19.2.17

LITANIA DA CHUVA


Era de noite e chovia

a água tamborilava
ao sabor da ventania

alguém na rua passava
e uma luz se acendia
onde uma mulher chorava
enquanto a chuva caía
porque o homem que passava
não parava não a queria
e enquanto o vento cantava
era a mulher que se ouvia
já fui dona já fui escrava
já fui noite já fui dia
fui soldo com que comprava
o linho com que tecia
o enredo que enredava
o lençol em que dormia
o passageiro que passava
e na minha casa entrava
e o meu corpo prendia

enquanto o vento soprava
enquanto a chuva caía

Licínia Quitério

12.2.17

A POESIA



Nasceu a poesia quando nasceu a vida.
Assistiu ao labor das bactérias,
ao tumulto das águas,
à transfiguração dos répteis.
No seu tempo ainda sem memória
a poesia viu a chegada
das árvores, a ousadia
dos peixes, a alegria da terra.
Quando veio o humano
que se escondeu do frio,
acendeu o lume e se sentou,
a poesia se entregou
à primeira pedra que foi livro
ainda sem palavras que o dissesse.
Eterna a poesia enquanto homem houver.
Enquanto luz.


Licínia Quitério, em "As Vozes de Isaque" (vários autores), da Poética Edições

11.2.17

O SONHO



Entre o sono e o sonho uma parede se levanta,
o tempo pára e todos os rostos são iguais.
É quando a indiferença nos submete e arrasta
e a dor do mundo é um vago negrume em nossa volta.
De repente uma flor, uma toada, um toque de luar,

e a parede a abrir, a ruir, a deixar ver o invisível,
tocar o intocável, mudar o imutável, maravilhar,
no teatro do sonho, numa noite de Verão.


Licínia Quitério

7.2.17

NO VENTO


No vento, escreve-se
o mar e o deserto,
com  suas ondas de fúria 
e de constância,

e também
o desalinho das ramadas
onde se inventam pássaros
com o seu canto a haver,

e também
o susto das paredes,
seus gemidos de pedra,
seu orgulho a ceder.

No vento, escreve-se 

o homem, a criança, a mulher,
seus temores de nascer,
de caminhar, de se perder.

No vento, só não se  escreve o amor,
esse sopro abraçado a outro sopro

liberto de qualquer caligrafia.

Licínia Quitério

28.1.17

AS ROSAS



Nos sonhos da manhã
outros sonhos navegam.

Em confusão, por vezes.
Por vezes, limpidez.
Leve o desejo de ficar
por mais um tempo
ou para sempre
na morna fantasia
entre a recta e a curva
entre o sol e a sombra.

Livres do nevoeiro
nos sonhos da manhã
chegam as rosas.


Licínia Quitério

22.1.17

INTERIORES


Os quartos interiores guardam memórias 
que só na escuridão têm abrigo.
Abrem-se estradas, corredores,
montanhas nunca.
Desfilam objectos em pedaços,
clarões de rostos,
íntimos sopros,
falas de palavras mudas.
Por vezes a nitidez de uma janela ao Sol,
uma flor gradeada,
uma renda de gelo.

Nos quartos interiores não sopra o vento,
mas folhas secas pairam, sem tombar.
Se o nosso olhar as segue,
bailam, rodopiam,
longe da nossa mão,
longe do corpo, a mão.

São muito antigos, os quartos interiores.
Antigos e fechados.
Só se abrem a quem guardou a chave
num raio de luz a oriente 
da casa
e dos seus quartos interiores.

Licínia Quitério

18.1.17

AZUL



Salvè, benevolência do Inverno, a prometer a purificação das horas.
Os homens sempre desconfiam da Natureza dadivosa.
Afincam-se a chorar a intempérie, a enxurrada, o tufão, a seca.
Mesmo o azul os perturba, se abundante.
Ao menos uma nuvem, sua metade branca, sua metade escura, a permitir presságio de mudança.
Só a imperfeição contenta os homens.

Perfeitos os deuses, esses sim, sem mácula, sem dor, distantes, muito distantes, da pobre humanidade.

