28.8.17

DESTROÇOS


Chegou sem se fazer anunciar
o tempo dos destroços, da ferrugem.
A árvore secou e será lume antes do pó
O portão já não serve, aberta a casa
antes da derrocada.
A roda já não roda, perdido o eixo e a memória.
Nada se perde, tudo se transforma,
com o suor do homem, a vontade do homem,
a construir futuros sobre as pedras de glória
do passado.

Licínia Quitério

26.8.17

A CORÇA


Podes ficar tranquilo.
O temporal passou.
O telhado furou
e a chuva pingou
sobre a dor do meu ombro.
O pouco que dormi
foi sempre em faz de conta,
não fosse a ventania
levantar o colchão
onde se escondia
das mágoas o cordão.
A parede rachou,
mas foi bom porque eu pude
ver um céu que foi meu,
em forma de crescente.
Recusei aceitar a hora do poente
e fiz bem, porque assim
nunca tive o punhal
do dia no final
a remexer a ferida
a esfacelar a pomba,
guardada no meu peito.
Depois, foi só esperar
que o temporal se fosse,
já farto de afrontar-me
da pele até ao osso.

Podes ficar tranquilo.
O temporal já foi.
Eu sei que outros virão,
em formas de tufão,
de lágrimas, cansaços,
mas eu aperto os braços
e seguro os pedaços
que sobraram de mim.
Semicerrando os olhos,
liberto a dor dos ombros,.
Compro um colchão de espuma
de sabão, do melhor.
Depois lá vou soprando
enquanto tiver força
e as bolas vão subindo,
de mil cores tingindo
o fio dos meus cabelos.

Podes ficar tranquilo.
Mais nenhum temporal
me pode causar mal.
Uma coisa te peço:
se entenderes que mereço,
embrulha com cuidado,
num pano de brocado,
meus desejos de corça
que um dia galopou
e na praia, ao nascente,
agita-o com firmeza
até teres a certeza
de que nada lá dentro
escondido ficou.

Licínia Quitério

20.8.17

ELES


Eles não são do nascente.
A noite é sua amante 
seu desvario e sossego.
Aprenderam os caminhos da lua
o piar da coruja o uivo do lobo.
Há flores que só à noite se mostram.
Eles sabem disso e não as colhem.
Há rios que só à noite sussurram
declarações de amor aos peixes e às pedras.
Eles escutam e vão tecendo uma canção de berço.
Eles rondam as mulheres e as engravidam.
Eles dão aos  homens a ardência do sol
a bravura dos braços e a bondade solitária
dos ocasos.
Eles são necessários.
Eles são tudo isto e muito mais seriam
se existissem.

Licínia Quitério

9.8.17

O VENTO NORTE


Este vento de Verão desnorteou-se.
Barafustou contra a rosa-dos-ventos,
desgrenhou-se e partiu 
armado de fúria e liberdade.
É vê-lo a uivar por entre as pedras,
a rir da curvatura de sebes e searas.
Detém-se por instantes qual corredor
na linha da partida e aí vai de novo.
Não há asa não há vela não há casco
não há homem que o domine.
É o tempo de mostrar que é o senhor do fogo
do naufrágio da perdição das sementes.
Porém, quem o quiser ouvir há-de saber
de uma mulher no cimo de um rochedo
a entoar uma canção de amor
a entrançar os seus cabelos de oiro
com as cordas que o vento lhe ofertou.
Histórias do vento norte que eu guardei
mas ninguém me contou.

Licínia Quitério

6.8.17

PESCADORES


Pescadores somos todos nós
aparelhados de armações e linhas
adivinhando os altos mares
ou os rios de passagem.
Há quem embarque ao encontro
do cardume maior da sua vida.
Há quem entre na água a terra à vista
e com pequeno peixe se contente.
Eu vou eu volto espera-me em casa
é o que dizem os pescadores do longe.
A casa sempre espera mas as mulheres
não aguentam tanto mar
tão pouco homem
ainda que farto o peixe.
Pescadores somos de mar e lua
experientes de tormenta
sabedores de marés e mareantes
a aventurar amores de travessia.

Partimos. Em terra fica um cais
de amarração e um relógio de areia
a contar dias até voltarmos
de rede rota e mãos vazias.
Pescadores, marinheiros
e outras gentes somos
armados de saudade e teimosia
a crer num amanhã de farta pescaria.


Licínia Quitério

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