22.4.17

MEU A-BRIL



Na aragem da manhã um assobio
a soletrar a-bril no meu ouvido,
a deixar-se prender, a deixar-se embalar,
a relembrar a sua e minha história,
assim como quem conta -
Era uma vez um mês
que inaugurou os anos do deslumbre,
um caldo de alegria a transbordar
dos corações à rua.
Um mês que foi um ano inteiro,
pouco mais
que as serpentes voltaram do deserto
a entorpecer o a-bril da claridade.
O seu pulmão de sol adoeceu.
Mil vezes resistiu à sombra
e à calúnia.
Mil vezes alteou o som
da liberdade.
Envelheceu Abril e eu envelheci.
O assobio da manhã no meu ouvido 
ficará
até que eu deixe de pensar -
Minha flor maior,
meu a-bril, meu a-mor.

Licínia Quitério

11.4.17

OS LAGOS



Toda a gente sabe que os pássaros não nadam.
Voam e poisam nos altos ramos das altas árvores.
Os lagos estão ali para eles se mirarem e pensarem
(toda a gente sabe que os pássaros pensam) -
Olha um pássaro tão belo como eu.
Um dia dormirei abraçado àquele irmão.
É o que esperam todos os seres que voam
sobre os altos ramos das altas árvores
sem perderem de vista os grandes lagos
onde dormem os seus irmãos das águas.

Licínia Quitério

9.4.17

SALVAÇÃO



Salvar ou não salvar é uma questão
de despertar
com uma corda no braço
ou uma pedra na mão.
Tão próxima é a foz 
que o rio não avistamos
e da nascente não sabemos
senão o grito, o arrojo, o respirar.
Dos anjos salvadores
restaram penas,
alguns poemas que em estrela se tornaram.
Um outro, eu sei, escapou
à matança, à purificação.
Se de nome mudou
talvez se chame flor ou
água de beber
ou perfume em riso de mulher.
Talvez eu seja o rio
onde mergulhe para afogar
a urgência do poema
ou seja a corda e o salve
e lance a pedra para bem longe
e o poema seja eu que me salvei.
Licínia Quitério, em As Vozes de Isaque

6.4.17

ABRIL INACABADO



Houve um dia de espanto e de tremor.
Houve a notícia ainda inacabada
ainda frouxa.
Houve a alegria a desatar
os corredores do medo.
Houve um dia inteiro
meu amor nascido
meu  soldado de cravo
minha janela aberta
meu poema
meu caminho feito
de mão na mão
de coração a coração
entoada a canção
na voz mais alta
que aprendemos.
Foi assim o princípio
da tarefa mais nobre
de nomear a liberdade.
Que ficou desse dia
é o que te vou dizer
meu amor sem guarida
meu cravo sem soldado
minha janela entreaberta
meu tão curto caminho
de mão no coração
em voz baixa a canção.
Do dia do espanto e do tremor
ficou da liberdade
a antiga memória
a nova inquietação.
Desse dia sem noite
meu amor acabado
minha flor desmaiada
minha janela fechada
um poema ficou
na minha mão guardado
e lhe chamei Abril
imperfeito
inacabado.

Licínia Quitério

31.3.17

DOÇURA



Pedes-me notícias da doçura
e a tua mão treme na minha mão.
Sabes que quando digo golpe penso afago,
que quando escrevo mar dos afogados
aumenta o meu desejo de planície,
que a minha fúria é a saudade
dos caminhos verdes,
que as minhas sílabas de fogo
abrasam os que são de incêndio,
derretem os que são de gelo.
Tu sabes ler-me,
ó cavaleiro das tréguas,
ó guardador das chagas do poente,
mas eu esqueci
a ordenação das fontes
e as falas que me chegam
são numa língua que aprendi
e desprezei.
Dá-me um novo alfabeto
e eu te darei o mel
e tu serás meu livro de ternuras.

Licínia Quitério

29.3.17

ESCRITORES.ONLINE

Um outro Sítio onde me encontro:


http://escritores.online/escritor/licinia-quiterio/

28.3.17

ANDANÇAS



A corrida do fio da fonte, a brilhar, a devolver as cores do céu, das árvores, dos montes, como se dissesse arco-íris, silêncio murmurante.
O assobio do canavial, flauta de vento a ameaçar invernos no avesso das primaveras.
O soluçar dos campos pela ausência dos que partiram em direcção a um novo verão.
Os bocejos dos homens, sentados nos bancos do outono, a contarem as folhas caídas, os dias amortecidos.

