6.12.09

VAI LONGE O TEMPO



Vai longe o tempo de peregrinar
por searas fartas e maduras
como se fossem mesa,
como se fossem pão.
Agora há um deserto em cada esquina
e a palavra Nunca é um desatino,
uma prega de gelo no olhar.
Porém, na madrugada há um vapor de seda
a cavalgar as pedras,
a despertar os bichos,
e os rios nos acolhem,
com seus barcos tranquilos,
seus espelhos de céu,
seu sabor a nascente.
Seguir nos dias o rumo da corrente,
com um sonho ancorado
no fio do horizonte,
um grão de sal em cada mão,
um desejo de porto
amarrado no peito.
Até dizer seara como quem diz viagem.
Até morder a vida como quem morde o pão.

 
Licínia Quitério

27.11.09

DA AUSÊNCIA

 
Podia dizer-te da ausência como quem morde a espuma ou apunhala sombras e afastar um sonho enroscado no pulso. Pegar na espuma e nas sombras e depô-las na paisagem com a leveza que as aves ensinam.  Se eu caminhasse sobre os campos de neve e olhasse para trás e apercebesse um rasto verde de agulhas e um cheiro morno de incenso no altar da distância, quem sabe a ausência mais não fosse que uma garra cravada na garganta do inverno, dor provisória, amortecida, guardadora dos casulos da memória.


Licínia Quitério

17.11.09

SE EU PUDESSE


Se eu pudesse dizer-te:  amanhã à tardinha havemos de respirar o verão das cigarras, caminhar enlaçados nas cordas do orvalho, saborear a memória da construção do templo.
Ah se eu pudesse recuperar a humidade das avencas ainda que tivesse de inventar os poços, à minha rua voltariam os sons dolentes da aldeia, como os dos rebanhos que apenas os poemas me disseram.
É tão útil escrever versos e com eles fazer ramos de saudade.

Licínia Quitério

5.11.09

A ESCRITA DA CHUVA



A escrita da chuva é miúda, madrugadora, breve. 
Escrita, apenas, livre da escravatura das palavras. 
Quem  sabe ler a sua transparência?
Quem lhe desvenda o verbo na liquida mudez? 
Alguém falou do tempo efémero na cintura do dia,
de relâmpagos e árvores tombadas à entrada das cidades,
de cavalos fumegantes e do susto das donzelas na orla das planícies.
Nada a propósito da escrita da chuva no recorte do Outono.

Licínia Quitério

29.10.09

NA ARESTA DA ÁGUA



Na aresta da água o canto dos corais.
Insone este mar de náufragos.
Na órbita dos barcos tudo é lume.
Desapossados do beijo das estrelas, 
na praia nos quedamos e bebemos
azul em lâminas de sal.
Dói-nos a espada da infância sobre o ventre
e um menino lança contos de encantar.
Sobre o mar. Sobre a legenda do mar.

Licínia Quitério

20.10.09

DESCALÇA VOU



Descalça vou pelos trilhos do sempre.
Levo na boca a aspereza das amoras
que os melros rejeitaram.
O meu bordão é de oliveira
e não floriu ainda.
Um passo é só um passo e a rocha é quente.
Os latidos dos cães  me dizem a distância
e eu vou, descalça e firme e sequiosa.
Os adivinhos me dirão
a lonjura da fonte e a cama do ocaso.
Se me perguntam quem me doou 
este manto de espuma e a verdura do olhar,
respondo:
Quem me fadou assim, descalça,
a desvendar a estrada?


Licínia Quitério

7.10.09

SUAVE A CHUVA

.



A chuva cai e eu sou uma frase que experimenta voar.
Lágrimas de deuses aprisionados nas nuvens.
As oliveiras tremem e o violoncelo chora no leito dos amantes.
Como se não houvesse barcos para o amanhã e o teu rosto
fossem as últimas maçãs do ramo. Suave a chuva.
A liquidez da tarde e eu esquecida do estrépito da escrita.

Licínia Quitério

29.9.09

OUTONO


É o Outono, dizem, este arrepio das ervas rasando-nos o corpo.
O murmúrio de insectos na vertical do olhar.
Promessas do bosque  na queda dos  frutos com sabores ao êxodo das aves.
Crianças abrindo portas para um sono leve.
É o Outono, dizem as velhas de mãos azuis com cheiro a alfazema.
A memória das folhas, implacável, a anunciar destinos madurados.
Um remoinho súbito, uma prece indistinta, um rumor, um estalido.
Melancólicas águas de outros tempos a inundar os passos da ternura.
É o Outono, digo.

Licínia Quitério

23.9.09

NENÚFARES




Vêm dos fundos e repousam os braços na finíssima linha de água. Florescem e perduram com pétalas de porcelana. Têm pequenos estremecimentos acompanhando os remoinhos súbitos que o vento traz. Oferecem conchas e abraços aos peixes coloridos. São a tentação das libelinhas rasantes que lhes afagam as folhas. Pacientes, procuram a quietude, o sono de vestais no templo. Respiram a bruma do lago e transpiram gotas reluzentes. Quando os vemos nos quadros sabemos que nos escutam os silêncios. Falo de nenúfares. Ou de antigas esperas.

Licínia Quitério

19.9.09

NÃO SE MEDE ESTA FORÇA


Não se mede esta força de atar
folhas verdes a troncos velhos.
A força de amarrar os barcos
ou de pegar nos frágeis ovos.
De esmagar o veneno ou
de amparar o sopro da tarde.
De acarinhar a pele ou
de empurrar o corpo encosta acima.
Não se mede esta força.
Por agora não há como nem porquê.
Saberemos do ofício quando
o tempo vier de dizer fome
com as letras de pão,
com o peso das penas,
com as cores da madrugada.

Licínia Quitério

 
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