14.6.18

MENINOS



Meninos
Na deriva dos ventos
Perdida a terra e a mãe
No grande mar balançam
Em frágeis fingidos barcos
Novas faluas sem barqueiro
Só frio só medo só sede
Quem os resgata
Quem os ampara
Na noite dos fantasmas
Quem lhes chama filhos
Quem lhes dá um nome
Quem lhes abre o porto
Quem

Licínia Quitério

10.6.18

COISAS RARAS




Estava no fundo do rio.
Era uma pedra, um segredo?
Só eu sei que senti frio.
Era Verão e tive medo

que a pedra me seduzisse,
que o segredo me tentasse,
que o sorriso me fugisse,
que a tua voz me escapasse.

Guardei o rio na memória
das coisas raras que achei.
Assim se conta uma história
de pontes que atravessei.

Licínia Quitério

9.6.18

CONVITE

http://www.centesima.com/content.asp?startAt=4&categoryID=15&newsID=859

Na Livraria Centésima Página, em Braga, no dia 22 de Junho, pelas 18h30m,

com os meus livros e as caligrafias de Ariana Andrade.

Apresentação de Virgínia do Carmo, da Poética Edições.

Apareçam.


Licínia


6.6.18



5.6.18

VOLTAR


Voltamos aos lugares onde passámos
de mão dada com a pequena idade.
Foi a rua que estreitou
ou os nossos braços se alongaram
em busca de outras ruas outros sóis.
Era uma terra amável de bons dias boas tardes
então por cá menina.
As tias velhas eram mais novas do que eu
agora sou. 
O tio levava-me ao castelo. 
O braço dele a apontar
vês lá em baixo o rio.
Hoje não sei ao certo como chegar
ao rio nem isso é importante
depois de tantos rios ter passado
e nem sequer dos nomes me lembrar.
Gostei de ver as andorinhas
iguaizinhas às que rasavam a janela.
Juro que ouvi a voz da tia
anda para dentro está a arrefecer.
Puxei para cima a gola do casaco
caminhei sem do calor me aperceber.

Licínia Quitério

16.5.18

A SEDE


Nasceram há muito
inda o país era um desejo
de terras férteis águas mornas
onde pousar a espada e acasalar


Guerrearam os que chegavam


Não sabiam que partilhada

a terra cresce  e alimenta
a água brota e dessedenta

Deuses com deuses nunca se entenderam


Os homens com eles aprenderam
a vigiar dos altos quem se atreve
a cruzar o caminho da abundância

a cobiçar mulheres do outro dono

Pedra sobre pedra subiram torres
muralhas a proteger as torres
fortes e fortins e revelins

A cidade cresceu encarcerada
nas pedras do seu medo
até que os homens se atreveram
ao campo aberto e livre
na paz da vizinhança

Hoje passeiam o olhar 
pela inutilidade dos castelos

A água brota lá dos fundos
benfazeja e morna

Nos homens adivinha a persistência
da sede de outros muros

Licínia Quitério

8.5.18

TRAVESSIA


A noite em terra alheia é promessa 

de conforto e resguardo,
de novos convivas em redor da mesa,
em redor da afinação das vozes,
solitárias ainda e logo mais soando
em tímidos duetos
até que a embriaguez aquém do vinho
aclare e aqueça e a palavra se faça
caminho e destino da viagem.

Lá fora estão as árvores pujantes
e as fontes quentes e o rio manso
com os  peixes prateados.
Tudo contido em seus limites
como se falássemos de quadro 
concebido e pintado por um monge
na média luz do claustro.

Se a promessa se cumpre eu já não sei.
Sei das luzes que se acendem na rua,
da renda de sombras nos vidros da janela,
do rumor da água do rio sob as pontes.
Só me falta saber quando farei a travessia.

