29.6.06

DO TEMPO


Foto do Tó-Zé - Tempo Antigo

Há quanto tempo foi
que esta batida começou
a ecoar pelas crateras
dos vulcões dormentes?
Vieram gelos e degelos
e com eles chegaram e partiram,
de mãos dadas com os deuses,
bactérias, sáurios, mastodontes
que ainda procuramos,

na ânsia de saber
como foi que tudo aconteceu.
Esse pulsar cadente
ora nos enche de sustos,
ora nos despe ao sol,
ora se diz amor ou raiva ou dor.

Quando não o sentirmos,
vão dizer que morremos.
E não nos importamos.

Também os retratos envelhecem. Amarelados. Manchados de humidades. O pulsar do Tempo nada poupa. Um dia talvez as nossas interrogações cessem de pairar. Um dia talvez possamos transpor o arco para além do qual alguma luz se mostra. Um dia talvez saibamos da batida e saudemos os sáurios. Entretanto, para cá do arco, vamos contemplando os retratos no fundo das gavetas, lembrando o musgo nas paredes e aproveitando o Sol para nos despirmos.

Licínia Quitério

20 comentários:

tecum disse...

só por mercê de São Pedro, posso hoje, finalmente, agradecer a amável visita comentada ao meu azulão.

grata por me teres ensinado este caminho, que não conhecia.

um beijo

Maria P. disse...

E o tempo pergunta ao tempo, afinal quanto tempo o tempo tem...

beijinho e bom S. Pedro.

herético disse...

o teu poema (e o teu comentário sobre ele) soam como um "big bang" poético, iluminando a sensibilidade e a inteligência. grato.

Era uma vez um Girassol disse...

O pulsar do Tempo, inevitável.
As fotos antigas guardo-as numa caixa e gosto de lhes mexer e remexer...Como as crianças que jogam com os puzzles, tirando e pondo até acertar na forma e cor.
Com alguma serenidade, mandando a angústia embora.
Bjs

alice disse...

oxalá não macule, licínia:

perguntei ao tempo:

tempo, quanto tempo tens?

e o tempo respondeu:

tenho-te.

e foi tudo o que restou.

um grande beijinho, alice

(agradeço as suas palavras, sempre, sempre, sempre)

Hortência disse...

é impossível deixarmos de falar do tempo rei, que transforma todas as coisas e abriga tantos sentidos.
Gostei do comentário após o poema...
(podem dizer que morremos, que não nos importamos, gostei sensivelmnte disso)
beijos

mar_e_sol disse...

Tic-tac, tic-tac
passa por nós indiferente
minutos, horas, dias
e nós vamos
crescendo, guardando
vivendo, sentindo
gostando, amando
é o mistério da vida!...
Beijinho e um bom fim de semana.

Tita - Uma mulher, Um blog, algumas palavras disse...

Nem imaginas como hoje tuas palavas me tocaram. Hoje fui capaz de as sentir de uma forma tão intensa, porque é o que sinto.
Obrigada
beijo e bom fim de semana

tb disse...

linda reflexão que nos transporta ao tempo dentro do tempo...
Beijinhos intemporais

alice disse...

querida licínia,

serei sincera, ainda que ignorante, mas nunca ouvi falar na hélia correia, pesquisei sobre ela no google quando recebi o seu comentário e vi que bastardia é o seu último romance, mas se quiser fazer o favor de explicar que coisas são essas, agradeço...

agradeço as suas palavras, senti o vento a empurrar-me, o ensaio continua amanhã, desejo-lhe um bom fim de semana, um grande beijinho para si

;)

alice

alice disse...

favor ler: hoje onde diz amanhã

mudei de ideias e postei ;)

beijinhos,

alice

Tons Pastel disse...

sempre muito bom passar por aqui. O habitual poema e a pequena narrativa a acompabnhá-lo. Um dia talvez a luz , talvez o sol, talvez o tempo...talvez tudo seja bom. Hélia Correia, minha conterrânea.
Beijinhos

rutebruno disse...

Linda foto...
Bonita pessoa...
Sempre e para sempre...

legivel disse...

Do tempo não me arreceio
ao tempo não digo nada;
a virtude está no meio
desta nossa caminhada.

Desta nossa caminhada
temos de tirar proveito;
ir até ao fim da estrada
sem nunca a levar a peito.


Hoje deu-me para as rimas. Que não correspondem ao sentir do autor; apenas... rimam. Sorridentes.

Beijos e um óptimo fim-de-semana!!

alfazema disse...

Um dia todos nós amarelecemos como as fotografias e passamos esse arco depois deste coração deixar de pulsar. Quando já não sentirmos a dor, a alegria, a tristeza , o amor...e depois o que será do que um dia fomos?
Beijinhos

Joshua disse...

Nem o tempo antigo é tão distante, nem o futuro tão longínquo, há-de haver um tempo de não tempo, onde os monumentos de fé e de amor sejam pessoas que nunca morreram ao contrário do que se pensou.

Um pé no sonho outro na esperança!

Vem visitar-me no meu blog monumental!

Joaquim Santos

www.joshuaquim7.blogspot.com

De Amor e de Terra disse...

...um dia, tenho a certeza, Licínia, encontraremos essa passagem que fica Além do Arco Íris e seremos perfeitos!

Um beijo enorme pela visita e parabéns pela beleza do que escreves.

Maria Mamede

OvelhaNegra disse...

Urge, por vezes, dar tempo ao tempo. Mesmo que os retratos da vida amareleçam, os musgos desapareçam e os arcos sejam transpostos.
Temos um encontro marcado com o tempo.
Tenhamos nós tempo para ele ou não, o encontro efectuar-se-á.

Um beijo*
Um sorriso*
Bom domingo.

FOTOESCRITA disse...

Como é bonito tudo isto que aqui encontrei! Lindo! Lindo!

Vasco Pontes disse...

Olá querida licínia,
nem sempre comento em tempo, por vezes fico a marinar, já sabes... até para contrariar esta urgência bloguística pelo actual.
Mas o que interessa: Gosto tanto do poema - bom ritmo, imagens bem achadas, tema interessante-, como do comentário. Já tinha dito que os teus comentários não ilustram apenas , ma vão além do próprio poema? :)
Beijos

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