26.8.06

DA NOITE






Vincent Van Gogh - Noite Estrelada


NOCTURNO

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gin, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste Verão.

Era, no gira-discos, o "Martírio
de São Sebastião", de Débussy...
Era, na jarra, de repente, um lírio!
Era a suspeita de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, também, um choro de criança...

DAVID MOURÃO-FERREIRA


É de noite e pelas paredes da casa escorrem sombras, a iludir as formas, a engordar volumes.
Ela é Alice e olha o gato enroscado no colo.

As flores na jarra secaram, mas a lembrança do orvalho dá à noite um cheiro líquido. Os livros dormem e alimentam a avidez das traças.
De longe, chega o lamento uivante de alguém que se perdeu e não voltou a casa.

É de noite que chora. Não grita, não soluça. Só lágrimas a lavar a máscara do dia.
De noite escreve. Sem endereço, que o mensageiro é a própria noite, sabedora de destinos por cumprir.


Licínia Quitério

20 comentários:

DIAFRAGMA disse...

Mais um "dueto" lindíssimo com um título excelente e com o meu pintor favorito. E tanto quanto sei, o único para quem o museu foi feito "à volta dos seus quadros", e não os quadros colocados num museu existente como sempre.
Magnífico.

pitanga disse...

Vim aqui só para confirmar o que já imaginava. Girassol fala muito em si, tinha de ser algo especial. E é.
abraços Pitanga

Maria P. disse...

Foi bom reler David Mourão-Ferreira.
Foi bom ler Lícinia Quitério.

É bom existir este Sítio.

Um beijinho, vizinha.

Ana Prado disse...

Um dos meus quadros favoritos; um dos meus poetas de eleição. E as palavras tão certas, tão lucidamente enleadas a fazerem o texto. As suas palavras, Licínia:)

Muito obrigada:)

sabr disse...

Bonito, bonito, bonito...e imenso, intenso. Bom domingo.

vida de vidro disse...

Momento muito bem conseguido, este diálogo com David Mourão Ferreira. Vir aqui é sempre um prazer acrescido. Hoje até tive o bónus da imagem ser do meu pintorb de eleição. **

Teresa David disse...

Van gogh sempre! mas digo-te sem lisonja alguma, que gostei mais do teu texto do que do poema do Mourão-Ferreira, está mesmo mto belo.
Bjs
TD

agua_quente disse...

Feliz conjugação de talentos neste post. Uma perfeita harmonia sobre a noite e os seus fantasmas.
Beijos

FOTOESCRITA disse...

Os dois azuis: o de Van Gogh, que adoro, e o das palavras. Gostei muito.

saKuraBunekOlaNdi@ disse...

mUito lindo... Linda pintura... linda conjução de palavras.... a noite....... amiga da solidão... ou não. ;) beijo

Era uma vez um Girassol disse...

Tudo perfeito: o quadro, o poema, a prosa. A dor-dor, a dor-solidão.
Licínia, sim, de noite tudo é negro, muitas vezes esquecemos que há luar e estrelas no céu.
Beijinhos

legivel disse...

Amiga Alice:

Sabemos ambas -e de que maneira! que as nossas letras não chegarão aos olhos de quem nos olha de soslaio ou atravessa para o outro lado da rua como se fôssemos portadoras de alguma doença contaminante. Ou de quem nos julga -apressadamente, criaturas de outra galáxia, prenhes de desejos obscuros ou quiçá de instintos malévolos, destruidores dos altos valores morais que creem possuir.
Estas palavras serão apenas lidas por nós. Que as entendemos e amamos.

Com amizade, Alice.


Alice fechou a carta e fez o gesto de a estender a alguém. Depois, o seu braço voltou à posição inicial, deixou a cair a carta no colo e breves segundos passados abriu-a e leu-a comovida.
Lá fora, na Avenida do Brasil, as pessoas seguiam a sua vida, alheias a outras vidas.

Óptima semana!


PS: Agradeço referência do meu blog no "passatempo virtual" e que não prossigo, uma vez que os nomes que eventualmente poderia nomear, já foram todos... nomeados.

pensamentos_vagabundos disse...

ESTE É DOS MEUS QUADROS FAVORITOS:)GENIAL NAO É?
BEIJO VAGABUNDO

herético disse...

palavras, as tuas, de uma beleza magoada, como se noite fosse "espinho de uma rosa brava"...

pitanga disse...

Que bom vê-la no Pitanga! Os próximos post serão mais alegres. Vai ver!
beijos

JPD disse...

Muito bonito, Licínia.
Concordo contigo: é de noite que as maiores (des)ilusões ganhão corpo.
(Vou procurar a sugestão do Debussy)
Bjs

Henrique Doria disse...

A noite devora-nos com as suas cabeleiras.Beijos.

TMara disse...

há dias em k só assim encontramos paz.
Mas outros são diferentes e solares.
K o sol brilhe e a luz em ti. Bjs. Luz e paz
P.S - e foi bom reler este soneto de D.M-F e da´partires

aquilária disse...

belo texto, licínia.
talvez um dos mais belos destinos de alice estivesse ali, secasse elas as lágrimas e fechasse os olhos, à distância de um sonho.
um beijo e o meu apreço

Tita - Uma mulher, Um blog, algumas palavras disse...

Muito agradável reler aqui David Mourão-Ferreira e sempre agradável ler Licinia.
Acho genial essa ideia de se inspirar em autores Portugueses e daí desenvolver a sua arte.
Este foi um dos que mais gostei.
Um beijo

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