Licínia Quitério

1.5.18

A DOR DO RIO


O homem não sabia a fundura do colo
Pensou na mãe
Disse estou aqui vou-me deitar estou cansado
Disse acorda-me amanhã devagarinho
Foi abaixo e voltou
e voltou e voltou
O rio estremeceu
Do suspiro do homem nasceu um remoinho
Depois tudo ficou sereno e limpo
Um corpo deitado na corrente
A gente sabe lá a dor de um rio
quando se afoga um homem

Licínia Quitério

24.4.18

TAIS-TOI

Tais-toi, poète,
tu sais, la guerre
est avare de tes mots.
Garde-les,
garde-les bien,
abimés dans ton coeur.
Personne ne saura
pourquoi tu deviendras
un poète muet.
On dira
que ta vie est gachée.
Calme-toi, poète,
tu sais, la guerre
s’achèvera sans te prendre tes mots
si bien gardés
au fond de tes sanglots
au bout de ton silence.
Écoute-moi, poète,
attend!
Le temps arrivera
pour tes mots,
pour ta voix
pour ton chant libéré,
encore plus haut,
en demandant le tout,
l’immensité.


Licínia Quitério

21.4.18

O BINÓMIO


Quem sabe um dia a vida tenha sido
a duas cores
duas

das que se guardam no arco-íris

A luz do dia verde
verde
da mãe das flores e das sementes

A luz da noite azul
azul
do céu da tempestade e da bonança

Se foi assim
com as duas cores 

os homens refizeram o mundo

Deitaram-se à tarefa de
escolher
separar
multiplicar
combinar
recompor
inventar

desesperar
descansar
desistir

Foi num abrir e fechar de olhos
que tudo se desdobrou
do vermelho ao violeta
em mil e um degraus
que vemos e não vemos
pois reclusos ficámos
entre o sim e o não
o negrume e a alvura
a candura e o nojo
o excesso e o defeito

A tantas cores o mundo
e homens que vêem branco
e homens que vêem negro

num binómio incolor de suicidas

Licínia Quitério

8.4.18

LULA



Vem dos países da terra e do metal.
Em seu redor os muitos filhos
roubados à fome e à nudez
gritam o seu nome
de consoantes doces
vogais quase fechadas.
É um Homem vestido de luta
a contar a história dos seus passos
a história dos seus sonhos
iguais aos sonhos de todos os meninos
perdido o medo do papão.
É um Homem com uma ideia.
É um Homem com um sonho.
Um Homem livre
encarcerado e livre.
É uma ideia em movimento.
É um sonho inacabado.
É um Homem.


Licínia Quitério

imagem da net

2.4.18

OS MUROS VELHOS



Os muros velhos dão guarida
a ousadias vegetais
formosos atavios
de rendas e recortes
a lembrarem vestidos
de pequenas bonecas
nos pequenos colos
das pequenas meninas

com grandes olhos
de encantar

Nos muros velhos acoitam-se
pequenos animais
contorcionistas
malabaristas
da cal e do granito
velozes frios fugindo
à astúcia predadora 
dos famintos

É bom atentar nos velhos muros
e nos seus  habitantes
vegetais e animais
a cumprirem a vida e os seus ciclos
a respeitarem o Sol e a sua lei
a esperarem a chuva
a suportarem a seca

Estes muros velhos
pacientes
resistentes
guardadores de seus bichos
suas ervas
sabem que vão desmoronar
no dia em que chegar
o cavalo negro à rédea solta
nas ancas fumegante
a marca do ferro do mandante

Era uma vez um muro velho
e os seus vegetais
e os seus animais

Começa assim a nova história
Do cavalo negro nenhuma história se escreveu
 
Licínia Quitério

16.3.18

UM LUGAR


Um lugar onde pousar a cabeça
macio e complacente
confidente 

Um lugar exactamente verde
a dizer relva musgo mar
olhar antigo e remoçado

Um lugar redondo como um ombro

Um lugar musical como 
o grande silêncio das pedras 
do deserto

Lugar fêmea e lugar macho
mãe e filho
amor e amigo

Um intervalo 
um quarto na penumbra
um lugar onde

Licínia Quitério

14.3.18

PERSPECTIVA


A montanha tem exactamente a altura do vidro da minha janela.

