15.6.11

DEVORAS-ME


Devoras-me, devoro-te. Há milénios.
Começámos ainda os dias se chamavam
sol ou lua, e as palavras eram outras,
mais curtas, mais sonoras, e nas vozes
se faziam estalos de chicote ou o gorgolejar
de líquidos à boca das ânforas.
A palmeira devora o deserto. Devoram-se.
Antes da areia, quando as tâmaras
eram só o mel das tâmaras.
O leão devora. Os leões devoram-se.
Desde o dia em que as mães esconderam
os filhos no coração das grutas.
Céu e mar devoram-se. Mar e céu
regurgitam-se, ritmados.
Voam os peixes e os pássaros mergulham.
Porque te amo, devoro-te.
Há milénios és a areia, a água,
a nuvem, o leão, o mel. Devoras-me.
Sou um fruto maduro na curva da idade.
Decifrei o segredo da Estrela Polar.

Licínia Quitério

7 comentários:

Mar Arável disse...

A poesia come-se á mesa

no chão dos barcos

onde estãos os amigos

de palavra

Maria disse...

Belo! Gosto desta expressão "Sou um fruto maduro na curva da idade."

Beijo, Licínia.

Mel de Carvalho disse...

Licínia,
sabe o quanto gosto de a ler.
Este é um poema belíssimo.

Um enorme obrigada num beijo
Mel

Benó disse...

Agora que a Estrela Polar já não é segredo para ti, segue o seu rasto e ....sê FELIZ, Licinia.

Justine disse...

Belíssimo! Belas as imagens, o ritmo, o sentido! Que bom ser devorado pela poesia!

M. disse...

Que sorte teres decifrado o segredo da Estrela Polar!

Filoxera disse...

O amor para a eternidade. Lindo, este poema! E forte...
Gostei do blogue.
Até breve.

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