1.10.17

AS PALAVRAS



De gritos, de suspiros, de músicas,
de danças, de pinturas,
de tudo e nada se nutrem
as palavras.
Pedem abrigo no nosso ouvido interno.
Se as acolhemos, deslizam pela garganta,
procuram lá no fundo o coração.
São bandeiras de lume e o peito arde.
Desistem ou vão até ao lar da boca.
Retomam o fio da viagem.
Tornam-se  passo de baile, corda de guitarra.
Quando se soltam, são o gume ou a carícia,
a paz ou a batalha.
Às vezes são a morte, às vezes liberdade.
Se a sorte as acolher, serão a carne do poema.

Licínia Quitério

29.9.17

BALADA DA PORTA FECHADA


É a porta fechada
Dessa casa assombrada
No dizer das mulheres
Ligeiras no andar
E o vento a sussurrar
Vai chegar vai chegar
O tempo de arrombar
Essa porta fechada
Dessa casa assombrada
E a mulher a pensar
É comigo é comigo
Que ele está a falar
Amanhã vou voltar
Rente à casa passar
O meu ombro encostar
À ombreira da porta
Baixinho perguntar
Quem foi que te assombrou
Quem foi que te fechou
E a casa a responder
Alguém que não gostou
Da luz que em mim brilhou
E esta porta fechou
E sobre mim espalhou
Este manto de sombra
E as mulheres afastou
E os homens afastou
E o medo semeou
E desde então ninguém
Junto de mim passou
Nem sequer reparou
Que a luz não se apagou
E às vezes é luar
E às vezes nevoeiro
E às vezes é braseiro
A descair no mar
A mulher despertou
Não sabe se sonhou
Mas pela casa passou
E a porta estava aberta
E lá dentro era dia
E o vento sussurrou
Foste tu que mataste
A sombra que assombrou
A casa que voltou
A ser luz a ser guia
Tu que por mim passaste
Contra o medo lutaste
E o teu ombro apoiaste
Na ombreira da porta
Que não mais se fechou
Licínia Quitério

26.9.17

OLHA-ME



Olha-me, de olhos fechados, para melhor me veres. 
Toca-me, como se eu fosse de barro e pudesse quebrar. 
Fala-me, baixinho, que ainda não é dia na casa de orações.
Dá-me o teu manto que eu dou-te a minha pele.
Pega-me, que tu és pai e mãe e eu sou filho.
Leva-me para longe desta terra ingrata.
Deixa as jóias, as facas, as máquinas da fome.
Atreve-te ao grande mar de enganos.
O mundo inteiro está à nossa espera e nos receia.
Entre o ir e ficar, entre a morte e a morte, vamos.
Se formos sempre em frente, voltaremos,
porque a Terra é redonda, sabem os voadores.
Olha-me, toca-me, fala-me, leva-me
para lá das farpas, para lá do medo, ao país
que restou e onde se diz haver uma mulher
e um homem e um filho desejado
por nascer.


Licínia Quitério

11.9.17

CONVITE



No próximo dia 23 de Setembro, será apresentado este meu livro, editado pela Poética Edições, na Sociedade Guilherme Cossoul, Av. D.Carlos I, em Lisboa, pelas 17 horas. Francisco José Faraldo, escritor, será o apresentador.

Estão todos convidados para um encontro comigo e com o meu novo livro, no dia e local indicados.

Saudações fraternas.


Licínia Quitério

7.9.17

A PLANÍCIE


Quero dizer-vos que estou aqui
e me pergunto de onde venho
como cheguei
quem me pegou na mão
e disse vem e fala
vem e escreve
e eu falei e  eu escrevi
Depois foi só esperar que a voz
soubesse o marulhar das ondas
e as palavras fossem
o caminho onde toda a aventura
é uma planície aberta e limpa
à espera da semente que a fecunde
Não sei se sou a terra ou sou o grão
se sou a mão ou o arado
Sei que vou continuar
na voz do vento
no vai-vem das marés
sem perguntar quão vasta é a planície
quem me espera na outra face da Lua
Ninguém me deu o livro
das verdades
mas eu vou

Licínia Quitério

28.8.17

DESTROÇOS


Chegou sem se fazer anunciar
o tempo dos destroços, da ferrugem.
A árvore secou e será lume antes do pó
O portão já não serve, aberta a casa
antes da derrocada.
A roda já não roda, perdido o eixo e a memória.
Nada se perde, tudo se transforma,
com o suor do homem, a vontade do homem,
a construir futuros sobre as pedras de glória
do passado.

