24.2.07

DOZE ANOS


Eu tinha doze anos e
um corpo inconsciente

a brincar com o vento.

Da chuva só sabia que lavava

o sal das minhas mãos.

A verdura dos olhos
escondia segredos

na arcada do céu,
na fundura do mar.

Esperava pelo peixe
com asas de dragão
que me levasse
às ilhas perfumadas
dos meus sonhos de verão.

Aos doze anos
a areia era oiro em pó,

mas não tinha
valor
porque o maior tesoiro
estava na cabeleira loira do rapaz

a cavalgar a nuvem

e a soltar melodias
que havia de trocar
pelo pranto dos rios.

Com doze anos
eu tinha um coração igual ao meu.


Não, tu nunca tiveste doze anos. Os meus ficaram para sempre agarrados a um grão de areia que se entranhou no joelho direito e de lá se recusou a sair. Foi quando caí da bicicleta que o meu amigo me emprestou. Disse "sem mãos" e não reparei no pedregulho no meio da vereda. Chorei muito quando vi o sangue a escorrer e a empapar os "soquettes" brancos. Nesse tempo os curativos faziam-se na farmácia. Doíam tanto. Mas sabes que me sentia importante por ter uma ferida daquele tamanho? Como os heróis do Cavaleiro Andante, eu iria ficar com uma cicatriz. Eu sei que era literatura para rapazes, mas era da que eu gostava. Tu não. Nunca tiveste doze anos. Eu dançava, em redor da ameixeeira que meu pai plantara. E depois trincava as ameixas e deixava o sumo, mais escuro que o sangue do joelho, escorrer pelo pescoço, pela blusa. Dava-me arrepios. E o que eu gostava de me deitar de costas no chão da rua a olhar o céu. Dali viria o meu amor loiro. O pior era quando a minha mãe chegava primeiro.
Tive doze anos.
Tu não. Guardaste algum grão de areia no teu corpo? Então, já vês...

Licínia Quitério

Dedicatória: Para uma Menina que foto-escreve conversando com o seu grãozinho de areia.
L.Q.

21 comentários:

Hay disse...

Licínia!
Eu sou do tipo que a primeira impressão é mais forte que todas as outras.
E meu primeiro sentimento só me diz uma coisa: que lindo!
E o fecho é de ouro:
Com doze anos
eu tinha um coração igual ao meu.

Bjs
Hay

Cadinho RoCo disse...

O grão de areia transformou-se em grão do joelho. O joelho transformou-se em lembrança de um tombo. O tombo em ferida e a ferida em sangue que até hoje jorra dos pés à cabeça da emoção sentimento sem mãos sobre a bicicleta que aprendeu a desviar-se do pedregulho. Será?
Cadinho RoCo

M. disse...

Ó Licínia, que surpresa esta prendinha! Gostei tanto, obrigada.
Tão bonitos estes teus "Doze Anos" envoltos em azul!
Um beijo.

vida de vidro disse...

Aos doze anos, tínhamos todos os sonhos por sonhar. Bonita, esta prenda para a M. :)**

herético disse...

muito belo!

não me atrevo a mais palavras...

julgo, porém, que as duas - homenageante e homenegeada - têm o mesmo coração de sempre: de meninas...

JPD disse...

Belas recordações, pois então!
Bjs

Maria P. disse...

Lindo!

Parabéns para as duas, são fantásticas no prazer que nos dão com a vossa escrita.

Beijinho Amiga*

agua_quente disse...

Doze anos... fazes-me sorrir, só de me lembrar. Tão belo este presente e esta evocação dos sonhos da infância!
Beijos

bettips disse...

Minha querida, deverá ser o som de Mafra, essa tua (vossa) poesia e recordação, as cataratas de amor que nos deixam. Obg, muitas de nós sonharam esse tom e oiro, aos doze anos. Bjinho L

Anónimo disse...

Que beleza Amiga, essa peregrinação pelos 12 anos,essa idade, longe donde só trazemos o coração...

AMEI!

Obrigada pelo comentário.
Um beijo
Maria Mamede

MARIA VALADAS disse...

Que belo momento que tive aqui...ao ler estas magnificas palavras!

Será um prazer regressar novamente...para me deliciar..

Obrigada,

Beijinhos da
Maria

bettips disse...

Faltou-me dizer, do coração: tu não és só da planície. Tu és do MUNDO. De todos os mundos de palavras belas. Bj

TINTA PERMANENTE disse...

