27.11.10

ACREDITA EM MIM



Acredita em mim. O gelo há-de quebrar. Não te direi quantas manhãs terás de inaugurar com a frialdade dos corpos desistentes. Com o arrepio das vozes persistentes. Com a tremura daquelas mãos ausentes. Tu tens a força e as balas não penetram no teu peito. Avanças indiferente à calúnia e à ingratidão e delas dizes - passaram não as vi. Incansavelmente colhes os frutos magros e os secas ao sol para que o doce nasça e o distribuas. Deste a última manta mas outra hás-de tecer com as artes da memória que guardaste. Quando te dizem morte e noite escura sorris e acendes vida nas portadas. Vê bem. O choro que foi sangue  é agora a pureza da linfa, o brilho das nascentes. Não tarda o dia da planura ardente com desejos de céu. Nela entrarás sorrindo sem nada te doer. Esquecerás o gelo e com as mãos revolverás as cinzas em busca do diamante dos teus dias.  Encontrarás o antigo coração e o embalarás colado ao teu e uma nuvem te abrigará da poeira do mundo que pisaste. Continua sorrindo que o fogo muito ao longe já está ganhando cor. Acredita em mim.

Licínia Quitério

16.11.10

O CORAÇÃO DA PEDRA



Vem comigo. Eu ensino-te a ver o interior das pedras. Fecha os olhos. Tacteia o fuste. Sente a fria lisura na palma da tua mão. Abraça a coluna até onde chegar a vontade dos teus braços. Encosta o ouvido como se faz a um búzio. Podes até pensar que tens um corpo vivo  ali ao teu dispor. Escuta o bater do teu coração. Há muito não o ouvias, eu sei. É preciso sonhar com o interior das pedras para ouvir o relógio da vida. Aquieta-te. Não desvies o teu pensamento do coração da pedra. Bate como o teu, não é? Já não está fria a pedra. Podia bem ser um corpo vivo. Há agora água dentro dos teus olhos. Não tarda molhará a pedra e chorarão as duas. Não mais dirás que és diferente da pedra. Depois farás o mesmo com a árvore. Não mais dirás então que tu e a árvore são diferentes. Farás o mesmo com uma estrela quando ela cruzar o teu caminho. Saberás que és igual à estrela. Estarás  pronta para conhecer e amar o coração dos homens.

Licínia Quitério

8.11.10

POR VEZES



Por vezes tudo se confunde.  As minhas mãos
são sol dentro das tuas e há  cintilações nos campos
do Outono onde se guardam nuvens e esmeraldas.
Por vezes tudo se transforma. O céu cansado
mergulha na película dos lagos e adormece
em sono leve rente aos limos e às memórias.
Há um rumor de passos de ninguém e um lamento
de aves sem canto nem asilo. Há um fim de tarde
suspenso nas ramagens das árvores do Verão.
Por vezes sou o Verão a suportar a casa.
Por vezes sou a casa e acolho a sombra.
Por vezes tudo se confunde  e sou a sombra.
Por vezes.

Licínia Quitério

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