Andanças, porque de danças se faz o nosso andar, de mundo em mundo, o que pisamos e o outro que sonhámos e, de tanto sonhar, nos fatigámos.

Licínia Quitério

27.3.17

NOTÍCIA BANAL




A faca corta, que bem corta a carne do vitelo, o corpo da mulher que não obedeceu, que não ajoelhou, que desejou partir, mas por ali ficou. 
Um filho carregava. 
Mas um filho de quem, deste homem ou do outro? 
Que lhe importa saber? 
A faca não pergunta o registo do sangue, a pureza do ovo. 
Deixa-se conduzir pelo pulso do homem, pela força da mão, pelo veneno da posse, a que o homem enforma, a que o homem deforma. 
A faca despedaça. 
Cortar é seu ofício. 
E porque bem cortou, o homem que a guiou tranquilo se sentiu. 
Senhor da vida e morte, consumado o abate, é um homem de pé. 
Não existe traição que a faca não degole, que a faca não apague. 
A matança apurou os sentidos do homem. 
Ele bem os ouviu, os gritos das mulheres, os rugidos dos homens, cruzados na arena. 
São aplausos calados, são ciúmes crescidos. 
Se eu tivesse uma faca, se não fosse este medo, ele não me escapava, ela não me ganhava. 
É a fúria do homem, é a força do bicho. 
Inocente é a faca que corta, que corta.


Licínia Quitério

19.2.17

LITANIA DA CHUVA


Era de noite e chovia

a água tamborilava
ao sabor da ventania

alguém na rua passava
e uma luz se acendia
onde uma mulher chorava
enquanto a chuva caía
porque o homem que passava
não parava não a queria
e enquanto o vento cantava
era a mulher que se ouvia
já fui dona já fui escrava
já fui noite já fui dia
fui soldo com que comprava
o linho com que tecia
o enredo que enredava
o lençol em que dormia
o passageiro que passava
e na minha casa entrava
e o meu corpo prendia

enquanto o vento soprava
enquanto a chuva caía

Licínia Quitério

12.2.17

A POESIA



Nasceu a poesia quando nasceu a vida.
Assistiu ao labor das bactérias,
ao tumulto das águas,
à transfiguração dos répteis.
No seu tempo ainda sem memória
a poesia viu a chegada
das árvores, a ousadia
dos peixes, a alegria da terra.
Quando veio o humano
que se escondeu do frio,
acendeu o lume e se sentou,
a poesia se entregou
à primeira pedra que foi livro
ainda sem palavras que o dissesse.
Eterna a poesia enquanto homem houver.
Enquanto luz.


Licínia Quitério, em "As Vozes de Isaque" (vários autores), da Poética Edições

11.2.17

O SONHO



Entre o sono e o sonho uma parede se levanta,
o tempo pára e todos os rostos são iguais.
É quando a indiferença nos submete e arrasta
e a dor do mundo é um vago negrume em nossa volta.
De repente uma flor, uma toada, um toque de luar,

e a parede a abrir, a ruir, a deixar ver o invisível,
tocar o intocável, mudar o imutável, maravilhar,
no teatro do sonho, numa noite de Verão.


Licínia Quitério

7.2.17

NO VENTO


No vento, escreve-se
o mar e o deserto,
com  suas ondas de fúria 
e de constância,

e também
o desalinho das ramadas
onde se inventam pássaros
com o seu canto a haver,

e também
o susto das paredes,
seus gemidos de pedra,
seu orgulho a ceder.

No vento, escreve-se 

o homem, a criança, a mulher,
seus temores de nascer,
de caminhar, de se perder.

No vento, só não se  escreve o amor,
esse sopro abraçado a outro sopro

liberto de qualquer caligrafia.

Licínia Quitério

28.1.17

AS ROSAS



Nos sonhos da manhã
outros sonhos navegam.

Em confusão, por vezes.
Por vezes, limpidez.
Leve o desejo de ficar
por mais um tempo
ou para sempre
na morna fantasia
entre a recta e a curva
entre o sol e a sombra.

Livres do nevoeiro
nos sonhos da manhã
chegam as rosas.