Se esticar o pescoço, a montanha sobe até ao beiral do alpendre.
Um pardal que sai do cipreste  é do tamanho das casas no sopé da montanha.
Talvez traga o papo cheio de debicar os frutos do cipreste.
Os frutos ficam rente ao sopé da montanha que fica rente ao caixilho inferior da minha janela.
Há uma mosca no vidro da janela que é do tamanho dos frutos do cipreste que é mais alto do que a montanha e do que o vidro da janela que, se eu esticar o pescoço, é mais alto do que o beiral do alpendre.
O meu tamanho também não é senão uma questão de perspectiva.

Licínia Quitério

28.2.18

O OIRO

 


se eu tivesse a idade das montanhas
e a sensatez das aves em viagem
eu seria capaz de construir
por minhas mãos a casa a mesa 
a toalha o arado
de inventar as palavras que não ferem 
nem sobram
de transmutar em pão o pó das derrocadas
de aprender e ensinar ao mesmo tempo 
e sempre
seria até capaz de devolver ao marinheiro
o mar
o peixe ao pescador
ao camponês a terra

mas pensando melhor
à minha sorte só faltava o oiro
para eu poder comprar
o mar a terra o ar
e mais ainda
a morte

Licínia Quitério 

20.2.18

INTIMIDADES


Recordo hoje as horas em que líamos
sentados nos sofás da sala
todos desiguais
um era grande e escarlate
o outro era branco e outro ainda mais pequeno
tinha por cima uma manta de quadrados.
Líamos e de vez em quando falávamos do que líamos.
Raramente estávamos de acordo
como convinha à diferença que cultivávamos
com primores de jardineiro.
Recordo bem a tarde em que lias
relias
um livro sobre trigonometria
em búlgaro
tenho a certeza
a língua em que chegaste a sonhar.
Eu teimava em terminar um poema sobre o Pont-Neuf
que não leste.
Dessa tarde não recordo mais nada.
Talvez tu tenhas adormecido no sofá branco
e eu me tenha embrulhado na manta de quadrados.

Afinal era Fevereiro e fazia frio.

Licínia Quitério

12.2.18

A OUTRA



Fui outra que passou e outra e outra e tantas.
De todas me perdi. 
Continuei. Os olhos deslumbrados de sol. 
As sombras essas as apaguei ou as bebi 
já não sei. 
Os dias houve de cantares e amores amigos.
E os outros de resistir e subir pelas cordas 
e chegar ao cume e perceber um pouco mais. 
Sou a de agora a que principiou o livro e o vai escrevendo.
Difícil é construir o fim da história 
a de todos os nomes todos os retratos.

Licínia Quitério

6.2.18

ANDARILHOS


São vultos contra a luz.
Têm dentro pessoas que vagueiam
em direcção ao outro lado
sempre ao outro lado
do muro do bosque da praia
do nada que às vezes dizem vida
sem grandes certezas a não ser
a da criança que transportam
e se atreve a rir e a chorar
e as ajuda a correr e a saltar
contra a distância contra a altura.
São andarilhos vagabundos
viajeiros aventureiros inquietos
da partida ansiosos da chegada.
Têm pressa. Já beberam muitos rios
saborearam cidades países continentes.
Provam o vinho o pão a fruta.
Em várias línguas se apresentam
se despedem. São músicos
do vento e do deserto. São poetas
do amor da liberdade. Construtores
de construções inacabadas.
Caminham em direcção à luz
inda que seja noite. Amam demais.

Licínia Quitério

28.1.18

EU SEI LÁ


O Sol entra na casa e faz-se cor e faz-se flor.
Instante de alegria na saudação do dia.
Anima-te. Se não sabes cantar
compõe silaba a sílaba
pequeninas palavras de rimar.
Podes dizer verdura
depois juntas tremura
ou ternura
ou doçura.
Amargura não serve
podes apagar.
Tudo isto é brincar
saltar à corda
um dó li tá
quem está preso preso está.
Nasceu o dia assim
ou fui eu que inventei
o sol a casa a flor
e apaguei
a dor e o deserto
e a tristeza das aves
e o verso inacabado
e o poema falhado.
Sei lá eu que farei
sei lá eu que direi
sei lá eu quem virá
depois de mim rimar.
Eu sei lá.

