8.3.09

CLARISSE 7


Numa página clandestina do álbum, um passageiro de lugares apagados perturbou a visão de Clarisse. Não podia tê-lo conhecido, tal como isso se diz de corpo e voz. Em pequena, habituara-se a vê-lo num grande quadro a óleo, oferta de amigo artista, como lhe contavam. Quantas gerações depois se apresentou Clarisse? Não pode precisar. Achara-o muito velho, quase tão velho como o Jesus crucificado na cómoda do quarto da avó. Agora o retrato diz-lhe um belo jovem com o perto e o longe no olhar. Pensa, com algum pudor, que ficaria bem ali, ao lado dela, não fora a morte a sépia que lhe deram. Houve uma bela casa, mandada construir pelo belo homem. Não a pode ter conhecido Clarisse, a não ser pelas histórias acrescentadas a um batente de bronze, em garra de leão, que hoje pisa papéis na escrivaninha antiga. Como aparecem então os peixes vermelhos no lago, por detrás do retrato? E o cão Piloto à sombra da romãzeira? E o vitral do guarda-vento e a porta giratória e as andorinhas viúvas, duas de cada lado do relógio de capela? O belo homem foi hoje o desassossego de Clarisse. Porque não o conheceu de corpo e voz, não pode nomeá-lo. A revolta do baralho de cartas e os gritos da rainha de copas são um súbito calor nas têmporas. O gato, esse, é o sorriso sobre a romãzeira. Indiferente, uma rola de peito róseo na beira do lago. O coração de Clarisse é um vaso de loiça fina cansado da corrida. Foram anos, foram séculos, foi o dia de ontem.

Fecha o sétimo álbum. O verde dos seus olhos amainou. É assim Clarisse, devoradora de passados.

Licínia Quitério

14 comentários:

Arabica disse...

Licínia,

o mistério dos rostos que não nos nomearam e ainda assim, vivem connosco, portas adentro do tempo.

Rostos, peças de puzzle que procuramos vestir de um nome, colocar numa estrada que se nos dirija, que faça sentido na sua existência no aqui e agora, deixado pela sépia.

Nesta pequena sala de onde te escrevo, tenho o meu pai menino, olhando para mim, às vezes trocando letras, penso,acredito, por mim.

Faz hoje 35 anos que partiu.

tanta saudade!


Um abraço.

Graça Pires disse...

É misteriosa esta Clarisse "devoradora de passados".
Um rosto que não pode nomear-se... Um caminho que se percorreu a sós...
Belíssimo Licínia.
Um beijo.

Justine disse...

Belíssimo texto a escorrer nostalgias e afectos. E com o passado vamos enganando a fome, já que o presente é parco...

vaandando disse...

Começo a habituar-me belamente a esta escrita plena de significados entre a luz a escuridão e os trilhos da memória... Cada linha traz-me uma surpresa, e desta vez foram andorinhas e gatos nas romanzeiras...
Abraço

________ JRmarto

Maria disse...

Pode ser que se procure num passado não muito distante.
Gosto da tua Clarrise. Acho que já o tinha dito...

Um beijo, Licínia

Mar Arável disse...

A sua Clarisse de tantas memórias

está a construir amanhãs

entretanto vai deixando marcas

nos apeadeiros

Esta sua Clarisse já existe

e tem muita vida

nos textos que fluem

pela sua mão

bjs

bettips disse...

Hoje, Clarisse dói-me mais.
Talvez por saber que podia ter andado descalça. E magoar-se. E ficar ainda muito tempo sem saber que voz, que corpo.

O gato assanhado do passado a ir-se e a ficar o seu sorriso escarninho.
Beijo, Licínia.

tinta permanente disse...

Em qualquer álbum, diário ou inconfissão sempre perpassam páginas clandestinas que, quase sempre, arrastam um ar fresco sobre a pele da memória...

abraços!

p.s. - ah! o trono! Pois lhe está reservada uma outra história que passa por qualquer coisa de visite-sítios-e-lugares...

CNS disse...

Belíssima esta Clarisse devoradora de passados.

um beijo

maria m. disse...

hoje acompanho os desassossegos de Clarisse, que persiste em inquietar o passado.

vida de vidro disse...

Sabes que me vi menina a tentar decifrar as fotos penduradas nas paredes? Hoje segui Clarisse, a devoradora de passados. **

Vieira Calado disse...

Um texto prosaico muito poético,
de belas pequenas passagens que muito apreciei.

Bjs

heretico disse...

Clarisse não poderá "nomeá-lo" mas pode dizê-lo! nas coisas e gestos. que habitam a casa. e as memórias.

talento enorme. o teu. um deslumbramento.

beijos

M. disse...

Que pena que Clarisse não queira mostrar-nos mais álbuns. Era tão bom passear com ela! As suas palavras são como aquele papel frágil de neblinas que separa as folhas nos álbuns antigos.

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