Licínia Quitério 

16.1.17

REGRESSO


Pela janela da infância o mundo entrava.
O mundo, quero dizer, o canto estridente
do canário da vizinha Celeste,
com um carrapito preso por ganchos de tartaruga.
O bater sola, cadenciado, do Júlio sapateiro,
de beata apagada ao canto da boca.
O chiar do rodado do carro de bois,
pachorrentos como se usa dizer dos bois.
Os gritos, sobretudo os gritos dos meninos da rua
que brincavam e lutavam e se insultavam,
a enganar a fome da côdea que tardava.
E os gritos, os gritos das mães, a filarem-lhes as orelhas,
Meu vadio, meu malandro,
Ah nha mãe na me bata qu’eu na torno a fazer.
O piar dos pardais, à boquinha da noite,
disputando um abrigo nos braços enormes
do velho plátano solitário.
Noite feita, os morcegos rasando a janela da infância.
Estranhos pássaros a chiarem como ratos.
E as corujas das torres a mandarem calar o murmúrio dos ares.
Chiiu, chiiu, chiiu…
E os pirilampos, na magia dormente das noites de Verão,
pequeninas estrelas ao alcance das pequeninas mãos.
Quando a janela da infância se fechava, começava o sono
e nele entrava o mundo, em nova ordem,
bizarro e encantatório.

Licínia Quitério, 1992

14.1.17

PAISAGEM


Anda a paisagem cheia
de vultos deslizantes
encharcados de Sol
nas suas horas altas.
Entre o escuro e o claro
não cabem indecisos.
A evidência da luz amaina
a indigência. 
Decoradas de sombras
as vontades avançam
em corpo de mulher
em corpo de homem.
Que a estrela não desista.
Que o brilho seja manto
a cobrir a penúria
a resgatar do gelo
quem para trás ficou
acorrentado
desamado
inerte. 

Licínia Quitério

12.1.17

AS PALAVRAS


São assim.
Crescem.
Desprendem-se.
Um estalido.
Um sussurro.
Um quase nada.
Se voltam
instalam-se
no coração da garganta.
Agitam-se e
assustam.
Sabemos e sentimos
o seu tecido
não tecido
a sua forma
informe.
Na hora certa elas virão
em cordas de violino
à nossa mão
e serão corpo
nosso
entrega
voo.
As palavras.

Licínia Quitério


8.1.17

PENAS


No fio dos dias há gargalhadas
das aves de arribação
que vão
que voltam
que vão.
A minha cabeça roda
a procurar montanhas.
Uma pena debaixo da almofada.
Uma pena no negro do café.
E eu perdida no veludo da noite.
Os anjos cantam
riem.
E eu perdida entre o sorriso e o soluço.
E eu a despertar
a adormecer.
O fio dos dias a compor o signo do infinito
igual a sempre
igual a nunca.
E eu perdida
desigual.

Licínia Quitério

4.1.17

JORNADA


O silêncio do corpo é a própria ausência,
seu repouso e transparência.
No silêncio do corpo, abrem-se leques,
flores de cerejeira, águas brancas,
cumes arredondados com cheiro a seios
antes do leite.
Breve é o tempo de crescer, doce a subida,
certeira a seta na descida.
No meio da jornada, o sobressalto,
o tilintar de engenhos,
a indecisão do nevoeiro.
O corpo ali, rosto de esfinge,
pedra de sorriso,
quantos são os teus pés,
para onde vais.

Licínia Quitério

3.1.17

O ÚLTIMO POETA


Salvar ou não salvar é uma questão
De despertar
Com uma corda no braço
Ou uma pedra na mão.
Tão próxima é a foz
Que o rio não avistamos
E da nascente não sabemos
Senão o grito, o arrojo, o respirar.
Dos anjos salvadores
Restaram penas,
Alguns poemas que em estrela se tornaram.
Um outro, eu sei, escapou
À matança, à purificação.
Se de nome mudou
Talvez se chame flor ou
Água de beber
Ou perfume em riso de mulher.
Talvez eu seja o rio
onde mergulhe para afogar
A urgência do poema
Ou seja a corda e o salve
E lance a pedra para bem longe
E o poema seja eu que me salvei.


Licínia Quitério

Nota - em "As Vozes de Isaque" - Derivações poéticas a partir da obra "O Último Poeta", de Paulo M. Morais, da Poética Edições

29.12.16

NÃO SABEMOS


Não se pode abraçar uma lembrança.

A matéria dos sonhos é volátil.
Inaudível 
a harmonia da água
que pode ser ribeiro
que pode ser naufrágio.
A cor é a que não vemos
e o negro só existe se pensado.

Na floresta dos nomes que sabemos
erguem-se vozes
com que abrimos clareiras
de silêncio
e esperamos o odor de novas flores.

Tudo o que importa já existe
mas não sabemos
que nome dar ao que navega além do corpo
além da casa dos sentidos.

