30.10.12

VI


Vi não sei bem se vi com os meus olhos de ver se com as mãos ou com a matéria incandescente do desejo na brevidade das mãos vi ou não vi no átrio a porta entreaberta o tilintar da loiça a sirene ao longe o aroma da alfazema vi agora posso afirmar agora que esse roçar de pele esse repique de sinos me acordou sim juro solenemente vi a tua cabeça esquecida do corpo do átrio dos ruídos dos cheiros da 
obscenidade da morte a tua cabeça a luz da tua cabeça a voz da tua cabeça tão igual tão antiga a voz dizia eu na fresta da porta no torpor da tarde pedindo ou dando é igual a sílaba única do meu nome as duas sílabas do sítio ainda inabalável redondo fogo e cinza janela e porta e a tua cabeça ou melhor a voz da tua bela cabeça dizendo

Licínia Quitério

2 comentários:

Justine disse...

Quase assustador de tão belo e pungente...
Até para a semana:))))

M. disse...

Gosto muito.

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