12.8.13

A MUDEZ DOS DESERTOS


Insectos insaciáveis, corpos do nosso sangue em outros corpos, chegam enxames de palavras. Trazem nas patas toda a seiva, toda a luz, toda a aspereza dos matos invocados em vão. Em nossas bocas libertam-se do pó dos caminhos, da acidez dos doentes, do arrepio das lâminas, da rouquidão dos efebos. Demoram-se a adejar nos nossos vãos, soltam zumbidos de árvore, aflições de guitarra, sobressaltos de madeira, silêncios de capela. Quem dera poder amá-las, dobrá-las, torná-las agradecidas servas da mudez dos desertos. Reconstruir, palavra por palavra, o tecido sonoro das ágoras. Sem pressa, que nada sabe de seu fim.


Licínia Quitério

2 comentários:

Anónimo disse...

"Sem pressa, que nada sabe de seu fim."
Gostei.

Mar Arável disse...

Há desertos que não se calam
por bem

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