30.4.14

O PODER


O poder é uma janela que se abre sem se abrir,
uma janela aberta por dentro, fechada por fora.
O mais longo tempo do poder é ocupado a
inventar janelas, depois a construí-las.
O poder tem rosto de olhos abertos sem pálpebras,
frios como os dos peixes quando dormem e não vêem.
Os olhos do poder são facilmente reconhecíveis,
chamam-se janelas, todas iguais, opacas, vidradas
como os olhos cegos, como os olhos mortos.
Por detrás de cada janela há a respiração ofegante
dos que projectam, ininterruptamente, mais janelas,
quem lhes dera sem vidros, só a aparência de vidros,
só a morte da transparência, só o triunfo da palidez.

Licínia Quitério

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