14.10.10

ÁGUAS VIVAS



Estou só. Semicerro os olhos e vejo-te no longe,
a acenar. A tua mão é a corrente a que me prendo
por vontade, a demorar o tempo de partir.
Hei-de saber, amor, se nome tem esta batida
do meu coração dentro do teu. Vem para o pé
de mim. Senta-te no sofá que guarda a forma
do teu corpo intenso, com cheiro ao veludo das manhãs. 
Fala-me mesmo que as palavras nada digam
a não ser o que sempre dissemos e continuaremos
a dizer até ao fim dos dias. Preciso da tua voz
no meu ouvido para saber o canto das marés.
Não tenhas pressa. Amanhã sairemos à rua
e seremos a febre de todas as lutas e abraçaremos
os amigos que não envelheceram, que não adormeceram
nos tapetes de flores. E nós, que nos amamos
para além do nevoeiro, há muito a encobrir a nossa rua,
beijar-nos-emos no meio da multidão, e o sol virá.
Seremos árvores até que delas fique não mais
do que um recorte em águas vivas onde repousa o céu.

Licínia Quitério

17 comentários:

sonia disse...

licinia
que maravilha
esse é, sim, um poema que procuro

Licínia Quitério disse...

Sónia,

Gostava de saber algo de si. Conhece-me? Eu conheço-a?

É sempre muito amável, mas sempre anónima :(

© Piedade Araújo Sol disse...

um poema de inegavel beleza poetica, onde todas as estrofes são cuidadosamente elaboradas.

qualidade impar

beij

Justine disse...

Que o amor permaneça como o despertar de todas as consciências...
Poema-amor, poema-esperança!
Abracinho

De Amor e de Terra disse...

De todos os "versos", escolhi para mim - "...a tua voz... para me dizer o canto das marés..."

Belíssima, intensa e suave ao mesmo tempo, enfim, profundamente tocante. Parabéns Licínia.
Bjs.
Maria Mamede

tb disse...

Como chocolate derretido escorrendo por entre os dedos transmitindo calma. :)

bettips disse...

Uma cadência da revolução, dentro e fora do pensamento. Um sublime amor, uma memória que cheira
à primeira chuva na terra seca.
Onde tens tantas gotas no cabelo? Onde tens tantas flores no olhar?
Cada vez mais, L.
E tens razão. De nada nem ninguém teremos certezas: só enquanto o(s) pensarmos, dedicando palavras e estrelas, aos amados.
Bjinho

Licínia Quitério disse...

Hoje deixo aqui, legível, o OBRIGADO que vos devo a todos, vós que alimentais a minha escrita, lançada assim ao mundo, na esperança de que seja entendida como uma dádiva, que tudo o que ela vos der a mim retornará como pássaro que vai e volta ao ninho.

Bem hajam!

M. disse...

Uma beleza, Licínia! Uma beleza!

Nilson Barcelli disse...

"A tua mão é a corrente a que me prendo
por vontade, a demorar o tempo de partir. "

Belíssimo texto, Licínia, muito poético.
Bom fim de semana, um beijo.

Mar Arável disse...

Excelente

é verdade sim

um dia o sol virá

para um beijo na multidão

heretico disse...

amor derramado. pelas praças. e canções!

belissimo

beijos

hfm disse...

Sempre a sonoridade poética das palavras e dos sentidos!

Graça Pires disse...

Este amor espalhado pelas ruas... Se derem as mãos podem sentir o bater do coração...
Belíssimo, Licínia

bettips disse...

Prefiro-me assim, aqui, como uma cumplicidade - o face é muito envolvente. Aqui penso e não distraio o coração: só leio e sinto.
Bjs

maria manuel disse...

belísssimo poema de amor, Licínia! e o amor conservamos sempre no coração. beijinho.

batista disse...

sim, "águas vivas", a matar nossa sede de uma poesia vivificante e transformadora.

grato, de coração.

arquivo

 
Site Meter