22.1.20

UM CAMPONÊS




Um camponês vê os frutos ao olhar as árvores.
Aprendeu isso com a gulodice dos pássaros.
Sabe os nomes das árvores antes de nascerem
porque a terra-mãe lhos segredou
quando nela se deitou cansado de estiagem.
Um camponês não dorme sem uma árvore por perto
ainda que perto seja do outro lado do mundo.
Diz: esta é mais velha do que eu,
aquela ali tem a idade do meu filho,
Mede o seu tempo de ser árvore.

Licínia Quitério

15.1.20

OLHAR


Passamos e não olhamos
ou olhamos e não vemos
e sempre podemos dizer
que não passámos.

Foi assim contigo até ao dia
de olhar e ver e olhar de novo
e ver melhor e gritar eu vi eu vi.


Ninguém vai entender o teu grito
mas tu sabes o que viste
quando de verdade passaste
e tiveste a alegria das coisas visíveis
porque realmente as desejaste.

Licínia Quitério

11.1.20

PLENILÚNIO


Noite de plenilúnio.
O astro segura as rédeas do cavalo do frio.
Hora de invocar a protecção dos seres que se alimentam do silêncio.
Uma mancha de luz caminha em nossa frente, a desafiar lembranças de outras luas de potros alados.
Na manhã de sol, há nos rostos uma sombra, um anúncio de lua nova.

Licínia Quitério

27.12.19

TEMPOS


No tempo de ser erva ofereci-me aos bichos e aos homens e ensinei-lhes o verde e a frescura. 

Depois fui pedra e dei poiso aos bichos e aos homens para despirem o cansaço.
Nesse tempo de pedra aprendi a descida e o prazer de rolar e ver o céu rolar em minha volta.
Depois experimentei ser água e lavei as memórias de ser erva e de ser pedra.
Agora respiro fundo ao cheirar a erva acabada de cortar.
Apanho pedras no caminho e acaricio-as.
Guardo nos olhos o ondular das águas de regresso. 

Chamam-me mulher.
Ainda me falta ser vento e ser viagem.

Licínia Quitério

14.12.19

FLORES DA NOITE



São as flores da noite que te embalam o sono, te segredam promessas de adornar a árvore dos dias.

Flores a preto e branco, flores descoloridas, magníficas flores, simetrias radiantes, invisíveis na claridade das ruas, na penumbra das casas.
Só no chão das noites se alimentam, na poeira acidulada dos leitos, e sobem, sobem, rodopiam, entrelaçam silêncios, dançam histórias sem princípio nem fim, 
dizem-te, dorme, dorme, o teu sono é a nossa vida, o nosso tempo.
Amanhã recordarás um tilintar de loiça fina, a despertar-te, e um doce aroma a inundar-te as horas.
Dirás de goivos, de laranjas, de jasmins.
Não saberás das flores que vivem nas paredes das noites, flores loucas, flores de carne, flores impossíveis no estrépito diurno.


Licínia Quitério

6.12.19

A HORA

É a hora
de preparar o chão da noite,
de falar baixo ou calar,
de recolher as roupas,
de desligar os motores,
de convocar o silêncio do peito,
de procurar o sentido das mãos,
de juntar palavras de dia
com palavras de noite
de escrever a saudade da maré alta,
dos pinheiros altos,
da janela alta das esperas.
Licínia Quitério

28.11.19

ESCREVER



Por vezes, é preciso não escrever,
responder à chamada dos abismos
ainda não, não é o tempo.
Sempre havemos de voltar.
Maior que a treva, a tentação.

Licínia Quitério

19.11.19

AZUL



Não era azul claro, azul escuro,
azul marinho, azul pavão,
azul safira, azul cobalto,
azul de mar alto,
azul dos olhos de Bette Davis.
Era o azul do céu à entrada da noite,
azul manto, azul inteiro,
azul absoluto, azul azul,
azul colado nos meus olhos
esquecidos de imensidão.
Licínia Quitério

13.11.19

A CASA VELHA



Rasgões em ameaça à coesão da cal.
As plantas invasoras, vingativas, rejeitadas
pela placidez dos bosques. As cores decadentes,
tumulares.
O soçobrar do prumo nas empenas.
A desistência da onda nos beirais.

Há quem diga assim a casa velha.

A porta só no trinco, em alarde vermelho.
As trepadeiras vivas abraçando a cal.
Em cada telha um ninho ou uma espera,
um sossego, um tempo livre de traições
ou abandonos.
A respiração dos passos na soleira, 
o calor no inverno, o amor de quem partiu 
e a paz que se aprendeu.