Licínia Quitério

22.1.17

INTERIORES


Os quartos interiores guardam memórias 
que só na escuridão têm abrigo.
Abrem-se estradas, corredores,
montanhas nunca.
Desfilam objectos em pedaços,
clarões de rostos,
íntimos sopros,
falas de palavras mudas.
Por vezes a nitidez de uma janela ao Sol,
uma flor gradeada,
uma renda de gelo.

Nos quartos interiores não sopra o vento,
mas folhas secas pairam, sem tombar.
Se o nosso olhar as segue,
bailam, rodopiam,
longe da nossa mão,
longe do corpo, a mão.

São muito antigos, os quartos interiores.
Antigos e fechados.
Só se abrem a quem guardou a chave
num raio de luz a oriente 
da casa
e dos seus quartos interiores.

Licínia Quitério

18.1.17

AZUL



Salvè, benevolência do Inverno, a prometer a purificação das horas.
Os homens sempre desconfiam da Natureza dadivosa.
Afincam-se a chorar a intempérie, a enxurrada, o tufão, a seca.
Mesmo o azul os perturba, se abundante.
Ao menos uma nuvem, sua metade branca, sua metade escura, a permitir presságio de mudança.
Só a imperfeição contenta os homens.

Perfeitos os deuses, esses sim, sem mácula, sem dor, distantes, muito distantes, da pobre humanidade.

Licínia Quitério 

16.1.17

REGRESSO


Pela janela da infância o mundo entrava.
O mundo, quero dizer, o canto estridente
do canário da vizinha Celeste,
com um carrapito preso por ganchos de tartaruga.
O bater sola, cadenciado, do Júlio sapateiro,
de beata apagada ao canto da boca.
O chiar do rodado do carro de bois,
pachorrentos como se usa dizer dos bois.
Os gritos, sobretudo os gritos dos meninos da rua
que brincavam e lutavam e se insultavam,
a enganar a fome da côdea que tardava.
E os gritos, os gritos das mães, a filarem-lhes as orelhas,
Meu vadio, meu malandro,
Ah nha mãe na me bata qu’eu na torno a fazer.
O piar dos pardais, à boquinha da noite,
disputando um abrigo nos braços enormes
do velho plátano solitário.
Noite feita, os morcegos rasando a janela da infância.
Estranhos pássaros a chiarem como ratos.
E as corujas das torres a mandarem calar o murmúrio dos ares.
Chiiu, chiiu, chiiu…
E os pirilampos, na magia dormente das noites de Verão,
pequeninas estrelas ao alcance das pequeninas mãos.
Quando a janela da infância se fechava, começava o sono
e nele entrava o mundo, em nova ordem,
bizarro e encantatório.

Licínia Quitério, 1992

14.1.17

PAISAGEM


Anda a paisagem cheia
de vultos deslizantes
encharcados de Sol
nas suas horas altas.
Entre o escuro e o claro
não cabem indecisos.
A evidência da luz amaina
a indigência. 
Decoradas de sombras
as vontades avançam
em corpo de mulher
em corpo de homem.
Que a estrela não desista.
Que o brilho seja manto
a cobrir a penúria
a resgatar do gelo
quem para trás ficou
acorrentado
desamado
inerte. 

Licínia Quitério

12.1.17

AS PALAVRAS


São assim.
Crescem.
Desprendem-se.
Um estalido.
Um sussurro.
Um quase nada.
Se voltam
instalam-se
no coração da garganta.
Agitam-se e
assustam.
Sabemos e sentimos
o seu tecido
não tecido
a sua forma
informe.
Na hora certa elas virão
em cordas de violino
à nossa mão
e serão corpo
nosso
entrega
voo.
As palavras.

Licínia Quitério


8.1.17

PENAS


No fio dos dias há gargalhadas
das aves de arribação
que vão
que voltam
que vão.
A minha cabeça roda
a procurar montanhas.
Uma pena debaixo da almofada.
Uma pena no negro do café.
E eu perdida no veludo da noite.
Os anjos cantam
riem.
E eu perdida entre o sorriso e o soluço.
E eu a despertar
a adormecer.
O fio dos dias a compor o signo do infinito
igual a sempre
igual a nunca.
E eu perdida
desigual.

