6.12.06

LABIRINTOS


foto de L.Q.
É a brancura da manhã deserta
dos rostos habitantes de outros
sóis.
O rumor leve das folhas outonais

pelas veredas do teu ouvido interno.
Escutas a história de Ariadne,
a outra, a descuidada, a sem temor,

a que se riu do Minotauro e o fio largou.


Não queres saber do fim.
Afastas a folhagem.

Basta-te o labirinto do silêncio.
Teseu não mais voltou.
Se morto ou matador, agora tanto faz.


Nunca entendeu a cidade. As ruas como serpentes, subindo e descendo colinas, num alvoroço de carros e de gentes. Becos, travessas, calçadas, em profusão. Largos, praças, pracetas. Sabia que lá no fundo se deitava o rio. Dele o cheiro de marés e marinheiros de travessia. Dele a neblina sonolenta a roçar as portadas, a assustar as sardinheiras. Quantas vezes se perdeu na traiçoeira malha de caminhos? Insistia. Retrocedia, aceitava o desafio de uma curva em cotovelo, seguida de outra e outra e mais outra. Dobrava as esquinas que para ser dobradas foram feitas. Por vezes, sentia cansaço e parava num miradouro. Aproveitava para ganhar pontos de referência: uma igreja, um obelisco, um jardim, um prédio assustadoramente alto. Não voltaria a perder-se. Mas a memória estava gasta de lembrar os seus mapas interiores. E voltava a perder-se. Desistiu de entender a cidade. Aprendeu a viver nela sem tentar decifrar-lhe os enigmas. Tranquilamente, percorria os seus labirintos, deixando o acaso escolher as direcções. Até que um dia se encontrou em frente a um portão entreaberto, ao fundo de uma ruela sem brilho. Ia jurar que nunca ali tinha passado. Sentiu um arrepio quando o transpôs. Olhou para trás e viu a cidade larga, limpa, sem serpentes nem neblinas. Mas longe, longe... E seguiu em frente.

Licínia Quitério

20 comentários:

alice disse...

e foi do ângulo que as pernas dela desenhavam a percorrer o mundo que o arquitecto subtraiu a equação da vida. beijinhos, licínia.

maria disse...

Excelente composição, Licínia, tal como nos tens habituado.

Agora citando Borges, não a despropósito: "Acreditarás, Ariadne, - disse Teseu - o Minotauro quase não se defendeu?".

Um beijo.

Cusco disse...

Também queria continuar.. seguir em frente. Mas receio não pôr nas palavras as velas brancas combinadas e não ter ainda a força suficiente para levantar a espada. Como Teseu..

Bandida disse...

no dia das cidades sonolentas...







beijo.
______________________

Rui disse...

Sem que o soubesse na altura, levou parte dela dentro de si.

PHYLOS disse...

Excelente texto, muito bem escrito. Parabéns. Phylos.

hfm disse...

O final do poema é soberbo!

pianola / Sonia R. disse...

Belo labirinto. Bom dia.

Não gosto do Natal com férias no Brasil, idosos abandonados nos corredores dos hospitais, gente a dormir na rua.

Maria P. disse...

Excelente. É um prazer esta leitura, parabéns.

beijinho amiga:)

FOTOESCRITA disse...

Tão bonitas as tuas letrinhas azuis!

vida de vidro disse...

Um belo poema mas o teu texto "azul" está de superior qualidade. Com um final susoenso e intrigante. **

legivel disse...

... saiu do larga da graça, desceu a íngreme calçada do monte e as escadinhas que com a velocidade do balanço nem lhes viu o nome, rasando a rua do benformoso e achou-se no socorro. Sabia que a sua passagem causava um misto de espanto e de algum receio pois os habitantes da labiríntica cidade não se assemelhavam de forma alguma a este corpo meio-homem, meio-animal-cornupto. Na praça da figueira e na confusão da multidão, um dos seus chifres raspou mesmo, rasgando (embora ligeiramente), o blazer de alpaca de um homem de meia-idade que ficou para trás, a gesticular vermelho de raiva. Meteu-se pela barros de queiroz e achou-se no rossio em segundos. Parou por momentos e as largas narinas sondaram o ar. O odor do rio já estava próximo, teve a certeza e o instinto animal indicou-lhe que seguisse pela rua augusta. No cruzamento com a de santa justa uma criança exclamou para a mulher que a levava pela mão e apontando o dedo «Mãe, vai ali um boi com calças!» ao que a senhora retorquiu «Não filho. É um homem com cornos!». E o terreiro do paço ali tão perto. E o tejo. E tudo. Teseu veio ao seu encontro e fez o que se sabe

Em directo, do exterior do Labirinto, Rodrigo Minos, RTV 6.

batista filho disse...

Belíssima composição, amiga... e ainda de brinde levamos o comentário do Legível!!!

bettips disse...

Teces uma renda, pensas um bordado. Alguma saudade sóbria que te matiza as palavras. Serás uma pessoa tão bonita!

blugaridades disse...

Excelente! Gostei muito?
O poema mora aqui? Escolheu muito bem o sítio para se refugiar.
Voltarei.
Beijinhos

Mendes Ferreira disse...

boa tarde poeta....que assim desenhas...um labirinto todo especial.




obrigada....


beijo.

Antonio Melenas disse...

De uma maneira muito particular, quero dizer, mais do que em outras vezes este teu texto de prosa se casa com o poema. Também eu me senti perdido na vertigem labirintica do sentido das palavras, mas como que êxtase. è um gsgosto ler-te
bjs

o feiticeiro da brisa disse...

Nunca entendeste que ser morto oi matador tanto faz. Nunca entendeste que nesta história ninguém morre.

Suave beijo

herético disse...

os fios de Ariadne são caprichosos.
e há sempre na cidade, um recanto, uma silêncio, uma catedral para descobrir ou um muro para saltar...

gostei muito. do poema e do texto

Luís disse...

Olá Licínia,
gostei muito dos seus poemas,
Esta pagina vale ouro.
Abraço.

Escuta estas musicas brasileira depois tu me falas se gostou.

copia o link e cola na barra de endereço.


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