3.7.06

DA DIGNIDADE



Francisco de Goya - Os Fuzilamentos do 3 de Maio de 1808

A que morreu às portas de Madrid,
com uma praga na boca
e a espingarda na mão,
teve a sorte que quis,
teve o fim que escolheu.
Nunca, passiva e aterrada, ela rezou.
E antes de flor, foi, como tantas, pomo.
Ninguém a virgindade lhe roubou
depois de um saque - antes a deu
a quem lha desejou,
na lama dum reduto,
sem náusea mas sem cio,
sob a manta comum,
a pretexto do frio.
Não quis na retaguarda aligeirar,
entre «champagne», aos generais senis,
as horas de lazer.
Não quis, activa e boa, tricotar
agasalhos pueris,
no sossego dum lar.
Não sonhou minorar,
num heroísmo branco,
de bicho de hospital,
a aflição dos aflitos.
Uma noite, às portas de Madrid,
com uma praga na boca
e a espingarda na mão,
à hora tal, atacou e morreu.
Teve a sorte que quis.
Teve o fim que escolheu.

REINALDO FERREIRA

Você trabalha para nós há muitos anos já. Sabe que gostamos do seu trabalho. Sabe que é mesmo uma das pessoas mais competentes da nossa empresa. Os clientes fazem muito boas referências a seu respeito. E é muito bem vista pelos seus colegas. Nem todos, claro. Você sabe porquê. Ninguém gosta de ser chamado de traidor. Lá porque não alinharam naquela greve, não quer dizer que não sejam boa gente. Onde é que eu quero chegar? Não, sabe bem que nós não queremos saber da política de cada um. Por você ser mulher? Nem pense nisso. Na nossa família sempre fomos muito liberais. Até tive uma tia-bisavó sufragista, você sabe. Porque o seu marido é lá dos sindicatos? Isso não tem nada a ver, acredite. Então? Ora, como é que eu hei-de dizer... Pronto, vamos direitos ao assunto. Você é inteligente e sabe o que lhe convém. Há aquele lugar de chefia há muito à sua espera. Sim. Só que, você sabe, é um cargo de confiança e precisamos que você... Não faça essa cara. Estou a falar-lhe com o coração nas mãos. Eu sei que anda aí uma lista de reivindicações a correr pela fábrica. Já viu, pois então. Está lá o seu nome. Não, não estou irritado. Percebeu, percebeu o quê? Bastava uma palavrinha sua e esse estúpido movimento acalmava. Ó mulher, não se precipite. Pense na oportunidade que lhe estamos a oferecer. Amanhã dá-me uma resposta. Chantagem? Você diz cada coisa! Dignidade, dignidade... Pronto, pronto, não se exalte. Vamos ficar por aqui. A propósito: fica a saber que o seu serviço passará a depender directamente do Dr. Guimarães. Então se já calculava, agora pode ter a certeza. E só mais uma coisa: esta conversa entre nós nunca existiu. Apre, não me fale mais em dignidade! Pode ir.

Licínia Quitério

15 comentários:

Velutha disse...

há acasos que não têm explicação. a cidade onde vivo há dois anos vim encontrar aqui no seu poema no dia em que fiz um blog.
extraordinário poema! excelente sítio para passar.
abraço

Maria P. disse...

Um trio digno, imagem, poema, texto.

Beijinho vizinha.

alice disse...

querida licínia,

agradeço as suas visitas com toda a minha melhor gratidão

assim que possível, passo na fnac e procuro o raomance "bastardia"

deixou-me no mínimo curiosa com a sugestão e vinda de si é de seguir

abandonei o ensaio, não há ruína que resista ao meu mau feitio...~

estou a pensar em algo diferente, talvez ainda esta semana, vamos ver

tem sido uma amiga valiosa nos seus comentários, muito obrigada

não me atrevo a comentar o post, é de uma "dignidade" imaculável

um grande beijinho,

alice

tb disse...

pois...quadros da vida real!
Beijinhos

aquilária disse...

li o reinaldo ferreira quando era ainda uma adolescente. lembro-me muito bem deste e, também, de um outro:
"mínimo sou.
mas quando ao nada empresto
a minha elementar realidade,
o nada é só resto".

o poema e o texto: as opções possíveis, saber quais são as regras do jogo, no escalar da vida. convicção e coerência em cada escolha feita.
pensar e dizer: sim, esse é o caminho mais fácil mas..."sei que não vou por aí" (citando régio)

um abraço, licínia. por vezes o muito que temos a partilhar não cabe na caixa de comentários de um blog.

Vasco Pontes disse...

De Camões a Pessoa - AViagem Iniciática (SeteCaminhos), com pinturas e textos de Ellys e poemas de Maria Azenha, é o livro que será apresentado na Casa Fernando Pessoa no próximo dia 17 de Julho pelas 18h30.

Dafne disse...

Reinaldo Ferreira, sempre...
Belas imagens, o poema é magnífico.
Beijinhos,

mar_e_sol disse...

Grande dupla sim: Reinaldo Ferreira...Licínia Quitério...excelente encruzilhada acompanhada com uma imagem "magnífica"...
Grandes verdades com poucas dignidades, chantagens e hipocrisias misturadas...
Beijinho

legivel disse...

O discurso profissional da actualidade muito bem retratado.

e

Agora a repressão está mais democratizada.

beijos.

Velutha disse...

este blog é um dos meus preferidos. ainda conheço muito poucos mas com este houve uma coincidência como já expliquei e gosto muito de poesia. Felizmente estou a perder a timidez mais depressa do que pensava mas só aqui, na internet. na cidade continuo a fazer a minha vida solitária.
abrazos

Joaquim Amândio Santos disse...

o cinismo será sempre "business as usual"...

jorgesteves disse...

O poema e o texto são sabores para os olhos e para a alma. O quadro é do Goya que me lembrou Lorca que dizia 'às vezes é preciso chafurfar na lama para saber que ela existe'!

amizade,
jorgesteves

GTL disse...

Cara Licina,
já há algum tempo que não espreitava este cantinho.

Quanto a Reinaldo Ferreira, excelente escolha como sempre.

Quanto à dignidade...
É o país que temos, são as chefias que temos, a começar no próprio Governo que é o topo da piramide.
Quando o Governo exerce represálias sobre os trabalhadores grevistas (veja-se o caso da requisição civil feita aos professores), e toma medidas que vão gerar maior precariedade no emprego, não podemos esperar melhor das nossas chefias.
Da minha parte deixo-lhe uma palavra de incêntivo, vale o esforço, vale a perseguição, vale a luta, vale a esperança num futuro melhor, mais justo, mais equitativo.

Beijo grande

É assim que sinto orgulho em ser mulher ;)

MDB

Teresa David disse...

É sempre a mesma guerra de poderes. Quando é que as pessoas perceberão que estar vivo é algo de tão precário e efémero que não valem a pena as guerras de poder pessoal, que a maior parte das vezes nem sequer servem para trazer felicidade pessoal a quem tenta de todas as formas esmagar os outros para se erguer.
Um abraço
Teresa David

lique disse...

Reinaldo Ferreira, uma escolha sem mácula. E todo o teu texto, como é actual,em todas as áreas de actividade! É decidir entre o manter da dignidade,o sermos fieis a nós próprios ou fazer concessões para atingir outros fins. Infelizmente, é "o pão nosso dee cada dia".
Beijinhos

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