Licínia Quitério

4.1.17

JORNADA


O silêncio do corpo é a própria ausência,
seu repouso e transparência.
No silêncio do corpo, abrem-se leques,
flores de cerejeira, águas brancas,
cumes arredondados com cheiro a seios
antes do leite.
Breve é o tempo de crescer, doce a subida,
certeira a seta na descida.
No meio da jornada, o sobressalto,
o tilintar de engenhos,
a indecisão do nevoeiro.
O corpo ali, rosto de esfinge,
pedra de sorriso,
quantos são os teus pés,
para onde vais.

Licínia Quitério

3.1.17

O ÚLTIMO POETA


Salvar ou não salvar é uma questão
De despertar
Com uma corda no braço
Ou uma pedra na mão.
Tão próxima é a foz
Que o rio não avistamos
E da nascente não sabemos
Senão o grito, o arrojo, o respirar.
Dos anjos salvadores
Restaram penas,
Alguns poemas que em estrela se tornaram.
Um outro, eu sei, escapou
À matança, à purificação.
Se de nome mudou
Talvez se chame flor ou
Água de beber
Ou perfume em riso de mulher.
Talvez eu seja o rio
onde mergulhe para afogar
A urgência do poema
Ou seja a corda e o salve
E lance a pedra para bem longe
E o poema seja eu que me salvei.


Licínia Quitério

Nota - em "As Vozes de Isaque" - Derivações poéticas a partir da obra "O Último Poeta", de Paulo M. Morais, da Poética Edições

29.12.16

NÃO SABEMOS


Não se pode abraçar uma lembrança.

A matéria dos sonhos é volátil.
Inaudível 
a harmonia da água
que pode ser ribeiro
que pode ser naufrágio.
A cor é a que não vemos
e o negro só existe se pensado.

Na floresta dos nomes que sabemos
erguem-se vozes
com que abrimos clareiras
de silêncio
e esperamos o odor de novas flores.

Tudo o que importa já existe
mas não sabemos
que nome dar ao que navega além do corpo
além da casa dos sentidos.

Licínia  Quitério

20.12.16

O TREMOR


Desde a estrela, desde a lua,
a noite se acendeu e
os homens perderam a cegueira.
Esperaram o dia, os corpos
a vibrar de um tremor novo
que não era voo, nem corrida,
nem salto de animal,
nem ondear de mato.
Era um trovão, um rio, um ardor,
uma pressa e um sossego.

Desde que o fogo aconteceu,
o frio fez-se calor e a palha ardeu,
como se fosse raio que caísse.
Era outro o dia que nascia, 
embora houvesse a noite.
O tremor dos homens fez-se febre
e a pele pediu a pele.
No calor do lume se encontraram,
no peito uma batida de tambor.

Hoje é o lampião que acende a noite.
Os homens perderam a memória
e quando dizem fogo ou estrela
não sabem do tremor que os percorreu
no princípio do espanto,
no alvor da caminhada.
Dizem amor ou dizem filho, mas
esqueceram a noite que acendeu o dia.

Licínia Quitério

18.12.16

AS CASAS



Antes que as guerras cheguem,
as casas guardam pedras 

cansadas de memória.

Nas fendas, sopros
que podem ser o vento
ou a passagem da saudade.


Vão desenhando motivos vegetais 
na amargura da cal 
há muito poluída.


Exibem cicatrizes,
mas não pedem compaixão
nem cura.


Gozam a transparência da idade.


Jogam às escondidas com o céu,
fingem que prendem nuvens
nas janelas.


Até que a terra trema,
o homem esqueça,
o tempo passe 
e as desfaça.

Licínia Quitério

17.12.16

A NOITE


A noite é manto e alimento de orfandades.
Na escuridão, igual o cor-de-rosa dos amados
ao anil crepuscular dos rejeitados.

De noite caminham os proscritos da alegria
e os recusados do banquete.
A noite guarda com igual ternura
a miséria e o mendigo, 
o atrevimento e o precipício.

Nos socalcos da noite há poemas e rimas
prontos para a colheita do poeta 
que na própria cegueira acende estrelas.

Licínia Quitério

13.12.16

DISSOLUÇÃO


Da minha janela, pela manhã,
avisto o  véu  do sono inacabado
a desfazer rasgões, arestas.
Das cores restou apenas

seu esplendor e ausência, 
que nomeei de branco e preto,
a dar-lhes corpo e vida.

