30.4.19

O FORTE


No tempo de seres forte não havia 
cavalo que não domasses, 
corrida que não vencesses, 
mulher que te rejeitasse,
mar que te amedrontasse. 
Eras senhor do mundo, 
que outro mundo não havia
para lá da tua respiração, 
da força das tuas mãos, 
da cidade que dizias tua.
Rias-te da tibieza, 
tu eras a audácia.
Não choravas os mortos, 
tu eras a vida.
Para vencedor tinhas nascido,
os vencidos não eram culpa tua.
Acreditavas na eternidade
quando diziam que te amavam. 
Escolheste uma mulher
para ser tua até à morte.
Fizeste filhos a perpetuarem
a tua beleza, a tua força.
Prosseguias invicto e confiante.
Quando teu filho partiu 
não ficou pedra sobre pedra,
nem muralha, nem muro,
nem ruína.
Apenas o teu corpo de guerreiro
vencido e enfraquecido.
O terramoto destruiu a cidade
que julgavas tua.
No tempo de seres fraco
sabes que toda a força se consome,
toda a vida se esvai e
o tempo é breve para a vida de um poema.

Licínia Quitério

26.4.19

DE AMORE



Tenho o vício dos teus olhos
das tuas mãos em tremura
da tua boca de seda
escaldante como o carvão
na minha lareira acesa.
Da tua voz registada
no meu ouvido profundo.
Tenho o vício de te ver
em memórias de veludo
nas sementes espalhadas
pelas flores que não cuidei.
Tenho o vício de sentir
as dores que não rejeitei.
Tenho o vício de cheirar
campos  que não cultivei.
Tenho o vício de voltar
a caminhos que não pisei.
Tenho o vício de me rir
do choro que já chorei
e o vício da solidão
que me envolva de lembranças
das andanças que vivi.
Tenho o vício de escutar
segredos que me contaram
e aqueles que não contei.
Mais do que toda a virtude
é água pura a correr
o vício de te querer
sabendo que te não tenho.

Licínia Quitério, 2006

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