Há quem diga assim a casa velha.

Licinia Quitério

21.10.19

PODIA DIZER-TE


Podia dizer-te a luz da tarde acesa na janela,
ou a alegria envergonhada das ramadas,
ou as vozes dos amigos esboçando um fado,
ou a  nostalgia das bandeiras reclamando pátrias,
ou ainda as casas, sim, as sábias, astutas casas
debruadas de amores e perdições.

Podia até pintar uma aguarela, ou escrever um poema,
ou modelar um rosto, ou compor um adágio,
ou soltar um grito, ou correr, ou saltar,
ou abraçar-te, ou lançar um papagaio de papel
e depois dizer-te: Vês, eu não sei nada. Ou então:
Que queres de mim? Ou (por que não?): Amo-te.

Não podia mudar o coração da terra
nem a esperança fechada nas mãos dos homens
quando sofrem.

Licínia Quitério, 2010

20.10.19

NOVO LIVRO


11.10.19

O LAGO



Havia terra e árvores, em redor do lago.
Havia rãs e cágados e cobras de água, dentro do lago.
O lago tremia inquieto pelos seus bichos.
Vinham de terra outros bichos beber água no lago.
Havia homens e mulheres que vinham olhar o lago, só olhar.
Despediam-se felizes, até um dia, lago.
Chora o lago com lágrimas terra adentro.
Ninguém sabe para onde foram os bichos do lago.
Ninguém sabe para onde foi a água do lago
que agora não é mais que o desenho do lago.
As árvores em volta estão tristes. Esperam que a água
volte e com ela os bichos do lago e os outros que vêm de terra
e os homens e as mulheres que olham o lago, só olham,
e se despedem, até um dia, lago.

Foto de Fátima Casals

27.9.19

POENTE


Mar e céu entendem-se, confundem-se,
incendeiam-se.
Há um barco parado ou a sombra dele.
Em contra-luz, em frente à luz, a casa espera.
Doem-lhe as traves nos gritos das gaivotas.
De oiro e de sangue as palavras perdidas
nos cais de anoitecer.
Salgados os olhos das mulheres.
Escurece.

Licínia Quitério

25.9.19

AUSÊNCIA





Difícil titular o que não é
senão a leveza do fumo a custo percebido.
A macieza numa mão fechada,
o esboço de sorriso, só o esboço,
a promessa de abraço que não passou
de um parêntesis recto em demasia,
o beijo numa pressa a descolar da pista,
o banco da reforma com a tinta a estalar e
um abutre, ou um anjo, lá no alto
a espreitar.
O táxi que nos pega nas horas de dormir
e, no fim da corrida, um deus branco a acenar.
O café, a morfina do social correcto,
com cheiro a roças e a negros de cetim.
A mulher que lamenta não ser capaz de rir ou
o louco em gargalhadas com vidros no olhar.
O falar por falar -
rosário de palavras ou contas por contar.
A ausência, pois, a ausência.

Licínia Quitério, em Da Memória dos Sentidos

23.9.19

OUTONO


Chegou de mansinho. Era um gatinho
amarelo de veludo antigo, a cauda em esse
a roçar as ervas distraidamente. A janela
aberta disse-lhe bom-dia, estás de volta,
amigo. Ele respondeu com um sorriso
humano de mistério. Souberam as aves
que à palavra chegada haviam de partir
e desdobraram asas. As mulheres
de viagens, os homens de viagens, leram
novidade nos ares e persignaram-se.
Uma criança chorou com um pequenino
medo a atravessar as lágrimas. Um velho
arriscou, serás o último. O gatinho amarelo
mirou as folhas do plátano na beira
do caminho. Disse, o meu trabalho começou.
Alguém em voz macia pronunciou o seu nome
e o escreveu na areia húmida da praia.

Licínia Quitério

17.8.19

DIGO


Digo
palavras pequeninas:
mãe, pai, mar.
Convocam-me, engrandecem-me
abraçam-me.
Palavras inteiras:
país, guerra, deserto.
Situam-me, olham-me
provocam-me.
Palavras adultas:
mulher, homem, solidão.
Dizem-me, limitam-me
atraem-me.
Palavras desprezíveis:
inveja, ignorância, calúnia.
Diminuem-me, ferem-me
sufocam-me.
Palavras amáveis:
amigo, beleza, dádiva.
Confortam-me, alimentam-me
melhoram-me.