Recolho-me e aguardo.
Mais logo irei dizer 
o azul celeste,
o verde esmeraldino,
o amarelo oiro,
o vermelho papoila,
para não falar da velha foto a sépia,
antes que tudo volte a ser
dissolução.

Licínia Quitério

12.12.16

CASTELOS



Assim se fazem castelos

Por cada pedra um ai
Por cada torre um homem
Nenhum castelo alcança
a doce madrugada dos pardais

Em cada pedra um sonho de oiro
Só as mãos dos obreiros são reais

Licínia Quitério

6.12.16

A TERRA


A minha terra é a cama onde me deito
a mesa dos manjares e da tristeza
o braço amigo mesmo longe, mesmo frio

A minha história é a da outra que foi
pelos caminhos do cristal e da ferrugem
e voltou pálida e estranha
com os olhos plenos de paisagens 
onde navegam  árvores torturadas
casas com os ossos a espreitarem
o latido dos cães, a chamarem 
as contorsões das lagartixas

Mas há o debrum azul a serenar tempestades
o  oiro matinal a engravidar searas
o luar a amparar os fugitivos

Assim a terra onde me vivo, me prossigo
e às vezes canto e espero

Licínia Quitério

29.11.16

NOVO LIVRO



Segunda apresentação

CASA DE NUVENS



Era uma casa como as outras mais,
uma casa coberta, uma casa fechada,
uma casa aberta, uma casa aprumada.
Nem nova nem velha, uma casa decente,
uma casa prudente, uma casa de telha.
Uma casa é um cais onde aportam saudades,
onde amarram barcaças, onde há gente que entra,
onde há gente que sai, onde há gente que cai,
onde há gente que vai procurar outra gente,
em busca de guarida, de beijo ou de comida.
A casa de que falo, igual às outras mais,
tem um grande defeito, abriga tudo a eito.
Não há vento que sopre, não há chuva que caia,
não há bicho 
perdido, não há mísera folha
que a casa não acolha, que a casa não resguarde.
De tal sorte oferecida, a casa imaginada
é a casa preferida das nuvens viajeiras,
essas doces intrusas, que em dias de procela,
entram pelo telhado e espreitam à janela.
Assim já se percebe que a casa que pareceu
igual a muitas outras, mais não seja afinal
que o castelo das nuvens, que a morada do céu.


Licínia Quitério

24.11.16

AZUL



É no azul que me prossigo
me desperto

Junto as mãos
e chamo os pássaros
da infância
com palavras-asa
altas tresloucadas
palavras-pedra 

robustas apressadas
palavras-corpo
trementes ofertadas


No azul me adormeço
e a desobediência dos pássaros
é  o negrume que me perpassa 
o sono 

Nunca saberei se no azul
permanece
aquela história de  encantar
que falava de pássaros de olhos azuis
iguais aos teus
mãe
que eram verdes e falantes

Licínia Quitério

22.11.16

A NUVEM



Na minha rua há casas
onde se acoitam cansaços
de rostos sempre iguais,
de trabalhos sempre iguais.
Debruçadas nas varandas
há solidões de fim de dia
ou melhor
de dias infinitos.
Já tão distante o berço,
já tão esfriado o leito,
já tão esquecido o amor.

Também há casas
com olhos de crianças.
Sabe-se lá o que vê
uma criança quando ri
ou quando chora
ou nos olha de soslaio
por entre as malhas
apertadas do horário.
As crianças são mansas,
têm gatos e cães
e muitos telecomandos
e são terrivelmente sossegadas
enquanto aprendem a exterminar
exterminadores
e monstros fumegantes
dominadores de novas galáxias.

Pode a terra tremer, 
pode a fome apertar
lá longe
longe como dizer Japão
ou Indochina, 
nas casas da minha rua 
não se passa nada.
As pessoas entram,
as pessoas saem
e dormem e acordam
a horas certas.
Interrogam-se apenas
quando uma nuvem passa
debaixo da janela.
Dizem que virá ela fazer.
Nessa noite só vão adormecer
depois de verem que não há nuvens
debaixo da cama.
Temem que uma nuvem
as leve enquanto dormem.
De resto, pode a terra tremer,
pode a fome apertar
longe
muito longe
aqui não se passa nada.

Licínia Quitério

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