Licínia Quitério

26.8.17

A CORÇA


Podes ficar tranquilo.
O temporal passou.
O telhado furou
e a chuva pingou
sobre a dor do meu ombro.
O pouco que dormi
foi sempre em faz de conta,
não fosse a ventania
levantar o colchão
onde se escondia
das mágoas o cordão.
A parede rachou,
mas foi bom porque eu pude
ver um céu que foi meu,
em forma de crescente.
Recusei aceitar a hora do poente
e fiz bem, porque assim
nunca tive o punhal
do dia no final
a remexer a ferida
a esfacelar a pomba,
guardada no meu peito.
Depois, foi só esperar
que o temporal se fosse,
já farto de afrontar-me
da pele até ao osso.

Podes ficar tranquilo.
O temporal já foi.
Eu sei que outros virão,
em formas de tufão,
de lágrimas, cansaços,
mas eu aperto os braços
e seguro os pedaços
que sobraram de mim.
Semicerrando os olhos,
liberto a dor dos ombros,.
Compro um colchão de espuma
de sabão, do melhor.
Depois lá vou soprando
enquanto tiver força
e as bolas vão subindo,
de mil cores tingindo
o fio dos meus cabelos.

Podes ficar tranquilo.
Mais nenhum temporal
me pode causar mal.
Uma coisa te peço:
se entenderes que mereço,
embrulha com cuidado,
num pano de brocado,
meus desejos de corça
que um dia galopou
e na praia, ao nascente,
agita-o com firmeza
até teres a certeza
de que nada lá dentro
escondido ficou.

Licínia Quitério

20.8.17

ELES


Eles não são do nascente.
A noite é sua amante 
seu desvario e sossego.
Aprenderam os caminhos da lua
o piar da coruja o uivo do lobo.
Há flores que só à noite se mostram.
Eles sabem disso e não as colhem.
Há rios que só à noite sussurram
declarações de amor aos peixes e às pedras.
Eles escutam e vão tecendo uma canção de berço.
Eles rondam as mulheres e as engravidam.
Eles dão aos  homens a ardência do sol
a bravura dos braços e a bondade solitária
dos ocasos.
Eles são necessários.
Eles são tudo isto e muito mais seriam
se existissem.

Licínia Quitério

9.8.17

O VENTO NORTE


Este vento de Verão desnorteou-se.
Barafustou contra a rosa-dos-ventos,
desgrenhou-se e partiu 
armado de fúria e liberdade.
É vê-lo a uivar por entre as pedras,
a rir da curvatura de sebes e searas.
Detém-se por instantes qual corredor
na linha da partida e aí vai de novo.
Não há asa não há vela não há casco
não há homem que o domine.
É o tempo de mostrar que é o senhor do fogo
do naufrágio da perdição das sementes.
Porém, quem o quiser ouvir há-de saber
de uma mulher no cimo de um rochedo
a entoar uma canção de amor
a entrançar os seus cabelos de oiro
com as cordas que o vento lhe ofertou.
Histórias do vento norte que eu guardei
mas ninguém me contou.

Licínia Quitério

6.8.17

PESCADORES


Pescadores somos todos nós
aparelhados de armações e linhas
adivinhando os altos mares
ou os rios de passagem.
Há quem embarque ao encontro
do cardume maior da sua vida.
Há quem entre na água a terra à vista
e com pequeno peixe se contente.
Eu vou eu volto espera-me em casa
é o que dizem os pescadores do longe.
A casa sempre espera mas as mulheres
não aguentam tanto mar
tão pouco homem
ainda que farto o peixe.
Pescadores somos de mar e lua
experientes de tormenta
sabedores de marés e mareantes
a aventurar amores de travessia.

