Eu tinha doze anos e um corpo inconsciente a brincar com o vento. Da chuva só sabia que lavava o sal das minhas mãos. A verdura dos olhos escondia segredos na arcada do céu, na fundura do mar. Esperava pelo peixe com asas de dragão que me levasse às ilhas perfumadas dos meus sonhos de verão.
Aos doze anos a areia era oiro em pó, mas não tinha valor porque o maior tesoiro estava na cabeleira loira do rapaz a cavalgar a nuvem e a soltar melodias que havia de trocar pelo pranto dos rios.
Com doze anos eu tinha um coração igual ao meu.
Não, tu nunca tiveste doze anos. Os meus ficaram para sempre agarrados a um grão de areia que se entranhou no joelho direito e de lá se recusou a sair. Foi quando caí da bicicleta que o meu amigo me emprestou. Disse "sem mãos" e não reparei no pedregulho no meio da vereda. Chorei muito quando vi o sangue a escorrer e a empapar os "soquettes" brancos. Nesse tempo os curativos faziam-se na farmácia. Doíam tanto. Mas sabes que me sentia importante por ter uma ferida daquele tamanho? Como os heróis do Cavaleiro Andante, eu iria ficar com uma cicatriz. Eu sei que era literatura para rapazes, mas era da que eu gostava. Tu não. Nunca tiveste doze anos. Eu dançava, em redor da ameixeeira que meu pai plantara. E depois trincava as ameixas e deixava o sumo, mais escuro que o sangue do joelho, escorrer pelo pescoço, pela blusa. Dava-me arrepios. E o que eu gostava de me deitar de costas no chão da rua a olhar o céu. Dali viria o meu amor loiro. O pior era quando a minha mãe chegava primeiro. Tive doze anos.Tu não. Guardaste algum grão de areia no teu corpo? Então, já vês...
Licínia Quitério
Dedicatória: Para uma Menina que foto-escreve conversando com o seu grãozinho de areia. L.Q.
A chuva, o luar, a seca, o frio dos homens. O alvoroço de longas mesas de banquetes ou o silêncio inquieto das esperas. A idade dos céus ou o princípio das feridas. Os abismos e as clareiras na espiral dos dias. Os sinais, os enigmas, os mistérios dos caminhos. O granito e o cristal, o carvão e o oiro, ou o sabor dulcíssimo de um eco.
Tudo me pede a letra, a voz, a música e o gesto.
Pobre, tão pobre sou que dou o que me invento e sempre fica um resto num recanto do tempo.
De mãos dadas é uma expressão de maravilha. Mãos oferecidas, recebidas, presas por vontade. Asim se passeavam as duas mãos, a dele e a dela, um cofre de afectos, de certezas. Os corpos ao compasso das mãos, seguindo os caminhos por elas traçados, sem que os donos de tal se apercebessem. Detiveram-se por momentos diante da moldura tomada por trepadeiras de campainhas em estridências de azul. Uma luz branca, teimosa, a devassar espaços onde as cores amorteciam, os contornos se esbatiam. As mãos deram-se com veemência. Quiseram segurar o presente, para que os seus donos mais fundo sentissem a verdade daquele recanto de um tempo ido.
Gosto de me sentar em banquinhos de pau, com cheiro adocicado de fumeiros. Gosto do choro do salgueiro batido pelo vento. Gosto dos cães que não nos obedecem que para tal nos bastam os seus donos. Gosto de rebuçados de cinema e de os desembrulhar na escuridão. Gosto de olhar as montras porque tudo o que mostram já me sobra. Gosto da rouquidão da voz do adolescente, a anunciar o eclodir do macho. Gosto do Che mitificado no seu esquife, como um Cristo de novo assassinado. Gosto de receber saudades por herança. Gosto do gosto da hortelã antes de a ter na boca. Gosto das pernas da Marlene a preto e branco, em contraponto aos gritos do Tarzan. Gosto do azul do céu, do azul do mar , mesmo sem mar nem céu; azul, só de sonhar.
Gosto de tantas coisas, meu Amor, mas do que eu gosto mesmo é de gostar.
Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"
Dizia amiúde coisas estranhas. Fora do contexto das conversas em que a julgavam presente. Faziam-lhe perguntas incómodas: Sabes que o Fulano deixou a mulher? Não, não sabia. Nem sabia sequer quem era Fulano. Porque esperavam que tivesse algo para dizer, arriscou: Como ficaram os olhos dela? As mãos dele agora estão vazias? Gostaria de saber. Mas ninguém tinha as respostas. Continuaram: Parece que arranjou outra. Exclamou: Oxalá gostem do mesmo mar. É tão importante para viajarem num barco de dois lugares. Dizia coisas francamente esquisitas. Também os gostos dela eram bizarros. Chapéus com fitas coloridas, terras vermelhas, jogos de palavras, casa velhas. E já ninguém a podia ouvir afirmar, em ladainha: Gosto tanto! Nem valia a pena perguntar-lhe: De quê? Era sempre o mesmo. Subia ligeiramente os ombros, apertava as mãos e sorria com os olhos húmidos. Alguém um dia comentou: Parece que saíu dum quadro de Renoir. Ela não deve ter ouvido, senão teria sussurrado, com aquela voz sedosa e distante: Gooosto.
Sim também pertenço a esta claridade matinal suaves cortinados frescas névoas macia a cal na fímbria dos telhados restos de noitea deslizar nas ruas mornas as vozes esperança de sol na humidade das ervas vagas promessas de árvores futuras Manhãse te pertenço traz-me o dia farei dele o meu rosto o meu vestido branco a flor do meu papel de fantasia
Ela sabia o que a fez despertar tão cedo. Lembrava-se de ter visto o retrato a sair da moldura e a deitar-se a seu lado. Quisera tocar-lhe, mas os braços ficaram pesados, inertes. Foi bom o latido do cão no quintal das traseiras. Acordou sem ter tempo de dizer o porquê de todas as manhãs. Ouviu a voz de um dono a ralhar e a fala do cão a abrandar, a calar. Levantou-se, abriu a janela e ofereceu-se à luz indecisa da manhã. O corpo inseguro como um canavial a emergir da bruma. A ponte ainda lá estava. A que atravessaria até à outra margem do dia. Talvez por essa certeza, cantarolou baixinho: manhã tão bonita, manhã...