Licínia  Quitério

20.12.16

O TREMOR


Desde a estrela, desde a lua,
a noite se acendeu e
os homens perderam a cegueira.
Esperaram o dia, os corpos
a vibrar de um tremor novo
que não era voo, nem corrida,
nem salto de animal,
nem ondear de mato.
Era um trovão, um rio, um ardor,
uma pressa e um sossego.

Desde que o fogo aconteceu,
o frio fez-se calor e a palha ardeu,
como se fosse raio que caísse.
Era outro o dia que nascia, 
embora houvesse a noite.
O tremor dos homens fez-se febre
e a pele pediu a pele.
No calor do lume se encontraram,
no peito uma batida de tambor.

Hoje é o lampião que acende a noite.
Os homens perderam a memória
e quando dizem fogo ou estrela
não sabem do tremor que os percorreu
no princípio do espanto,
no alvor da caminhada.
Dizem amor ou dizem filho, mas
esqueceram a noite que acendeu o dia.

Licínia Quitério

18.12.16

AS CASAS



Antes que as guerras cheguem,
as casas guardam pedras 

cansadas de memória.

Nas fendas, sopros
que podem ser o vento
ou a passagem da saudade.


Vão desenhando motivos vegetais 
na amargura da cal 
há muito poluída.


Exibem cicatrizes,
mas não pedem compaixão
nem cura.


Gozam a transparência da idade.


Jogam às escondidas com o céu,
fingem que prendem nuvens
nas janelas.


Até que a terra trema,
o homem esqueça,
o tempo passe 
e as desfaça.

Licínia Quitério

17.12.16

A NOITE


A noite é manto e alimento de orfandades.
Na escuridão, igual o cor-de-rosa dos amados
ao anil crepuscular dos rejeitados.

De noite caminham os proscritos da alegria
e os recusados do banquete.
A noite guarda com igual ternura
a miséria e o mendigo, 
o atrevimento e o precipício.

Nos socalcos da noite há poemas e rimas
prontos para a colheita do poeta 
que na própria cegueira acende estrelas.

Licínia Quitério

13.12.16

DISSOLUÇÃO


Da minha janela, pela manhã,
avisto o  véu  do sono inacabado
a desfazer rasgões, arestas.
Das cores restou apenas

seu esplendor e ausência, 
que nomeei de branco e preto,
a dar-lhes corpo e vida.

Recolho-me e aguardo.
Mais logo irei dizer 
o azul celeste,
o verde esmeraldino,
o amarelo oiro,
o vermelho papoila,
para não falar da velha foto a sépia,
antes que tudo volte a ser
dissolução.

Licínia Quitério

12.12.16

CASTELOS



Assim se fazem castelos

Por cada pedra um ai
Por cada torre um homem
Nenhum castelo alcança
a doce madrugada dos pardais

Em cada pedra um sonho de oiro
Só as mãos dos obreiros são reais

Licínia Quitério

6.12.16

A TERRA


A minha terra é a cama onde me deito
a mesa dos manjares e da tristeza
o braço amigo mesmo longe, mesmo frio

A minha história é a da outra que foi
pelos caminhos do cristal e da ferrugem
e voltou pálida e estranha
com os olhos plenos de paisagens 
onde navegam  árvores torturadas
casas com os ossos a espreitarem
o latido dos cães, a chamarem 
as contorsões das lagartixas

Mas há o debrum azul a serenar tempestades
o  oiro matinal a engravidar searas
o luar a amparar os fugitivos

Assim a terra onde me vivo, me prossigo
e às vezes canto e espero

Licínia Quitério

29.11.16

NOVO LIVRO



Segunda apresentação

CASA DE NUVENS



Era uma casa como as outras mais,
uma casa coberta, uma casa fechada,
uma casa aberta, uma casa aprumada.
Nem nova nem velha, uma casa decente,
uma casa prudente, uma casa de telha.
Uma casa é um cais onde aportam saudades,
onde amarram barcaças, onde há gente que entra,
onde há gente que sai, onde há gente que cai,
onde há gente que vai procurar outra gente,
em busca de guarida, de beijo ou de comida.
A casa de que falo, igual às outras mais,
tem um grande defeito, abriga tudo a eito.
Não há vento que sopre, não há chuva que caia,
não há bicho 
perdido, não há mísera folha
que a casa não acolha, que a casa não resguarde.
De tal sorte oferecida, a casa imaginada
é a casa preferida das nuvens viajeiras,
essas doces intrusas, que em dias de procela,
entram pelo telhado e espreitam à janela.
Assim já se percebe que a casa que pareceu
igual a muitas outras, mais não seja afinal
que o castelo das nuvens, que a morada do céu.