Partimos. Em terra fica um cais
de amarração e um relógio de areia
a contar dias até voltarmos
de rede rota e mãos vazias.
Pescadores, marinheiros
e outras gentes somos
armados de saudade e teimosia
a crer num amanhã de farta pescaria.


Licínia Quitério

29.7.17

RUELAS


Gosto de passear por antigas ruelas
sem pressas de alcançar as avenidas
pejadas de homens acabados de chegar
e de outros que ali contam madrugadas
 
Nessas ruelas há janelas de telhado
por onde a luz penetra afunilando os raios
trespassando vidros iluminando com doçura
os passos dos vultos caminhantes

Sei da velhice das ruelas das suas chagas
da sua solidão em noites pardas
e sei dos sonhos de outras noites
vejo-os ondulantes abraçados 
um riso em maré alta a subir a subir
a abrir de par em par as últimas janelas

Licínia Quitério

24.7.17

O DIA CLARO


Entra devagar no dia claro

Pensa-te nuvem
deixa fluir os teus contornos
Se uma ave cruzar o teu tecido
sê a ave
voa
aprende o seu piar
a construção do ninho
acolhe o novo cantar

Pensa-te rio
amacia as pedras
Se um peixe acontecer
sê o peixe
nada
aprende a subida das águas
entrega as sementes
espera da vida o seu retorno

Pensa-te um homem
uma nuvem enrolada à cintura
uma ave no peito

Estás agora mais perto das estrelas
iguais à flores do teu jardim
ou à vontade de entenderes
a escuridão do dia claro

Licínia Quitério

17.7.17

AMIGO


Os olhos presos no céu 
Fiel ao solo onde nasceu
Seguidor dos irmãos
Desenhador das ondas da planície
É nas horas de sombra
a bússola oferecida
à hesitação do caminheiro

Podeis pensar cipreste na Toscana
podeis

Eu o nomeio Amigo
esguio, forte, altivo
Um traço humano na paisagem

Licínia Quitério

9.7.17

OS VERBOS


Olhar
o céu da tarde

Pacificar
o turbilhão dos gestos

Ouvir
a música no búzio
a que chamamos coração


Convocar
o colo das mulheres
para os filhos dos homens
que partiram e ninguém sabe
quando voltarão

Inventar
um nome para a cidade
depois de Tróia, de Lidice, de Mossul,
e outras que Cassandra
não salvou

Cerrar
as portadas do dia

Preparar
a noite e os seus trabalhos
de segredo e olvido

Serão outros os verbos do amanhã
Todos no seu modo infinito
no seu tempo imperfeito

Havemos de encontrar
melhor conjugação

Licínia Quitério

2.7.17

SURPREENDE-ME



Faz-me uma surpresa
Gosto que me façam surpresas
Leio e escrevo, mas não encontro
histórias que me espantem
ou me façam chorar
ou me ponham a pensar
como acontecia no tempo
dos lobos maus
da fada-passarinho
da casa de chocolate
Para onde foram?
Conta-me
Ainda que mintas, conta-me
Eu vou acreditar
Ou então

Traz-me uma coisa que eu nunca tenha visto
Pode ser uma pedra, uma pequena pedra
igual a todas as que vi
Diz-me que a apanhaste
na estrada de Damasco

ou no deserto de Gobi 
Eu vou acreditar
Verdades não me tragas
Surpreende-me
mente-me
traz-me qualquer coisa que me faça rir
continuar a rir

adormecer


Licínia Quitério

20.6.17

A QUEIMA


As palavras também ardem.
Há palavras queimadas dentro de nós.
Ressuscitarão com as primeiras chuvas.
Assim saibamos o que fazer com elas.

