22.10.10

DESASSOSSEGO



Desassossego é o que nos diz o rumor das ruas
de gentes cabisbaixas, com a palidez no olhar.
Num raio de sol vem um farrapo de saudade
da outra cidade em que bebemos flores
e nos embriagámos. Imóvel a barcaça que fundeou
no cais e ali ficou disposta a recolher o que sobrou
desta gente traída, espoliada do sonho, do azul.
Guardadas as palavras bem no fundo do peito
não vá alguém roubá-las e devolvê-las decepadas,
prostituídas, insonoras. Desassossego é esta
abordagem do silêncio no dobrar das noites.
Dormentes sobre os retalhos de falas coloridas,
de abraços de oiro, de coração a coração,
vamos olhando o templo e os vendilhões.
Amanhã visitaremos a barcaça, mas desta vez
não partiremos. Havemos de ficar até que a rua
esteja limpa e acolha os nossos passos remoçados,
as nossas vozes prenhes das milenares sementes
da planta que só tem um nome: Liberdade.

Licínia Quitério

15 comentários:

hfm disse...

E como precisamos dela, Licínia!

Justine disse...

Sim, amiga, não arredaremos pé até que o azul seja de novo nosso e possamos gritar a palavra que nos constroi. Entretanto, lutamos em desassossego...
Um beijo

Maria disse...

Lançaremos à terra essas sementes para que a planta não possa nunca mais deixar de existir. E que a cada pé arrancado renasçam dez como se fossem dedos das nossas mãos.
Belo o teu texto!

Beijo.

José Carlos Brandão disse...

Não posso pensar em desassossego sem lembrar-me de Fernando Pessoa e seu não-livro. Mas preciso oabservar que "Desassossego é esta abordagem do silêncio no dobrar das noites" que você faz tão bem. Sempre perdemos algo, talvez a fala - essa fala contida no silêncio.
Abraços.

Lídia Borges disse...

Desassossego que gasta, que maltrata, que usurpa...
Um texto que se faz promessa.

Um beijo

maria manuel disse...

entre a saudade do tempo das flores e das palavras coloridas, dos abraços e dos raios de sol, e o desassossego dos dias presentes, da cais vazios, barcos fundeados, olhares caídos, ainda não se perdeu: esperança - liberdade.

um belo e corajoso poema, Licínia! beijo.

batista disse...

Deixamos
Escapulir das gaiolas
Solidários e
Alados
Sonhos
Sem atentar
O homem velho, que
Sorrateiramente busca
Solapar a luz
E a magia que
Galhardamente jamais deixará de entoar
O cântico de Liberdade
...
Pra ti, Amiga, deixo uma abraço fraterno e saudoso.

R.Joanna disse...

"Desassossego é o que nos diz o rumor das ruas/de gentes cabisbaixas com a palidez no olhar.". Este verso é seu, mas podia vir de antes de Pessoa, tão de verdade é tecido...

Como sempre, a sua bela poesia.

Um abraço

rouxinol de Bernardim disse...

Há que lançar sementes sem demora.. em tudo na vida é preciso semear...

Há quem só se disponha a colher...

Alien8 disse...

Desassossegar é preciso. Este poema é muito preciso, nos dois sentidos da palavra. Precisamos de mais. Poemas, liberdade.

Mar Arável disse...

Mais um belo canto

à liberdade

heretico disse...

guardemos então as palavras, que amamos.

para a soltar nas praças. como pássaros coloridos. nos olhos das crianças...

belíssimo. o poema. sempre.

beijos

Graça Pires disse...

Sesassossego é sabermos que as paredes do futuro nos são interditas... Mas "Havemos de ficar até que a rua
esteja limpa e acolha os nossos passos remoçados,
as nossas vozes prenhes das milenares sementes
da planta que só tem um nome: Liberdade.
Belíssimo Licínia!.
Um grande beijo.

Virgínia do Carmo disse...

Possa o desassossego ser-nos gesto...

Gostei muito :)

Beijinho

bettips disse...

Que a mão se erga ao alto
desassossegada mas sem nunca dizer adeus.
Bom que "esta gente traída" tenha a (tua)voz que nos transporta "de coração a coração".
Belo que o digamos juntos: Liberdade!
Bjs

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