Licínia Quitério

24.11.16

AZUL



É no azul que me prossigo
me desperto

Junto as mãos
e chamo os pássaros
da infância
com palavras-asa
altas tresloucadas
palavras-pedra 

robustas apressadas
palavras-corpo
trementes ofertadas


No azul me adormeço
e a desobediência dos pássaros
é  o negrume que me perpassa 
o sono 

Nunca saberei se no azul
permanece
aquela história de  encantar
que falava de pássaros de olhos azuis
iguais aos teus
mãe
que eram verdes e falantes

Licínia Quitério

22.11.16

A NUVEM



Na minha rua há casas
onde se acoitam cansaços
de rostos sempre iguais,
de trabalhos sempre iguais.
Debruçadas nas varandas
há solidões de fim de dia
ou melhor
de dias infinitos.
Já tão distante o berço,
já tão esfriado o leito,
já tão esquecido o amor.

Também há casas
com olhos de crianças.
Sabe-se lá o que vê
uma criança quando ri
ou quando chora
ou nos olha de soslaio
por entre as malhas
apertadas do horário.
As crianças são mansas,
têm gatos e cães
e muitos telecomandos
e são terrivelmente sossegadas
enquanto aprendem a exterminar
exterminadores
e monstros fumegantes
dominadores de novas galáxias.

Pode a terra tremer, 
pode a fome apertar
lá longe
longe como dizer Japão
ou Indochina, 
nas casas da minha rua 
não se passa nada.
As pessoas entram,
as pessoas saem
e dormem e acordam
a horas certas.
Interrogam-se apenas
quando uma nuvem passa
debaixo da janela.
Dizem que virá ela fazer.
Nessa noite só vão adormecer
depois de verem que não há nuvens
debaixo da cama.
Temem que uma nuvem
as leve enquanto dormem.
De resto, pode a terra tremer,
pode a fome apertar
longe
muito longe
aqui não se passa nada.

Licínia Quitério

14.11.16

A ONDA



Uma onda muito negra avança sobre o litoral das nossas vidas.
Há quem não dê por isso.
Há quem faça de conta.
Há quem seja da onda.
Não vamos ter medo.
Não vamos adoecer.
Não vamos calar.
Não vamos adormecer.
Somos daqui do lado da beleza
do lado da liberdade
do lado humano dos homens e das mulheres.
Despertos estamos.
Olharemos a grande Lua.
Defenderemos a Terra.
Não passarão.

Licínia Quitério

11.11.16

A IGNORÂNCIA



Nesse tempo eu pouco sabia 

De filósofos ou de colheitas tardias
E menos ainda de contas correntes
Ou de novas galáxias
Redondo era o mundo e
Eu girava girava
Dançava dançava muito
Em redor de mim
Em redor da saia que rodava
E chorava porque
O coelhinho branco morrera 
Ou o rapaz afinal tinha outra namorada
Queria que o meu cabelo embranquecesse 
E eu fingisse de velha
De uma velhice mais bonita
Que a minha mocidade
Nada sabia da morte das abelhas
E menos ainda da vida 
Depois de muitas mortes
Conhecia vagamente os nomes de cidades
E sonhava com elas
Porque havia de as visitar
No princípio de todas as primaveras
Eu era tão ignorante 
Nesse tempo 
Agora sei os nomes das árvores da minha rua
O tamanho da estrela maior
O tempo de vida do amor
E muito mais
Confesso que pintei o cabelo 
Da cor da mocidade
Que era tão bonita e nem isso eu sabia

Licínia Quitério

4.11.16

A TRANSPARÊNCIA



Acordo cedo e tropeço no silêncio da casa,
como se fosse de noite,
como se fosse Domingo.
É um silêncio que se prolonga pela rua
e tem a transparência dos véus das concubinas
resgatadas por Sherazade.

“Ouvi agora, senhores, uma história de pasmar".

Assim começa a história.
Um ramo  de histórias.
de pedaços de histórias
que eu ouvi contar
há muito muito tempo,
quando ainda não havia silêncio pela casa
mesmo que fosse de noite,
mesmo que fosse Domingo,
e eu nem sabia da transparência dos véus,
o que só aconteceu mais tarde
quando o livro de histórias acabou
e eu me perdi no labirinto.
Esse sim saltou do livro
e fez-se  a casa e os corredores da casa
que percorro e torno a percorrer
sem que ninguém me veja,
bem oculta na minha própria transparência.

Agora ouvistes, senhores, esta história de pasmar.