Licínia Quitério

19.6.17

O ESPANTO



Todos sabíamos
Havia de vir o fogo
Com o poder de queimar
De matar
Todos sabíamos
Da avidez do fogo
Pela terra e seus pertences
Do seu desprezo pela água
Da sua força para enganar os ventos
E com eles bailar e subir
Da sua cupidez pelos corpos
Pelo sangue dos corpos
Do seu prazer da devora
Até ao osso até ao pó
Sabíamos e esperámos
Talvez o anjo nos salvasse
O anjo veio
E a sua espada era de fogo

E o nosso espanto é a cor da cinza

Licínia Quitério

10.6.17

ESCRITAS


Caligrafias,  de Ariana Andrade


no tempo do gelo ardente
na noite de fogo e lobo
depois de ter abatido
a corça mais inocente
com setas feitas de pedra
com arcos feitos de pau
com força feita de fome
 o homem se levantou
da esteira da solidão
e às paredes da gruta
 traços e voltas lançou
e com eles se encantou
e os traços multiplicou
e os traços deram as vozes
e as voltas deram as danças
e as danças eram de gente
e a gente era igual ao homem
que outro homem descobriu
nas pedras onde dançavam
as voltas que ali traçou
e com elas se amigou
 e ao outro dia chegou
uma mulher que passou
a mão nos traços e voltas 
e se aconchegou na esteira 
com o homem que inventou
do amor a carta primeira

Licínia Quitério

31.5.17

INTERLÚDIO


Um trevo de quatro folhas,
um raminho de hortelã,
uma plumagem de espargo,
florinhas da cor da neve.
Um raminho leve, leve,
tão pequenino a caber
na palma da minha mão.
Uma jarra transparente
com a água que alimente
do verde a fome e a sede.
Pequenos gestos os meus
a acarinhar, a compor,
desenhos que sei de cor.
Se tudo assim sempre fosse,
um tempo suave e doce
com o odor da ternura,
sem o rasto da amargura,
se tudo fosse e eu soubesse...


Licínia Quitério

29.5.17

A PENUMBRA


São os dias da penumbra.
A luz escorrente nas vidraças,
um fio de memória
a desenhar as asas
da pomba da infância,
e com a pomba a mãe,
o olhar da mãe
a segurar o traço,
e o candeeiro.
Sim, havia um candeeiro
que se quebrou
na escassez da casa.
Foi quando a rua entrou
na história, 
muito depois da pomba,
muito depois da mãe.
A rua de Hopper
da cidade silenciosa,
uma mulher à janela
com um vestido vermelho,
um carro parado,
as chaminés sem fumo.
No céu um candeeiro
que o pintor não viu.
A pomba o levou no bico
e o suspendeu.
Tudo é possível nos dias
da penumbra
se uma mulher vestida
de vermelho
pensa na infância
e a desenha.

Licínia Quitério

28.5.17

GRAÇA PIRES


A ruiva

Soltaram-se os pássaros vermelhos,
colados em meus cabelos.
Roçaram a sombra dos navios
e voaram, em círculos fechados,
rasando os areais.

Como um esboço de naufrágio
no rosto dos homens
que afagam sempre os filhos
como se fosse a última vez.
Como se, no coração das areias, os ventos
se enrolassem nas dunas em rituais de paixão.

Regressaram depois, os pássaros vermelhos.
E, lentamente, desalinharam os meus silêncios.

GRAÇA PIRES, em "Fui quase todas as mulheres de Modigliani", Poética Edições


foto da net

25.5.17

A FLORESTA


Naquele tempo, as árvores pediam os meus cabelos.

Eu era alta, da altura da grande mocidade que me vivia, e as árvores tinham ramos que se curvavam para mim, e isso acontecia em todas as estações, ou então, nesse tempo eu era o Verão e só sabia de flores e de frutos e mal tinha percebido a canção das seivas tronco acima, tronco abaixo.

Se não tivesse acontecido a loucura desse Verão, eu não seria hoje capaz de me sentar à sombra, olhar o alto, dizer ár-vo-re como quem embala um amor antigo, demorar-me na vibração das asas de uma borboleta. 

Por vezes penso no dia em que também serei árvore e tocarei sorrateira os cabelos da rapariga que caminha apressada, na sua aprendizagem de contar amores e perdições.

Enquanto espero, penso no nome a dar à floresta.