Licínia Quitério

23.1.18

VAI, MEU CORAÇÃO


Vai meu coração
não te demores
na imensidão

não te esqueças de mim
que fui a tua casa
o antes e o durante
o tempo da viagem

se muros te barrarem 
o caminho
salta coração
solta o grito e a asa

ao largo encontrarás
no chão tombada
uma ave nocturna
exausta magoada

levanta-a coração
leva-a contigo
veste-a com o meu nome
até que chegue a noite

solta-a depois 
no cimo da colina
ensina-lhe o caminho
do meu peito

nele achará o ninho
o calor a guarida
de aves enfrioradas
desamadas perdidas

Licínia Quitério

13.1.18

À PROCURA


Vamos à procura
do grande mar
do sol e da quentura
Saborear
o sal e a lonjura
Aconchegar
um fio de ternura
Rememorar
dos homens a bravura
num barco a baloiçar
nos olhos a aventura
Vamos continuar
à procura
à procura

Licínia Quitério

Nota: resposta ao desafio em https://outrostemas.blogspot.com

5.1.18

UNIVERSO



A frase limpa, a palavra justa,
a música escorrente. 
Um fio de verdade, uma concha de vento,
um aperto no peito. 

Pode ser um poema, pode ser um anúncio,
pode ser uma pena. 

Uma estrela nascente ou uma estrela morrente. 
Um universo em vez do coração.

Licínia Quitério

3.1.18

O POETA


Quando um poeta fala de árvores, 
de pássaros, de rios, de vida, 
o que menos importa é a língua em que o faz. 
Sempre há-de haver quem o entenda, 
alguém que cresça como árvore, 
cante como pássaro, corra como rio,
e viva.


Licínia Quitério

1.1.18

OS FRUTOS


Guardado o Sol das outras estações,
no amarelo oiro se agigantam
os frutos do Inverno.
De seivas e doçura se fizeram as águas
que do seu corpo escorrem
para bocas sedentas 
de alívio, de frescura.
Dos homens sabem segredos
que à noite a
 terra lhes contou.
É o que deles faz frutos amargos
nos dias em que a paz em guerra se tornou.

Licínia Quitério

27.12.17

ERA QUASE DE NOITE


Era quase de noite quase dia
era tarde e era cedo para chegar.
Em nós o vendaval e a calmaria

à nossa frente glorioso o mar

a provocar desejos de aventura.
Partir à descoberta de outras ilhas
num veleiro carregado de ternura
desvendar tesouros e maravilhas.

Era quase de noite e não chegámos
à terra prometida ao fruto apetecido
mas nas pedras do cais onde aportámos

havia gente de coração erguido
a aguardar a esperança que levámos
de um homem novo das trevas renascido.


Licínia Quitério

18.12.17

A INFÂNCIA





Havia tempo, todo o tempo
de viver a infância.
Havia caminhos longos
para percorrer a infância.
Havia uma pressa de chegar
ao fim da infância
para ficar do tamanho das pessoas
que já tinham perdido a infância.
A aspereza do saibro dos caminhos
ficou guardada nos joelhos da infância.
A bicicleta ajudou a encurtar
a estrada da infância.
As uvas amadureciam e perfumavam
os sabores da infância.

É preciso crescer, envelhecer, para poder contar
o que nunca aconteceu na infância.

Licínia Quitério

foto cedida por José Alfredo Almeida

13.12.17

NATAL

Meninos atiram pedras, meninos disparam balas.
Esta terra é minha, esta terra não é tua.
Como foi que tudo começou?
Como vai isto acabar?
Nunca, dizem os oráculos.
Vão-se matando, os meninos.
Tombam na terra de ninguém.
É Natal.

Licínia Quitério

7.12.17

UM DIA


Um  dia é um dia. O desencanto ou a euforia. O espanto ou a decepção. A vontade de ir ou de ficar. De abraçar ou de expulsar. A paixão ou a repulsa, o empenho ou a indiferença. A vontade de chuva ou de deserto, a acalmia ou o desassossego. Num dia nascem estrelas e arrefecem planetas. Num dia há pó de oiro e água de fruto, e poetas, e santos, e assassinos, e cobardes. Um dia é sempre inteiro, único, novo. Será lembrado ou esquecido, temido ou louvado. Todos os dias são de vida e de morte, de sombra e de luz, de explodir universos, de quebrar vidraças, de ser a galáxia e o fotão. Todos os dias podem ser do amor fúnebre da louva-a-deus e do amor de Orfeu recuperando Eurídice. Podem ser ou não os nossos dias.