Licínia Quitério

31.10.16

PARÁBOLA


Andam os nossos olhos assombrados
pela vastidão dos mares 

maiores que o medo
que a penúria.
No mar do meio é sempre noite.
Há uma hora a menos que aprisiona
as mãos cansadas de areia
os olhos encharcados de balas.
No ventre das águas
tem de haver florestas
árvores petrificadas
peixes cegos.
À tona há vultos
que se deixam pescar.
A praia é sementeira
de silêncios.
Se uma criança chora
as mulheres  dizem:
É o meu filho que se salvou das águas.
Para não enlouquecerem
as mulheres inventaram
as parábolas.

Licínia Quitério

20.10.16

CONVITE


15.10.16

ROSTOS


De quem os rostos no desfilar das horas?
Perfilam-se, fixam-nos, sacodem-nos
da modorra, do fastio.
Interrogam-nos, perguntam-nos
e nós não respondemos.
Queríamos ser um deles,
vivê-los, se necessário amá-los,
arrancá-los à história, trazê-los,
sobre o nosso papel colar o deles.
Do impossível fazer casa,
fazer riso, mudar a pele,
partir à descoberta.


Nada a fazer.
O nosso rosto mora deste lado.
Entre nós e os outros
a película do tempo
que pode ser fugaz,
que pode ser eterno.


Licínia Quitério

1.10.16

A HARPA



A harpa de folhas ensaia a música do Outono.
Vou à janela como se alguém estivesse para chegar.
Componho o cabelo, aconchego a gola do vestido.
Defendo-me do vento leve e da frescura do calendário.
Enrosco-me em lembranças cor de feno com a quentura do sol
e dos corpos extenuados dos homens.
Demoro-me no deslizar vegetal, encosto-me à velha ternura
dos degraus da escada, aos bordados de cal nos muros
sobrantes do Inverno.
Aqui permaneço, melancólica, na esteira do meu país,
nos seus estranhos dias em que o vinho não morre nem fermenta.

Licínia Quitério

29.9.16

ERA UM SONHO



Ver um sonho e dizer pedra,
ouvir chuva e dizer harpa,
trincar fruto e dizer sol
pode ser um desatino.
Abra-se então a janela
para ver se a pedra rola,
para ouvir se a chuva cai,
arde a maçã ou apodrece.
Cinco sejam os sentidos
cada um no seu lugar
a darem sinais de vida
mal contada, mal gerida,
baralhada, mas vivida.
E a janela a bater
com o vento a repetir
vai e volta, volta e vai,
olha a pedra que não rola,
olha a pedra que se esvai.
Era um sonho na janela,
era um sonho que eu bem vi,
se pedra disse menti.


Licínia Quitério

15.9.16

UM VERBO


Olhas os cisnes a debicar as penas 
e pensas, quem me dera ser
a água onde se banham, 
o tronco reclinado no umbral da tarde 
que só os cisnes vêem, e pisam 
como se estrada fosse.
Lembras os dias de espuma 
da brancura dos cisnes
e segues a pensar, quem me dera.
No peito uma palavra a arder,
a afastar as sombras sob as águas.
Quem me dera um verbo 
que não cantasse.
É o que pensas.
É o que os cisnes pensam.

Licinia Quitério


11.9.16

JANELAS


Que sabes tu das janelas abertas sobre as ruas
senão dos traços a carregar memórias 
de olhares que as devassaram?
Quedas-te a adivinhar de quem as casas,
donde  os metais, os vidros,
quais os últimos dedos que as tocaram.


Janelas iluminadas por faíscas diamantinas,
trespassadas por silvos de comboios,
atentas à estridência e ao silêncio das gares, 
antes e depois da viagem dos homens.
Olhos de construtores, misteriosas grafias,
saudades de cidades belas como nunca houve,
de mulheres não veladas, de homens potentes, 
prestimosos, despidos de loucura, a louvarem
a vida, a fabricarem.

Pouco mais saberás das janelas,
dos homens que as quiseram,
dos que as olham e dos outros,
passantes, indiferentes,
à beira de cegarem.

Licínia Quitério 

2.9.16

6.8.16

A TORRENTE


Há um calor absurdo nas florestas.
Nem o silêncio,
nem a mão na testa,
nem as cores da distância,
nada pode parar a fogueira
a lavrar nos ramos
da nossa velha árvore.
Há palavras
capazes de abrandar
a tentação dos precipícios
quando o Verão descola e incendeia.
Não as dizemos.
O Verão há-de passar
e outro e outro
e as palavras
presas na garganta
do nosso grande rio,
na seiva da nossa velha árvore.
Palavras de água à espera da torrente.

Licínia Quitério

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