Licínia Quitério

19.5.17

O INCÊNDIO


À tardinha acontecem os incêndios
e os meus olhos ajoelham
porque a casa do céu se transmutou
em oiro.
Eu penso árvores alquímicas,
ecos de vozes altíssimas,
astros vizinhos do meu assustado coração.
Nada pode calar tanta beleza,
e no entanto há homens
que ao arrepio da luz
se fazem sombras
e são estéreis
são países mortos
são comandantes do medo.
Sabem que cegarão
quando olharem o céu
no incêndio da tarde.
Esperam a água da noite
que talvez não venha
talvez 

Licínia Quitério

13.5.17

O ESQUECIMENTO


Cedo ou tarde
em hora quente ou fria
encontrarás a porta 
aberta nos teus passos
peregrinos sem santo
nem sossego
Passos já não leves
não velozes
quem sabe apenas
a memória dos passos
em caminhos de sol
em veredas de lua
em becos de paixões
sinuosas e breves
Esqueceste tantos nomes
tantos rostos
mas aprendeste
a vastidão da praia
a cor do mar
as casas vazias
os laços rotos
uma música branca
uma franja de sombra
um piar de pássaro perdido
a procurar-te as mãos
É a hora de enfrentares o arco
e seres a flecha
de seres a pedra e o musgo
e o estalido da areia
ao peso do teu corpo
Sozinho vais
Ninguém pode fazer a tua estrada

Licínia Quitério

30.4.17

PALAVRAS



Chamam-se nomes, verbos, conjunções, conjugações
Aparecem em revoadas de qualquer estação
Erguem-se alucinadas das montanhas do sonho à linha de água
Tombam mansas das cascatas da memória sobre a poeira do chão
Espreitam atrevidas nas frestas do desejo
Acometem as veredas da voz e dão negrume ao soluço, rubor ao grito, alvura ao amor
Atropelam-se em delírio de sílabas, demoram-se em monossílabos numa quase mudez
Divertem-se em jogos de dar e receber, de trocar, de baralhar, letra por letra, de provocar, de comover, de endoidecer
A elas ofereci meu esforço e minha força
Com elas construí minha cidade velha
Por elas correm todos os meus rios
Palavras são tudo o que aprendi
Com elas danço e toco e me divirto
Por elas chegarei à casa grande do silêncio

Licínia Quitério

22.4.17

MEU A-BRIL



Na aragem da manhã um assobio
a soletrar a-bril no meu ouvido,
a deixar-se prender, a deixar-se embalar,
a relembrar a sua e minha história,
assim como quem conta -
Era uma vez um mês
que inaugurou os anos do deslumbre,
um caldo de alegria a transbordar
dos corações à rua.
Um mês que foi um ano inteiro,
pouco mais
que as serpentes voltaram do deserto
a entorpecer o a-bril da claridade.
O seu pulmão de sol adoeceu.
Mil vezes resistiu à sombra
e à calúnia.
Mil vezes alteou o som
da liberdade.
Envelheceu Abril e eu envelheci.
O assobio da manhã no meu ouvido 
ficará
até que eu deixe de pensar -
Minha flor maior,
meu a-bril, meu a-mor.

Licínia Quitério

11.4.17

OS LAGOS



Toda a gente sabe que os pássaros não nadam.
Voam e poisam nos altos ramos das altas árvores.
Os lagos estão ali para eles se mirarem e pensarem
(toda a gente sabe que os pássaros pensam) -
Olha um pássaro tão belo como eu.
Um dia dormirei abraçado àquele irmão.
É o que esperam todos os seres que voam
sobre os altos ramos das altas árvores
sem perderem de vista os grandes lagos
onde dormem os seus irmãos das águas.

