25.7.11

QUANDO OS MUROS


Quando os muros desabam
e as cancelas apodrecem,
é o tempo da explosão das sementes,
as mais ousadas, as mais sofredoras,
as mais simples.
Tocam sinos a rebate nos torrões calcinados, 
o orvalho das madrugadas reaprende
o seu ofício de nascente
e o pólen dos cravos nomeia os ventos,
os insectos, as vozes dos homens.
É nesse tempo sem relógios
que o amor se faz baga e folha e haste
e aroma de glicínias e doçura de figos 
e o alarido das gralhas e o coaxar das rãs 
na fertilidade dos charcos.
Desabam os muros e as cancelas apodrecem
na inutilidade dos advérbios.
As sementes, as mais sábias, despertam.
Acontece outra vez.
Milagre, se lhe quisermos chamar.

Licínia Quitério

8 comentários:

Graça Pires disse...

A Natureza e a Vida mutuamente se inspirando. É um milagre, sim, Licínia. Este belo poema também.
Um grande beijo.

hfm disse...

Mais um poema que sai de dentro, da raíz, como a natureza e o humano. Belíssimo!

Maria disse...

Apesar de tudo a Natureza continua a cumprir-se. Muito belo!

Um beijo.

Mar Arável disse...

mas que belo grito

o teu

a semear

Justine disse...

Acontece sempre: depois da destruição, o recomeço! O milagre do recomeço!
Que grande poema, Licínia:)))

heretico disse...

semeadora de Futuro, querida amiga!

que as sementes ousadas germinem na Terra áspera.

beijos

Anónimo disse...

Hão-de sempre renascer
enquanto um poema,
uma aragem do tempo.
Tão terno, L.
Bj da bettips

M. disse...

Humanamente campestre.

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