história dos seus passos
a história dos seus sonhos
iguais aos sonhos de todos os meninos
perdido o medo do papão.
É um Homem com uma ideia.
É um Homem com um sonho.
Um Homem livre
encarcerado e livre.
É uma ideia em movimento.
É um sonho inacabado.
É um Homem.


Licínia Quitério

imagem da net

2.4.18

OS MUROS VELHOS



Os muros velhos dão guarida
a ousadias vegetais
formosos atavios
de rendas e recortes
a lembrarem vestidos
de pequenas bonecas
nos pequenos colos
das pequenas meninas

com grandes olhos
de encantar

Nos muros velhos acoitam-se
pequenos animais
contorcionistas
malabaristas
da cal e do granito
velozes frios fugindo
à astúcia predadora 
dos famintos

É bom atentar nos velhos muros
e nos seus  habitantes
vegetais e animais
a cumprirem a vida e os seus ciclos
a respeitarem o Sol e a sua lei
a esperarem a chuva
a suportarem a seca

Estes muros velhos
pacientes
resistentes
guardadores de seus bichos
suas ervas
sabem que vão desmoronar
no dia em que chegar
o cavalo negro à rédea solta
nas ancas fumegante
a marca do ferro do mandante

Era uma vez um muro velho
e os seus vegetais
e os seus animais

Começa assim a nova história
Do cavalo negro nenhuma história se escreveu
 
Licínia Quitério

16.3.18

UM LUGAR


Um lugar onde pousar a cabeça
macio e complacente
confidente 

Um lugar exactamente verde
a dizer relva musgo mar
olhar antigo e remoçado

Um lugar redondo como um ombro

Um lugar musical como 
o grande silêncio das pedras 
do deserto

Lugar fêmea e lugar macho
mãe e filho
amor e amigo

Um intervalo 
um quarto na penumbra
um lugar onde

Licínia Quitério

14.3.18

PERSPECTIVA


A montanha tem exactamente a altura do vidro da minha janela.

Se esticar o pescoço, a montanha sobe até ao beiral do alpendre.
Um pardal que sai do cipreste  é do tamanho das casas no sopé da montanha.
Talvez traga o papo cheio de debicar os frutos do cipreste.
Os frutos ficam rente ao sopé da montanha que fica rente ao caixilho inferior da minha janela.
Há uma mosca no vidro da janela que é do tamanho dos frutos do cipreste que é mais alto do que a montanha e do que o vidro da janela que, se eu esticar o pescoço, é mais alto do que o beiral do alpendre.
O meu tamanho também não é senão uma questão de perspectiva.

Licínia Quitério

28.2.18

O OIRO

 


se eu tivesse a idade das montanhas
e a sensatez das aves em viagem
eu seria capaz de construir
por minhas mãos a casa a mesa 
a toalha o arado
de inventar as palavras que não ferem 
nem sobram
de transmutar em pão o pó das derrocadas
de aprender e ensinar ao mesmo tempo 
e sempre
seria até capaz de devolver ao marinheiro
o mar
o peixe ao pescador
ao camponês a terra

mas pensando melhor
à minha sorte só faltava o oiro
para eu poder comprar
o mar a terra o ar
e mais ainda
a morte

Licínia Quitério 

20.2.18

INTIMIDADES


Recordo hoje as horas em que líamos
sentados nos sofás da sala
todos desiguais
um era grande e escarlate
o outro era branco e outro ainda mais pequeno
tinha por cima uma manta de quadrados.
Líamos e de vez em quando falávamos do que líamos.
Raramente estávamos de acordo
como convinha à diferença que cultivávamos
com primores de jardineiro.
Recordo bem a tarde em que lias
relias
um livro sobre trigonometria
em búlgaro
tenho a certeza
a língua em que chegaste a sonhar.
Eu teimava em terminar um poema sobre o Pont-Neuf
que não leste.
Dessa tarde não recordo mais nada.
Talvez tu tenhas adormecido no sofá branco
e eu me tenha embrulhado na manta de quadrados.

Afinal era Fevereiro e fazia frio.

Licínia Quitério

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