Licínia Quitério

9.4.17

SALVAÇÃO



Salvar ou não salvar é uma questão
de despertar
com uma corda no braço
ou uma pedra na mão.
Tão próxima é a foz 
que o rio não avistamos
e da nascente não sabemos
senão o grito, o arrojo, o respirar.
Dos anjos salvadores
restaram penas,
alguns poemas que em estrela se tornaram.
Um outro, eu sei, escapou
à matança, à purificação.
Se de nome mudou
talvez se chame flor ou
água de beber
ou perfume em riso de mulher.
Talvez eu seja o rio
onde mergulhe para afogar
a urgência do poema
ou seja a corda e o salve
e lance a pedra para bem longe
e o poema seja eu que me salvei.
Licínia Quitério, em As Vozes de Isaque

6.4.17

ABRIL INACABADO



Houve um dia de espanto e de tremor.
Houve a notícia ainda inacabada
ainda frouxa.
Houve a alegria a desatar
os corredores do medo.
Houve um dia inteiro
meu amor nascido
meu  soldado de cravo
minha janela aberta
meu poema
meu caminho feito
de mão na mão
de coração a coração
entoada a canção
na voz mais alta
que aprendemos.
Foi assim o princípio
da tarefa mais nobre
de nomear a liberdade.
Que ficou desse dia
é o que te vou dizer
meu amor sem guarida
meu cravo sem soldado
minha janela entreaberta
meu tão curto caminho
de mão no coração
em voz baixa a canção.
Do dia do espanto e do tremor
ficou da liberdade
a antiga memória
a nova inquietação.
Desse dia sem noite
meu amor acabado
minha flor desmaiada
minha janela fechada
um poema ficou
na minha mão guardado
e lhe chamei Abril
imperfeito
inacabado.

Licínia Quitério

31.3.17

DOÇURA



Pedes-me notícias da doçura
e a tua mão treme na minha mão.
Sabes que quando digo golpe penso afago,
que quando escrevo mar dos afogados
aumenta o meu desejo de planície,
que a minha fúria é a saudade
dos caminhos verdes,
que as minhas sílabas de fogo
abrasam os que são de incêndio,
derretem os que são de gelo.
Tu sabes ler-me,
ó cavaleiro das tréguas,
ó guardador das chagas do poente,
mas eu esqueci
a ordenação das fontes
e as falas que me chegam
são numa língua que aprendi
e desprezei.
Dá-me um novo alfabeto
e eu te darei o mel
e tu serás meu livro de ternuras.

Licínia Quitério

29.3.17

ESCRITORES.ONLINE

Um outro Sítio onde me encontro:


http://escritores.online/escritor/licinia-quiterio/

28.3.17

ANDANÇAS



A corrida do fio da fonte, a brilhar, a devolver as cores do céu, das árvores, dos montes, como se dissesse arco-íris, silêncio murmurante.
O assobio do canavial, flauta de vento a ameaçar invernos no avesso das primaveras.
O soluçar dos campos pela ausência dos que partiram em direcção a um novo verão.
Os bocejos dos homens, sentados nos bancos do outono, a contarem as folhas caídas, os dias amortecidos.

Andanças, porque de danças se faz o nosso andar, de mundo em mundo, o que pisamos e o outro que sonhámos e, de tanto sonhar, nos fatigámos.

Licínia Quitério

27.3.17

NOTÍCIA BANAL




A faca corta, que bem corta a carne do vitelo, o corpo da mulher que não obedeceu, que não ajoelhou, que desejou partir, mas por ali ficou. 
Um filho carregava. 
Mas um filho de quem, deste homem ou do outro? 
Que lhe importa saber? 
A faca não pergunta o registo do sangue, a pureza do ovo. 
Deixa-se conduzir pelo pulso do homem, pela força da mão, pelo veneno da posse, a que o homem enforma, a que o homem deforma. 
A faca despedaça. 
Cortar é seu ofício. 
E porque bem cortou, o homem que a guiou tranquilo se sentiu. 
Senhor da vida e morte, consumado o abate, é um homem de pé. 
Não existe traição que a faca não degole, que a faca não apague. 
A matança apurou os sentidos do homem. 
Ele bem os ouviu, os gritos das mulheres, os rugidos dos homens, cruzados na arena. 
São aplausos calados, são ciúmes crescidos. 
Se eu tivesse uma faca, se não fosse este medo, ele não me escapava, ela não me ganhava. 
É a fúria do homem, é a força do bicho. 
Inocente é a faca que corta, que corta.


Licínia Quitério

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