26.7.16

A SEDE

Esperas uma pequena brisa 
que afague a pedra crua desse banco. 
Já aprendeste o furacão e o silêncio depois dele, 
na imobilidade dos destroços. 
De mares e marés sabe o teu corpo 
depois do barco e do barqueiro 
e do sangue com que fizeste o óbolo. 
Sabes do grito do arame  
e o teu espanto lá ficou, preso na farpa. 
De tanto caminhares já esqueceste 
o tamanho dos pés, a inclinação dos dias. 
Sentiste o desejo de mulheres, 
mas as que viste tinham na pele 
a palidez dos mortos e de ti fugiram 
porque negro, porque noite, porque medo. 
Longe do mar, longe da terra prometida,
pouco mais tens do que o teu corpo
sem certidão nem idade, que as deixaste por aí,
entre dois pontos cardeais.
Por baixo desse corpo tens o banco
de pedra pálida como a pele das mulheres
que te rejeitam. Sentado esperas
não sabes se uma pequena brisa
se uma pequena faca com que cortes
a corda que não puxa o balde que 
não traz a água que não mata a sede.

Licínia Quitério

1 comentário:

Graça Pires disse...

Que prazer ler-te, Licínia!
Um beijo.

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