26.4.06

DO HORROR


Se um dia acontecer que dês por ti
rodeado de escombros de um inferno
que homens e afectos calcinou
e um silêncio de cinzas te comprimir o peito
e os passos se tornarem de súbito pesados,
ao caminhar nos trilhos dos comboios passados,
e os olhos se mancharem de vapor de lágrimas
quando vires os despojos bafientos - a pele, o pelo, o dente,
o urso de peluche, a maleta, a muleta…
e as unhas se fincarem necessariamente
no reverso das mãos molhadas de suor,
perante o horror escorrente das paredes hirtas,
e os lábios se cerrarem até à flor da dor
ao enfrentares os fornos, os wagons, as latas do veneno,
e voltares desse campo, feito para não voltar,
com as pernas a tremer, a arredar o pranto,
e te sentares à mesa e não puderes comer
enquanto não largar da goela o garrote,
não perguntes mais nada, aquieta-te, descansa,
compreende que tudo aconteceu
porque entre os homens não houve vizinhança.


Licínia Quitério, "Da Memória Dos Sentidos"


AUSCHWITZ poderia ter sido apenas um lugar como tantos outros, algures no interior da Polónia. Sem história e com o seu nome polaco original, em vez da tosca adaptação para o alemão, por semelhança fonética. Poderia, se a Besta não o tivesse elegido para altar de sacrifício de milhões de homens que ali foram reduzidos a nada. AUSCHWITZ é um dos expoentes de vergonha da Humanidade. A frase que encima o portão do campo de extermínio e que, em português, quer dizer "O Trabalho Liberta", é, por si só, um crime maior para o qual não encontro perdão.
Já fui visitar este campo. Senti-me mal. Com o mundo, comigo. Foi há muito tempo. Não gosto de falar disto. Mas, comprenderão, tenho de o fazer, de vez em quando. Hoje, foi convosco.

Licínia Quitério

2 comentários:

Era uma vez um Girassol disse...

Até me arrepia pensar que poderia lá ir...Imagino o choque que se sente ao visitar um lugar tão macabro, de tanto sofrimento...
Sei que saíria de lá de rastos, por variadas razões, por isso nunca fêz nem fará parte de planos de viagem.
Licínia, beijinho!

Teresa David disse...

Que fantásticamente horrendo poema! Vi nele o que senti ao visitar Mautausen, campo de concentração na Austria, quando por lá andei. Como tenho ascendência judaica, como o meu apelido bem indica, sempre me debrucei sobre o fenómeno do nazismo, sem nunca até hoje ter entendido o estado de demência colectivo que levou uma esmagadora maioria do povo alemão a apoiar um demente como o Hitler.
Também fiquei a reflectir sobre o seu comentário ao meu escrito sobre o Escravo, pois nunca se me tinha posto a questão, nem nunca senti a possibilidade de ser escrava de mim própria. Mas creio que até é possível, sobre várias vertentes. Obrigada por me fazer pensar nisso, e mais uma vez mts parabéns por este espantoso texto/poema.
Um abraço
Teresa David

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