Um grão de areia talvez tenha a mesma dimensão que, porventura, uma última madeixa de menina ou a blusa de organdi daquele baile primeiro... quem sabe?!
Uma belissima homenagem, amiga!
Abraços!

Rui disse...

Era o último dia de férias. Dia de despedidas. Sentada à beira mar, sentia já saudades.
Recordava que todos os anos aquele sentimento lhe chegava com a mudança da maré, no último dia de férias. Mas este ano parecia ter vindo algo mais, algo que não conseguia identificar. Como se para o ano alguma coisa fosse diferente. Seria por estar maré viva?
Tinha apenas 12 anos. Julgava-se muito nova para sentimentos tão complicados, que lhe faziam lembrar a sua irmã mais velha, sempre preocupada com algo sem importância nenhuma. E, no entanto, aquele sentimento.
Pelo sim pelo não, achou por bem rebolar-se na areia. Naquele último dia de férias. À beira mar.

alice disse...

que delícia, licínia. uma bonita dedicatória. quem me dera voltar a ter doze anos. foi quando tudo se começou em mim. gosto cada vez mais de vir aqui. beijinho grande.

Cusco disse...

Mais um belo texto. Mais belo para mim ainda pelo titulo.
Tenho um post a martelar-me a cabeça com esse titulo.
Tenho o principio delineado, o meio previsto o fim rabiscado. Falta-me juntar tudo, cozinhar as letras arranjar a inspiração final.
Por isso vim aqui. E o resultado final ficou mais próximo.
Até breve
SE DEUS QUISER

Era uma vez um Girassol disse...

O Cavaleiro Andante era para rapazes? Eu adorava...devorava...
Beleza de poema e prosa!!!!
É uma doçura passar por aqui,Poetisa!
Beijinho

António Melenas disse...

Um mergulho na infância. Na tua na da amiga que te inspirou, na minha, na de toda a gente para quem um grão de areia num joelho pode ser um símbolo mágico, o veículo de sonho um que para sempre nos acompanha de ter sempre doze anos.
Já li e reli sei lá quantas vezes estes dois textos qual deles mais bonitos. Vou agora deitar-me e tenho a impressão que vou encontrar nos meu sonhos a menina da bicicleta que lia o cavaleiro andante.
Um beijo

legivel disse...

... eu tive doze anos, sim! Não me digas que duvidas da minha palavra... mas eu provo-te. Olha esta fotografia. Que tal? Não me pareço, pois não?! Mas sou eu... bom, era o que faltava, andar agora com esta idade de calções. Mas compara lá a cor dos olhos. Castanhos pois claro! o quê? que não têm o brilho dos... mas é impossível, manter tal brilho durante tantos anos e depois naquele tempo, o fotógrafo de bairro, exagerava na retocagem técnica. Nesta safei-me, que havia putos que ficavam com os lábios quase tão pintados como algumas jovenzinhas com idade para namorar.
E nas costas da mão direita (que segura um exemplar do Cavaleiro Andante (guardo os primeiros vinte números) não reparas num traço mais escuro? é uma cicatriz de uma brincadeira de jogar à espada que acabou mal. E olha a minha mão ao vivo e a cores. Tem ou não tem a cicatriz? ahn?! Tive doze anos pois; e tinha sonhos que hoje me dão vontade de rir. Aliás a fotografia mostra o sorriso que me tem acompanhado a vida toda. Tantos anos a sorrir e não me canso. O coração sim. Já não bate como dantes e o meu cardiologista diz que tenho um coração muito grande. Pergunto-lhe se é mau. Responde-me que nos tempos que correm não é nada bom. Enfim, o homem lá sabe. Pronto. Dá-me cá a foto para a guardar que de vez em quando preciso de me lembrar de mim. Com os sonhos dos doze anos.

Jefferson P. disse...

Nunca havia lido nada igual... foi como seu estivesse sentindo agora meus doze anos... com tombos de bicletas, arranhões e lágrimas...

Lindo!

bjo grande

Lia C disse...

Não sei se o poema que todos procuramos assomará algum dia a alguma janela, mas os que aqui assomam fazem da tua janela um Poema. Obrigada por manteres a janela do belo aberta ao nosso olhar.

(Vinha aqui pedir-te desculpa pela confusão que fiz com o teu nome num blog amigo. Posso voltar a confundir-te o nome, nunca a alma. Beijos-do-imo, muitos)

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