Licínia Quitério

1.12.17

QUASE NADA


Não há como inverter esta jornada.
O que passou passou, o que doeu doeu.
De amor e desamor as pontas desatei

De guerra e paz quase nada aprendi.
De tudo o que vivi tão pouco sei
De todos os que amei uma flor recolhi
para agora oferecer a quem passar
pelo banco onde me sento onde me sinto
um quase tudo um quase nada.

Licínia Quitério

22.11.17

A PRESSA


Andamos apressados na colheita dos dias
não vá o sol queimar a pele dos frutos
a chuva magoar o verde-esperança
o vento derrubar as flores da macieira.
Temos medo de chegar tarde ao tempo da fartura
porque de fome nos contaram velhos homens
de muitas viagens muitos livros
mulheres poucas dispostas ao amor.
Vamos cabisbaixos cães de dono sem coleira nem trela
amarrados à cantata da fama e à luz do pote de oiro.
Chegaremos ou não a colher as virtudes e as glórias.
Assim curvados não veremos uma janela que nos chama
a alegria de uma flor de inverno.
Temos pressa.
Outra estação virá de repararmos nestas e noutras bagatelas.
Será o tempo da flor desmaiada da janela fechada.
Da rua nem se fala que o nome lhe perdemos
para sempre.

Licínia Quitério

14.11.17

ENTARDECER


As casas  vestem o ocre da tarde.
O velho plátano desenha-se na parede em frente.
É a hora de rever amigos que descem a rua.
O Sol derrama-se oblíquo a afinar a geometria das sombras.
Silenciosas as casas aguardam o regresso dos homens, das mulheres.
Algumas ficam vazias porque os donos partiram para outros lugares.
A mornidão do ar abafa as vozes dos transeuntes.
Passa um rapaz e o seu cão.
Passo eu também.
Entro em casa.
Nos meus olhos apaga-se a luz da rua.
É de tarde e anoiteço.

Licínia Quitério

10.11.17

BAIXAR A GUARDA


Um dia hei-de baixar a guarda
Expor o rosto e o corpo às balas
Gritar eis o banquete
A mesa posta é vossa

Assim pensava eu nos anos de rimar
Ternura com bravura
De avançar sobre escarpas
E abençoar  o tojo
De ver partir os barcos
Carregados de homens
E de os ver chegar
Carregados de raiva
E de outros homens

O rosto e o corpo gastos
A guarda toda em baixo
Os restos do banquete
Aqui os tendes

Assim eu digo nos anos de rimar
Sorrir com resistir
De avançar indiferente
Ao espinho e ao abismo

Os barcos já não partem
Ficam presos na linha
Do horizonte
Os homens vão ao mar
E às vezes voltam
E são peixes carregados de sal

Licínia Quitério

29.10.17

O BICHO DA TERRA



Ardem, queimam, iluminam.
Transportam archotes a apagar a noite.
Gritam a afugentar as sombras.
São meninos de oiro.
Cantam a convocar segredos
Que as altas aves guardam.
Dançam rente às ervas.
São meninas e têm nomes de flores.
Guardam o medo em velhos cofres e avançam.
Conhecem todos os países
E em nenhum se detêm.
São os viajantes do tempo.
Homens nascidos de mulheres.
Homens amantes de mulheres.
Homens amantes de outros homens.
Iguais na hora de chegar,
Na hora de partir.
Iguais no desespero e na esperança.
Poderosos. Cruéis. Solitários.
São deuses e habitam ilhas e desertos.
Inventam, constroem, destroem
E nada acabam.
Compram e vendem as terras e os corpos.
Beijam e são o mel.
Mordem e são o sangue.
São a palavra, a plateia, o palco.
São a mãe, a casa, o corredor dos ventos,
A força da levada.
São os filhos do Sol.
São o bicho da Terra.

Licínia Quitério

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