Amor não digo
porque breve
porque esquivo.

Licínia Quitério
   

2.8.19

CRESCER



Os meninos crescem-nos do coração. 
São gomos frescos de vida. 
Os meninos têm o choro igual ao riso, 
igual ao canto. 
Só param quando a fada da noite os adormece 
nas almofadinhas do sono. 
Olhamos os meninos e nada entendemos 
do mistério de crescer. 
Habitamos com eles a inteireza do tempo.

Licínia Quitério

14.7.19

CHEGAMOS



Chegamos ficamos estamos
só nós e a paisagem.
Há-de haver uma hora
de saber o segredo
da respiração à nossa volta.
Um arfar de gigante,
um suspiro de riacho.
Tudo sem nome e sem tempo.
Só nós e a nossa ignorância
e o desejo de conhecer
o coração da terra
que pulsa dentro do peito
e às vezes diz ave
e às vezes diz criança
e às vezes cala
e a dor avança.

Licínia Quitério

7.7.19

O BARCO



Chegou a idade de veres partir os outros, os mais velhos. 
Estás agora na linha da frente, paciente, a deitar contas.
Percebes que a ordem dos números endoideceu.
Muitos dos que chegaram depois de ti já estão além fronteira.
Sentes-te uma ilha a flutuar num mar de gente
que não avisou, não se despediu, não esperou por ti. 
Ficas a aguardar um certo barco, que não desejas, 
que se tem demorado em erradas travessias, dizes, 
mas afinal és tu que não sabes contar.

Licínia Quitério

2.7.19

8.6.19


30.4.19

O FORTE


No tempo de seres forte não havia 
cavalo que não domasses, 
corrida que não vencesses, 
mulher que te rejeitasse,
mar que te amedrontasse. 
Eras senhor do mundo, 
que outro mundo não havia
para lá da tua respiração, 
da força das tuas mãos, 
da cidade que dizias tua.
Rias-te da tibieza, 
tu eras a audácia.
Não choravas os mortos, 
tu eras a vida.
Para vencedor tinhas nascido,
os vencidos não eram culpa tua.
Acreditavas na eternidade
quando diziam que te amavam. 
Escolheste uma mulher
para ser tua até à morte.
Fizeste filhos a perpetuarem
a tua beleza, a tua força.
Prosseguias invicto e confiante.
Quando teu filho partiu 
não ficou pedra sobre pedra,
nem muralha, nem muro,
nem ruína.
Apenas o teu corpo de guerreiro
vencido e enfraquecido.
O terramoto destruiu a cidade
que julgavas tua.
No tempo de seres fraco
sabes que toda a força se consome,
toda a vida se esvai e
o tempo é breve para a vida de um poema.

Licínia Quitério

26.4.19

DE AMORE



Tenho o vício dos teus olhos
das tuas mãos em tremura
da tua boca de seda
escaldante como o carvão
na minha lareira acesa.
Da tua voz registada
no meu ouvido profundo.
Tenho o vício de te ver
em memórias de veludo
nas sementes espalhadas
pelas flores que não cuidei.
Tenho o vício de sentir
as dores que não rejeitei.
Tenho o vício de cheirar
campos  que não cultivei.
Tenho o vício de voltar
a caminhos que não pisei.
Tenho o vício de me rir
do choro que já chorei
e o vício da solidão
que me envolva de lembranças
das andanças que vivi.
Tenho o vício de escutar
segredos que me contaram
e aqueles que não contei.
Mais do que toda a virtude
é água pura a correr
na encosta do meu peito
o vício de te querer.


Licínia Quitério, 2006

31.3.19

QUE SEJA



Preciso de um assombro, de algo que apazigue a intermitência das sombras, que desalinhe as paralelas infinitas, que transtorne a monotonia dos calendários, que arrase e desfaça e refaça e recrie, sem explicação, sem teorema, sem axioma, que não responda nem pergunte, que não brilhe nem se apague, que seja a ponta da espada e a bainha e a força do punho e não fira nem salve, não inunde nem seque, que tenha a voz e a mudez que nos nasce e nos mata. Que seja.

