16.6.10

VOLTAS AO CAMPO




Voltas ao campo, à horta, ao tanque, aos animais,
como se alguma vez ali tivesses pertencido.
Dizes ruína, mas nunca conheceste a infância
das pedras e da cal e do carinho dos homens.
O cheiro dos coentros traz-te lembranças
das ervas que nunca pisaste que o teu lugar
sempre foi o casulo das cidades cansadas
onde deixaste os passos e as esperas.
O telhado está roto, dizes, mas nunca lhe
soubeste a inteireza com que afrontava
o vento e o orgulho com que estancava
a chuva. Agora tens  a solidão nos olhos
e os braços vazios e a memória a pesar
nos ombros e na fala com que dizes voltar.
Perdeste o tempo e o lugar e o cantar
dos pássaros. Cidade foste tu e o teu modo
de abraçar o mundo. Só o amor te salvou
e te mostrou o caminho de volta. Esse que hoje
desbravas e constróis  no abrigo das arcadas
protectoras do sol abrasador que te esperava.

Licínia Quitério

7 comentários:

Lídia Borges disse...

Deixa um tom de saudade, um querer ficar nestas "Voltas ao Campo" para fugir à solidão da cidade, à monotonia do hoje, em direcção a um passado-ilusão.

L.B.

Amélia disse...

Continuo a gostar do que screve. Um abraço

Zélia Guardiano disse...

Lindo demais, Licínia!
Que bom que encontrei este teu espaço tão especial!
Voltarei sempre...
Grande abraço

Graça Pires disse...

Um poema que nos lembra o abandono do campo pela cidade e a nostalgia serena e dorida do regresso...
Muito belo!
Um beijo,Licínia.

Mar Arável disse...

Como eu te compreendo

Sempre muito belo

e substantivo

Bj

maré disse...

que olhar melancólico sobre o ninho deserto no coração dos homens.

há quem diga que só a inteireza da terra restitui a verdade inicial.

___

beijo Licínia

M. disse...

Pois é, Licínia, tanta coisa que se perde dentro da ilusão ou do que se não vê. Ou então tudo tem o seu tempo. Talvez seja só isso, ou também isso.
Gostei muito.

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