15.4.06

ÁRVORES

São nossas companheiras de viagem. Acho que sempre tive árvores amigas a quem tratei por tu. Quando eu era pequena, em frente à minha casa havia uma Figueira e uma Nogueira. Os meninos pobres aguardavam avidamente que frutificassem. No jardim público, um Dragoeiro exibia o tronco em que os apaixonados adolescentes esculpiam corações trespassados de setas. As Amoreiras ofereciam as folhas para alimentarem os bichos-da-seda, criados em caixas de sapatos com furinhos. As Tílias aromatizavam as noites de Verão.
Agora que já sou mais crescida, namoro com um Plátano solitário que é meu vizinho e que, por vezes, se atreve a festejar-me os cabelos, com a desculpa de um pequeno e inesperado vento. Faço de conta que acredito e retribuo a festa numa daquelas verdes folhas-mãos que no Outono serão douradas e correrão rua abaixo e me baterão à porta. Escolhi bem. É bonito, agarra-se com firmeza às profundezas da Terra, protege-me dos ardores desmesurados do Sol, mas deixa-me sempre ver o Céu por entre as malhas da rede dos seus braços oscilantes. Espero que nunca ousem derrubá-lo. Sentiria muito a sua falta.
Hoje, vou falar de uma outra árvore com quem travei conhecimento no último Verão. É fêmea, é esbelta e tem um nome difícil de pronunciar. Contei ao meu Plátano como ela é. Pareceu-me demasiado interessado. Confesso que cheguei a sentir ciúmes deste namorado vegetal. Mas não lhe dei a entender, como convém.

Ouve o que escrevi sobre ti, amiga Araucária.

A araucária não é só um nome
retorcido, esquisito.
Tem lá dentro uma árvore
erecta, sem hesitações.
Todos os anos lhe rebentam braços,
no patamar de cima, a abrir em leque.
Os braços têm mãos, de dedos escamudos.
Numa escalada calma,
o esdrúxulo nome vai-se construindo,
as mãos proliferando.
Os braços mais extensos
viram-se para o alto, a vigiar os novos.

A araucária não é só um nome.
Se tem dentro uma árvore, tem flores.
Se tem flores, frutos aí virão.
Discretamente, nos seus braços recentes
aninhará os filhos que ninguém colherá.
Tão alto os vai esconder que só os vê
quem um dia à sua sombra se deitar,
olhando o céu desenhado pelos dedos
da esdrúxula palavra (ou grave, tanto faz).
E quem os vir não calará seu espanto
quando, no chão colado, a desistir,
um fruto ou um astro verde descobrir,
a irmãos arrimado.
Um aconchego, uma frescura,
uma promessa de ternura.

A araucária, com seu acento agudo,
não é um nome. É um mundo inteiro.
Por isso os filhos-frutos só se mostram
a quem sentir o chão ou então voar,
mas sem perder de vista
os braços que mais logo nascerão.

L.Q.

7 comentários:

Xigato disse...

LQ,
O teu sítio do poema não podia estar melhor. A publicação da tua obra é um acto de Amor libertário que lhe confere existencialidade e define a tua enorme coragem e solidariedade para com os outros que gostam de te ler, nos quais eu me incluo. O teu comentário ao meu vazio blog, empurrou-me e comecei a publicar aquilo que sinto e sei relativamente à Música.
Parabéns e continua, que eu, uma vez em andamento, já não sou capaz de parar.
Obrigada pela tua ajuda.
Beijinhos do Xigato

Era uma vez um Girassol disse...

As árvores têm uma grande importância na nossa vida e esse namoro com o Plátano espero que vá de vento em popa!!!
Que delícia de poema sobre a Araucária! Tive uma araucária no nosso jardim, em Moçambique, tão linda...
Fiquei a pensar nela ao ler este post...
Beijinho

jorgesteves disse...

Um sorriso à sua árvore; derramado no colo que lhe leva os prantos do céu às raízes. Eu sei que elas gostam desses mimos...
jorgesteves

Teresa David disse...

Que bela linguagem. Parabéns.
Beijos
Teresa David

tb disse...

que lindo! Sabes que tenho uma araucária aqui? Estendo o braço e amimo-lhe as folhas picantes e agrestes onde os pintasilgos gostam de debicar, construir os seus ninhos e cantar!
Lindos os teus poemas.

De Amor e de Terra disse...

É muito bela a tua Araucária Amiga;
muito bela mesmo.

AMEI.


Maria mamede

Luz de Estrelas disse...

Adoro, adoro, adoro. Todos. E é muito, mas muito difícil ler um poeta que me convença. Não pq me arrogue o direito de julgar os outros, mas porque sinto, bem cá dentro, os que têm aquele brilho e os que não têm. A diferença: estes últimos soam-me sempre a "forçado", artificiais, mera conjugação de palavras bonitas. Os primeiros estão vivos.

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