15.9.10

AS OLIVEIRAS



Nesse tempo as paredes eram todas oblíquas.
Ao razá-las as aves quebravam o limiar das asas.
Impediam os filhos de deixarem o ninho.
Nesse tempo o chão era uma onda negra,
um dorso de dragão com espinhos de cristal.
As maçãs recusavam-se a deixar as árvores
e apodreciam de medo no cansaço dos ramos.
Nesse tempo o silvo dos comboios foi destruído
pelo grito dos homens que abrasava a planície.
Foi decretada uma nova geometria e as paralelas
morreram sem se terem beijado no infinito.
Foi banido o ângulo recto  e as dores se tornaram
agudas e os sonhos obtusos até à anulação.
Foi o tempo do fogo e da avidez dos corvos
sobrevoando as cinzas. Tornou-se obrigatório 
o choro dos violinos e o latido dos cães.
Proibida para sempre a vertical da vida.
Mais tarde, muito tarde, vieram as oliveiras.

Licínia Quitério

18 comentários:

Graça Pires disse...

Poema de uma beleza inquietante.
As oliveiras nasceram para salvarem os seres vivvos do desespero total.
Beloíssimo, Licínia. Um grande beijo.

Benó disse...

....E houve paz sobre a terra?
Um grande abraço, Licinia.

hfm disse...

Belíssimo. A foto será do Museu Judeu de Berlim?

Licínia Quitério disse...

É, sim, Helena. O horror também nos dá inspiração.

Lídia Borges disse...

A geometria cortante nas palavras em oposição à generosidade da Natureza.

Uma imagem fantástica ainda que obsidiante.

Um beijo

L.B.

quicas (joaquim do carmo) disse...

"Terrivelmente" belíssimo... que nem as oliveiras!
Beijinho

Mar Arável disse...

Em tempo de vindimas

medram oliveiras

e sonhos de outras marés

até ser dia

Excelente poeta

batista disse...

... e as folhas ao vento
diziam das árvores d'outros campos
... e as folhas pelo chão
soletravam a saudade dos ramos
... e as folhas
alimentavam raízes
d'outros tempos.

um abraço fraterno, Lícínia.

M. disse...

Belíssimo, Licínia, belíssimo! Até arrepia de tanta beleza.

Rafael Castellar das Neves disse...

Ótima visão...parece um novo renascimento do mundo...

[]s

Nilson Barcelli disse...

Poema inquietante.
"Foi o tempo do fogo e da avidez dos corvos
sobrevoando as cinzas. Tornou-se obrigatório
o choro dos violinos e o latido dos cães."
Mas excelente.
Gostei imenso, querida amiga Licínia. Continuas a escrever como poucos.
Bom fim de semana.
Beijos.

avezinha disse...

Belo poema que nos traz à memória uma página negra da n/ história. Tal qual um grande incêndio que tudo destrói, eis que a natureza nos conforta com o renascer das cinzas. O verde das oliveiras, símbolos de paz. Paz que infelizmente teima em não pairar em todo o nosso mundo.

heretico disse...

fabuloso Poema, querida amiga.
saibamos cuidar e merecer as oliveiras.

que tão bem cantas!

beijos

Joao norte disse...

Página dramática.

Joao norte disse...

É dramaticamente belo. Vejamos:
" nesse tempo...as maçãs apodreciam de medo... nesse tempo ...o grito dos homens abrasava a planície...foi tempo do fogo...tornou-se obrigatório o choro dos violinos" E termina." Foi proibida a vertical da vida" seria difícil um terminus mais dramático.
É um texto intensamente belo.

legivel disse...

"... chego sempre atrasado. É uma constante da qual não tenho emenda nem pudor."

(Alberto Oliveira in "E azeitonas, vai querer?"

"que regresse o ângulo recto
e também as paralelas
nem que seja por decreto
mais as ginginhas com elas"

(Legível G. O. Metria in "Secantes, raios & coriscos".

luís filipe pereira disse...

Belíssimo poema.
Notável o imaginário poético que
alcança através das Oliveiras como que uma verticalidade segunda, uma verticalidade outra, a promessa de uma verticalidade verde, possível.
com admiração
filipe

Cláudia disse...

Deslumbrante!Eu cresci no caminho das oliveiras...

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