3.9.12

SETEMBRO


Alguém que nos morreu 
nos dias violentos de setembro
deixou em testamento
a garra do calor a vergar-nos 
as pernas na subida.
Na porta escancarada da manhã
podemos divisar sobejos de banquete
e os ossos da casa abandonada.
Despedem-se as aves viajeiras 
em concílios no reino das areias.
Obreiras cegas trabalham 
na desmontagem dos umbrais.
Chega até nós o eco de fogueiras
extintas pela fúria da maré.
Há o cansaço de luas grandes
nos ventres das mulheres.
Herdeiros somos de tantos mortos
que assim nos pesa a vida
na adição dos meses
na subtração dos dias.

Licínia Quitério

11 comentários:

FG disse...

Lindo! Querida, Tens sido o "meu momento" do dia... obrigada.
Filipa

Anónimo disse...

Ora, Licínia sempre me fazes a tradução ...das portas e das ruínas que decifras, creio que Clarisse olha contigo e atrás dos teus olhos.
Foge Setembro e o tempo das perdas, na memória ainda viva, memória viúva de tempos inenarráveis, tempo de cerejas.
Belo... como se um Mosteiro das lembranças fosse arrancado às areias.
Bjinho da bettips

Justine disse...

Saudades de ler a tua poesia lúcida e límpida! (mas esta ausência impões-se-me sem eu saber bem porquê...)
Beijo, amiga

Hanaé Pais disse...

Tem uma escrita poderosa.
Não nos limita, empurra-nos para o sonho de cada um.
Umas vezes gosto, outras não tanto,
mas reconheço-lhe sempre uma grande qualidade subjacente.

Licínia Quitério disse...

Hanaé Pais, agradeço os seus comentários. As apreciações, vindas de alguém que não conheço, são estimulantes pela sinceridade que nelas presumo.

Mar Arável disse...

Há sempre uma fenda

nos escombros
por o sol espreita

Bjs

bettips disse...

Todos os poemas
e todas as palavras (tuas) assomam a janelas do nosso espírito.
(já teria dito isto?)
Bjinho L.

gina henrique disse...

Visite o meu blogue, tem lá um prémio para si.
Um abraço.
Gina

Licínia Quitério disse...

Muito obrigada pela menção, Gina.

heretico disse...

há que (re)fazer os umbrais. em nossos ombros...

beijos

M. disse...

Premonitório.

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