Licínia Quitério

19.3.19

O TEMPORAL



 



Podes ficar tranquilo.
O temporal passou.
O telhado furou
e a chuva pingou
sobre a dor do meu ombro.
O pouco que dormi
foi sempre em faz de conta,
não fosse a ventania
levantar o colchão
onde se escondia
das mágoas o cordão.
A parede rachou,
mas foi bom porque eu pude
ver um céu que foi meu,
em forma de crescente.
Recusei aceitar a hora do poente
e fiz bem, porque assim
nunca tive o punhal
do dia no final
a remexer a ferida
a esfacelar a pomba,
guardada no meu peito.
Depois, foi só esperar
que o temporal se fosse,
já farto de afrontar-me
da pele até ao osso.

Podes ficar tranquilo.
O temporal já foi.
Eu sei que outros virão,
em formas de tufão,
de lágrimas, cansaços,
mas eu aperto os braços
e seguro os pedaços
que sobraram de mim.
Semicerrando os olhos,
liberto a dor dos ombros,.
Compro um colchão de espuma
de sabão, do melhor.
Depois lá vou soprando
enquanto tiver força
e as bolas vão subindo,
de mil cores tingindo
o fio dos meus cabelos.

Podes ficar tranquilo.
Mais nenhum temporal
me pode causar mal.
Uma coisa te peço:
se entenderes que mereço,
embrulha com cuidado,
num pano de brocado,
meus desejos de corça
que um dia galopou
e na praia, ao nascente,
agita-o com firmeza
até teres a certeza
de que nada lá dentro
escondido ficou.


Licínia Quitério, 2001

6.3.19

RUAS


Gosto de ruas que vão dar ao mar.
Ruas que cheiram a sal, a barcos.
Ruas de homens e mulheres de muitas fainas,
de muitas falas, cantadas, onduladas
de marés várias. 
Em todo o mundo há ruas assim, 
com o mar ao fundo, a espreitar, 
a acenar, vem comigo marear.
As ruas sorriem e coram, 
mas não vão. 
Ficam em terra a acoitar 
as mulheres, os homens, a escutar 
suas histórias de pasmar.

Licínia Quitério

12.2.19

SIM


Os livros, sim. 
A escola, sim.
E a pele, e o ouvido, e o cheiro, e o olhar, e o paladar, sim, sim.
Olhar quem passa, ouvir o amigo e o inimigo, cheirar o pão, o ferro, o suor, o vinho, a maresia, sentir o frio, o calor, a macieza da pele, do pelo, sentir o corte, o empurrão, a dor, o aperto, o abraço, saber o amargo até ao fel, o doce até ao mel.
Se o tempo chegar, estudar a filosofia dos gatos, das magnólias, do xisto, dos velhos sábios, dos velhos ignorantes, da lua nova e da orion.
Depois dormir, com um livro inacabado sobre peito.


Licínia Quitério

31.1.19

SÍTIOS


Não têm cor os sítios
onde me detenho
e alongo memórias
alheias
que já nem sei
se são as minhas

Assim nos dias
serenos
da ausência do vento

Sítios onde soam vozes
antigas
de arestas ainda vivas
mas já inofensivas
recolhidas
no desvão dos anos

Licínia Quitério

1.1.19

2019



Mais um ano
tantos anos
os que passaram por mim
a apontarem o caminho
que eu nem sempre segui
mas nunca me arrependi
que o caminho somos nós
nossos o corpo e a vontade
nosso é tudo o que colhemos
seja bondade ou maldade
Inteiros vamos seguindo
as dores e os amores cruzando
com as canções que cantamos
com os versos que escrevemos
com os amigos que alcançamos
com os amigos que perdemos
Mais um ano
muitos anos
deste mundo em desvario
de gente à míngua de pão
de velho a morrer de frio
de fogo no arvoredo
de gente de arma na mão
de gente à beira do medo
Muitos anos hão-de vir
sem que eu os possa contar
Meu caminho foi somar
por vezes diminuir
e outras multiplicar
para poder dividir
sabendo que o resultado
desta vida desta escrita
depois de bem apurado
é uma dízima infinita

BOM ANO 2019!

Licínia Quitério

31.12.18

SE EU FOSSE


Se eu fosse lago
dizia-te dos peixes
que são ondulação e escama
e não fecham os olhos
nem na morte

Se eu fosse pedra
contava-te o desejo
de ser a curva do bambu
no abraço do vento
na sedução da água

Se eu fosse um ramo de salgueiro
ensinava-te o choro do corpo
no ardor da viagem

Se eu fosse o ar
dava-te a voz 

e o silêncio 
e as asas da partida

Licínia Quitério

22.12.18

PAZ

.

