9.5.14

MOINHO


Estás aí, parado, exibido, e a turba a dizer foi assim, já não é. Em ti a memória da dureza do grão, da toada do vento, da moleza da água, da mudez das mulheres, na sementeira, na debulha, na ordenha do gado, na lavagem da roupa, no linho, na renda, na descoberta dos homens, a parir, a ajoelhar, a abençoar, a suplicar, a adivinhar, a amaldiçoar. Aí, parado, és sombra, assinatura, marca, nostalgia, vizinhança, anúncio. Moinho, país, à beira água, na lembrança do grão, na perdição do oiro. Conquistador do vento, sedutor, seduzido, perdido na paisagem, na promessa de flores, ou de grãos, que a seara é vasta e a ceifeira não falha.

Licínia Quitério

1 comentário:

Graça Pires disse...

Do tempo em que os moinhos era uma visão de promessa da fartura...
Um texto maravilhoso, Licínia.
Um beijo.

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