10.4.11

A ÁRVORE



A árvore é tudo o que falta no céu
quando a contemplo.
Quem sabe ela ali estava antes de a desenhar
no meu livro de espantos e ternuras.
Tudo o que eu fizer, árvore, 
será com a caligrafia dos teus ramos 
bebedores do azul, da altíssima vibração
do azul na névoa das manhãs. 
Ninguém conhece o teu perfil
quando os meus olhos te não suportam
ou te desvias do meu corpo.
Os teus braços dizem berço e abraço
ou embaraço de outros braços de susto e perdição.
Por certo em teu redor dançaram maldições,
assobiaram pragas, esconjuros.
Assim fazem os néscios a quem
dá sombra ao verão e lenha ao frio
e poiso às aves de qualquer estação.
Inúteis ameaças.
Em minha nuca a tua seiva escorre.
Árvore que eu invento nunca seca. 

Licínia Quitério  

6 comentários:

Justine disse...

Um entrelaçar de palavras, ritmos e ramos, como só os poetas sabem tecer! Tudo tão belo, Licínia:)))

Maria disse...

E como poderia secar se bebe tanta ternura das tuas palavras...

Beijo, Licínia.

hfm disse...

Para além da cadência as palavras são de uma poética e sabedoria que nos comovem.

Graça Pires disse...

As árvores: sempre disponíveis para acolher os nossos cansaços e as nossas sedes...
Um poema belíssimo!
Um beijo, Licínia.

Mar Arável disse...

Sempre excelentes os teus desenhos

com palavras que voam

e aonde me apetece descansar

da sede

Bluuu disse...

Encantei-me por tua Lira, poeta! E pela forma como te comunicas por este sítio. Tens uma admiradora no Brasil.

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