É minha a paz das mãos que alimentam 
dessedentam curam afagam 
afastam do precipício 
ajudam na subida iluminam,
a paz dos olhos atentos 
olhos-guia olhos-companhia 
olhos-livro de memória,
a das bocas falantes sussurrantes 
bocas-corola bocas-enseada 
bocas-silêncio-e-música.
Dos corpos nada digo.
Deles me esqueço me ausento 
corpo-apenas-onda-apenas-prado.
Há uma paz só minha: 
a dos telhados brancos onde um anjo se alonga.

Licínia Quitério

11.12.18

UMA ROSA




Uma rosa é uma rosa

A rosa nasce
onde a dor se apresenta
se afinca a morder a roer
a rasgar o tecido
a amarelar o sangue
a corromper o nervo
No coração da ferida
nasce a rosa
É um sorriso no matagal
uma maçã no escombro
Nasce de noite
sobre a erva má
Quando amanhece
e o corpo aquece
a rosa cresce
a rosa dança
ao derredor da chaga
e a perfuma
e a enlaça
e o corpo esquece
a fundura do poço
o tremor o fervor
da pele até ao osso
Ora sim ora não
o corpo avança
Rosa rosae
é uma declinação
é uma oração
a desviar a lança

Licínia Quitério

6.12.18

AS ESPERAS


É a hora de preparar o deserto para a noite longa, 
de falar baixo ou calar, 
de recolher as roupas, 
de desligar os motores, 
de convocar o silêncio do peito, 
de procurar sentido para as mãos, 
de juntar palavras de dia com palavras de noite
e escrever a louca saudade da maré alta, 
dos pinheiros altos, 
da janela alta das esperas.

Licínia Quitério

30.11.18

A AUSÊNCIA


É preciso partir. 
Amarrar viagens ao bordão de saudades 
que bem cedo florescem.
Fechar as asas da insânia

a pairar sobre os leitos.
Nas mesas espalhar o mel 
para que voltem as abelhas.
Visitar as aldeias da infância 
que tão mal conhecemos. 
Nunca retroceder, antes correr
ao encontro das vozes dos ausentes.
Fugir dos precipícios que sorriem,
dos cães danados,
do voo das harpias,
da boca de lava dos tiranos.
Decifrar a escrita do vento
nos livros das florestas.
Nunca dormir antes do ocaso.
Nunca dormir depois do ocaso.
A viagem não se faz de noite nem de dia.
A viagem navega em nossas veias
onde não há luz nem escuridão.
Quando partimos começamos
a construir a nossa ausência.
Também se pode dizer a eternidade.

Licínia Quitério

21.11.18

UM PAÍS



Há um país onde tudo arde
menos a boca das mulheres
onde a água se demora
e os olhos dos homens
onde a água escorre
É um país onde tudo seca
e treme
e desmorona
Só a água se demora na boca das mulheres
à espera de ser leite
e ser criança
Só dos olhos dos homens escorre a água
que vai ser lago
e afogar a cinza
Há um país à beira do abismo
Há uma mulher a contar as ovelhas
Há um homem a juntar as sementes
Nenhum deles quer saber o nome do país


Licínia Quitério

6.11.18

OS PEIXES



Contra o tempo nascidos
a terra os cria,
a guerra os mata, a guerra
a fome os mata, a fome
o medo os mata, o medo

Eis os sobrevivos, os andantes
os foragidos da tragédia
os do sangue fervente
por beberem as dunas
como se fossem água
por comerem as pedras
como se frutos fossem

Sonham com barcos
por não haver cavalos no deserto

O mar os chama
o mar os leva
o mar os traga

Alcançarão a frieza dos peixes
o seu bailado
a sua morte breve
líquida

Licínia Quitério

20.9.18

NOVO LIVRO


17.9.18

OBJECTOS


A tranquilidade dos objectos, 
o seu silêncio 
ajudam-me, 
acrescentam-me. 
Partilhamos histórias, segredos.
Eu sou, eles estão.
Usamos o mesmo canto de mundo,
a liquidez da noite.
Por sorte, eles não têm coração.

Licínia Quitério

14.9.18

RITMO



O gato dorme as suas horas de gato.
Os peixes ensaiam acrobacias.
As plantas crescem ao ritmo do silêncio.
Ventos furiosos massacram povos
longe do gato que dorme, dos peixes acrobatas,
do crescimento das plantas.
Eu espero ventos novos, sensatos.

Licínia Quitério

arquivo

 
Site Meter